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Folguedos intelectuais: Entrevistas

Por Dr. Henrique Packter 24/11/2018 - 06:00

Entrevistar não é uma arte, é uma técnica, não tem nada de arte, disse o falecido jornalista Carlos Heitor Cony em entrevista de 1999 antes de assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas depois de escrever Muita Intolerância na Casa de Tolerância. Cony é cético até a alma, um agnóstico, mas devoto de santos! Adoro santos, dizia. Em maio de 1999 anunciou processo doloroso de retorno à fé em Deus. Na verdade, Cony era um pessimista bem-humorado, um anarquista inofensivo. 

Saiu-se com esta, após entrevista presidencial:
- Lula está bem mais magro, gente. Acho que ele perdeu uns 20 litros.

De acordo com Cony, jornalismo tem de ser objetivo, ao contrário da literatura que tem de ser subjetiva. O jornalismo parte do universal (bebeu, porque inchou) para o particular (inchado, porque bebeu) e a literatura, a arte em geral, faz o contrário, parte do individual para o universal. Cony reclama: o entrevistado atrapalha a entrevista. Na MANCHETE, devia levantar a bola dos entrevistados, via de regra pessoas essencialmente medíocres. Pobres pessoas, dizendo banalidades. 

Na investigação policial e no debate forense, o objetivo é buscar a verdade, para condenar ou para absolver. No jornalismo é diferente. Jornalistas precisam apenas mostrar a verdade. Um dos erros maiores da entrevista ocorre quando o entrevistador funciona como promotor ou como advogado de defesa. Tecnicamente, isto é para o tribunal ou para a polícia, não para o jornalismo das oito do período eleitoral.

As pessoas mentem muito nas entrevistas, Cony? 
- Sim, muito. Totalmente. A narrativa da notícia trabalha com uma organização própria da realidade; é conveniente pensar na entrevista seguindo a mesma trilha: O quê, quando, quem, como, onde e por quê, nesta ordem. É salutar imitar coisas boas. Nosso país é um país imitador; a própria língua que falamos é um inglês mal traduzido.

Todos esses pensamentos vieram-me à cabeça após leitura de matérias, entrevistas sobre o Centro Cultural Zanatta, publicadas em nossa imprensa, na semana que passou. 

A FCC, CONTINUAÇÃO

Teatro Municipal Elias Angeloni, única sala de espetáculos no sul catarinense, necessitava reforma emergencial de suas 739 poltronas danificadas, recuperação das lâmpadas guias e da iluminação geral da casa, revestimento dos bancos do hall, renovação da forração da escadaria, colocar portas entre a sala de espetáculos e o hall. Brigite Gorini, em 1993, conduziu as atividades de reparação e restauro desta casa. Obteve, entre outras coisas, mão de obra e material gratuitos para o trabalho. Na fachada do prédio uma viga ruíra, estilhaçando vários daqueles enormes vidros, exigindo reparos.

MINHAS TELAS 

Não ouso chamar de pinacoteca a meia dúzia de telas pendurada nas minhas paredes. Telas que meio fui ganhando, meio adquiri, as mais antigas são de 1961. Quem delas cuida é minha mulher e ainda não perdi sequer uma moldura, não há fungos, nada. Perdi, é bem verdade e tive de trocar, alguns pregos enferrujados, coitados.  As telas resistem impávidas e fagueiras, sem traço de deterioração, plenas de pudicícia.

Também não adotei em minha casa política de aquisição de obras, cronogramas, nem identidade que auxiliasse a caracterizar o acervo. As obras que tenho foram adquiridas porque eram decorativas ou porque tocaram nossa sensibilidade. E porque seus preços eram bem acessíveis e podiam ser exibidas livres, leves e soltas.  

Cuidados tomados de 1993/1996 com peças da Galeria e assumidos pela FCC foram poucos, lamento ter de confessar. Por valiosa, lembro-me de tela, presente do grande mestre e amigo Willy Zumblick, na verdade o meu retrato. Além de prestigiar a FCC com mostras de grande sucesso, doou-nos telas. Nosso pessoal frequentava cursos e seminários. A título de ilustração: Oficina Regional de Museologia (18,19 e 20 de abril 1994, Museu Augusto Casagrande). Seminários foram organizados para o aprendizado de cuidados com nosso patrimônio (1º Seminário Sul Catarinense para Preservação do Patrimônio Histórico, 15.04.1994, Salão Ouro Negro, PMC, FCC, IAB). A Fundação Catarinense de Cultura era dirigida no mesmo período por SALIM MIGUEL, o maior escritor barriga-verde de todos os tempos e meu amigo, facilitou proveitoso intercâmbio cultural. 

2004

Já falamos que Realdo Santos Guglielmi muito auxiliou a FCC justamente quando mais precisávamos. Não havia recursos que possibilitassem o início das ações culturais. Organizamos uma mostra coletiva de artistas plásticos com a esperança de que venderíamos algumas obras, recebendo a Fundação pequena percentagem pela venda para fazer frente às despesas com o coquetel de abertura, convites, impressos, segurança...

Para grande surpresa nossa, Realdo adquiriu todas as 80 telas e esculturas que ainda iriam ser expostas!

2004 foi um ano aziago, para Criciúma, para SC e para o mundo. Nesse ano perdemos duas figuras da maior importância no cenário industrial da cidade, do estado e do país. Com diferença de 5 meses faleceram Manoel Dilor de Freitas (25.8.2004, 71 anos) e Realdo Santos Guglielmi (25.3.2004, 63 anos). Também faleceram os atores Christopher Superman Reeves e Marlon Brando, os políticos Leonel de Moura Brizola, Ronald Reagan, Yasser Arafat, Enéas E.P. Faria, intelectuais como Fernando Sabino e Borjalo, o economista Celso Furtado. O furacão CATARINA é desse ano, assim como o lançamento do Facebook. 

NEREU GUIDI

O ex-deputado federal Nereu Guidi, falecido em 2011, procurou-nos na FCC em 1996 para informar que a doação da Casa que pertencera à Prefeitura em 1944 ocorrera sem autorização do poder Legislativo, o que tornava o ato ilegal e, portanto, anulável. Segundo Nereu, uma ação declaratória de nulidade de doação, seguida de pedido de reintegração de propriedade, permitiria ao município reaver o terreno e respectivas instalações. Infelizmente, para atender a compromissos familiares, tive de demitir-me da direção da FCC em

1996. 

COMO SURGIRAM OS PROJETOS DA FCC. PRIMEIRA DIRETORIA

Um mês antes de assumir o cargo de Diretor-Presidente da FCC, reuni em minha residência e durante uma semana, todas as noites, grupos interessados em discutir a cultura criciumense. Anotávamos sugestões para diferentes ações. Destas reuniões recolhemos ideias para 26 projetos, elaborados pelos participantes das reuniões e que tentamos implantar e implementar. Destes todos, pode-se dizer que apenas cinco projetos não decolaram. A FCC tinha como colaboradores: Liliane Motta da Silveira (Diretora Superintendente Executiva), Gilberto João de Oliveira (Diretor Administrativo e Financeiro), Sayonara E. Lentz Meller (Diretora de Ação Cultural), Brigitte Gorini (Diretora do Teatro Elias Angeloni), Iara Maria Gaidzinski (Diretora do Museu Augusto Casagrande), Adilamar Rocha (Diretora de Eventos). Nosso Conselho Deliberativo era composto por 22 representantes de todos os segmentos da sociedade criciumense (Moema Godoy Costa, Maria I. Conti Victor, Gundo Steiner, Jorge H. Coral, Albino J. de Souza Fº, Adelor Lessa – entre outros). Assessoria Jurídica era de Paulo Vieira Aveline.

O Conselho Fiscal contava com Catarina Tomazzi, Osmar R. Piovesan e Moacir Sônego. Havia um Conselho Contábil e de Orçamentos, a Sociedade dos Amigos da FCC, uma Comissão Técnica de Relatórios e Sugestões para o Tombamento de Bens Municipais (SULCATUR - José Augusto Hülse, FCC – Mário Belolli, Secretaria do Meio Ambiente – César Paulo de Luca, Instituto de Arquitetos do Brasil – Isis de Oliveira, FUCRI - Edson Paegle Balod). 

UMA QUESTÃO DE ACUIDADE VISUAL

Quando assumi a direção da FCC já contava com mais de 30 anos de exercício profissional médico. Voltando de reunião no Centro Cultural Jorge Zanatta chego ao consultório para saber que uma senhora, já nonagenária, era a primeira cliente do dia. Acompanhada de uma filha, quando as cumprimentei recebi uma chuva de elogios vindos da idosa senhora:

- Como o senhor está jovem! Que aparência maravilhosa!
Sentei-me extremamente satisfeito, banhado por estranha felicidade. A filha chegou-se para sussurrar ao meu ouvido:
- Doutor, os outros oftalmologistas dizem que a visão dela está reduzida a 5%...

HONESTIDADE POLÍTICA
Hoje em dia, a pátria está assombrada pelo espectro da propina, da desonestidade, do roubo institucionalizado.
Não se ouve falar de que algum político tivesse recusado propina, que denunciasse o autor da oferta ilícita. Não estou me referindo, e não vale, a tal de delação premiada, pois claro. Quererá isso dizer que não há políticos honestos? 
Na FCC, certa manhã fui abordado por proprietário de uma das gráficas da cidade. Elogiou o imóvel, falou do tempo, da falta de trabalho e propôs, olhos no chão de tábuas corridas da Fundação:
- O senhor poderia mandar fazer todos os impressos da Fundação comigo e eu lhe daria de graça todos os impressos que viesse a necessitar para seu consultório...
Já outro, paciente atendido gratuitamente por não reunir condições para pagar por seu tratamento, veio consultar:
- Doutor, o senhor me dá um atestado bem bom para me aposentar e no Natal eu lhe dou um peru bem gordo...
Por essas e outras, estou sem saber se sou honesto ou não. Talvez eu não tenha sido suficientemente tentado. O ganho esperado pouco expressivo talvez tenha facilitado a recusa. 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O CENTRO CULTURAL JORGE ZANATTA  

A esmagadora maioria das peças da nossa modesta coleção abrigada na Galeria de Artes Octávia Búrigo Gaidzinski resultou de doações e de obras deixadas pelos autores com a promessa de retornar para buscá-las um dia.

Promovíamos as obras de nossos artistas plásticos, criando mostras individuais e coletivas. A FCC cuidava dos eventos, fazia a divulgação, contratava serviços, criava folders e cartazes, disponibilizava espaço, adquiria os costumeiros produtos destinados ao consumo dos visitantes durante as mostras.  Agradecidos, muitos destes artistas doavam obras à FCC, escolhidas entre aquelas que não haviam sido adquiridas. Este foi o início de nossa coleção. Willy Zumblick foi presença sempre presente e obsequiou a FCC com seus trabalhos tão buscados.  Para homenageá-lo criamos a Sala que levava seu nome dentro do Casarão da Pedro Benedet. Inaugurado em 2000, o Museu Willy Zumblick, do Centro Municipal de Cultura de Tubarão, mandado construir pela Prefeitura, é justa homenagem a um dos maiores artistas plásticos que nosso país já teve.

Próxima semana continua verdadeiramente LAERSON NICOLEIT