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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 05/01/2019 - 06:00Atualizado em 09/01/2019 - 21:32

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia

Foi na virada do século, pelo enriquecimento natural da população, que Laguna testemunhou o desenvolvimento urbano e intelectual mais significativo de sua história. São dessa época o teatro Sete de Setembro (1858), a tipografia do primeiro jornal (1878), o hospital (1879), o primeiro hotel na Rua da Praia, o Cine Central, a iluminação pública a petróleo (1891) e o antigo Mercado Público (1893). Este último, incendiado na primeira metade do século 20. Em 1903 Laguna teria 19 mil almas.
6.1.1880 Criciúma é colonizada, sendo distrito de Araranguá em 1892 e município em 1925.

Na Laguna, entre 1914 e 1915, vem o Jardim Calheiros da Graça com chafariz, palmeiras e iluminação, inaugurado em 25.4.1915. A Biblioteca Pública e o prédio do Banco Nacional do Comércio são de 1925. Entre os anos de 1930 a 1950 surgem o primeiro automóvel, o ônibus urbano e ruas calçadas.

Entre 1930 e 1940 surgem as sedes do Clube Blondin (hoje Casa do Patrimônio do Iphan, criado por PAULO CARNEIRO) e a nova sede do Clube do Congresso Lagunense. Mais tarde, a Rua da Praia (atual Gustavo Richard) perde o movimento de embarque e desembarque com a transferência do porto para o bairro Mar Grosso.  A estação de trem foi para o final do Campo de Fora.

Após a 2ª Guerra Mundial com a organização do porto de Imbituba, melhor localizado para receber navios maiores e de maior cabotagem, Laguna perde competitividade. A crise não alcançou proporções maiores porque Imbituba ainda não possuía concentração de serviços comerciais, financeiros e públicos.

No final da década de 50, Laguna decaiu economicamente pela diminuição da atividade portuária, pelo enfraquecimento do polo comercial, e fracasso na tentativa de industrialização. Na década de 60, a construção civil praticamente parou; a abertura da BR-101 e o tráfego pela ponte rodoviária da Cabeçuda deslocam o polo econômico da região sul de Laguna para Tubarão.

Na Laguna permanecem apenas produtos pesqueiros e pequenas indústrias (confecções e processamento da fécula de mandioca e arroz).

Na década de 70, a abertura da BR-101 trouxe a possibilidade de uma nova atividade econômica, a exploração turística do Balneário do Mar Grosso, bairro oposto ao Centro Histórico. Porém, recursos eram minguados e ainda menor o interesse político e capacitação dos profissionais em turismo.

Por isso tudo, desde meus tempos na FUNDAÇÃO CULTURAL DE CRICIÚMA, causa-me arrepios a simples menção de construir uma interpraias vindo do RS, continuação da Estrada do Mar deles lá, unindo Torres a Balneário Gaivota, Arroio Silva, Morro dos Conventos, Rincão, Jaguaruna etc.

O turista já distante de Criciúma pelo traçado da BR-101 ficará mais longe ainda e o comércio e indústria da orla, é claro, agradecem. Iniciativas como a Via Expressa encurtando distâncias entre BR-101 e Criciúma merecem nosso aplauso porque facilitam a construção de pacotes turísticos incrementando o acesso de viajores que poderão com mais facilidade conhecer nossa culinária, indústria, empresas, vinhedos e vinhos, cervejarias artesanais. Já pensou? Acho que nosso atual prefeito é sensível a temas que conduzam nossa terra a investir seriamente no turismo como saída maior para os problemas econômicos que enfrentamos. A ideia da construção do Mirante é um bom começo.  

O LIVRO DE IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE

Ele vem na esteira de dois anos de pesquisas e coletas de informações em livros, cartas e recortes de jornais. Lançado pela Editora UNISUL, traz a história da família desde a Prússia e fatos sobre a vinda para o Brasil, em 1870. Claro, além das informações sobre a trajetória de Otto como estudante, médico, político (prefeito por três mandatos em Tubarão e deputado constituinte), fazendeiro e cidadão. Graduou-se médico em 1910 no RJ.

Atuando em Tubarão, Otto viajava pela região a cavalo, canoa e trem para tratar enfermos que guardavam leito. No livro estão reunidos depoimentos de pessoas cujos familiares foram tratados pelo médico.

João Ghizzo Filho, coordenador do curso de Medicina da Unisul, autor da apresentação do livro, considera Otto e o filho Irmoto referências para a medicina catarinense.

AS ORIGENS

Com a abertura do caminho entre Lages e Tubarão (1773), iniciou-se o povoamento da cidade. Rio Tubarão era parte da rota Lages/Laguna, tendo como ponto de parada os portos do Poço Fundo e Poço Grande, ambos na região da atual Tubarão. Em agosto de 1774, duas sesmarias, com área de uma légua quadrada cada uma, situadas no atual perímetro urbano, foram doadas ao capitão João da Costa Moreira e ao sargento-mor Jacinto Jaques Nicós, marcando o início efetivo do povoamento.

Em 1833 já existia o distrito de Poço Grande do Rio Tubarão e em 7.5.1836 foi criada a paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Tubarão. Desmembrou-se de Laguna em 27.5.1870. A imigração europeia, a implantação da Estrada de Ferro Dona Thereza Christina (EFDTC) e a criação da comarca de Tubarão 19.4.1875 foram responsáveis diretos pelo desenvolvimento econômico do município. A família FEUERSCHUETTE, que chegou a Tubarão em doses homeopáticas, vê FREDERICO HENRIQUE, pai de OTTO, chegar ao Brasil em 1878. Foi o último a chegar. 

Guerra Franco-Prussiana (ou Franco-Germânica, 19.7.1870/10.5.1871) é conflito ocorrido entre Império Francês e o Reino da Prússia, final do séc. 19, após a Guerra dos Ducados do Elba (1864) contra a Dinamarca e a Guerra Austro-Prussiana (1866). A Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte (Grão-Ducado de Baden, do Reino de Württemberg e do Reino da Baviera). A vitória germânica marcou o último capítulo da unificação alemã, comandada pela Alemanha. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico francês, o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa.

Como resultado da guerra, ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia até o fim da Primeira Guerra Mundial. A Prússia saia de uma guerra para entrar em outra. Este belicismo afastava os pacifistas alemães que partem em busca de novos ares.

A 3 ou 4.12.1869, aportou em Colônia Francisca (São Francisco do Sul e Joinville de hoje) HENRIQUE CHRISTIANO FEUERSCHUETTE, 24 anos, vindo de Hamburgo, Alemanha, primeiro da família a chegar ao Brasil. Era um profissional do fabrico de calçados, sendo conhecido como doutor ou alemão das botas. Viveu bom tempo em Pelotas, RS.
22 anos antes (1847), por Decreto Imperial, LAGUNA fora elevada à categoria de cidade.

Com tropeiros parte rumo ao norte pelo litoral até alcançar Garopaba. Chega a Tubarão em 12.12.1870, dia do aniversário de D. Pedro II. Tubarão contava 22 casas, se tanto. Uma só Pousada, de DONA FLOR MADEIRA, situada na Rua Coronel Collaço onde está a Agência do Banco do Brasil.

O transporte de produtos e de passageiros fazia-se pelas lagoas e rios e mais tarde pela estrada de ferro Dona Tereza Cristina (construção iniciada em 1880 e aberta ao tráfego em 1884). Com o desenvolvimento das colônias Azambuja, Urussanga, Grão-Pará, Princesa Isabel e Braço do Norte, a produção dos colonos vinha pelo trem, escoada através do porto de Laguna.

Este fato, juntamente com a exploração do carvão, fez com que, na segunda metade do século 19, Laguna assumisse a 4ª posição no estado quanto à movimentação portuária. Este período constituiu a época áurea de Laguna.

A VENDA DE CALÇADOS FEZ A FORTUNA DE MUITO CATARINENSE

O chefe político local, coronel Luiz Martins Collaço, compadre de dona Flor, teve as botas consertadas pelo Alemão. O couro veio da Laguna. Sua fama como sapateiro e fabricante de calçados se espalha e ele não dá mais conta da demanda: da Alemanha chegam o irmão (Frederico Christiano, 18 anos feitos a bordo, aportando na Laguna a 28.10.1871), irmã (Johanne, 23 anos, solteira), pai (Andreas, viúvo, 54 anos) e um primo. Chegam a São Francisco do Sul em 31.12.1872. Andreas retornou depois à Alemanha, lá falecendo em 1888.
Em 27.3.1881, os primos Frederico Henrique e Johanne casam-se e a 9.4.1881 (13 dias depois), nasce OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE em Tubarão, onde hoje está o Hotel Acomodare. ELSA, irmã de OTTO nascida em 1887, faleceu tragicamente em 1927.

Os dois tios, HENRIQUE e CHRISTIANO, e a irmã ELSA não deixaram descendentes. Nesta condição, OTTO herdou todo o patrimônio familiar no qual avultava a fazenda CAMPESTRE.

A FAMÍLIA
Dos 11 filhos de OTTO vários dedicaram-se às Ciências da Saúde.
ILSA ROSA casou-se com Benoni Laurindo Ribas (1936, FMUFPR), que clinicou em Braço do Norte (1937 a 1940); foi Secretário Estadual da Saúde (1944 e 1951).
HENRIQUE OTTO FEUERSCHUETTE (Quico) administrou a Fazenda Campestre. Seu filho Henrique José formou-se em Medicina pela FMUFPR (1968). Ortopedista, clinicou em Cascavel e Paranaguá. Faleceu em acidente automobilístico em Laranjeiras do Sul quando exercia o cargo de Secretário da Saúde do oeste do Paraná.
TÚLIO FREDERICO FEUERSCHUETTE, bancário, é pai de OTTO FREDERICO, formado em Medicina pela UFSC (4.7.1986), especializando-se em Oftalmologia no Hospital de Clínicas da URGS. Autor do primeiro transplante de córnea em Tubarão.
LEO MAX FEUERSCHUETTE, médico formado pela FMUFPR (1949). Foi colega de Pretextato Aryon Taborda Ribas, Alfredo Jorge Tramujas (ambos, depois professores na Medicina), Carlos Eloy Reichmann (meu chefe no SAMDU em Curitiba), Eros Clovis Merlin (anestesista em Floripa). LEO especializou-se em Cirurgia no RJ (1950) e Ginecologia e Obstetrícia e Urologia no Hospital Alvear (Buenos Aires, 1953 e 1954). LEO é pai de Frederico May (odontólogo) e Otto Henrique May, formado na UFSC (1992), especializado em Obstetrícia e Ginecologia (1993 e 1994, Carmela Dutra, Flloripa). A esposa Geraldine Garcia Miranda, especializada também em Obstetrícia e Ginecologia, é médica formada na UFSC (1995). O filho de ambos (não poderia ser diferente) formou-se em Medicina na UNISUL, Tubarão (2014).
OLSA ROSA FEUERSCHUETTE, formada em 1951 pela Escola de Enfermagem Ana Nery, RJ. A filha Flavia Feuerschuette Costa Britto é formada em Enfermagem na Universidade Gama Filho, RJ, 1986. 
E, last but not least, IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE é formado em 1966 na FMUFPR.
RESUMIDAMENTE, OTTO teve 11 filhos, dos quais ILSA casou com médico; Henrique José, filho de Henrique Otto, é médico; Túlio (o mais longevo dos filhos) é pai do Oftalmologista tubaronense o Ottinho; LEO teve um filho médico, casado com médica, ambos têm um filho médico. Irmoto é médico e OLSA ROSA e a filha FLÁVIA fizeram enfermagem.
O menino OTTO não tem onde estudar em Tubarão, por isso estuda com o botânico Frederico Uhle numa pequena serraria que produzia caixinhas para os charutos Danemann em São Félix, Bahia. Em 1892, 11 anos de idade, viaja para a Alemanha com o pai onde permanece por cinco anos residindo com os avós paternos. O pai volta ao Brasil ainda em 1892. Otto retorna ao Brasil em 1897 em companhia do pai. Tinha 16 anos e vai a Pelotas, RS, em 1898, lá permanecendo até 1899.

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE