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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 29/12/2018 - 06:00Atualizado em 30/12/2018 - 22:26

OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão
Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
BOM 2019, GENTE BRASILEIRA! 
Em 2014, Irmoto José Feuerschuette, médico, político, empresário, escritor, professor universitário em Tubarão, décimo filho de OTTO FEUERSCHUETTE (o segundo médico em Tubarão), lançou um livro sobre a vida de seu pai: DR. OTTO, O SACERDOTE DA MEDICINA. Irmoto foi o primeiro professor de Anatomia da Fundação Educacional Unisul de SC do curso de Enfermagem (1975). Secretário Estadual da Saúde de SC 1985/86, governo de Espiridião Amin, foi prefeito de Tubarão em 1972 e 1992, vice-prefeito em 1988. Presidente da Indústria Carboquímica, Imbituba, 1983/85. De 1999 a 2002 Presidente da Zona de Processamento de Exportação, Imbituba. É professor de Ginecologia e Obstetrícia no Curso de Medicina da Unisul, Tubarão. 
Graduado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná em 1966, mesma faculdade em que me formei em 1959, Irmoto conta no livro que escreveu sobre o pai “...na minha formatura sentou-se nas escadarias do cinema em Curitiba, local da solenidade, para ver seu último desejo concretizado. Cinco anos separavam, então, aquele momento, de sua partida”.  OTTO FEUERSCHUETTE faleceu em 1971.

UMA REUNIÃO DE PAIS

Foi também em 1971 que estive o ano inteiro no RJ, trabalhando no HOSPITAL DOS SERVIDORES DO ESTADO (IPASE). Minha família me acompanhava. Tive o privilégio de trabalhar então com alguns dos maiores nomes da nossa Oftalmologia, como João Rabelo, Ruy Costa Fernandes, Aderbal de Albuquerque Alves, Edith Finkel, Carlos Botelho, Fernando Moreira. Também pude auxiliar cirurgias de Joviano de Rezende Fª, Evaldo Machado dos Santos e Sylvio Provenzano, todos dos Oculistas Associados, referências na Oftalmologia brasileira. 
Em 1971, estando nós no RJ e tendo minha mulher de viajar inesperadamente a POA para atender compromisso de saúde na família, vi-me obrigado a ir ao colégio dos meninos para reunião de pais. Nela, só haviam mães. Dois ou três homens escondiam-se como podiam naquele mar de mulheres. Sentei-me lá atrás para não causar constrangimento às irrequietas mães e para ter rota de fuga garantida. Uma das mães tricotava e outras conversavam, já confraternizadas de outras reuniões. 
Comandava a reunião o jovem diretor, jovem demais para o cargo, se querem minha opinião. Fazia ele considerações a respeito do uniforme a ser adotado pela escola. As agora alvoroçadas mães perguntavam sem espaço para respostas:
- A gravatinha, que cor é? O emblema é na lapela? A meia é três-quartos? Quase ao meu lado outra perguntou:
- Tem pesponto?
Voltei-me disposto a perguntar o que era pesponto, mas desisti a meio caminho. Já o jovem Diretor reassumia o comando fazendo gesto com as mãos para acalmar o agitado auditório. Tive a impressão que olhava para o meu lado enquanto falava:
- Chegamos ao ponto mais importante da reunião. Trata-se do 4º ano, que recebeu muita gente transferida de outros colégios. Não tivemos outra opção senão dividir a turma em três. A turma 10, dos mais adiantados, a 9 dos regulares e a 8 dos (digamos assim) menos interessados. 
Era evidente sua dificuldade e desconforto na procura de palavras adequadas para definir esta última turma. Assustei-me: em qual destas turmas estaria o Lúcio? 
As mães puseram-se a falar ao mesmo tempo: não era culpa deles, coitados, levavam muito dever para casa; o ensino dirigido (ao ver da mãe que tricotava) não estava funcionando. Outra, mãe de dois filhos que faziam provas no mesmo dia, confessava a impossibilidade de prepará-los ao mesmo tempo.
O jovem Diretor sacudiu a cabeça com simpatia. Voltou a falar na Turma 8, um caso muito sério, sentenciou. Comecei a pensar que o negócio fosse comigo. Não vá esse cara dizer que meu filho está entre os piores!
Curioso que o Lúcio não me parecia lá tão desligado assim. Jogava seu futebolzinho quando íamos à praia; via Tv; na hora de estudar, estudava, então eu não via? As coisas que ele estudava estavam fora de meu alcance ensinar, eram muito diferentes de meu tempo. Outro dia me deixara bestificado perguntando como se chama quem nasce em Salvador, na Bahia. Ninguém sabe isso, meu filho, defendi-me. Mas, o danadinho sabia, é soteropolitano, falou. Furtivamente fui ao dicionário conferir se era. Era.
Achei que ele devia estar na Turma 10, bem que ele sabia uma coisa ou outra. O Diretor continuava, agora reclamando dos meninos quanto à alimentação. Sistematicamente recusavam-se a comer as verduras servidas no almoço.  Quando menino eu também não gostava. Havia mesmo, continuava o Diretor, já nem tão cordato, mães que mandavam bilhetes pedindo para não servir verdura aos filhos. Alguns bilhetes mostravam semelhança perturbadora entre letras de mães e filhos.
Saímos e perguntei ansioso:
- Filho, em que turma você está?
- Na 10, respondeu distraído. Respirei, profundamente aliviado. Comentei de minha satisfação. Ele não perdeu tempo:
- Pai, então eu queria te pedir um favor: mande ao Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura.    

TUBARÃO NASCE DA LAGUNA

Os intermináveis conflitos que envolviam a Prússia e países vizinhos, no final do século 19, podem tê-los levado a procurarem ares mais saudáveis e tranquilos para viver, trabalhar e construir suas famílias. A Prússia, nascida no séc. 13, desaparece em 1947.
A colonização do sul de SC é processo iniciado em 29.7.1676, quando o bandeirante vicentista Domingos de Brito Peixoto, devoto de Santo Antônio, funda a vila de Santo Antônio dos Anjos da Laguna e constrói sua primeira capela, a pau a pique. Laguna foi fundada pela necessidade do domínio português ter, no sul do Brasil Colônia, um posto avançado, apoio para colonizar o RS e para as guerras luso-hispânicas na bacia do rio da Prata. A vila elevou-se à categoria de município em 20.1.1720.  Criciúma é município em 4.11.1925, 206 anos depois, desmembrado de Araranguá e instalado em 1º.1.1926. 
Lagunenses deixam sua terra para tomar novas posses no Continente de São Pedro do RS, o que enfraqueceu a urbe. A República Rio-grandense do Piratini, fundada pelos farroupilhas, precisava acesso ao mar. O Império controlava portos e rios do estado vizinho. Apoiados pelo italiano Giuseppe Garibaldi, os rebeldes surpreendem os imperialistas através da lagoa Santo Antônio, entrando pela lagoa Garopaba do Sul e barra do Camacho e seguindo pelo rio Tubarão.  
 Laguna foi colonizada em duas etapas: a primeira entre 1748/1756, desbravando a região costeira da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, do Bananal até a Madre, passando por Ribeirão Pequeno. Esses primeiros colonizadores (portugueses dos açores), habitaram o local pela pesca e generosidade do solo.
Os açorianos adaptam-se à nova vida, facilmente. Modificam alguns de seus hábitos, alimentares sobretudo, substituindo a farinha de trigo, base da sua alimentação, pela farinha de mandioca e a carne pelo peixe, que era salgada para consumo ou exportação. Até o início do século 19 a economia era de subsistência. Chegavam imigrantes pelo porto de Laguna ou de São Francisco, e seguiam para o interior. No começo pelas lagoas e rios e mais tarde pela ferrovia Dona Tereza Cristina (início da construção em 1880, aberta ao tráfego em 1884).
Os produtos vindos das colônias (Azambuja, Urussanga, Grão-Pará, Braço do Norte), trazidos por trem eram escoados pelo porto de Laguna. Isto, mais a exploração do carvão, fez com que, na segunda metade do século 19, a cidade assumisse grande importância em SC quanto à movimentação portuária, constituindo-se na época áurea de Laguna. 
Na segunda etapa, primeira metade do séc. 19, portugueses do continente, com o crescimento do porto, trazem desenvolvimento econômico para a cidade. Formam-se famílias tradicionais e a cultura lagunense.
Em 1839, Laguna é Capital da República JULIANA com 12.628 almas. 

PRIMEIRO HOSPITAL NO SUL DO BRASIL

Em março de 1856: primeiro hospital do Sul Catarinense, São Francisco de Assis, na Laguna. Imóvel alugado na Ponta do Bairro Magalhães (junto ao Colégio Stella Maris). No velho prédio, o hospital funciona por 15 anos (até 1871), com capacidade para vinte/trinta doentes. ANTONIO FERNANDO DA COSTA, é o primeiro médico. Em 1858, inaugurado o Teatro Sete de Setembro, epidemia de varíola superlota o improvisado hospital. PASTEUR (1860), bendito seja seu nome, muda a história da MEDICINA e do mundo demonstrando que a desinfecção das roupas para cirurgias, salva vidas. 1867: a primeira cirurgia asséptica.  
Os primeiros hospitais de que se tem notícia datam de 431 a.C., no Ceilão (atual Sri Lanka), sul da Ásia. Na Europa, coube aos romanos, cerca de 100 a.C., construírem os valetudinários, para tratamento dos soldados feridos em combate. A partir do século 4, com a propagação do Cristianismo, os hospitais se expandem. Sacerdotes e religiosos à frente, os monastérios passam a servir de refúgio para viajantes e doentes pobres. Tais lugares possuíam um infirmitorium, para tratamento de pacientes, farmácia e jardim com plantas medicinais.  Na Idade Média, ordens religiosas continuaram a liderar a criação de hospitais – só os beneditinos abriram mais de 2 000. No Brasil, o primeiro foi a Santa Casa de Misericórdia de Santos, SP, em 1543. Em 1959, 416 depois, estagiei por quase um ano no seu serviço de ORL. No século 16 não havia médicos dispostos a vir para o Brasil, os jesuítas assumiam todo o atendimento, trabalhando como médicos, farmacêuticos e enfermeiros.

CHEGAM OS IMIGRANTES ITALIANOS E ALEMAES FINAL DO SÉC. 18

A Guerra dos Farrapos projetou historicamente a cidade de Laguna. Em julho de 1839, republicanos gaúchos invadiram Laguna por terra e mar. David Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes eram os comandantes das tropas terrestres (cerca de 1 000 homens). Na mesma ocasião Giuseppe Garibaldi ocupou Laguna por água, capitaneando o navio Seival com tripulação composta de muitos italianos, amigos do grande carbonário. Garibaldi derrotou as tropas imperiais estacionadas na Laguna. Em 29.7.1839, a Câmara Municipal de Laguna, presidida por Vicente Francisco de Oliveira, proclamava a independência da então Província de SC  com a denominação de Republica Juliana, coligada à de Piratini. Surge a adolescente Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Heroína dos Dois Mundos. Ela abandonaria o lar para unir-se a Giuseppe Garibaldi, com quem se casou mais tarde, tornando-se conhecida como Anita Garibaldi. Porém, em 15.11.1839, depois de sangrenta guerra naval, com a derrota dos farroupilhas, chega ao fim a República Juliana (menos de 4 meses de duração), cujo presidente, o coronel Joaquim Xavier Neves e o vice-presidente, padre Vicente Ferreira dos Santos Cordeiro, nunca compareceram para serem empossados.

CHEGA O PRIMEIRO FEUERSCHUETTE .

Trinta anos depois, 1869, chega ao Brasil o primeiro membro da linhagem FEUERSCHUETTE, Henrique Christiano Feuerschuette, 24 anos, sapateiro. Chega a Tubarão em 12.12.1870, cidade de 22 casas e uma pousada, a pensão de dona Flor Madeira. O chefe político era coronel Luiz Martins Collaço, compadre de dona Flor.  Henrique pagava 400 milréis por mês por cama, comida e roupa lavada na pensão. Consertando as botas do coronel, Henrique torna-se conhecido em toda a região sul, incluindo o planalto de São Joaquim. Era o Alemão das Botas. 
Com as economias de seu trabalho, traz da Alemanha irmão, irmã, o pai viúvo e um primo. Logo vem Frederico Christiano, irmão de Henrique e tio do Dr. Otto. Era também sapateiro e contava 18 anos de idade ao chegar. O último da família a emigrar para o Brasil foi Frederico Henrique, pai do Dr. Otto, nascido em Magdeburg. Emigrou em 1878. Andreas Feuerschuette, lavrador, vem ao Brasil com a filha Johanne.
Os primos Frederico Henrique e Johanne casam-se em 27.3.1881 e em 9.4.1881 (13 dias depois), nasce OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE. Não tendo deixado descendentes (os tios Henrique e Cristiano e a irmã Elsa), Otto herdou o patrimônio que a família acumulara, em especial a fazenda Campestre,  adquirida pelo tio Henrique do coronel Luiz Martins Collaço. 

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE