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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 09/02/2019 - 06:00

Registro, extremamente honrado, felicitações recebidas do oftalmologista tubaronense OTTO FEUERSCHUETTE NETO e do Professor IRMOTO FEUERSCHUETTE, pela abordagem que realizo para a TRIBUNA sobre a vida do médico OTTO FEUERSCHUETTE.

Já falei de Dom ANSELMO PIETRULA, bispo em Tubarão e que foi meu cliente por 21 anos, de 17.8.1968, 61 anos, até 22.11.1989. Retornou após seis anos, em 1º.3.1974, aos 67 anos. Tinha catarata incipiente em ambos os olhos. Em 16.11.1982 contou-me que sofrera episódio de isquemia cerebral resultando em discreta redução da mobilidade do lado esquerdo do corpo. Em 26.10.1984, 78 anos, queixava-se de artrose e de problemas cardíacos. Tinha catarata madura no olho esquerdo, que operei em 9.7.1985 no HSJ. Algum tempo após a cirurgia, sofreu acidente de trânsito em Tubarão. No acidente, além de traumatismos craniano, de pés e costelas, sofreu luxação do cristalino no olho direito e hemorragia vítrea. Hospitalizado, foi operado no Hospital Moinhos de Vento (POA, 15.8.1885) pelo Dr. NORBERTO ALBRECHT, com remoção do cristalino luxado para a cavidade vítrea e vitrectomia radical anterior.

Em 6.5.1986, prescrevi lentes de óculos acima de dez graus positivos em cada olho. Em 30.1.1988 estava diabético, tinha cálculo renal. Prescrevi novas lentes corretoras.
Atendi-o pela última vez em 22.11.1989 prescrevendo novas lentes. Faleceu a 25.5.1992 aos 85 anos. 

Já o Padre SANTOS SPRÍCIGO consultou em 26.11.1985 comigo, por hemorragia no olho esquerdo. Receitei lentes de grau em 18.12.1985. Em 21.12.1989, criou para a população orleanense a Rádio FM Luz e Vida, como Monsenhor Agenor Neves Marques criara a Rádio Marconi em Urussanga. Faleceu em 9.8.1992, vítima de câncer. Padre Santos criou na Rádio Luz e Vida o jargão que anunciava as notas de falecimento: "Partiu para a Casa do Pai...". Sprícigo foi um apaixonado pela comunicação.

OTTO FEUERSCHUETTE REALIZA PRIMEIRA CIRURGIA EM TUBARÃO

Em abril de 1910, Ernesto Benatti internou-se no Hospital NSC de Tubarão vindo da região de Urussanga-Azambuja. Fora atingido por uma tora, grande tronco de madeira, quando se encontrava no meio da mata, isolado de todos. A tora impossibilitava-o de erguer-se, prendendo seu braço esquerdo ao solo. Por três dias e quatro noites sofreu dores inimagináveis agravadas pelas tapiocas, formigas gigantes e negras que devoravam seu braço. Difícil imaginar suplício pior. Submetido a desarticulação ao nível do ombro esquerdo, permaneceu internado de abril a julho de 1910, quando obteve alta, curado.

ANDANÇAS HIPOCRÁTICAS

Naquela época e mesmo bem depois, viajava-se muito no exercício da profissão médica. Estradas precárias ou inexistentes e Médicos poucos. Dino Gorini, cirurgião de grande prestígio, trabalhando inicialmente em Nova Veneza e depois em Criciúma, subiu repetidas vezes a serra a cavalo, para atendimento de clientes. A FOLHA DO SUL, de Tubarão 11.4.1915 e depois, em 5.12.1915, noticiou o regresso de Otto de São Joaquim, onde fora a trabalho.        
Roberto João Tenfen em Rio Fortuna Nossa Terra, Nossa Gente, a Colonização Alemã em Rio Fortuna, destaca viagens de OTTO pelo Vale do Braço do Norte e pela serra, por trole ou a cavalo. Citava São Ludgero e Gravatal, as cidades mais visitadas. 
Mário Belolli em A História do Carvão de SC, tratando da assistência social aos trabalhadores das minas de carvão do sul catarinense, registra pioneira manifestação de atendimento médico à massa operária e familiares com a participação de OTTO e financiamento de Henrique Lage (1920). A Imprensa, jornal de Orleans em 1º.8.1920, “mineiros e trabalhadores, como toda essa grande população, receberam a grata notícia da nomeação do humanitário clínico com demonstrações de geral agrado”. 
Todas as sextas-feiras OTTO passou a prestar atendimento aos mineiros e seus familiares. Era substituído nos seus impedimentos pelo médico Aurélio Rótulo da Laguna. Recém em 1915 no distrito de Brusque do Sul as famílias haviam se reunido para iniciar a construção de nova igreja, de madeira (1915). 
A madeira foi toda falquejada (desbastada, aplanada) por Godofredo Ostre. Primeiro capelão: Gregório Cordiolli. Novos moradores: Antunes, Brugnara, Marchioro, Fortunato, Zanini, Alberton, Mazon, Herculano, Dalsasso, Coan, Baggio, Menegasso, Baschirotto e outros. Na década de 20, os moradores sentem necessidade de capela maior e mais confortável.

Em 1927, foi lançada a pedra fundamental da primeira capela de alvenaria da comunidade, modelo inspirado na 1ª Igreja Matriz de Orleans, ainda existente na época. A primeira serraria, instalada pelos irmãos Mazon (Luiz, Estevam e Ângelo, em 1929), era movida por enormes rodas de água. João Zanini também instalou serraria e moinho, tempos depois. Cerca de 1930, os Mazon já tinham serraria, marcenaria, engenho e atafona. Clubes, de futebol e recreativo, ambos denominados 7 de Setembro, eram dos Mazon.
Jairo Arno Matos em História de Morretes - SC, publicado em 1910, registra que OTTO também lá exerceu sua honrada Medicina. Morretes (pequenos morros) é hoje Maracajá (gato do mato ou jaguatirica). 

O MAIOR QUISTO DO MUNDO

O jornal Correio do Sul da Laguna (7.5.19360) noticiou que Maria Cristina, vinda do Morro do Bugio, distrito de Gravatá, fora hospitalizada em razão de apresentar ventre de dimensões avantajadas. Diagnosticado quisto de ovário, Otto, auxiliado pelo Dr. Bernardo Griesedick, mais o farmacêutico Tácito Pinho, além de quatro irmãs da Divina Providência (Bertila, Graciana, Fernanda e Gabi), removeram sem qualquer complicação o tumor que pesou 45 quilos (carne e 4 baldes de líquido), em 4.11.1924. Bernardo Griesedick iniciara atividades médicas em Tubarão (1922), após a eleição de OTTO para prefeito de Tubarão. Fanor Freitas, jornalista tubaronense, em A Voz do Povo (9.11.1957), na coluna Efemérides Tubaronenses, com o título de O Maior Quisto do Mundo, registrou esta façanha de OTTO. 

O TIVILICA

Morador em Tubarão, proximidades da casa de Custódio Henrique, bairro da Madre, Avelino Porto (O Trivilica), em 24.9.1926, foi chamado por Custódio porque a esposa demonstrava sinais de exaustão física após prolongado tempo em trabalho de parto. Tivilica parte a cavalo, em carreira desenfreada, atrás de OTTO. No potreiro defronte ao hospital pastava cavalo do médico que foi encilhado e montado. Agora, galopam ambos, Tivilica e Otto. Nas proximidades da curva do Andrino, já a caminho do bairro da Madre, recebem aviso de que a parturiente falecera. Apesar da notícia, prosseguiram viagem e assim nasceu Eliziário Custódio Henrique. Embrulhado em toalha foi levado pela senhora Maria Tomaza Elias, que o criou como se filho fosse.  Eliziário trabalhou com Andrino Sales Borges e casou-se com Luiza, filha de seu patrão. O casal teve um só filho, Wanderlei, pai do médico tubaronense Peters Silva Henrique. 

VALENÇO

Final dos anos 20, OTTO e sua família veraneavam no Farol de Santa Marta, na Laguna. Mar aberto de ondas fortes representava perigo para banhistas e navegadores. Valenço, exímio nadador e salva-vidas, era pescador afamado não só pelas suas proezas náuticas como pelos excessos da imaginação ao narrar seus feitos. 
Elsa, a filha mais velha de OTTO, foi colhida por onda enorme. Não sabendo nadar, foi arrastada para o mar. Empurrada para cada vez mais longe, desenhava-se uma tragédia a se abater sobre a família Feuerschuette. Valenço, que andava por ali, acorre diante do alarido da multidão que se formava, OTTO à frente. Avistando Valenço, pede-lhe que resgate sua filha. 

- Mas tem uma coisa doutor, eu só vou se for pelado!
Com roupa, corria o risco de ser agarrado pelas roupas pela moça desesperada e acabarem os dois no fundo do mar. É fato sabido que as vítimas de afogamento agarram-se com força e desespero ao que estiver ao seu alcance. Ocorre muitas vezes o afogado sobreviver, mas não o salva-vidas. 
Valenço quer saber por onde ela entrou no mar.
- Por ali, por ali – apontam vários banhistas.
Conhecedor das correntes locais, Valenço nada com firmeza e decisão. Resgatada a moça, ao chegarem ao ponto da arrebentação das ondas, grita por socorro, que venham apanhar a moça. Trazida pelo pessoal da praia, é assistida por OTTO que insiste em gratificar Valenço:
- Isto faz parte de meu dia a dia, doutor. E sei que salvar vidas faz parte do seu também.

Valenço, o mais famoso pescador daquelas épocas, enfrentava o mar bravio em sua canoa, lutando pelo seu sustento diário, madrugada após madrugada. Navio encalhado nas vizinhanças do Farol, Cabo de Santa Marta, era o primeiro a chegar à embarcação e do convés atirava ao mar parte da carga para que as ondas a levassem à praia. Um navio catalão encalhara, carga de gado bovino. Valenço orientou a tripulação a liberar os animais para que, nadando, eles pudessem alcançar a praia.
Mas é do próprio Valenço o relato de sua proeza maior. Estava ele sozinho a pescar quando viu emergir à sua frente peixe enorme, tamanho descomunal. Mesmo para Valenço era algo nunca visto. Lançando-se contra a embarcação, o peixe abocanha a proa do barco. Ao morder a canoa, o monstro marinho perdera três de seus dentes que ficaram cravados na madeira do barco, retornando o animal marinho para as profundezas em que vivia.
Considerando-se a fama de Valenço também é bem possível que se deva levar a narrativa à conta de histórias de pescador.  

DE PARTEIRAS E DE PARTEIROS
Dona Eugênia residia em São José, localidade situada a 18 quilômetros de Braço do Norte em direção a Rio Fortuna. Vivia sua 14ª gestação com o marido ausente, viajando a negócios para os lados de Florianópolis. Da prole de 13 filhos, a caçula Melânia casaria com Carlos Zumblick, filho do grande artista plástico Willy Zumblick. O marido de Dona Eugênia, Turíbio Schmidt, gozava de grande prestígio na região em que morava.
Em trabalho de parto há dois dias, após esforço maior, aparece no canal do parto a mãozinha da criança. A parteira determina:
- Para Tubarão, o mais rápido possível, antes que seja tarde, para que se salvem mãe e filho!
Foi transportada a Braço do Norte numa caleça, carruagem de 4 rodas, coberta com lona, com 3 bancos. Um dos bancos era para o condutor. Os outros dois, maiores, eram para os passageiros, dispostos vis a vis.
De Braço do Norte a Tubarão o trajeto era percorrido por taxi. O menino nasceu, mas logo veio a óbito. Quanto à mãe, que sofria há vários dias em trabalho de parto, com fortes dores e hemorragias prolongadas, entrou em estado de choque. OTTO e sua equipe lograram restabelecê-la após o que seria sua última gestação.   

PADRE BERTILO SCHMIDT
Turíbio e Eugênia foram pais de Padre Bertilo Schmidt, nascido a 12.8.1929 e falecido aos 85 anos em 1º.8.2015, ordenação sacerdotal em 1º.12.1957. Reitor e formador no Seminário Nossa Senhora de Fátima, era cego desde acidente de carro em 1964. Capelão durante muitos anos no HNSC e Vigário Paroquial na Paróquia da Catedral, era primo do Vigário geral Padre Wilson Buss, pároco da Paróquia Santa Bárbara e do Padre José Lino Buss, pároco da Paróquia Santo Agostinho. 

OTTO FARIAS
RAPHAEL ELIAS FARIAS é graduado em Medicina pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (2006) com especialização em Infectologia (Residência Médica Hospital Nereu Ramos - Florianópolis/SC). Título de pós-graduação em Gestão em Saúde e Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH, INESP) e Medicina do Trabalho (FURB/FFM). Atuação profissional como médico CCIH, Infectologia e Emergências Médicas. Graduação em Farmácia pela Universidade do Sul de SC (1998) com atuação profissional em Farmácia Hospitalar por mais de 7 anos no HSJ de Criciúma/SC. Atividade profissional no HSJ de Criciúma/SC, atuando, atualmente, como Diretor Técnico e Médico Infectologista/CCIH.
Pois foi RAPHAEL quem me informou que seu falecido pai, OTTO FARIAS, conhecido e estimado gerente do BESC em Criciúma, chama-se OTTO por ter nascido pelas mãos do médico tubaronense e numa justa homenagem ao grande profissional médico e invulgar homem público que foi. OTTO FARIAS nasceu no HNSC em 14.5.1944. 

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE