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Laerson Nicoleit, primeiro médico residente em Morro da Fumaça

Por Dr. Henrique Packter 27/10/2018 - 06:00Atualizado em 08/11/2018 - 22:12

É corriqueira a observação de que construímos um país sem memória, que esquecemos com facilidade nossos vultos históricos. É também pobre a mitificação como instrumento de elaboração da nacionalidade. Brasileiros, ignoramos ou conferimos papel secundário aos construtores da pátria.
Para escrever sobre PIONEIROS MÉDICOS socorro-me de várias fontes. Jornais, revistas, livros, depoimentos, escritos, reportagens, documentos guardados em acervos pessoais ou instituições. Mas, fontes secam, testemunhas desaparecem, documentos apodrecem.  
A Biblioteca Pública Municipal de Morro da Fumaça ganhou merecidamente o nome de Padre Claudino Biff, o maior autor fumacense. Está incrustrada no EJA, Centro de Educação de Jovens e Adultos, rua José Cechinel, 140, tel.: 3434 4103. No momento, a Professora Margarida Maria Piva, funcionária extremamente simpática, capaz e prestativa, cuida do setor. Claudino nasceu em Morro da Fumaça, aldeia de Deus, em 19.8.1932, filho de Leandro Simon Biff e Idalina Maccari.  Ordenado a 8.12.1958, aos 26 anos, rezou sua primeira missa na nova e atual igreja de Morro da Fumaça, em 14.12.1958. Faleceu em 28.10.1998 aos 66 anos.
 
MAS NÃO ERA PARA FALAR DE LAERSON NICOLEIT?
Era e ainda é. Porém, há figuras de permeio que auxiliam a melhor compreender nosso personagem.  Médico, advogado, escritor, ex-militar, professor universitário, político, comendador e fundador do Hospital de Caridade São Roque de Morro da Fumaça, LAERSON NICOLEIT nasceu a 29.11.1940 em Tubarão e faleceu a 7.6.1997, Morro da Fumaça.
Viveu apenas 57 anos. Nome de rua em Morro da Fumaça, parece que Laerson merecia mais do que isso, benfeitor da cidade que foi. Dez anos após seu óbito, a Câmara de Vereadores da cidade criou a Rua Doutor LAERSON NICOLEIT. Penso que seu nome seria mais adequado para denominar uma escola pública.  Gratidão não prescreve.
Quando Claudino Bff escreveu SALMOS DA 25ª HORA, a primeira edição vendeu 7.660 exemplares numa semana. Raïssa vendeu 10.200 exemplares mesmo espaço de tempo. Na apresentação do livro, Claudino fala do escritor romeno Virgil Gheorghiu, judeu, prisioneiro em campos de extermínio nazistas. Depois de seis meses, passados na prisão, perdera toda noção de tempo. Seu livro intitulou-se A 25ª HORA. À notícia de que mais um judeu fora cremado, dizia-se: Chegou para ele a 25ª hora ...
Para Claudino, a designação da coletânea configurava apenasmente um furto cristão do título do autor romeno. Na capa um Cristo bizantino, ícone russo de 1450, trabalho em madeira, gesso e têmpera.
Biff escreveu 250 salmos deles restando 111, simples salmos paupertários, desafiando não só a autoridade da Igreja como particularmente sua capacidade de renovação evangélica. Os salmos são dedicados por Claudionor Biff a dois profetas: Leonardo Boff e Herbert de Souza, que era Betinho, seu irmão.

AS ARDIDAS ORELHAS DE CLAUDINO
Hanna M. da Silva escreve nas orelhas ardidas do livro, que Claudino Biff vagou sempre nos sonhos de ser aviador, camponês, monge, menestrel. Nos seus tempos de claustro, na cela 303, tentou achar Deus em Tomaz de Aquino, Tereza D’Ávila, Raïssa, Jacques Maritain, Francisco, Clara, e na Catedral de Chartres. Viveu sempre o temor de não ser cristão e o amor de ser cristão. Na contradição de ser e de não ser cristão, passa pelo Vale dos Caídos, dos drogados, onde, desde 1968 tenta caminhar com seus meninos e meninas. Foi olhando nos olhos de RaÏssa Panfigli, noviça rebelde que dançava o Lago dos Cisnes na praça Navona de Roma, sob êxtase da heroína e da cocaína, que viu Deus. Deus bailava na embriagues dessa criança. Esses Salmos são por causa Deus, de Raïssa e de você.

OS MÉDICOS DA FUMAÇA
Pode parecer que não, mas Padre Claudino Biff e Laerson Nicoleit, grandes personagens de Morro da Fumaça, foram médicos, cada um à sua maneira. Um mais médico da alma, o outro mais médico do corpo.

AINDA AS ORELHAS DE CLAUDINO
Na orelha de VOOS, informa que estudando em Brusque teria sido iniciado por seu Mestre Maior, Dom Afonso Niehues, em Castro Alves, Dante, Camões, Antonio Vieira, Rui Barboza.  Na década de 50 buscava Deus em Duns Scotus, Tomás de Aquino e Jacques Maritain, lá em São Leopoldo e Viamão. Irá â Parusia sem ter sido aviador, por isso se dizia inacabado e lê de tudo sobre aeroplanos em Antoine de Saint-Exupéry e Richard Bach. Depois, em suas buscas de Deus na conversão, seguia pelas mãos de Péguy, Léon Bloy, François Mouriac, os grandes convertidos do século 20.  Laureia-se em Filosofia e Teologia à luz de Aristóteles, Platão, Sto. Agostinho, Sto. Tomás de Aquino. Em Leonardo Boff e Gustavo Gutierrez, Claudino encontra-se e encontra a dimensão de Jesus libertador.
Em Roma, 1976, na Universidade Sto. Tomás de Aquino, é bacharel em Sociologia apresentando a tese Sociedade, família e droga. Com sua amiga-irmã Maria Natália Alessi conheceu o mundo doloroso das drogas, centenas desses seus filhos já tombados no Vale dos Caídos. Mas, soube fazer desse mundo, o sentido de sua vida. Com a leitura de Terra dos Homens de Saint Exupéry, Claudino revela fascínio pelos desertos e pelo Deserto. Busca em Assis, Portiúncula, Bose e nos desertos da Judeia, a sua província de Tebaida. Por volta do século V d.C., a desértica Tebaida, onde nasceu Pacômio, tornou-se lugar de refúgio de cristãos eremitas.
Mas, o sonho do pequeno Claudino gira-mundo deu novamente em Tubarão.

JESUS, O GALILEU PASSONÁRIO
Jesus, o Galileu Passionário, surgiu postumamente. Claudino pretendia lançá-lo no Natal de 1998, mas faleceu a 28 de outubro. Escrito para jovens, a eles o autor dedicou o melhor de sua vida. Por que aquele que libertará o homem de toda servidão deverá ser humilhado pela morte?
Claudino escrevera 202 capítulos do livro quando foi atingido por nova crise cardíaca. Deixando o hospital escreve celeremente os últimos 39 capítulos. Entrega o trabalho à revisão dizendo: Aí está o Prometido das Nações. Não sei se as gentes vão recebê-lo. Catorze dias antes de morrer anotou a hora em que ultima a obra que o fez viver pouco mais: Jesus, 14.10.1998, 17h32.
Em vagas e lentas noturnas horas escrevera Morro da Fumaça e sua Divina e Humana Comédia, história de sua aldeia e Voos ... Volta de Roma por infarto, a penosa sobrevivência com duas cirurgias no coração.  Afinal, faz as pazes com Deus, consigo e com o coração. Para sobreviver, escreve. 
Escreve desde 1968 coisas sobre Deus, o homem, paz, amor, sobre a droga. Torna-se terapeuta de mais de 2 mil jovens toxicodependentes. Em 350 palestras teve 15 mil jovens ouvintes, sendo o tema sempre a droga.  Segundo Antonio C. Biff de Pellegrin, Claudino legará à sociedade em que vive e onde vive, o romance Raïssa, que estenderá a mão a tantas Raïssas caídas e sós no Vale dos Caídos. Sobrinho de Biff diz que o tio escreverá mais 3 livros: Diário de Isadora (ensaio ecológico), Diário Secreto do Padre Mateus e Vida de Jesus Cristo segundo seu Jumento Macabeus. O sobrinho confidencia ser sonho do velho poeta livrar-se da terceira cirurgia do coração e pescar um Merlin de dois metros.
Poemas finitos e paupertários de poeta das praças vazias, como ele as chama. Publica ensaios em 1993: Crônicas da diocese de Tubarão, Credo anônimo, Salmos da 25ª Hora, Cântico de Irmão Lobo de São Francisco. Estaria gestando: Diário de Raïssa, menina drogada, Auto do Jumento de Nossa Senhora do Desterro. Seu último sonho: Diário Secreto do Padre Matheus. Claudino dizia:” Fundarei amigos e amigas, pescarei ‘aquele’ peixe, fugirei da terceira cirurgia do coração e viverei de graças”,

CÉU, INFERNO E OUTROS RECANTOS
Uma vez que estamos a falar sobre um ministro da Igreja Católica, vem-me à memória episódio criciumense dos anos 60 envolvendo uma das mais notáveis figuras já produzidas pelo clero catarinense. Esse homem, Monsenhor Agenor Neves Marques, era um dos críticos mais ásperos de político carvoeiro em grande ascensão, a quem Monsenhor acusava de não crer em Deus: “Ele acaba com o céu”, diz, “e, pior: com o inferno”. O problema, não era a existência do céu; era preciso haver um inferno, para manter a turba na linha. Quando o pervertido conde Rochester agonizava, o pastor o convence a dizer-se arrependido. O conde não crê em Deus, mas é persuadido, pelo argumento de que, se um grande do reino morrer sem os sacramentos, o populacho não será mais contido pelo medo do inferno.

O TOMISMO
Principal obra de Tomás de Aquino é a Suma Teológica (1265-1273), em 3 partes e 512 questões. Cada questão tem perguntas individuais. Estas representam os 2669 capítulos onde estão contidas 1,5 milhões de palavras, 1,5 vezes mais que todas as palavras de Aristóteles (1 milhão), o dobro de todas as palavras conhecidas de Platão. (Em 1265 nascia Dante Alighieri).
Na Suma Teológica, Tomás declara para quem quiser saber, que, se aos príncipes e reis era lícito executar falsários porque não poderia a Santa Madre executar os hereges na fogueira da Inquisição?
Rubens Alves, falecido e laureado escritor, pastor evangélico, psicanalista -, escreveu: Santo Tomás de Aquino, na Súmula Teológica disse que” Deus e os salvos dos Céus contemplarão o sofrimento dos condenados no inferno, o horror do seu sofrimento, para que sua alegria seja completa”.
Teologicamente, está certo. As pessoas estão no inferno porque Deus quer. Se elas estivessem no inferno sem Deus querer, quer dizer que ele não é onipotente, porque está acontecendo uma coisa no universo que não é a vontade dele. Sendo assim, ele tem que estar feliz com o sofrimento dos condenados, porque foi ele quem decretou e criou este sofrimento.
Tem que haver inferno, porque o dia em que não tiver inferno, acaba a civilização judaico-cristã, construída para resolver o problema do inferno, para que os homens não acabem no inferno.
Santo Tomás advoga o batismo compulsório. Disse: “Os filhos dos escravos são servos e estão sob o poder do senhor. Ora, os judeus são escravos dos reis e dos príncipes, bem como quaisquer outros infiéis. Logo, sem nenhuma injustiça podem os príncipes fazer batizar os filhos dos judeus ou de outros escravos infiéis. Qualquer homem pertence mais a Deus, de quem recebeu a alma, do que do pai carnal, de quem recebeu o corpo. Logo, não é injusto tirar as crianças, filhos de infiéis, aos pais carnais, para consagrá-las a Deus pelo batismo”.
Tomás prega submissão à ordem política vigente: “Ninguém deve ser subtraído à condenação à morte, contra as exigências da lei civil; assim, o condenado à morte pelo juiz competente, nin¬guém o deve livrar dela com violência”. O tomismo é uma catedral de ideias, em que a teologia do século 13 encontrou sua formulação mais sólida.
Convocado pelo papa Gregório X (1274), Tomás viaja para participar do Concílio de Lyon. Adoece durante a viagem, vindo a falecer no mosteiro de Fossanova, 49 anos de idade. Doutor Angélico e Príncipe da Escolástica, foi canonizado (1323) e proclamado doutor da Igreja Católica (1567).
Continua próxima semana LAERSON NICOLEIT