Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página
Carregando Dados...

Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 02/02/2019 - 06:00

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FEUERSCHUETTE, SEGUNDO MÉDICO EM TUBARÃO
Henrique Packter, Oftalmologista hpackter1@gmail.com 
Cremesc 383 RQE 505 Titular Honorário do CBO

Nas edições anteriores escrevi sobre aspectos da vida de OTTO em Tubarão, Alemanha, Pelotas, POA, RJ. Sua formação escolar deu-se sobretudo na Alemanha e o curso médico em POA e RJ. Escrevi também sobre a precariedade e mesmo inexistência de serviços médicos na sua área de atuação profissional. Havia hospitais em Tubarão (Nossa Senhora da Conceição) e Laguna (Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos). Somente depois dos anos 30 outras localidades, incluindo Criciúma, terão hospitais e médicos.
Já contei a história do Hospital Santa Otília de Orleans, construído pelo empresário Henrique Lage em 1939. O Hospital de Urussanga começa a ser idealizado em 08.12.1927 e o lançamento de sua Pedra Fundamental é de 09.06.1940, no local em que está hoje e, em 29.12.1942, a Comissão Pró-Construção entrega o hospital à Comissão Administrativa, quase concluído. A denominação HOSPITAL NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO homenageia a Padroeira da Paróquia de Urussanga. Declarado de Utilidade Pública Municipal (09.09.1949), Estadual (17.07.1967) e Federal (21.05.1984).
Em Urussanga, entre 1903-1934, sucederam-se diversos médicos: César Sartori, Salvador Caruso, César Búrcio, Felice Bongiovanni, Aurélio Rótolo, Henrique Meloni, Vitório Giacone, Domingos Borelli, Luiz Campelli e Aldo Caruso.

AINDA SOBRE A GRIPE ESPANHOLA. MAIS DO MESMO
A gripe espanhola vitimou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, um dos desastres naturais mais letais da história humana. 
No último ano da Primeira Guerra Mundial, guerra como dantes nunca se vira, surgiu a gripe influenza, de morbidade e mortalidade elevadas, sobretudo entre jovens e pela frequência das complicações associadas. 
A Gripe Espanhola percorreu todos os continentes e durante os dois anos da pandemia afetou 50% da população mundial. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) matou coisa de 8 milhões de pessoas. Falta de estatísticas confiáveis, principalmente no Oriente (China e Índia), pode ocultar número maior de vítimas.
A gripe manifesta-se no aparelho respiratório por tosse e dor de garganta. Também febre, calafrios, fraqueza, prostração, dores musculares e articulares. O contágio faz-se por perdigotos expelidos pela pessoa contaminada. O vírus tem três subtipos (A B e C), com diferentes graus de morbidade, ampla capacidade de mutação e de gerar outras recombinações, formando novas variantes virais. 
Gripe espanhola no imaginário social
No clima de horror e desespero gerado pela pandemia, havia diversas explicações para o acontecimento. Versões rondavam o imaginário social ocidental, quase todas relacionadas ao final dos tempos.
Gripe espanhola no Brasil 
No Brasil, referências sobre a Influenza, veiculadas na imprensa em princípios de agosto, ganham força quando membros de esquadra brasileira foram contaminados pela doença no norte da África, segunda metade de setembro. 
Recife teria sido o primeiro porto brasileiro infectado, ainda em setembro, pelo navio Demerara, vindo da Europa. Ele seguiu depois para Salvador e RJ e, em novembro de 1918, à Amazônia. O Povo (Ceará, setembro de 1918) noticia a chegada da epidemia a Fortaleza. Portos eram os principais focos de disseminação da doença. 
Para o Instituto Butantã foram 35 mil as vítimas da pandemia num Brasil de 29 milhões de habitantes: "(...) 12.700 no RJ, 6.000 em SP, 1.316 em POA, 1.250 em Recife e 386 em Salvador". A doença vitimou inclusive Rodrigues Alves (1919), presidente da república.
Atividades exigindo maior contato interpessoal e aglomeração de pessoas aumentavam chances de contaminação, impondo adoção de medidas sanitárias: escolas e estabelecimentos comerciais fechados, cinemas, casas de espetáculos, bares, festas populares e partidas esportivas proibidas. 
Fevereiro de 1920, o Carnaval exibiu euforia generalizada e liberação inusitada dos usos, costumes e pudores. Carmem Miranda gravou E o mundo não se acabou (1938), de Assis Valente, expressando a atmosfera apocalíptica do contexto pandêmico. O autor, mais tarde, cometeria suicídio.
"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar... acreditei nessa conversa mole/Pensei que o mundo ia se acabar/E fui tratando de me despedir/E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei samba em traje de maiô/E o tal mundo não se acabou... Ih! Vai ter barulho e vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou".
Gripe Espanhola em POA
Notícias eram divulgadas pelo Correio do Povo, A Federação, Revista Máscara, O Independente.
Imprensa gaúcha, sobre a organização sanitária da capital (1918): “ruas não eram limpas numa cidade sem esgotos cloacais e com deficiente recolhimento de lixo. Como coroamento do descaso das autoridades, epidemias encontravam ambiente propício para se desenvolver”.
Outubro de 1918 e a gripe está em Rio Grande (RS), atingindo toda a cidade. Colégios e faculdades tiveram aulas suspensas, as lojas fechavam: não havia funcionários para atender os clientes, nem clientes para serem atendidos. Espetáculos eram cancelados. Bancários, carteiros, funcionários da Companhia Telefônica, todos adoeciam. Repartições públicas e privadas, ruas, praças e cafés eram desertos. 
91 anos depois, nova ameaça
Em 2009, voltou o vírus H1N1 (do tipo A), felizmente com força incomparavelmente menor do que no século anterior. Governos se mobilizaram em ampla campanha de vacinação. Não houve epidemia ou pandemia, ocorrendo em massa justamente a vacinação, que, desde então, se repete anualmente.
NOTABILIDADES INFECTADAS PELA GRIPE ESPANHOLA
Franklin Delano Roosevelt, Franz Kafka, Greta Garbo, Walt Disney, Woodrow Wilson. Rodrigues Alves (5º Presidente da República, morto antes assumir segundo mandato), Belfort Duarte, futebolista.
No RJ faleceram vítimas da gripe os dois irmãos mais velhos de Henrique Lage (Antonio e Jorge), administradores do grupo Lage. Henrique Lage acumula o comando de todas as empresas da família.
Discurso de 9.4.1923, aniversário de Otto Feuerschuette:
“(...) não podemos jamais esquecê-lo porque é o dia do aniversário natalício de um filho querido e muito dileto deste torrão de Anita Garibaldi (...) do honrado Governador da cidade (...) do benfeitor dos humildes, do verdadeiro e sincero pai dos pobres de Tubarão, como foi quando da terrível epidemia da  espanhola, a qual não vos impediu de acudir carinhosamente a todos vossos amigos, ricos e pobres, principalmente a estes, em que, finalmente soubeste fazer de vossa Medicina, verdadeiro sacerdócio”. Nasce o epíteto Sacerdote da Medicina. 
PADRES CARLOS VECHI e SANTOS SPRÍCIGO
VECHI, órfão de mãe aos treze anos, nasceu em 20.11.1933, família de dezesseis irmãos. Hoje, somente 5 estão vivos. VECHI é do Ribeirão Pequeno, distrito da Laguna, que tem como padroeiro São Brás. Iniciou estudos na sua comunidade, indo para o seminário de São Ludgero; continuou em Azambuja (Brusque), finalizando em Viamão.
 Sob o lema Eis que vos anuncio uma grande notícia, D. Anselmo Pietrulla conferiu-lhe o sacerdócio em 14.7.1963, na matriz Santo Antonio da Laguna.
Aliás, sobre D. Anselmo Pietrulla, apraz-me noticiar que tive o privilégio de conhecê-lo de perto. Fui seu Oftalmologista e operei-o de catarata no Hospital São José. Quando de seu acidente automobilístico, visitei-o na UTI do Hospital Moinhos de Vento em POA. Dom Frei Anselmo Pietrulla, da Ordem dos Frades Menores  (Knurów, 12.9.1906 — Tubarão, 25.5.1992), nasceu na Silésia (Polônia), quando esta província era alemã. 
Padre em 21.5.1932. Eleito bispo a 13.12.1947, recebeu a ordenação episcopal em 8.2.1948 das mãos do Cardeal Dom Carlo Chiarlo, assumindo como Bispo Prelado de Santarém (1947-1949). Depois, Bispo de Campina Grande (1949-1955) e Bispo-emérito de Tubarão (1955-1981). Faleceu aos 85 anos; foi sepultado na catedral de Tubarão.
VOLTANDO AO PADRE VECHI  
Em Janeiro de 1964, começou atividades na Paróquia São Paulo Apóstolo, Criciúma (Centro), por curto período. Depois na Vila Operária, paróquia de Santa Bárbara, onde ficou 9 anos. Da Santa Bárbara, foi para Cocal do Sul e dali para S. José por 2 anos. De São José para Cidade Mineira. E dela para Urussanga, trazendo o programa de rádio Alvorada do Cristão. Ficou um mês e pouco, sendo removido para Jacinto Machado, por 2 anos.
Santos Sprícigo de Orleans estava pedindo um padre para auxiliá-lo, mas o bispo nomeava padres que não eram de seu agrado. O bispo, meio que incomodado, disse:
- Padre Santos, você indica qual é o padre que você quer para Orleans, mesmo que a gente tenha que tirar de uma paróquia. 
Padre Carlos ignorava que o bispo se manifestara desta forma. Numa reunião em Tubarão, padre Santos chama padre Carlos lá para trás, na capela do seminário:  
- Calinho, o bispo me disse para eu escolher um padre para Orleans e olha, eu tô há 15 dias rezando diante do Santíssimo Sacramento ao Espírito Santo e o Espírito Santo indicou que é você!
- Padre Santos, eu tô meio que duvidando do Espírito Santo, ele sabe quem sou eu, mas, se ele indicou…  Eu tô cobrindo férias do padre Herval, ele quis que eu assumisse a paróquia porque tem o direito de descansar um pouco, aí vocês vão se entender. 
- Não, isso nós resolvemos.
Entenderam-se e Carlos Vechi foi para Orleans, onde ficou 2 anos. De Orleans para Cabeçuda, onde trabalhou 6 anos. Da Cabeçuda para Imaruí, por 2 anos. De Imaruí para Imbituba. De Imbituba para Treviso. Do Treviso foi para o Caravaggio. Do Caravaggio para Santa Rosa do Sul. De Santa Rosa do Sul para Araranguá, Cidade Alta, paróquia Sagrada Família. De Araranguá para Urussanga, completando, assim, trajetória de 50 anos de sacerdócio.
Um Padre Flamenguista
(Do jornal A VANGUARDA de 24.6.2005) 
O flamenguista padre DANIEL SPRÍCIGO nasceu em Orleans (5.9.1949) numa família de oito padres. Tem 69 anos. Padre Daniel chegou em Urussanga a 22.2.1987.  Descobriu sua vocação religiosa em 1960. Foi para o seminário de São Ludgero a convite do Padre Santos, seu tio, onde ingressou em 13.2.1961.
 
A escolha por Bento 16 decepcionou-o, mas diz ter esperança que ele mude alguns de seus pensamentos. Papa Bento 16 chegou numa onda de conservadorismo; por isso teria ficado decepcionado? 

Decepcionou-se desde o momento que viu na TV o resultado do pleito: preocupação, decepção, tristeza. Naquela tarde não atendeu pessoa. Não estava bem. O cardeal Ratzinger, quando Padre Daniel era estudante e lia seus livros, tornara-se um perito do Concílio Vaticano II. Seus livros eram coisa admirável. Mas, depois que foi convidado por João Paulo II, acabou cassando alguns padres. Padre Daniel – um democrata – desgostou-se. Para a Igreja ficou ruim, pois a imprensa mundial divulgou que o Papa teria inimigos em todo canto.

Mesmo com Ratzinger como Papa, pensava haver esperança de mudanças. Acreditava que ele poderia mudar, tantos haviam mudado. Povo e imprensa esperavam por isso. Mas a igreja nunca será a favor da eutanásia e do aborto, a igreja nunca será contrária à vida.

Acha que a motivação para a vida sacerdotal veio da casa dos pais sempre com padres da região lotando a casa. Padres de Orleans, Lauro Müller, Pedras Grandes e São Ludgero. Durante a infância pôde escutar muito dos padres, suas alegrias, tristezas, enfim… Depois, tinha dois tios padres, Padre Santos e Arcângelo. Na família Sprícigo são oito ou nove padres.

De 1963 a 1969 permanece em Tubarão e desta data até 1975 está em Viamão (RS), onde termina os estudos. Em Viamão fez Filosofia e na PUC de POA, Teologia.

Foi difícil no início, principalmente porque era um ano sem voltar para casa, sem falar com os pais. Depois de dois anos tudo ficou melhor. Dúvidas teve algumas, porque ser padre significa ter dúvidas ao trilhar o caminho. Mas isso é normal. Nunca pensou em desistir dos estudos.

É bem verdade que foi mandado embora várias vezes porque era meio moleque. Mas sempre voltava! Não há idade para a carreira religiosa. Ele mesmo foi com dez anos e tem um primo que se ordenou agora, com 36 anos.
Se não fosse padre, não sabe dizer o que seria. Está num patamar da carreira religiosa que pensar noutra atividade é difícil. Quando estudava em POA, julgou ter pendor para Psicologia, mas bispo Anselmo falou:
- Não, não. Vais ser padre, estás estudando para ser padre. 
Talvez hoje fosse diferente, quando se tem mais opções. A Igreja era mais fechada naquela época.

Considera que ser padre não é ser solitário. Ao contrário: os padres têm convivência muito forte com o povo e também com Deus. Desta maneira nunca estão sozinhos. João Paulo II pouco antes de morrer dizia: 
- Mesmo diante da minha fragilidade sei que não estou sozinho. É difícil um padre se sentir sozinho.

Pensa que política e religião dificilmente podem andar juntas. A Igreja tem o papel de orientar, conscientizar, alertar, convidar o povo a construir uma nação. Não pode assumir política partidária, mesmo sendo todo ser humano ente político. Muitas vezes a Igreja foi acusada de apoiar o PT, mas a Igreja jamais disse: Vamos votar no PT!

Com relação aos políticos revolucionários de 1970, até bem pouco no poder, teriam eles perdido o sonho? Teria a política deteriorado aquele sonho? 

Padre Daniel sonha com um Brasil completamente diferente. O revolucionário, o político verdadeiro, tem sonhos. Alguns ainda sonham, mas outros se deixaram levar pelo poder e perderam a dignidade, têm marcado desvio de conduta. Perdida a capacidade de sonhar, pensa que se deve pedir para morrer. E quanto ao lamaçal em que vivíamos, ainda não tem opinião formada. 

É flamenguista de raiz. Em casa são todos Flamengo. Nos momentos bons, que são raros ultimamente, e nos momentos atuais. Gosta de música. Do Dante Ramon Ledesma tem todos. Música gauchesca selecionada, pois claro. Gosta de MPB e de música erudita. 

É padre 24 horas por dia. Mesmo nos momentos de distração, gosta de pescar, sendo padre. Diariamente renova a missão de padre.

Sofreu com a morte de João Paulo II. Todos temos que partir e a hora de João Paulo II chegou; ele foi chamado, cumprira sua missão. Padre Daniel encara de outra forma a morte. As últimas palavras de João Paulo II têm relação com os esforços realizados pela equipe médica no sentido de prolongar-lhe a vida:
- Deixem-me partir...
Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE