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Por Dr. Henrique Packter 13/04/2019 - 06:00

Não eram das melhores as relações entre ALEXANDRE HERCULANO DE FREITAS, o mais célebre de alguns dos espirituosos habitantes criciumenses dos anos 60, e o exército americano. O dentista Alexandre era crítico feroz de alguns aspectos da história militar americana. Costumava dizer que as memórias de guerra de antanho ocorriam sem a morte por confronto de general algum. Salvo, acrescentava, por duas honrosas exceções, contemplando morte de general yankee por bala:
- Teve um que foi ver se a arma estava carregada. Estava. E o outro morreu engasgado por uma bala Piper...
-   
MANIF ZACHARIAS, médico e presidente da loja maçônica Presidente Roosevelt, militara no PCB. “Ernesto Lacombe Filho, organizou e dirigiu, durante o período da legalidade (do partido), o secretariado municipal do PCB, de que fui, durante algum tempo, integrante”. ZACHARIAS, Manif. Minha Criciúma de ontem. Criciúma: Edição do Autor, 1999. p. 68).
Ernesto Lacombe, coronel e chefe revolucionário em 1930, para o sul catarinense, n’ A Imprensa de Tubarão (27.10.1940): “foi preciso a rajada salvadora da Revolução de 30, para aparecerem os primeiros sintomas de uma vida nova em Criciúma.  Para o Brasil conquistar independência concreta, positiva, na ordem econômica, faltavam indústrias do ferro e do aço, para completar a multiplicidade de recursos que constituem a riqueza do seu solo. Com a montagem das grandes usinas siderúrgicas e o carvão de Criciúma fornecendo ao redor de um milhão de toneladas por ano, o Brasil será (...) o mais importante Estado do continente”. 

Ernesto Lacombe, empresário e político, Jaguarão, RS, 1879 – Criciúma, SC, 1951. Ingressou no comércio como caixeiro-viajante em 1905, percorrendo RS e SC. Pecuarista e industrial em Cruz Alta, RS (1924) mudou-se para Tubarão, SC, onde criou charqueada. Coronel em 1930, chefiou a Revolução de Outubro no Sul catarinense, sendo alçado a governador do Sul de SC, com sede em Tubarão. (Belolli, Op. Cit. p. 287).

Lacombe se tornara sócio de mineradora (1938), e agora, com a iminência da construção das siderúrgicas, seu fervoroso discurso nacionalista misturava-se à expectativa pelos lucros futuros. Em 1938 estabeleceu-se em Criciúma, associado à mineradora João Pessoa, de Francisco Meller. Promoveu (1940), acordo com o Grupo Jaffet de SP, resultando na empresa Montanha Carbonífera S/A. Antes de a siderurgia tornar-se realidade, o governo concederia (1937), nova taxa de consumo obrigatório do carvão brasileiro, totalizando 20%. As indústrias carboníferas da região agradeciam. Em 1937, a pioneira CBCA, atingiu produção de 25.000 toneladas; com a participação das pequenas empreiteiras, somou 75.000 toneladas.  Criação da CSN foi principal fator para o salto produtivo na região carbonífera catarinense. Cresce a participação do estado no mercado nacional e o montante extraído ultrapassa o RS, até então a maior indústria extrativa do país.

Com novos estímulos (início da década de 1940), a participação de SC saltou para 19,5% (1939), 51,4% (1948). A produção catarinense cresceu no período quase 510%, um aumento de mais de 6.500% de 1929 a 1948. 

A POLÍTICA CARVOEIRA DE VARGAS

Em setembro de 1941, Vargas lança decreto que reserva para o consumo do país a produção de SC. Torna-se o governo proprietário das riquezas do subsolo e concede o direito de exploração às empresas. Também era o único responsável pelo preço do carvão e do seu frete. O recrudescimento da guerra provoca um segundo decreto-lei (agosto de 1942), que institui, como medida de emergência, a entrega obrigatória ao Governo Federal de todo o carvão nacional. Agora, todos querem extrair carvão. O número de carboníferas subiu a quase uma centena, algumas batizadas com nomes bizarros como a Vai ou Racha. Na maioria das vezes essas pequenas empresas eram empreiteiras de firmas maiores. Após a criação da CSN, a União consolida sua presença direta na região, sacramentada pela estatização da Carbonífera Próspera (1953).

A REVOLUÇÃO DE 30 

Chega a crise mundial de 1929 pela debacle das Bolsas de Valores. A Grande Depressão afeta a economia brasileira, muito dependente das exportações de café, especialmente para os EUA, nosso principal comparador.  As safras de 1928, 29 e 30 foram recordes de produção, mas, somente metade dessas safras foram exportadas. O preço da saca que era de 200 mil reis passou a ser vendida a 20 mil reis. Descontentes, nossos cafeicultores passam a apoiar Vargas para a presidência em 1930. A crise provoca o fechamento de 600 fábricas entre 29 e 30 no RJ e SP. 

Como se recorda, ANTONIO CARLOS RIBEIRO ANDRADA seria governador das Minas Gerais até 7.9.1930. Era a bola da vez para ocupar a Presidência da República segundo o acordo café-com-leite: uma vez SP, depois MG, depois SP, depois... Mas, Washington Luís, carioca de nascimento e governador de SP antes de chegar à presidência, resolve romper o acordo e escolhe outro paulista, o então governador de SP, JÚLIO PRESTES para a presidência tendo VITAL BATISTA SOARES como vice.
Pronto! ANTONIO CARLOS se enfeza e muito contrariado lança GETÚLIO VARGAS à presidência tendo JOÃO PESSOA, então governador da Paraíba, como vice.

A REVOLUÇÃO DE 30 NO SUL DE SC

Já se falou que SC ganhara três ministérios durante o governo de Washington Luís: Victor Konder (Viação e Obras Públicas), general Nestor Sezefredo Passos (Guerra) e contra-almirante Arnaldo Siqueira Pinto da Luz (Marinha). Este último considerava-se catarinense por laços familiares a afetivos.
Nas eleições de 1º.3.1939 (primeiro dia do Carnaval), Prestes ganha as eleições presidenciais por mais de 300 mil votos. Em Tubarão com 3.647 eleitores, sexto colégio eleitoral do estado, Vargas teve 9 votos e 70 em Orleans. Já no RS Vargas recebeu mais de 90% dos votos. 
 Getulistas empenharam-se em campanha para o não comparecimento às urnas. OTTO era prefeito em Tubarão e seu nome era apontado para Governador ou Vice em SC. O jornal A REVOLUÇÃO, órgão oficial do partido liberal, em seu número 1 de 5.10.1930, informa que OTTO fora reeleito prefeito. Deposto pela Revolução, deixaria de assumir, pela terceira vez, a prefeitura tubaronense. As eleições para Governador de SC em 3.8.1930 elegeram Fúlvio Aducci e José Acácio Soares Moreira com quase 50 mil votos.
Mas, o assassinato de João Pessoa na Confeitaria Glória, Rua Nova em Recife, tarde de 26.7.1930, incendiou os ânimos. O autor do assassinato alegou defender a honra de sua noiva, Anayde Beiviz. Assis Chateaubriand, magistralmente retratado no livro CHATÔ, O REI DO BRASIL, do jornalista Fernando Moraes, transformou o trágico acontecimento em crime político e uma onda de insensatez tomou conta do país.

VARGAS INICIA SUA CAMINHADA... POR TREM

Também já se comentou que em 3.10.1930 Vargas parte de POA com as tropas revolucionárias via ferroviária para SP e dali para o RJ. Enquanto isso, o norte de SC era invadido pelas forças paranaenses, adesistas de primeira hora à candidatura de Vargas.
Pelo litoral, tropas gaúchas saídas de POA, quinta feira, 5 horas da manhã de 2.10.1930, chegam em Torres às 11 horas da noite.  Adentraram SC por Araranguá, tomada sem resistência às 5 ou 6 horas da tarde. O comandante das tropas revolucionárias, Ernesto Lacombe, nomeou Fontoura Borges, prefeito de Araranguá. 
Coronel em 1930, Lacombe foi alçado a governador do Sul de SC, com sede em Tubarão. (Belolli, Op. Cit. p. 287). Era proprietário da Fábrica de Banha Sul-catarinense e de Charqueada em Tubarão, no Bairro da Passagem onde havia uma balsa dando acesso a Capivari de Baixo.
As tropas chegam a Criciúma, tomada em 4.10 às 3,30 horas da manhã. Urussanga cai logo a seguir. Tudo isso ocorre por via rodoviária. De Urussanga, por ferrovia, chegam as tropas a Tubarão no dia 4.10, cerca das 17 horas. Era sábado e chovia. Lacombe deixa as tropas na estação e vai à Prefeitura com oito companheiros. Hoje, no local funciona a Casa da Cidade e foi ali que o Prefeito OTTO FEUERSCHUETTE e auxiliares, aguardavam sua chegada para fazer entrega das chaves da cidade. A seguir, Ernesto Lacombe assume o controle de Tubarão.

ESQUECIDO PERSONAGEM DO SUL CATARINENSE

FÁBIO SIILVA, amigo pessoal de OTTO FEUERSCHUETTE, ex-vereador em Criciúma (1926-1928) era construtor da estrada Teresópolis-Anitápolis onde abrira 6km em 1930. Mudara-se para Criciúma quando o lugarejo ainda era distrito de Araranguá. Projetou-se como comerciante atilado. Em 1925 lá estava ele entre os criciumenses que foram ao governador Antonio Pereira da Silva e Oliveira solicitar o desmembramento de Criciúma do município Araranguá. Foram 8 dias de luta, sobretudo contra o Coronel João Fernandes, ex-prefeito da cidade das Avenidas. Representava o município na Assembleia Legislativa.
Victor Konder, irmão de Adolpho Konder, seria o próximo governador de SC. Passou a apoiar as reivindicações criciumenses e elaborou a Lei 1.516 de 4.11.1925 que criou o município de Criciúma, instalado em 1º.1.1926, um século dentro de 7 anos.  Fábio foi escolhido como Secretário do Conselho Municipal.
A estrada Anitápolis-Tubarão, passando por Braço do Norte e Rio Fortuna, foi aberta em 1927 (Pe. Leonir Dall’Alba, pág. 296 de O Vale do Braço do Norte), faltando a ligação Anitápolis-Florianópolis, construída por Fábio Silva.
Desde 1918, existia em Anitápolis, construído pelo governo federal, o Patronato Agrícola, espécie de colônia correcional para jovens transviados do RJ. A primeira turma compunha-se de 200 jovens entre 11 e 18 anos. Pergentino Muniz era o feitor. O hotel de Anitápolis, de José Goebert (Gato Preto), abrigou 35 oficiais revolucionários por 10 dias antes de transporem a Serra da Garganta. Vitorino Goebert, telegrafista do Patronato, foi denunciado e preso tendo como prêmio terminar na Bahia seu trabalho...
Fábio Silva levou 60 civis e 35 soldados da Polícia Militar de SC.  Comandados pelo tenente Mira ofereceram séria resistência às tropas revolucionárias na Serra da Garganta, onde se entrincheiraram. O jornal Revolução de 14.10, no seu primeiro número, publicou que tropas governamentais comandadas pelo major Camilo Diogo haviam desalojado Fábio Silva e comandados acrescentando que Fábio mais oito de seus homens haviam morrido na batalha. Esse seria o único encontro armado e sangrento nos avanços de tropas no sul de SC. A família de Fábio vestiu luto ao saber da notícia infausta até que, alguns dias depois, ressurge nosso personagem, vivo e lampeiro.

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 06/04/2019 - 06:00

OTTO FEUERSCHUETTE, nascido em 9.4.1881, contava 49 anos de idade quando eclodiu a Revolução de 30, movimento contrário a seus interesses políticos.
PORTO ALEGRE NA REVOLUÇÃO DE 30
O Theatro São Pedro tem capacidade para 636 espectadores. A plateia conta com 396 lugares, 1° balcão com 110 lugares, 2° balcão com 124 lugares, três lugares para pessoas com necessidades especiais, três lugares para acompanhantes na plateia. A Sala Dinorá de Carvalho, para pequenos recitais, tem 70 assentos. O Teatro disponibiliza o Café São Pedro, aberto em todos os espetáculos. Há espaço para lançamentos e coquetéis no 2° balcão. 
Já o Teatro Municipal Elias Angeloni de Criciúma, maior sala de espetáculos do sul de SC, tem capacidade para 728 pessoas. Localizado no Parque Centenário, Centro Cultural Santos Guglielmi, apresenta na plateia um 1º balcão. O palco é utilizado para finalidades culturais, artísticas e educacionais. Construído nos anos 70 e inaugurado em 1983, o Teatro Elias Angeloni abrange a Biblioteca Pública Municipal Donatila Borba, setor Administrativo do Teatro, palco, amplo hall de entrada, Teatro Arena, Galeria de Arte Octávia Búrigo Gaidzinski e o Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez. Na administração do Prefeito Eduardo Pinho Moreira, início dos anos 90, sendo Diretor-Presidente da Fundação Cultural de Criciúma Henrique Packter, o Teatro Elias Angeloni passou por ampla restauração, graças aos esforços da Diretora do Teatro, Jornalista Brigitte Gorini. 
É palco de eventos como Peças Teatrais, Shows Musicais, Espetáculos de Dança Regionais e Locais, Formaturas, Stand Up Comedy Nacionais e Regionais, Festivais de Corais Nacionais e Internacionais. Entre esses últimos, o Festival Internacional de Corais de Criciúma, com a presença de coros do Brasil e do mundo. Recebe também, concertos, lançamentos de CD, DVD e livros, além de eventos corporativos.

THEATRO SÃO PEDRO 

Surgiu por iniciativa de sociedade acionária de doze cidadãos, que visavam construir um teatro (São Pedro de Alcântara), cujos rendimentos reverteriam para auxílio à Santa Casa de Misericórdia. Manuel Antônio Galvão, presidente da Província, doou em 1833 terreno com 100 x 200 palmos para sua construção na Praça da Matriz, centro da cidade. Iniciadas em 1834, as obras estiveram interrompidas por dez anos, ainda na fase dos alicerces, em função da Revolução Farroupilha (1835 e 1845).
Guerra terminada, para continuidade das obras foi constituída nova sociedade que buscou recursos oficiais, concedidos pelos governos seguintes; em 1850, trabalhos retomados, a pedido da Santa Casa o projeto foi elaborado no RJ. Executado por Phillip von Normann, encarregado de toda a construção, com exceção da decoração final, a cargo de Emil Julius Textor, o projeto previa a construção de edifício gêmeo, o Tribunal de Justiça, demolido após incêndio, em 1950.
Verbas para a construção vieram de programa de loterias estaduais e, finalmente, o prédio em estilo neoclássico foi inaugurado a 27.6.1858. Tinha capacidade para 700 espectadores e decoração em veludo e ouro, quando POA tinha pouco mais de vinte mil habitantes. Em breve a sociedade constituída para sua conservação, a Associação do Teatro, não conseguiria mais fazer frente às despesas, e o imóvel foi desapropriado em 2.4.1861.
Durante mais de cem anos, o Theatro São Pedro exibiu importantes espetáculos em POA. Nele passaram os pianistas Arthur Rubinstein, Friedrich Gulda, Magda Tagliaferro e Claudio Arrau; o maestro Heitor Villa-Lobos, as cantoras Bidu Sayão e Marian Anderson, o grupo francês Les Comediens des Champs-Elisées, a Orquestra de Versalhes. Também os atores Walmor Chagas, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo ...  
Em abril de 1973, o Theatro São Pedro foi interditado por absoluta falta de condições técnicas.
Restauração iniciada em 1975, projeto do Arquiteto Carlos Antônio Mancuso (1930-2010), a direção administrativa dos trabalhos coube a Eva Sopher, então diretora do Instituto Proarte. Ideava integrar o passado com o presente.
Foi reinaugurado em agosto de 1984, com espetáculo de teatro de marionetes O julgamento do cupim, do Grupo Cem Modos, o musical Piaf, com Bibi Ferreira e Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Isaac Karabtchevsky.
Nesta nova fase o teatro tem sido administrado pela Fundação Theatro São Pedro, criada em 1982 e desde então dirigida por Eva Sopher, ligada autonomamente à Secretaria de Estado da Cultura do RS. Em 1985 passou a contar com Orquestra de Câmara.
Em 1995 Sopher buscava novo terreno nas imediações, para expandir o complexo Theatro São Pedro. Em 1998, concurso público selecionou projeto dos arquitetos Marco Peres, Dalton Bernardes e Júlio Ramos Collares para construção do Multipalco, obras iniciadas em 2002.
Quando concluído ele contará com dois teatros (italiano e oficina), concha acústica, salas para corpo de baile, orquestra, para entrevistas coletivas e reuniões, para ensaios. Ainda restaurante, praças, cafeteria e bar, quatro lojas e estacionamento.
Na Revolução de 30, o Theatro São Pedro contava 72 anos. Hoje, são 161 anos. 

SEXTA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO DE 1930, 17 HORAS

Em 7.9.1930, o movimento revolucionário contra a posse na Presidência da república de Júlio Prestes, ganha impulso. Neste dia, Antônio Carlos passa o governo mineiro a Olegário Maciel, político mais propenso a rebelar-se que ele. Olegário será o único presidente de estado a continuar no cargo após a revolução de 30. 
Sobre o sigilo da conspiração, Getúlio contou à Revista do Globo, (agosto de 1950), que a filha Alzira só soube da revolução 2 dias antes do início: "Em 1930, preparando a Revolução, fui obrigado a fazer um jogo duplo: de dia mantinha a ordem para o governo federal e à noite introduzia conspiradores no Piratini". O comando revolucionário determinou em 25.9.1930 que o movimento iniciaria em 3/10. Início várias vezes adiado, na tarde de 3.10.1930, POA, estoura a Revolução com a tomada do quartel-general da 3ª Região Militar, comandada por Osvaldo Aranha e Flores da Cunha.  

TOMADA DO QUARTEL-GENERAL

A Revolução de 30 foi decidida no RS, com o bem sucedido ataque revolucionário ao QG da 3ª RM, seguido da morte de alguns militares que ali se encontravam e da prisão de seu comandante e do chefe de Estado Maior. 
Os revolucionários de 30 marcaram como objetivos fundamentais para o êxito da Revolução, o ataque seguido de conquista do QG da 3a RM e do Arsenal de Guerra, situado à sua frente. O ataque cursou sem ser detectado pelo Comando da 3a RM. Metralhadoras assestadas na torre da igreja vizinha e altos do Hotel Majestic, ambos com dominância de posição e de fogo sobre QG e Arsenal.
A Revolução de 30, com QG no Grande Hotel, começa às 17:50h de 3.10.1930, por foguete lançado no Morro Menino Deus. O ataque ao QG da 3ª RM, iniciado com 35 homens da Guarda Civil, saídos em coluna de seu quartel, na esquina atrás do atual QG da Brigada Militar, simulou passagem de rotina na porta do QG. Os guardas, armados de revólveres 38, escondidos pelas túnicas, tinham na retaguarda grupo revolucionário liderado por Osvaldo Aranha, Antonio Flores da Flores da Cunha e Barcelos Feio.
Atacado de surpresa, depois do expediente, no QG ocorrem as primeiras baixas da revolução de 30. Militares da guarda e os demais, encontrados no QG, foram mortos em minutos. Ainda hoje a escada de acesso e ferragens do elevador têm sinais de impactos de balas. Comandante da 3ª RM entregou-se após receber carta de Vargas demonstrando a inutilidade de resistência.
General Gil de Almeida, detido em seus aposentos e depois no navio Comandante Ripper com o Coronel João Baptista Mascarenhas de Moraes, comandante em Cruz Alta e outros oficiais. General Cândido Mariano Rondon, preso em Marcelino Ramos pelo General Miguel Costa que comandara a Coluna Miguel Costa/Prestes, considerou-se preso no Grande Hotel.
Com a bem sucedida conquista do QG da 3ª RM e do Arsenal de Guerra e prisão do comandante da 3a RM e seu chefe do Estado – Maior, a revolução alastrou-se sem reação no RS e país. O ataque ao QG foi o episódio mais sangrento. 
A 3ª RM foi extinta por 15 dias, substituída pelo Departamento Pessoal da Guerra, chefia do Ten. Cel. Horácio Souza, sendo restabelecida após a chegada vitoriosa da Revolução no RJ.  

BARCELOS FEIO, ESQUECIDO PERSONAGEM PERIFÉRICO

Agenor Barcelos Feio (São Jerônimo, RS, 9.4.1896; RJ 15.12.1969), sentou praça na Brigada Militar de POA em 1913. Segundo-tenente (dezembro de 1917), foi classificado no Grupo de Metralhadoras. Na revolução gaúcha que confrontou republicanos de Antônio Augusto Borges de Medeiros, eleito pela quinta vez presidente do RS, e federalistas de Joaquim Francisco de Assis Brasil, atuou na guarnição e defesa de POA com o Cel. Afonso Emílio Massot, comandante-geral da Brigada Militar(1923).
Lutou de janeiro a novembro, luta encerrada pelo Pacto de Pedras Altas (24.12.1923), que determinou manutenção de Borges de Medeiros no governo, mas vetou nova reeleição. Primeiro-tenente, integrou o Grupo de Batalhões de Caçadores que combateu em SP e PR, ao lado das forças governistas, os tenentes revoltosos, chefiados pelo general Isidoro Dias Lopes. Em julho de 1924 ocupam a capital paulista. Capitão em abril de 1925, assume a secretaria da Brigada Militar gaúcha, ainda sob comando do Cel. Emílio Massot. 
Em janeiro de 1929 comanda o Corpo de Guardas Civis de POA, no governo estadual de Getúlio Vargas (1928- 1930), e modernizou a corporação. Em outubro de 1930, ao eclodir a revolução que levaria Getúlio ao poder, comandou como capitão, o Corpo de Guardas Civis no assalto e tomada do quartel da 3ª Região Militar (3ª RM) e do Arsenal de Guerra, em POA. Promovido no mesmo mês a major e, dois dias depois, a tenente-coronel comissionado, organizou e comandou o 1º Batalhão de Infantaria da Reserva que seguiu a Itararé (SP), para a Batalha que não houve. 
Após a renúncia em 24/10 de Washington Luís, Itararé depõe armas. De volta ao RS, foi prefeito de Santana do Livramento, Comandante do 3º Batalhão Policial Militar em POA (janeiro de 1933 a dezembro de 1935). Depois, assumiu o comando do 4º Batalhão Policial Militar, dele destituído em dezembro de 1936 a pedido do governador José Antônio Flores da Cunha. Também a pedido do governador, solicitou reforma em fevereiro de 1937. 

FLORES DA CUNHA X GETÚLIO VARGAS

Agravam-se os desentendimentos entre Flores da Cunha e Getúlio Vargas. Agenor Feio informava Getúlio dos movimentos de Flores. A crise culmina em outubro de 1937, quando Vargas solicita a Brigada Militar como força auxiliar do Exército e reincorpora o general Canabarro Cunha às forças federais. A brigada, comandada por Orestes Carneiro da Fontoura, acata a ordem presidencial e Flores renuncia em 17/10, exilando-se no Uruguai. O general Manuel de Cerqueira Daltro Fº, nomeado interventor, desarma a Brigada. 
Em novembro de 1937 — quando Vargas decreta o Estado Novo — o coronel Agenor Feio assume o comando da Brigada Militar. Atualizou regulamentos, promoveu reformas e propôs reorganização da Justiça Militar gaúcha. Demitiu-se em dezembro de 1938. No relatório ao governo, criticou a gestão de Flores da Cunha, acusando-o de ter prejudicado a brigada quanto ao aparelhamento material, à disciplina e à instrução. Transfere-se ao RJ convidado pelo interventor Ernani Amaral Peixoto (1942). Nomeado secretário de Justiça e Segurança Pública, após o desmembramento dessa secretaria (em secretarias de Justiça e de Segurança Pública, 1944), dirige a segunda, outubro de 1945. Deposto Vargas (29.10.45), com a nomeação de novo interventor, deixa suas funções. 

BARCELLOS FEIO PÓS ESTADO NOVO

Em março de 1946 empossado pelo presidente, general Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) membro do Conselho Administrativo do Estado do RJ. Assumiu mandato em fevereiro 1948 como deputado estadual pelo PSD. Em outubro de 1950 reelegeu-se deputado estadual, mas não exerceu o mandato, novamente nomeado secretário de Segurança Pública por Ernani Amaral Peixoto, governador do estado.

TENÓRIO CAVALCANTI, O HOMEM DA CAPA PRETA

Assumindo o cargo (janeiro,1951) enfrenta o deputado federal advogado Tenório Cavalcanti, da UDN, opositor de Amaral Peixoto. Tenório (o Homem da Capa Preta), dizem, carregaria por baixo da capa a metralhadora Lurdinha. No cinema seu papel foi interpretado por José Wlker. Tenório era amigo pessoal de meu chefe no Hospital dos Servidores (IPASE, RJ), Aderbal de Albuquerque Alves. Ambos eram alagoanos e, certa ocasião, na ausência de Aderbal, tive ocasião de atendê-lo, no Hospital. 
Agradeceu-me, tempos depois, publicando em seu jornal O DIA, e na primeira página, minha aprovação em concurso público para o serviço de Oftalmologia do IPASE. (Médico Catarinense Aprovado em Primeiro Lugar no Concurso do IPASE). Tenório nasceu em 27.9.1906, Palmeira dos Índios, nas Alagoas e faleceu em Duque de Caxias, RJ, a 5.5.1987. Conheci-o em 1971.
Confrontos entre Barcelos Feio e Tenório Cavalcanti pioram na década de 1950, marcada por vários e violentos choques armados. Ficou célebre o cerco da polícia à casa fortificada de Tenório, conhecida como fortaleza (1953). O deputado UDENISTA fora responsabilizado pelo assassinato do delegado de polícia de Duque de Caxias (RJ), Albino Martins Imparato. Ameaçado de prisão pelo secretário de Segurança, a invasão da fortaleza de Tenório não aconteceu porque políticos udenistas fizeram, em seu interior, vigília de solidariedade. 
Inquérito instaurando para esclarecer quem matara Imparato, nada apurou.

ÚLTIMOS TEMPOS 

Deputado federal pelo PSD, RJ, outubro de 1954, Agenor Feio foi nomeado em dezembro, ministro do Tribunal de Contas do estado. Assumiu o mandato de deputado em fevereiro de 1955 cumprindo-o até janeiro de 1959. Diretor da Caixa Econômica Federal, governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), exerceu o cargo até 1964. 

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 30/03/2019 - 06:00

A BATALHA DE FLORIANÓPOLIS OU OTTO E A REVOLUÇÃO DE 30 

OSWALDO EUCLIDES DE SOUZA ARANHA -, advogado, diplomata e político-, falecido em 1960 aos 66 anos, um dos heróis da Revolução de 30, era amigo dileto de GETÚLIO DORNELLES VARGAS. Conselheiro e assessor presidencial, dizem que Vargas teria perguntado a Oswaldo sobre um bom guarda-livros. 
- Faze o seguinte: pergunta a quem escolheres quanto é 2 + 2. Se ele for bom mesmo, vai perguntar: quanto tu queres que dê?       

A REVOLUÇÃO

Pelas estações de Porto União (SC) e União da Vitória (PR) passaram 20 mil homens vindos do RS em direção ao centro do país (Apontamentos Históricos de União da Vitória 1768-1933, de Cleto da Silva). Henrique Rupp Júnior, de Florianópolis, envia telegrama a Oswaldo Aranha (1930) informando a movimentação dos revolucionários em solo barriga-verde. Desloca-se a Araranguá, onde a eles se junta. Fúlvio Aducci, presidente catarinense, também recebe o telegrama informando que 6 mil homens demandavam Blumenau. Mais 1,5 mil desciam de Bom Retiro e 8 mil homens da Coluna Litoral, comandados pelo general Ptolomeu de Assis Brasil, marchavam sobre Florianópolis. Ptolomeu, depois, seria interventor num governo provisório de SC (1930-1932). Henrique Rupp Júnior (Joinville, 27.3.1880 e 21.6.1959, Florianópolis, foi advogado, promotor público, jornalista, professor, empresário e político brasileiro).

Formado pela Faculdade de Direito de POA, Rupp Junior foi deputado à Assembleia Legislativa de SC por três legislaturas; deputado federal, participou ativamente da revolução de 30. Fundador da UDN (1945), envolveu-se nas crises políticas mais sérias do seu tempo. 
Um dos organizadores da Aliança Liberal em SC, afastou-se do grupo que cercou Getúlio Vargas após a Revolução de 30.
Jovem, recém-formado, foi promotor público. Superintendente (prefeito) de Florianópolis, viabilizou a transferência do cemitério público da cabeceira da ponte Hercílio Luz para Itacorubi, o atual Cemitério São Francisco de Assis.
Um dos fundadores do Jornal O Estado, dirigiu depois, O Dia. Com José Artur Boiteux, Henrique Fontes e Gil Costa, fundou a Faculdade de Direito de Florianópolis, sendo seu diretor por vários anos e catedrático da cadeira de Direito Comercial. 

DA LITERATURA

Coronel Valmir Lemos, autor de Tombados e Esquecidos: “no momento da chegada a Palhoça, o efetivo total da coluna não ultrapassava 2,5 mil homens (...), muito superior aos cerca de 500 que em terra defendiam a Ilha.” “Livros que relatam a história da Revolução de 30, são hoje importantes, para que não caiam no esquecimento fatos que tiveram desdobramentos no futuro do país (queda da Velha República)”. 
Passando para a reserva, Lemos mostrou-se disposto a revelar parte dessa história que nem a corporação conhecia: a marcha revolucionária em solo barriga-verde e, em especial, o combate da Serra da Garganta, em Anitápolis. Pesquisou, entrevistou e acessou documentos; escreveu, então, Tombados e Esquecidos. 

A BATALHA ILHOA 

O movimento revolucionário ganhou as ruas em 10.10.1930. Vargas lança o manifesto O Rio Grande de Pé Pelo Brasil e parte de trem, rumo ao RJ, então capital nacional. Forças Revolucionárias Gaúchas avançam pela ferrovia, principal ligação com o centro do país. Pelo caminho arrebatavam seguidores. 
Tinham como objetivo chegar ao Rio e depor o presidente Washington Luís, consistindo a estratégia em concentrar toda a força revolucionária em Ponta Grossa, PR, dali seguindo fortalecidos rumo à capital. 
Karla Leonora Dashe Nunes, professora, estudiosa da Revolução de 30, coordena o curso de especialização de História Militar na Unisul. Pesquisou, para tese de doutorado pela UFSC, durante cinco anos, parte do tempo no Arquivo Histórico do Exército, RJ. 
– Sou uma inconformada sabendo que muitos catarinenses ignoram este importante episódio da história, com reflexo direto na queda da Velha República -, observa. Lembra que a Força Pública Militar Catarinense, aliada às forças militares federais da Marinha e Exército, não conseguiram conter o movimento: 
– Memórias, narrativas e documentos produzidos sobre esses conflitos foram, curiosamente, deixados à parte, minimizados (...). Karla lembra que a Revolução era apoiada por parte da oligarquia, e que Fúlvio Aducci, governador recém-empossado, apoiava Washington Luís. 
Três catarinenses eram ministros de Washington Luís: Victor Konder (da Viação), general Nestor Sezefredo dos Passos (da Guerra) e o contra-almirante Arnaldo Siqueira Pinto da Luz (da Marinha). Isso pode explicar o comportamento do governo catarinense. Cargos ministeriais pareciam ter caráter de presente a SC e não de reconhecimento. 
Os irmãos Adolpho, Marcos e Victor Konder e também Fúlvio Aducci, entre outros, são os principais e mais influentes representantes do Partido Republicano Catarinense. 
E na Aliança Liberal? Nereu Ramos, Francisco Barreiros Fº, Oswaldo Mello e Gustavo Neves. Com a Revolução, os Ramos chegam ao poder, exercido até então pelos Konder Reis. Essa mudança substancial de estrutura de governo, é, segundo a professora, diferença visível em SC, depois de 30.

SC INVADIDA

SC é o primeiro Estado a ser invadido pelas Forças Revolucionárias, mas Florianópolis resiste até a Revolução triunfar em todo o país. De 1930 a 1945, o Estado foi governado por interventores federais. Nesses 15 anos, apenas de 1935 a 1937 o Poder Executivo de SC foi entregue ao governador eleito Nereu Ramos, mantido como interventor pelo Estado Novo. 
Nascido em Lages, Nereu Ramos foi ministro e senador. Morreu em desastre aéreo, domingo, 16.6.1958, em pleno exercício do mandato. Embarcara em avião da Cruzeiro do Sul em Florianópolis, com destino ao RJ. A aeronave preparava-se para escalar no aeroporto Afonso Pena de São José dos Pinhais, Grande Curitiba, quando sofreu problemas mecânicos e caiu. Morreram dezoito pessoas. Entre elas Nereu Ramos, ex-presidente da República, o go¬vernador catarinense Jorge Lacerda (PRP) e o deputado federal Leoberto Leal (PSD). Nereu e Lacerda eram as duas principais lideranças políticas de SC. A história da tragédia envolvendo avião Convair 440, voo 412 da Cruzeiro do Sul, prefixo PP-CEP, está magistralmente descrita no livro O Voo da Morte de Francisco José Pereira.  
Quintanista de Medicina, naquele domingo eu era plantonista no Pronto-Socorro Municipal do Hospital da Cruz Vermelha, Curitiba. Não trouxeram nenhuma vítima do sinistro aéreo ao Hospital. 

MAIS DEPOIMENTOS

Dona Luci Pacheco da Rosa, 92 anos, aposentada, memória privilegiada, residia ultimamente no Bairro do Estreito, Florianópolis. Era mocinha quando os revolucionários de 30 chegaram à cidade. Morava, então, em Ratones, interior da Ilha de SC. Na época, lembra, tudo era distante, informações eram poucas e o medo confrangia a população. 
– A gente trabalhava na roça. De noite, meus três irmãos fugiam para o mato para não serem levados. Avistávamos a luz forte (holofotes) dos navios; parecia que o coração ia sair pela boca. Muitas pessoas usavam barcos para se mudar. As casas ficavam fechadas e os animais, abandonados. Para ela, a cena mais triste era dos irmãos fugindo:
 – Tínhamos muito medo que, mesmo à noite, revolucionários aparecessem e levassem os rapazes. Não aconteceu, mas o medo ficou, como uma marca na gente.
Sob a Ponte Hercílio Luz, o aposentado Osman Noceti, 72 anos, recorda das escaramuças da Revolução de 30 na Capital. Ele ouviu dos mais velhos, relatos sobre a presença dos rebeldes no Estreito, especialmente quando a Divisão Litoral do general Ptolomeu de Assis Brasil ali estacionou. O bairro foi castigado pela artilharia dos navios de guerra fiéis ao governo. 
Entre 13 e 23/10, os bombardeios eram diários. Apesar de visados pela artilharia dos destroieres, revolucionários não sofreram uma só baixa. As granadas causaram estragos em propriedades de Palhoça, São José e Estreito. A ponte estaria eletrificada e a madeira do piso removida, impedindo a travessia para a Ilha. Finda a Revolução, Noceti, pescador por mais de 50 anos, ouviu:
 – Depois, casas de gente simpática à causa, foram demolidas e munição encontrada. 
Jutta Hagmann, quatro anos, quando os revolucionários chegaram a Joinville, o pai - funcionário do Banco do Brasil -, foi aconselhado a mudar-se para perto do Batalhão de Caçadores. 
Contava ter visto, certa manhã, passar caminhão com corpos de rebeldes e soldados do governo. A família não tinha envolvimento com os revolucionários, mas lembra da morte por afogamento do primo Laudelino Menezes, convocado para destacamento em Porto União. A tia passa, então, a odiar Vargas. 
Therezinha Wolff, assessora de Cultura em Porto União, autora de livros, cartilhas e artigos em jornais, reúne material fotográfico sobre a passagem dos revolucionários pela cidade. 
– A cor encarnada (vermelha) era moda, principalmente entre estudantes alinhados com as ideias revolucionários. A cidade ficou em polvorosa com a chegada do comboio trazendo Vargas, 16/10.
 O relógio da estação marcava 16h30min.  Vargas aclamado, recebeu flores. Discursou no Hotel Internacional, frente à praça. 
Muitas fotos, que guarda, foram entregues por moradores. Pensa que o assassinato de João Pessoa teria sido o maior motivo para eclosão do levante e ser necessário dar destaque maior ao fato.   
-Temos um obelisco em Porto União homenageando João Pessoa, deteriorado com o passar dos anos.
Francisco Karam, professor de Jornalismo da UFSC: “Muitos catarinenses apoiavam e engrossavam o contingente das Forças Revolucionárias. Vargas seguia pela ferrovia Marcelino Ramos (RS)-Porto União (SC). Os revolucionários, às vezes a cavalo ou de barco, alcançaram Joinville, Anitápolis, Blumenau e Florianópolis. 
- Na época, jornais transmitiam ideais. Uns engajados nas lutas revolucionárias, outros defensores da manutenção do poder e das elites. Bem antes dos anos 30, passamos por movimentos, com os jornais tendo grande engajamento, como a antimonarquia e abolição da escravatura. SC, distante do centro do país, recebia jornais com relativo atraso. Em média, publicações locais rodavam semanalmente. Alguns a cada 15, 30 dias. Muitas vezes, os fatos atropelavam o tempo. O jornal, ainda que pouco popular em razão do analfabetismo da população, teve seu destaque. Tiveram sua importância naquele momento”.

WASHINGTON LUÍS DEPOSTO

Os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto, mais o almirante Isaías de Noronha, depuseram Washington Luís em 24/10 e formaram junta de governo. Jornais que apoiavam o governo deposto foram destruídos; Júlio Prestes, Washington Luís e outros políticos da República Velha foram exilados. Às 15h de 3.11.1930, a junta militar passa o poder a Vargas no Palácio do Catete, encerrando a República Velha; oligarquias estaduais caem, exceto a mineira e a gaúcha. A Revolução de 30 durou exatos 24 dias, de sexta-feira, 10/10, data do manifesto de Vargas, até sua posse no Palácio do Catete em 3/11, segunda-feira.

VARGAS E O RÁDIO 

Vargas era homem de rádio. Soube explorar como ninguém o veículo de grande massa, seus discursos incendiavam a nação. Mas, sobre a Revolução de 30 em SC, o rádio não teve grande papel divulgador. Ricardo Medeiros, doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Lê Mans-França), disse: 
– Nossa primeira emissora de rádio é de Blumenau, 1937. Algumas famílias já tinham aparelhos e sintonizavam emissoras do Centro do país. Na época, rádio era coisa da elite e o analfabetismo grassava entre a população, moradora de lugares distantes, sem energia elétrica. Essa talvez a razão para a debilidade dos ecos Revolucionários em solo catarinense. 
Blumenau, cidade pioneira na área de comunicação em SC, nela surgiram: (1) a primeira emissora de rádio (Rádio Clube de Blumenau, 1931), (2) a primeira emissora de televisão (TV Coligadas, 1969), (3) o primeiro jornal offset (Jornal de Santa Catarina, 1971).
A história da Rádio Clube de Blumenau, primeira na cidade e no Estado, começa em 1929, com serviço de alto-falante instalado pelo radioamador João Medeiros Júnior. Em 1931, tais experiências passaram a utilizar transmissor de 150 watts e Medeiros Júnior fundou sociedade, captadora de recursos através de apólices, vendidas para amigos e conhecidos. Em 1935, a emissora entrou no ar em caráter definitivo. Quando das irradiações experimentais, Medeiros Júnior já conseguira junto ao governo federal a concessão do prefixo PRC-4. A Clube é a única emissora em SC com o prefixo PR, característico das mais antigas estações de rádio do país. Licença oficial para funcionamento definitivo da Clube saiu em 19.3.1936.  Neste período, a rádio estava mais potente, utilizando transmissor de 500 watts, instalado no alto do Morro dos Padres, enviando o sinal da emissora para toda a região. 

ESTE FINAL TEM A PRETENSÃO DE HOMENAGEAR DENIS LUCIANO QUE ELABORA AGUARDADA PUBLICAÇÃO SOBRE A HISTÓRIA DO RÁDIO EM CRICIÚMA.  OTTO FEUERSCHUETTE CONTINUA PRÓXIMA SEMANA

Por Dr. Henrique Packter 23/03/2019 - 06:00Atualizado em 23/03/2019 - 17:24

BARÃO DE ITARARÉ e OTTO FEUERSCHUETTE, homens de seu tempo, tinham diferença de pouco mais de uma década entre as datas de seus nascimentos, sendo OTTO o mais velho; tiveram currículos com episódios coincidentes. 

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (Apporelly, Barão de Itararé), jornalista, escritor, pioneiro no humorismo político brasileiro, nasceu no Rio Grande, RS, a 29.1.1895 e falece no RJ em 27.11.1971, 76 anos. OTTO nasce a 9.1.1881, 14 anos antes do nascimento de Apporelly, falecendo ambos em 1971. 

APPORELLY teria nascido no Uruguai numa carruagem, quando seus pais rumavam para fazenda da família materna. O político mineiro ITAMAR FRANCO pegou carona nessa história. Declarava-se nascido nas costas brasileiras quando a mãe pegara um Ita no norte, como na canção de Caymmi. Descobriu-se depois que era baiano, de Salvador. Na matrícula de ensino escolar, Apporelly foi registrado como nascido no Uruguai, enquanto seu título de eleitor sustenta naturalidade rio-grandense, sem menção de cidade. A mãe, Amélia, suicidou-se aos 18 anos, tendo ele 18 meses; seu pai matriculou-o mais tarde em internato jesuíta de São Leopoldo (RS). Coincidentemente, OTTO também estudou em São Leopoldo, no mesmo Colégio Jesuíta. 

Apparício Torelly iniciou-se no humorismo em jornalzinho de colégio, Capim Seco, satirizando a disciplina dos padres jesuítas de São Leopoldo (1908). OTTO está registrado como aluno interno do COLLEGIO de NOSSA SRA da CONCEIÇÃO, São Leopoldo, desde 1900, aos 19 anos, até 1904. O Colégio dos jesuítas, fundado em 1869, encerraria suas atividades em 1912. 

Em 1918, nas férias, Apporelly sofre AVC na fazenda do tio. Ele publicaria sonetos e artigos em revistas e jornais (Revista Kodak, A Máscara e Maneca). OTTO transfere-se para o RJ em 1905, outra coincidência na vida de ambos, que começaram o Curso de Medicina em POA, tendo Apporelly abandonado a faculdade (1919). 

A MANHA

Em 1925 APPORELLY ingressa no O Globo, de Irineu Marinho, e OTTO, em 1926, é reeleito prefeito de Tubarão. O jornal A PAZ (Tubarão, 10.10.1926) traz na primeira página grandiosa recepção prestada a OTTO que regressava de Florianópolis onde assistira à posse do governador Adolfo Konder, eleito a 1º.8.1926. Com a morte de Irineu, a convite de Mário Rodrigues (pai de Nelson Rodrigues), Apporelly colabora no jornal A MANHÃ.

Dezembro de 1925, Apparício Torelly estreava na primeira página com sonetos de humor, geralmente tendo como tema políticos da época. A coluna humorística fez sucesso e também na primeira página, em 1926, começou a escrever a coluna A Manhã tem mais… No mesmo ano criou semanário que se tornaria o maior e mais popular jornal de humor da nossa história. Bem ao seu estilo, o novo jornal do RJ chamava-se A MANHA. Usava a mesma tipologia do jornal A MANHÃ (sem o til), fazendo toda diferença, reforçada com a frase ladeando o título: "Quem não chora, não mama". Estreia tão libertadora não deixaria Apporelly perder a data: 13.5.1926.  

A BATALHA DE ITARARÉ 

APPORELLY passou à história como BARÃO DE ITARARÉ. Ele não era barão, é claro, mas deu-se o título de nobre e nobre se tornou. O primeiro nobre do humor no Brasil.

BIRRIEL NO RJ

De Santa Maria, Paulo Birriell, futuro líder estudantil em Santa Maria, RS, buscou tratamento para tuberculose pulmonar no RJ. Decidira matar-se após consultar alguns médicos. Procurou um outro médico ao acaso, um profissional sem nenhum prestígio, ele resolveu o caso e então vendeu com pequeno prejuízo o revólver que já comprara de segunda mão.

Em 24.10.1930, Birriel estava no RJ. Notou movimentação na Galeria Cruzeiro. Foi para lá: todo o mundo dizia que a Revolução vencera. Custou a acreditar, inclusive porque ele era meio contra a Aliança Liberal. Um conhecido convidou-o para ir até o Palácio Guanabara, onde diziam que o presidente já estava cercado. Preferiu ficar vagando pela avenida, que logo se encheu de povo; automóveis abertos passavam com gente de lenço vermelho a dar gritos de viva e morra.

Assistiram ao incêndio de O País. Viram a chegada dos bombeiros e gente do povo subindo em seus carros para impedir que eles trabalhassem. Quem saía da redação em chamas, trazia alguma coisa de lá; viu muitos carregando exemplares de dicionário português ilustrado, capa vermelha, parece que o Séguier.

Foram depois até o Monroe; um colega de faculdade, liberal exaltado, fazia discurso trepado num daqueles leões; todos pareciam ter prazer em pisar na grama, como se símbolo fosse de todas as liberdades que o povo iria desfrutar. Lembrava que era um dia nublado, às vezes caía chuvinha fraca, mas fazia calor e trouxera uma capa que comprara dias antes – a maior temeridade financeira que já praticara – nas Casas Leão, Rua do Ouvidor. 

Esqueceu-se da capa por um instante num banco da barca Rio - Niterói, e logo ela sumiu. Depois, Vargas adonou-se do país, todos riam-se felizes, mas até hoje não devolveram sua capa.

A BATALHA DE ITARARÉ

Na Revolução de 1930, partindo Vargas de trem rumo ao RJ, então capital federal, a imprensa propalou que haveria sangrenta batalha em Itararé. Batalha que ocorreria entre as tropas fiéis a Washington Luís e as da Aliança Liberal que, comandadas por Vargas, vinham do RS para o RJ a fim de tomar o poder. Itararé fica na divisa de SP com PR, mas, antes que houvesse a batalha mais sangrenta da América do Sul, acordos foram feitos. Uma junta governativa assumia o poder no RJ e conflito nenhum houve. Em outubro de 30, Apparício se autoproclamaria Duque nas páginas de A MANHA. O Barão de Itararé comentaria, depois:

“O Brasil é muito grande para tão poucos duques. Nós temos o quê por aqui? O Duque Amorim, que é o duque dançarino, que dança muito bem mas não briga e o Duque de Caxias que briga muito bem, mas não dança. E agora eu, que brigo e danço conforme a música. Mas, como prova de modéstia, passei de Duque a Barão”.

“Fizeram acordos. O Adolfo Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Fosse eu esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve”.    

Em 1934, fundou o Jornal do Povo. Nos seus escassos dez dias de vida, o jornal publicou em fascículos a história de João Cândido, um marinheiro da Revolta da Chibata, 1910. Em represália, o barão foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha, nunca identificados. Depois do affaire, voltou à redação do jornal e colocou placa na porta: Entre sem bater. 
A MANHA circulou até fins de 1935, quando o Barão foi preso, acusado de ligações com o PC Brasileiro, então clandestino. Libertado em dezembro de 1936, já exibia a robusta barba que passaria a cultivar. Retomou o jornal por curto período, novas interrupções ao longo de todo o Estado Novo, retornando em vascas espasmódicas até 1959, quando me formei e OTTO se aposentou.

Em 1º.3.1936, durante a ditadura e ano de eleições, Nereu Ramos interventor em SC, Marcolino Martins Cabral prefeito tubaronense nomeado em 1933, três eram os partidos políticos no país: Integralistas de Plínio Salgado, Republicanos alijados do poder por Vargas, Liberais, que apoiavam os revolucionários. Em Tubarão, liberais apoiavam Marcolino Cabral. OTTO, prefeito reeleito por duas vezes e deputado, médico na cidade desde 1910, era candidato independente. Marcolino venceu as eleições por 446 votos.  

As eleições de 1936 assinalam a primeira vez que Integralistas participam de pleito eleitoral no país. E não se saíram mal, conquistando 8 prefeituras e fazendo 72 vereadores em SC, tornado o terceiro estado brasileiro em número de integralistas, perdendo apenas para SP e BA. A eleição colocou 9 representantes do sul catarinense entre os 27 deputados estaduais.

Política

Candidato em 1947 a vereador do RJ, com o lema Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite! Foi eleito com 3669 votos, o oitavo mais votado do PCB, que conquistou 18 das 50 cadeiras, ou 36% dos eleitos! Porém, em janeiro de 1948, seus vereadores foram cassados: Um dia é da caça... os outros da cassação, anunciou A MANHA.

Últimos anos

No final dos anos 1950 foi deixando o humor de lado, passa a interessar-se por ciência, e pelo esoterismo; estudou Filosofia, as pirâmides do Egito e astrologia. Neste último campo desenvolveu o horóscopo biônico. Faleceu, dormindo, no apartamento das Laranjeiras, mesmo ano em que residi no RJ.
Opositor ferrenho de Vargas, conheciam-se dos tempos de colégio em POA, quando vivia na mesma pensão que hospedava Benjamin, irmão de Getúlio. 
Obras 
Em 1985, a Editora Record publica Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, seleção de textos de humor extraídos de A MANHÃ, em livro prefaciado por Jorge Amado. Máximas e Mínimas logo alcançou quatro edições.
Em 14.8.2011, o programa De lá pra cá, da TV Brasil, relembrou vida e obra do Barão de Itararé. Recentemente, seu espírito crítico influenciou a criação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, que reúne ativistas e movimentos sociais comprometidos com a democratização da mídia no Brasil.
Em 2014, o segundo episódio da série Resistir é Preciso, exibida pela TV Brasil, estudou a trajetória de Apporelly. 

BIOGRAFIA

APPORELLY ganhou biografia alentada, Entre Sem Bater — A Vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé (Casa da Palavra, 480 páginas), de Cláudio Figueiredo. Criador do jornal A MANHA, o Barão ridicularizava ricos, classe média e pobres. Não perdoava ninguém, sobretudo políticos, donos de jornal e intelectuais. Debochava de tudo e de todos e costumava dizer que, quando pobre come frango, um dos dois está doente. 
Há muito que Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971) fazia por merecer biografia mais requintada. Em 2003, o filósofo Leandro Konder lançou Barão de Itararé — O Humorista da Democracia (Brasiliense, 72 páginas). Bom texto de Konder, mas trata-se de biografia reduzida, não dando conta inteiramente do personagem.
Quatro anos depois, o jornalista Mouzar Benedito lançou o ótimo, mas lacunar Barão de Itararé — Herói de Três Séculos (Expressão Popular, 104 páginas). Finaliza com coletânea das melhores máximas do humorista.

APPORELLY: MÁXIMAS E MÍNIMAS

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.
Criança diz o que faz, velho diz o que fez, o idiota o que vai fazer.
Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.
Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.
Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.
O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
Quem dá aos pobres, empresta, adeus. 
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
Televisão: maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
Precisa-se de boa datilógrafa. Se for boa mesmo não precisa ser datilógrafa.
O fígado faz muito mal à bebida.
Casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.
Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo…
Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.
Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!
Devo tanto que, se eu chamar alguém de meu bem, o banco toma!
Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…
Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.
Todas as famílias têm sempre um imbecil. Terrível a situação do filho único.
Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 16/03/2019 - 06:00

Como já se disse, Otto exerceu a profissão médica por mais de 50 anos, até aposentar-se em 1960, aos 74 anos. Nasceu em Tubarão (9.4.1881), lá falecendo em 21.8.1971, 90 anos. 
Atendi OTTO em meu consultório, na época situado no HSJ, final dos anos 60. Personalidade fascinante, era extremamente objetivo e discorria sobre qualquer assunto com inacreditável destreza de intelecto e de comunicação. Perguntei-lhe da sua aposentadoria aos 74 anos:
- Muito bom! Todos os dias agora são domingos! 

FRISULCA, 1963

FRISULCA, depois AGROELIANE, depois JBS, foi dirigido por curto período pelo saudoso empresário EDSON GAIDZINSKI, que passou a dizer-se, também, salsicheiro. Dizia que era melhor não saber como salsichas e política são feitas; as primeiras porque não seriam consumidas e a segunda porque a ela nos rebelaríamos. 
Já que tocamos no assunto, não custa mostrar que o crescente mercado do consumo de frango tornou Frisulca (Frigorífico Sul Catarinense), fundado em 1963, o maior expoente da produção alimentícia no sul catarinense. 
Em 1971, SC já ocupava o 2º lugar no ranking da produção nacional de suínos, ficando atrás apenas do RS. Mas o grande trabalho assumido desde então foi o melhoramento genético dos animais com importação e disseminação de reprodutores de raça por toda SC e até a outras regiões do País.
Em 15.6.1963, reuniram-se em assembleia geral um grupo de interessados de Criciúma, Siderópolis e Tubarão para fundar sociedade anônima com capital inicial de dez milhões cruzeiros velhos. Era o Frigorífico Sul Catarinense S.A. (Frisulca) e visava, entre outras coisas, ao estudo da viabilidade do emprego de grandes capitais no Sul de SC para exploração da industrialização de produtos alimentares derivados de suínos, bovinos e outros, como subprodutos (farinhas de carne, de osso e sangue e outros). 
Para direção da Frisulca foram votados: Fidelis Back (Diretor-Presidente), Bertoldo Arns (Diretor Comercial), Inocêncio Warmling (Diretor Técnico). Membros efetivos do Conselho Fiscal: Fidelis Barato, Oberon Strazules e Ayrton Brandão e os suplentes Arlindo Junkes, Felix Albano Michels e Damásio Reis. Conselho Consultivo: Dom Anselmo Pietrulla, Sebastião Neto Campos, Dionísio Nuernberg, Leonardo Steiner e Adolfo Arns. Publicada no Diário Oficial ata da constituição, estatutos, lista dos subscritores com o número de ações subscritas, recibo do Banco INCO do depósito dos 100 % do capital subscrito e despacho da Junta Comercial do Estado. 
A emancipação do município de Forquilhinha é de 1990.

A PROPÓSITO DE OTTO FEUERSCHUETTE, REVOLUÇÃO DE 30, VARGAS E O ESTADO NOVO, A BATALHA DA SERRA DA GARGANTA E A BATALHA DE ITARARÉ (QUE NÃO HOUVE) 
Em 1930, após três mandatos como Prefeito de Tubarão, OTTO assumia assento na Assembleia Legislativa catarinense. 
Segundo a política do café com leite (SP-MG), era a vez de um mineiro presidir a República. Washington Luís deveria indicar para sua sucessão o presidente de MG, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, ou o vice-presidente da República, o mineiro Fernando de Melo Viana, que já presidira MG, ou outro mineiro. Mas o paulista Washington Luís, presidente brasileiro, decidiu que o advogado Júlio Prestes do Partido Republicano Paulista (PRP), outro paulista, o sucederia. 
Decisão esta, apoiada por dezessete dos vinte estados brasileiros da época (hoje, todos sabem, são 27). O Partido Republicano Mineiro (PRM) não aceitou a candidatura de Júlio, apoiando o governador de MG, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. O PRM buscou alianças noutros estados, e em 17.6.1929, Antônio Carlos indicou o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas para a presidência. Assim, os três estados dissidentes, RS, MG e PB formaram a Aliança Liberal (AL), apoiando Vargas para presidente e o paraibano João Pessoa de vice. 
Vargas defendia o voto secreto, reformas democráticas, independência do judiciário, anistia para os tenentes envolvidos nas diversas rebeliões ao longo dos anos 20, proteção à exportação do café e reformas sociais. Ganhou a adesão do Partido Democrático Paulista e da maior parte das oposições estaduais. A campanha mobilizou as grandes cidades. 
Em SC o Partido Republicano Catarinense venceu as eleições, na contramão dos ventos revolucionários soprados do sul. Éramos oposição a Vargas.

A REVOLUÇÃO DE 30

Como já se disse, OTTO elegeu-se Superintendente Municipal de Tubarão (atualmente Prefeito), em 12.11.1922, reeleito em 1926 e em 1930. Assumiu a função a 1º.1.1923, ficando até 4.10.1930. Deputado à Assembleia Legislativa de SC (1928 a 1930), impedido pela Revolução de 30, foi substituído por Silvino Moreira. Com o movimento político de 1930, o Poder Legislativo foi dissolvido nas três esferas (Federal, Estadual e Municipal). Otto volta à Medicina, agricultura e à pecuária.
Quebra da Bolsa de Nova Iorque, outubro de 1929, inicia crise econômica em escala mundial, esmagando economias com alguma participação nos mercados internacionais, caso do Brasil e nossas exportações de café. Em outubro de 1929, três meses após a indicação de Júlio Prestes à presidência da república, ocorre queda dos preços do café. Isto faz com que Washington Luís confirme candidatura do paulista Júlio Prestes, oficializada em 12/10, pleito dos cafeicultores de SP. MG, nosso segundo maior produtor de café, deveria apoiar SP, mas marchou ao lado do RS. 
Júlio Prestes, no governo de SP, destacou-se pela defesa do café. Transformou o Banespa em banco de hipotecas dos estoques de café, harmonizando os interesses dos cafeicultores com os interesses dos exportadores de Santos. Café representava 70% das exportações brasileiras; havia superprodução de café nas fazendas e grande estoque nas mãos do governo paulista. 
Revolução de 1930, movimento armado liderado por MG, PB e RS, culminou com Golpe de Estado, rebelião que depôs Washington Luís em 24.10.1930, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes, guindou Vargas ao posto maior da república e pôs fim à República Velha. 
Iniciando 1929, Washington Luís, fluminense da cidade de Macaé, radicado em SP desde jovem, indicou o presidente de SP, Júlio Prestes, para presidir a república. Ambos filiados ao Partido Republicano Paulista. Oligarcas das lideranças paulistas romperam aliança com os mineiros, apoiando Júlio Prestes como candidato à presidência da República. 

A SUCESSÃO DE WASHINGTON LUÍS 

A conturbada sucessão de Washington, que presidia o país desde 1926, ocasionou a Revolução de 1930. Na República Velha (1889 - 1930), as eleições para presidente da república ocorriam em 1º/3 e a posse do presidente eleito em 15/11, de quatro em quatro anos. Não existindo partidos políticos organizados, cabia ao presidente da república a condução de sua sucessão, conciliando os interesses dos partidos políticos de cada estado. 
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de MG, envia carta (20.6.1929) a Washington Luís, na qual indica Getúlio Vargas como candidato à presidência da república para mandato de 1930 a 1934. Escreveu Antônio Carlos: "Com o objetivo sincero de colaborar para uma solução conciliatória e de justiça, julguei acertado orientar-me na direção do nome do doutor Getúlio Vargas, por ser o de um político que se tem destacado no apoio firme e na completa solidariedade à política e à administração de V. Ex." 
Solução conciliatória significava candidato nem paulista, nem mineiro, como em 1918, quando o paraibano Epitácio Pessoa assumiu a presidência da República. Devido ao lançamento da candidatura Vargas, feita por Antônio Carlos, Washington Luís iniciou o processo sucessório consultando os presidentes dos 20 estados brasileiros. Indicou, então, Júlio Prestes de Albuquerque, como seu sucessor. 
O Telegrama do Nego, do presidente da Paraíba João Pessoa, é de 29.7.1929, nove dias após Antônio Carlos lançar Getúlio Vargas candidato à presidência da república. João Pessoa relata no telegrama a decisão tomada pelo Partido Republicano Paraibano: "Reunido o diretório do partido, sob minha presidência política, resolveu unanimemente não apoiar a candidatura do eminente Dr. Júlio Prestes à sucessão presidencial da República".
Na época, negociações políticas (as chamadas démarches), realizavam-se através de longas cartas. Washington Luís divulgou pela imprensa várias delas recebidas de Vargas e de AC de Andrada.  
Políticos de MG desgostosos com a indicação de Júlio Prestes lançaram, então, Getúlio como candidato de oposição a Júlio Prestes. Antônio Carlos ficaria conhecido como o Arquiteto da Revolução de 1930.
MG divide-se: políticos ligados ao vice-presidente da república Melo Viana e ao ministro da Justiça Augusto Viana do Castelo mantiveram apoio a Júlio Prestes, fazendo oposição à política carlista e ao Partido Republicano Mineiro.
Em 28.8.1929, em carta a Júlio Prestes, o escritor Monteiro Lobato, representante comercial do Brasil nos EUA, torce pela "vitória na campanha em perspectiva", e "sua política na presidência significará o que de mais precisa o Brasil: continuidade administrativa!". Curiosa previsão às avessas: Vargas estava para assumir a presidência por 15 anos! Washington Luís era por natureza conciliador (assumiu a presidência libertando todos os presos políticos, civis e militares).

A ALIANÇA LIBERAL E O TENENTISMO 

Os três estados dissidentes (RS, MG, PB) e partidos políticos de oposição de diversos estados articulam frente ampla de oposição, a Aliança Liberal (agosto de 1929), oposição ao intento de Washington Luís e de dezessete estados de eleger Júlio Prestes. 
A Aliança Liberal foi formalizada a 20.9.1929 em convenção dos estados e partidos oposicionistas no RJ, presidida por Antônio Carlos de Andrada, lançando seus candidatos às eleições presidenciais: Getúlio Dornelles Vargas (para presidente) e João Pessoa, presidente da Paraíba, para a vice-presidência. Washington Luís tentou dissuadi-los, desistirem dessa iniciativa. Em carta dirigida a Andrada, argumentou, sem êxito, que dezessete estados apoiavam a candidatura oficial. 

Em 5/8, líderes das bancadas mineira e gaúcha na Câmara dos Deputados declararam não fazer mais parte da maioria parlamentar governista.
Em 12.10.1929, realizou-se no RJ convenção dos 17 estados governistas que indicou Júlio Prestes de Albuquerque candidato à presidência da República e Vital Soares, presidente da Bahia, do Partido Republicano Baiano, a vice-presidente.
Getúlio Vargas enviou o senador Firmino Paim Filho para dialogar com Washington Luís e Júlio Prestes. Em dezembro de 1929, formalizou-se acordo, no qual Vargas aceitaria os resultados das eleições e, se derrotada fosse a Aliança Liberal, comprometia-se a apoiar Júlio Prestes. Em troca, Washington Luís não apoiaria a oposição gaúcha a Getúlio, oposição praticamente inexistente, pois Getúlio unira o RS. 
Em 2.1.1930, Getúlio Vargas lê, na Esplanada do Castelo, RJ, a Plataforma da Aliança Liberal, tratando dos principais problemas brasileiros, destaque para questões sociais: " O pouco que possuímos em matéria de legislação social não é aplicada ou só o é em parte mínima, esporadicamente, apesar dos compromissos que assumimos a respeito, como signatários do Tratado de Versalhes".
Criticou a política de valorização do café, adotada pelo governo: "A valorização do café, como se fazia, teve tríplice efeito negativo: diminuiu o consumo, fez surgir sucedâneos e intensificou a concorrência, que, se era precária antes do plano brasileiro, este a converteu em opulenta fonte de ganho. Foram, com efeito, os produtores estrangeiros e não os nossos, paradoxalmente, os beneficiários da valorização que aqui se pôs em prática".
A Aliança Liberal teve o apoio de intelectuais como José Américo de Almeida, João Neves da Fontoura, Lindolfo Collor, Virgílio Alvim e Afrânio de Melo Franco, Júlio de Mesquita Filho e Pedro Ernesto. Também das chamadas classes liberais que se opunham às classes conservadoras formadas pelas associações comerciais e fazendeiros. No RS, Osvaldo Aranha foi o grande articulador da Aliança Liberal.
Em 1º.3.1930, nas eleições para presidente da República, vitoria-se o presidente do estado de SP, Júlio Prestes, candidato governista. Não chegou a tomar posse, por golpe de estado desencadeado a 3.10.1930, 7 meses depois, e foi exilado. Vargas assumiu a chefia do Governo Provisório em 3.11.1930, data que marca o fim da República Velha. 

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 09/03/2019 - 06:00Atualizado em 11/03/2019 - 00:35

GORRO OU BARRETE

Sendo Otto pessoa alta, seus pés tocavam, às vezes, o leito da ferrovia quando se deslocava em troles nos atendimentos distantes. Este problema foi solucionado pela confecção de um pequeno banco para sentar-se no veículo.
Otto nas fotos mais recentes sempre era visto com gorro branco. Nos ofícios religiosos usava barrete de outra cor. Os filhos mais velhos de Otto recordam sempre tê-lo visto com o gorro. Dizia usá-lo porque sempre sentava à frente quando se acomodava nos troles. Mas, o vento, cortado pela aba do chapéu, atingia-lhe a cabeça provocando forte cefaleia. Amarrando lenço sobre a fronte, abaixo da pala do chapéu, aliviava sensivelmente a dor de cabeça.  Vem daí o hábito, tornado característica de Otto, uso permanente de gorro, jamais dispensando-o, mesmo para dormir.

MARTINHO GHIZZO, SUBPREFEITO E SOGRO 

Nascido na Itália em Farra de Soligo, Treviso, saiu da Itália com o pai, viúvo, em 1887, aos 11 anos de idade, para estabelecer-se em Azambuja (hoje município de XIII de Maio).
Após a Constituição de 1928 o cargo de subprefeito era de livre admissão do prefeito. Otto escolheu-o para este cargo.
Deixou importantes obras como a abertura da Serra do Doze, da estrada que liga Tubarão a São Ludgero, várias pontes, estrada de ferro Próspera-Criciúma. Nesta última obra contratou cerca de 400 colonos (informação do filho João Ghizzo), tornando-se um dos homens mais ricos da região.
Trabalhou como empreiteiro de estradas de ferro associado a Júlio Boppré, industrial proprietário de duas fábricas de banha, estabelecido com casa de negócio em Rio Coruja, município de XIII de Maio. Também era fazendeiro e político. A fábrica de banha Planeta, de Martinho Ghizzo, tinha sua produção levada por carro de boi até Pedras Grandes seguindo dali por trem até Laguna onde era embarcada em navio para ser consumida no RJ.
Martinho possuía escritório no RJ, dirigido por algum tempo pelo filho Afonso Ghizzo (28.2.1910, Tubarão/1980, Araranguá), filho de Martinho Ghizzo e de Vitória Furghesti Ghizzo, casou-se em Araranguá, 1933, com Alice Furtado Ghizzo. O casal teve cinco filhos, dentre eles o médico e político Martinho Ghizzo e o promotor público de Justiça Afonso Ghizzo. 
Afonso, filho de Martinho Ghizzo é pai do médico e político araranguaense, Martinho Ghizzo Neto, graduado pela Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria, RS.  
Na segunda fábrica de Martinho Ghizzo em Lageado, divisa de Tubarão e XIII de Maio, canoas movidas a vela transportavam pela lagoa de Garopaba, a banha e charque de carne de porco para Laguna, seguindo por navio ao RJ. No Cine Azul de Tubarão, de sua propriedade, ao lado do Hotel Mussi, exibiu-se com grande sucesso Pedro Raymundo. No dia do espetáculo multidão nunca vista esperava o início da apresentação frente ao cinema. Amedrontado pela enormidade do público que tentava entrar, Martinho retardou o início do show. Mais da metade das instalações do Cine foram depredadas pelo público alucinado quando adentrou a casa. Otto Furghestti, sobrinho de Martinho, contou em livro as histórias do Cine Azul.  
Durante a Segunda Grande Guerra, o cinema foi totalmente depredado. Dispunha ele de gerador elétrico, pois eram frequentes as quedas de energia. Uma vez ligado, o gerador produzia barulho ensurdecedor na sala de projeção, estrondos produzidos por batatas colocadas dentro do seu escapamento, brincadeirinha de vizinhos.

PEDRO RAYMUNDO

Nasceu a 29.6.1906, Imaruí, SC, falecendo a 9.7.1973, RJ, 67 anos.
Autor e intérprete de Adeus Mariana, um dos maiores sucessos da música popular brasileira de todos os tempos, gravada em 1943, 75 anos atrás.

Adeus Mariana
Nasci lá na cidade, me casei na serra 
Com minha Mariana moça lá de fora 
Um dia estranhei o carinho dela 
Disse: - adeus Mariana, que eu já vou embora! 

É gaúcha de verdade de quatro costados, 
Só usa chapéu grande de bombacha e espora, 
E eu que estava vendo o caso complicado 
Disse: - Adeus Mariana, que eu já vou embora! 

Nem bem rodemo o dia me tirou da cama 
Selou o meu tordilho e saiu campo a fora 
E eu fiquei danado e saí dizendo: 
- adeus Mariana, que eu já vou embora! 

Ela não disse nada, mas ficou cismando 
Se era desta vez que eu daria o fora 
Segurou a açoiteira e veio contra mim 
Eu disse: - larga Mariana que eu não vou embora! 

E ela de zangada foi quebrando tudo 
Pegou a minha roupa e jogou porta a fora 
Agarrei, fiz uma trouxa e saí dizendo: 
- Adeus, Mariana que eu já vou embora!

Filho do pescador e sanfoneiro João Felisberto Raymundo, tocava sanfona desde os oito anos. Mais tarde, integrou em Imaruí, a banda Amor à Ordem, apresentando-se também em festinhas. Tornou-se músico de sucesso cantando melodias gauchescas acompanhando-se ao acordeão, instrumento de um fole, um diapasão e duas caixas harmônicas de madeira. 
Se vivo fosse, Pedro Raymundo estaria completando 112 anos. Já velho e alquebrado, retornou ao sul de SC. Os últimos meses de sua vida passou-os em Lauro Muller, onde construiu casinha ao lado de uma bica d’água, ao pé do morro da Igreja Matriz. Pescador até os 17 anos, passou a trabalhar na construção da Estrada de Ferro Esplanada-Rio Deserto, SC, em 1923. Casado desde 1926, morou em Lauro Muller, Blumenau e Laguna SC, fixando-se em POA, RS, 1929.
No livro Morro da Fumaça e Sua Divina e Humana Comédia, CLAUDINO BIFF entrevista JORGE CECHINEL, 27.7.1988, aos 84 anos, pág.76. Ele assim se refere ao notável músico, intérprete e compositor: “Dancei muitos bailes ao som da sanfona dele, em Morro da Fumaça, Rua do Fogo, no armazém da estrada de ferro. Ele e muitos operários vieram do Imaruí. Era bom no teclado já naquele tempo. Ele foi o filho mais ilustre do Imaruí”.
Em POA foi condutor de bondes e inspetor de tráfego, tocando sanfona em cafés do Mercado nas horas de folga. Em 1939 vai trabalhar na Rádio Farroupilha, POA, onde organizou o Quarteto dos Tauras. Em 1942 excursiona pelo interior do RS e em 1943 vai ao RJ onde se apresentou no show Muraro da Rádio Mayrink Veiga, e em programas da Rádio Tupi. Levado por Almirante para a Rádio Nacional, contratado pela emissora, transferiu-se definitivamente para o RJ. Lançou em 1943 pela Colúmbia seu primeiro disco, com o choro Tico-tico no terreiro e o xotis Adeus Mariana (ambos de sua autoria). 

Descontração e exuberância valeram a Pedro Raymundo o slogan de O Gaúcho Alegre do Rádio: alternava nas apresentações, músicas alegres e outras sentimentais. Primeiro artista típico gaúcho a alcançar fama nacional, atuou nos filmes Uma luz na estrada (Alberto Pieralise,1949) e Natureza gaúcha (Rafael Mancini, 1958).
Apresentava-se com bombachas, lenço no pescoço, botas, esporas, chapéu e guaiaca. Percebendo a aceitação do traje regional, Luís Gonzaga tomado de coragem, passou a apresentar-se como sertanejo nordestino. 

PEDRO RAYMUNDO EM LAURO MÜLLER E CRICIÚMA

Em 6.8.1968, uma terça-feira, aos 62 anos, PEDRO RAYMUNDO procurou-me como cliente no HSJ de Criciúma. Vinha de Lauro Müller, declarando como profissão ser radialista e residir no RJ. Estava sem visão no olho direito e via 0,8 no olho esquerdo, sendo 1,0 a visão normal. Fora operado de Glaucoma no RJ pelo grande Professor Luiz Eurico Ferreira, dois anos antes. A pressão intraocular (PIO) estava normalizada, mas já apresentava catarata incipiente em ambos os olhos. Tinha diabetes e fazia uso do medicamento Diabinese. Receitei-lhe óculos de grau. Submeteu-se a exame de campo visual na mesma data.

Retornou em 24.1.1973, uma quarta-feira, sendo atendido pelo meu irmão Boris Pakter. queixando-se de tontura. Retornou em 14.3.1973 com pressão arterial 12X6, PIO 18 mm em ambos os olhos e estava em tratamento de úlcera gástrica. A visão do olho esquerdo era 0,7 com óculos e repetiu exame de campo visual em 17.3.1973. Faleceria 4 meses depois em 9.7.1973, no RJ, de complicações do diabetes.

Obras

Saudade de Laguna, valsa, 1943; Se Deus quiser, xótis, 1943; Adeus, Mariana, xótis, 1943; Tico-tico no terreiro, choro, 1943, Adeus, moçada, polca, 1944; Escadaria, choro, 1944; Gaúcho largado, toada, 1944; Mágoas de amor, tango, 1945; Meu coração te fala, valsa, 1945; Chico da roda, chorinho, 1947; Na casa do Zé Bedeu, polca, 1947; Tá tudo errado, polca, 1948; Prece, tango, 1950; Oriental, baião, 1954; Sanfoninha, velha amiga, polca, 1961.
Walter Filho, locutor na Rádio Cruz de Malta declarou: “tive a honra de ler as cartas endereçadas a ele (...)”. Isto, pelo fato de Pedro Raymundo estar praticamente cego pelo glaucoma.
O depoimento de Walter Filho da rádio ALESC, Assembleia Legislativa de SC, em Florianópolis, é valioso também, por registrar que Pedro Raymundo no final da vida continuava o homem simples que cativou o país pela criatividade, voz e pelo som de seu acordeão, que não era de teclado.
Walter lembra: “A sanfona, hoje exposta no museu de Laguna, ficava embaixo da mesa de locução. Seguidamente tentávamos, eu e outros colegas de trabalho, tirar algum som, mas não tinha jeito! Ela só obedecia ao dono, o artista. Isto se passou em 1972 e o programa de rádio era das 6 ás 7 da manhã. Pedro Raymundo, na maior parte dos programas tocava e cantava ao vivo. Por isso, a sanfona ficava no estúdio da Cruz de Malta. Quando terminava Pedro Raymundo Amanhece Cantando saía para comprar pão e depois divertia-se com os velhos amigos jogando palito e bocha. Voltou pro RJ onde morreu após complicações do diabetes”. 

PAULO CALIL, LÍBANO-LAGUNENSE

Paulo Calil, nasceu a 28.7.1878 no Líbano, vindo para o Brasil em 1895, 17 anos de idade. Naturalizado brasileiro, radicou-se na Laguna.
Casou-se em Tubarão,1905, com Diba Calil, cidadã síria, filha de Calil Elias Balich. Tiveram seis filhos, dentre eles Armando Calil, advogado, Deputado à Assembleia Constituinte e Legislativa do Estado (1947 – 1951), depois, Procurador e Chefe da Procuradoria da ALESC (1952 – 1968) e Secretário de Estado. 
Pery Barreto, quando da morte de Paulo Calil, escreveu Laguna Ficou Menor: “(...) foi um conciliador. Os conflitos de opiniões que agitavam Laguna, muitas vezes se desmoronaram no seu decidido e vitorioso esforço conciliatório”.
Paulo Calil foi comerciante alegre e espirituoso, de atitudes pitorescas, como quando adquiriu lote de tecidos em peças, de um barco que fez água. Colocado o lote em promoção, a preço módico, sua compra teve grande aceitação; passou a misturar (molhando antes), as peças de tecidos encalhadas da loja. A população comentava que aquele estoque não terminava nunca...
Na casa comercial trabalharam grandes personagens citadinos, como Miguel e Batista Abrahão, Donga Mattos, depois tradicionais comerciantes lagunenses. Pedro Raymundo, vindo para Laguna (1927), foi funcionário da casa Novo Paraíso, até transferir-se para POA. Antes, conheceu Manoel e Agenor Bessa, Arnaldo Carneiro, Pedro Maria, Roberto Natividade e João Rosa, o Chicão, formando o Conjunto Choro Chorado (1928).
Paulo Calil construiu prédios na rua da praia, além de sua residência (Gustavo Richard com Barão do Rio Branco) e o edifício do Hotel Paraíso, mais alto da cidade e região. Inaugurado em 1926, possuía 30 quartos, sala de visitas, copa, salão de refeições, cozinha ampla e bem equipada. Habid Succar, depois Abílio Paulo, arrendaram-no.
Construiu prédio onde funcionou a antiga Telefônica, o prédio de sua loja Novo Paraiso, Gustavo Richard nº 114; possuía casas nas ruas Barão do Rio Branco, Carioca, no Magalhães e Mar Grosso. Fazendo fé no futuro da praia do Mar-Grosso, constrói entre 36 e 38, o primeiro hotel praiano da Laguna, o Balneário do Mar-Grosso, rua Engº Gaffrée.
Nunca aprendeu a falar/escrever corretamente o português, falava com forte sotaque árabe, como temos riscadinas e chitinas.
Tradicionalmente distribuía presentes de Natal para a população menos favorecida. Manhã cedo, fila interminável de mulheres, velhos e crianças se formava na porta de sua loja …
Membro da Loja Maçônica Fraternidade Lagunense, ajudou irmãos necessitados, doou terreno para construção da casa onde hoje está localizada a loja maçônica, à rua Voluntário Benevides. Contribuiu monetariamente para sua construção, também ajudando a saldar as dívidas que restaram da edificação. 
Faleceu a 29.1.1944.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 02/03/2019 - 06:00

DESEJO AOS LEITORES DA TRIBUNA UM BOM, FELIZ e ANIMADO CARNAVAL!

RECORDE DE CIRURGIAS 

Hoje, na área da Oftalmologia, é comum o especialista realizar 20 a 30 cirurgias para remoção de Catarata e Implante de Lente Intraocular em mutirões do SUS, sob bloqueio anestésico ou anestesia tópica, em poucas horas. Realiza a operação através de pequena incisão ocular de menos de 3 mm. Não há suturas, curativo ocular permanece por um dia apenas com restabelecimento rápido da visão do paciente. Também é comum na oftalmologia o tratamento de certas doenças retinianas e do vítreo com injeções intraoculares de antiangiogênicos, executadas a cada 30 dias, geralmente três injeções, dependendo da severidade do problema. A execução não excede 5 minutos, sendo possível realizar elevado número de tratamentos numa movimentada manhã. 
OTTO atuava simultaneamente em várias especialidades. Num mesmo dia era Oftalmologista, ORL, Obstetra, Ginecologista, Clínico geral, Ortopedista. Naquela época o número de cirurgias que OTTO realizava às vezes assombrava médicos visitantes e leigos. Numa ocasião chega em casa extremamente fatigado, altas horas da noite, após executar doze cirurgias, auxiliado pelo Dr. Miguel Boabaid. Na época as anestesias eram realizadas por Irmãs da Divina Providência, da enfermagem do HNSC. ALVES DE BRITO, médico em Florianópolis, visitando o HNSC de Tubarão, presenciou cirurgias realizadas por OTTO. Foram seis cirurgias, o cirurgião nem mesmo deixando a sala-cirúrgica entre os atos operatórios. Alves de Brito escreveu e mandou publicar no Jornal A IMPRENSA, 9.9.1950, primeira página, artigo intitulado O CIRURGIÃO DE FERRO. OTTO já ultrapassara os sessenta anos.

OTTO FEUERSCHUETTE, OSVALDO DELLA GIUSTINA e UNISUL 

Todo mundo sabe quem é OSVALDO DELLA GIUSTINA, filho de Gregório e Elizabeth Bussolo Della Giustina, nascido em Orleans, SC, 21.7.1936. Bacharel em Filosofia pela PUC-RS, com pós-graduações em Planejamento Estratégico e Planejamento de Desenvolvimento e Segurança. Também formado em Jornalismo, foi deputado estadual à Assembleia Legislativa de SC (1963 — 1967), pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Membro da Academia Catarinense de Letras, empossado em 26.10.1984, ocupa a cadeira 34.
Criou e dirigiu por 15 anos a Fundação Educacional do Sul de SC (FESSC), hoje Unisul. Implantou a Associação Catarinense das Fundações Educacionais (Acafe), que congrega as doze universidades regionais catarinenses. No Tocantins implantou a Fundação Universidade do Tocantins (Unitins), da qual foi Reitor. Foi também Secretário de Estado do Bem Estar Social em SC, Secretário de Ensino Superior e Chefe de Gabinete do Governo de Tocantins. Chefe em Brasília do Gabinete do MEC, do Conselho Federal de Educação e do Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal. Foi, ainda, Adjunto da Secretaria de Imprensa da Presidência da República. Publicou dezenas de livros, dentre os quais Reflexões sobre a Educação, A Revolução do Terceiro Milênio e Participação e Solidariedade. Escreveu Cícero Dias e seu Longo Processo de Morrer, finalista em concurso nacional de romances e A Menina dos Anjos que inspira um longa-metragem sobre o sentido da vida da heroína do romance.
Osvaldo, recém-nascido, amamentado pela mãe, foi ela acometida por sério problema de saúde, obrigando sua internação em Tubarão no HNSC, aos cuidados de OTTO. O Hospital Santa Otília de Orleans é de 4.10.1938 e Della Giustina nasceu em 21.7.1936.
Aos 33 anos de idade interna-se a mãe em 6.2.1937, alta ocorrendo a 3 de março, 26 dias depois, com diagnóstico de DIÁSTOLE, espécie de cardiopatia de alto risco. Quase diariamente o pai apanhava o trem para acompanhar a evolução da doença de Elizabeth. Certa ocasião o pai obrigou-se a permanecer por quase uma semana em Tubarão devido ao agravamento da doença. Felizmente, o quadro começou a apresentar melhoras, alcançando a paciente, cura. Enquanto isso, o menino Osvaldo foi amamentado pela irmã da mãe e devido a alguma incompatibilidade láctea seu peso regrediu ocorrendo declínio da saúde. Parecia difícil a sobrevivência do lactente.   
Costume da época, foi velado, procedimento reservado a quem estivesse prestes a morrer. Consistia na colocação de uma vela acesa nas mãos do moribundo enquanto os presentes rezavam o terço. Antes da conclusão deste ritual da morte, Osvaldo passou a apresentar melhoras e assim foi até o retorno da mãe, de Tubarão. Voltando ao seio materno, mãe e filho recuperam-se. Osvaldo revela que deve a vida de sua mãe e a sua a Deus e ao Dr. OTTO.  

CTGs

Irmoto José Feuerschuette, autor da biografia Doutor Otto, o Sacerdote da Medicina, pág. 93, faz relato de episódio da vida de Itamar Mattos, Tio Preto ou Preto Velho, proprietário do CTG PRETO VELHO, Pescaria Brava, SC.
Apresentado como importante figura nos meios tradicionalistas gaúchos e catarinenses e ex-Presidente da Federação Catarinense de Tradicionalismo Gaúcho, durante anos. Sua mãe exercia o magistério em São José do Cerrito, SC, mudando-se em 1930 para Gravatal. Não existindo estradas transitáveis, a mudança foi realizada por comboio de 16 mulas que desceram do planalto serrano para o litoral através da Serra do Rio do Rastro, percurso que demandou 16 dias. A mãe, Elvira Moraes Mattos, estava grávida de Itamar, seu segundo filho, nascido em 23.11.1930, 16 dias após a chegada da família.
Férias escolares eram em dezembro e janeiro, quando professores procuravam Florianópolis para receber os vencimentos. 
A mãe seguiu a cavalo para a capital. Os animais utilizados nas lides caseiras não eram afeitos a extenuante cavalgar. Onde hoje se situa o Morro dos Cavalos, na Palhoça, era possível alugar animais substitutos descansados, restituídos aos proprietários no retorno. O nome do local talvez se deva a esse comércio. 
Preto Velho, 17 anos, 1947, foi vítima de disparo acidental de arma de fogo, revólver calibre 32. Atingido no lado direito do tórax, pouco abaixo da clavícula, o projétil transfixou o tórax.  Tossindo muito e eliminando sangue pela boca, foi atendido e internado no HNSC por OTTO. Preto Velho relata que era visitado pelo médico na enfermaria todos os dias, próximo às 13h, quando o médico costumava encerrar as cirurgias do dia. Às vezes era acompanhado nessas visitas pela esposa, vestindo luto cerrado pela morte do pai, Martinho Ghizzo. 
Conforme já relatei, OTTO casou-se com Carlota Rosa, ainda estudante no RJ, 1909. O primeiro filho, Ruy Cezar, nasceu no RJ em 22.2.1912. Carlota faleceu em 28.1.1929. OTTO voltou a casar-se, desta feita com Ida Wendhausen Ávila em 1929. Ida veio a falecer em 15.2.1940. Otto casa-se, então, com Irma Ghizzo, filha do amigo e político Martinho Ghizzo, seu subprefeito de 1928 a 1930. IRMOTO é fruto deste casamento que termina em 11.8.1949 com OTTO viúvo pela terceira vez. Aos 68 anos, pai de 11 filhos, OTTO desposa Verônica Kuhnen. 

EPÍLOGO PARA PRETO VELHO

Como vinha escrevendo antes de entrar em divagações matrimoniais, Preto Velho, baleado acidentalmente, estava para receber alta hospitalar por OTTO.
Internado por 31 dias, sem recursos para honrar as despesas médico-hospitalares, deixou seu relógio para as Irmãs. Quanto a OTTO, este já se habituara a nada receber nesses casos.

AINDA OS CTGs  

Tradicionalismo gaúcho ou movimento tradicionalista rio-grandense, é ação cívico-cultural que valoriza e preserva tradições gauchescas do RS. João Cezimbra Jacques ambicionava criar movimento capaz de unir e congregar a família gaúcha em torno de ideais comuns. Fundou em POA, a 22.5.1898, o Grêmio Gaúcho.
Transferido para o RJ, Cezimbra Jacques vem a morrer alguns anos mais tarde, sem retornar aos pagos. A União Gaúcha resiste vários anos, mas paralisa suas atividades. Do Centro Gaúcho (Bagé) e do Grêmio Gaúcho (Santa Maria), depois da festa de fundação, sumiram. O Grêmio Gaúcho de POA abandona sua missão pioneira e, apesar do vasto e valioso patrimônio em imóveis que ainda hoje tem, é só um clube suburbano, fechado, na mão de poucos, inestimável em função do seu valor histórico.

TRADICIONALISMO FRACASSA NA PRIMEIRA TENTATIVA

A ida de Cezimbra Jacques para o Rio esfriou o impulso inicial. O gaúcho, seus usos e costumes eram uma realidade próxima. Ninguém sente saudade do que está perto, nem defende o que não está ameaçado. Quem buscava o Grêmio Gaúcho para ver cavalhadas, carreiras de cancha reta, fandangos, churrascos ou trajes gauchescos? Isso, no RS da virada do século, era coisa de todos os dias e de todos os lugares. 
A 31.1.1938, grupo de moços que falavam português com forte sotaque alemão fundou em Lomba Grande a Sociedade Gaúcha Lombagrandense, entidade forte, rica, respeitada - ainda existente. A princípio hostilizada, chamavam-na Clube da Alfafa. 
A 19.10.1943, o Capitão gaúcho Laureano Medeiros fundou o Clube Farroupilha, que funciona sem interrupções por todos esses anos, exclusivamente para o culto das tradições gauchescas. Ijuí foi cidade cenário desse acontecimento histórico e pioneiro, cidade onde nasceu Dunga, aquele da seleção... 
Em 1937 Getúlio Vargas proibira o uso de símbolos estaduais: hino, bandeira, brasão. Finda a guerra (1945), com a queda de Vargas há um retorno à democracia, tardando, no entanto, a reaparecerem os símbolos estaduais gaúchos.

TRADIÇÃO

Do latim traditio, traditions, significa trazer até, entregar. Em Direito, tradição significa entrega. Em sentido mais amplo é o culto dos valores legados pelos antepassados. Todo grupo social, toda nação tem sua própria escala de valores e é essa escala que distingue os povos. Gaúchos distinguem-se de outros brasileiros – e de outras nacionalidades – porque têm característica escala de valores, cultuando princípios bem definidos.

NATIVISMO

O amor que a pessoa tem pelo chão onde nasceu. Os valores do culto à Tradição mais característicos do RS são nativismo, hospitalidade, honra, respeito à palavra empenhada, cavalheirismo, coragem, além de outros. No vocabulário gaúcho há duas palavras ligadas ao Nativismo: pago (onde se nasceu) e querência (onde se vive). Às vezes se confundem, pois pessoas podem nascer e viver no mesmo lugar. 
- De onde tu és cria, vivente? 
- Sou dos pagos do Alegrete, mas estou aquerenciado em Irai. 
Considerar Bairrismo como caricatura do Nativismo. Existem rivalidades bairristas entre cidades gaúchas: Alegrete x Uruguaiana, Rio Grande x Pelotas, Caxias x Bento Gonçalves e por aí vai. E apelidos: alegretenses são café-com-leite que chamam uruguaianenses de farinheiros e os quaraienses de barbicachos. Moradores de Tupanciretã são repolhos que chamam castilhenses de fincão e papudos os de Quevedos. Moradores de Rio Grande são papa-areias, ou bicuíras e mergulhões os de Santa Vitória do Palmar. Difícil existir povo tão nativista como o gaúcho. 
Em 1947, João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, do Livramento, estudante do Júlio de Castilhos, o JULINHO, soube que o governo estadual ia trazer de Santana do Livramento os restos mortais do herói farroupilha David Canabarro. Paixão Cortes, mais sete companheiros, todos com montaria e arreios, forneceram escolta gauchesca de honra aos despojos. 
Na Praça da Alfândega, onde fizeram alto para cerimônia, conhecem Luiz Carlos Barbosa Lessa, de Piratini, também do Julinho. Ele e Glaucus Saraiva juntam-se ao grupo. Este é mais velho, de óculos, poeta conhecido. Assim meio por acaso, reuniu-se a Santíssima Trindade do Tradicionalismo Gaúcho: Paixão (dínamo propulsor), Lessa (estudioso, teórico), Glaucus Saraiva (organizador). Iniciativa de Paixão, realizam no JULINHO a primeira Ronda Crioula do Tradicionalismo. Mais longa de todas, dura 12 dias. Piquete de cinco cavalarianos recolhe no Altar da Pátria, zero hora de 8.9.1947, mudinha da chama simbólica. Galope rápido, queimando as mãos, levam a chama para inflamar o Candeeiro Crioulo, armado no Julinho. Ardeu até 20.9.1947, Dia do Gaúcho, data maior do RS. 
Durante essa primeira Ronda Crioula houve festa com música, poesia, fandango, concursos e discursos. Êxito enorme, auxiliado pelos convidados dos rapazes: Manoelito de Ornellas, Amândio Bicca e Valdomiro Souza. Resolvem fundar entidade para defesa das tradições gauchescas.
Era pensamento fundar entidade exclusivamente masculina, com 35 sócios (evocando o ano inicial do Decênio Heroico), cuja sede seria rancho no Parque da Redenção. 
Em 24.4.1948, porão do solar da família Simch, Rua Duque de Caxias (hoje moderno edifício), após muita discussão, sai o 35 – Centro de Tradições Gaúchas, nome proposto por Barbosa Lessa. Flávio Ramos cria o lema: Em qualquer chão – sempre gaúcho! Guido Mondin desenha o símbolo: número 35 atravessado por lança de cavalaria. Glaucus Saraiva desenvolve nomenclatura campeira para cargos de diretoria e repartições do novo centro. Acaba eleito seu primeiro Patrão.

Continua na próxima semana OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 23/02/2019 - 06:00Atualizado em 26/02/2019 - 23:09

BRUSQUE DO SUL, MÃE DE ORLEANS 
NOTAS DE UM PIONEIRO, PRIMEIRO DIA NA TERRA CONQUITADA
O tempo foi passando o sol esfriou, o dia passou, a noite foi inquieta. Umas aves desagradáveis guincham em cima de minha cabeça. Tudo tem mesmo o ar de primeiro dia da criação, com o mundo a emergir, hesitante, do caos. 
Tempo não meço pelo relógio, mas pelo vácuo de comunicação pela expectativa sem segurança. 
Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. A terceira pessoa é a criança, atenta como um animalzinho. Começo a recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano.

A IGREJA CATÓLICA E A COLONIZAÇÃO DO BRASIL
A Igreja Católica teve papel exponencial na colonização de nosso país. Religiosos embrenharam-se pelas matas interiores, convivendo com feras e aborígenes belicosos, mantendo colonos e suas famílias unidos em torno da fé comum e da materialidade da religião, o templo católico, qualquer dimensão material que tenha tido. A Casa de Deus reunia as famílias, era o local onde jovens se conheciam e se casavam, os mais velhos faziam negócios e praticavam seus jogos de sociabilidade, mulheres mais velhas falavam dos filhos e netos e trocavam receitas. Cartas vindas do velho continente eram lidas em grande silêncio e respeito. Trabalhos manuais eram feitos e exibidos e muitas vezes vendidos ou trocados por outros artesanatos.  Era o local onde conhecimentos eram atualizados e as grandes e fundamentais notícias eram transmitidas.

DÉCADA DE 30: TUBARÃO E ORLEANS
No final da década de 30 a população na sede do município de Tubarão beirava 6.000 habitantes com seiscentas casas, a margem esquerda do rio despovoada. Em 1939, inaugurada a Ponte Nereu Ramos, marco inicial da ocupação da margem esquerda do rio, é transposta a barreira rio-ferrovia, principal obstáculo para crescimento da margem esquerda. 

ASCENÇÃO E QUEDA DE BRUSQUE, MÃE DE ORLEANS
Curioso que a saúde não despertasse na comunidade brusquense interesse que a religião, o comércio ou a instrução, despertavam. Na história do distrito, não há notícia da reivindicação de um Posto de Saúde, de um médico residente na comunidade ou, melhor ainda, de um pequeno hospital. 
OTTO atendeu paciente em Brusque do Sul nos anos 30, a mesma Brusca, primeira denominação do local, nome-batismo de tropeiros. Ao passar pelo vale encontravam toda aquela mata fechada e escura e em seu linguajar simples e tosco chamavam o vale de Brusca. 
A prefeitura de Orleans registrou o distrito como Brusque do Sul, diferençando a comunidade orleanense do município de Brusque, na Microrregião de Blumenau.
No princípio, Brusque do Sul era vale escuro com mata espessa e fechada, habitada por índios botocudos, os bugres. O vale, até a chegada dos colonos, tinha fama de ser covil de bandidos, refúgio para criminosos fugidos principalmente de Laguna e Tubarão. Por isso era chamado de Brusca (do dialeto italiano, significando lugar escuro). 
Situada à beira do caminho das tropas da Serra do Imaruí, logo Brusque tornou-se significativo centro comercial. Terras férteis do vale atraíram os primeiros moradores, tanto oriundi como aqueles de origem brasileira. Primeiras famílias na região: Lorenzetti, Chipa, Cordiolli, Heising, Borba, Nascimento. O censo de 1896 contou 123 moradores, a maioria com sobrenomes brasileiros: Silva, Alves, Santa Ana, Souza, Abreu, Luz, Motta, Caetano, Jesus, Mello, Santos, Pereira. Ao chegar, essas primeiras famílias construíram capelinha de madeira coberta de palha, na parte alta da comunidade, hoje divisa com Rodeio da Anta. Numa das paredes penduraram quadro de São Sebastião. 
Localizada fora do centro de Brusque, os moradores que ali residiam, queriam trazer a capela para o vale, mas os residentes próximos à capela não aceitaram: conflitos estouram. Habitantes do vale constroem sua própria capelinha, feita de varas, barro e coberta de palha e tabuinhas.  Ambicionando o mesmo padroeiro, foram até a primeira capelinha, sequestrando o quadro de São Sebastião. Moradores próximos da primeira capela, resolvem buscar sua imagem. O conflito só termina quando o pároco de Orleans, padre português Guilherme Farinha da Silva, trouxe imagem de São Sebastião, nomeando-o padroeiro da comunidade. Hoje, Padre Farinha está sepultado na Igreja de Orleans, juntamente com Padre Santos Sprícigo. 
Por volta dos anos 40, moradores resolveram trocar de padroeiro, de comum acordo com o Padre. Nossa Senhora das Dores foi nomeada padroeira da comunidade.  Com o tempo e aumento da população a capelinha ficou pequena; as famílias se reúnem e iniciam a construção de nova igreja, de madeira (1915). 
A madeira foi toda falquejada por Godofredo Ostre. Chega o primeiro capelão, Gregório Cordiolli e novos moradores: Antunes, Brugnara, Marchioro, Fortunato, Zanini, Alberton, Mazon, Herculano, Dalsasso, Coan, Baggio, Menegasso, Baschirotto e outros.  Na década de 20 moradores sentem necessidade de capela maior, mais confortável.

Em 1927 foi lançada pedra fundamental da primeira capela de alvenaria da comunidade, modelo inspirado na 1ª Igreja Matriz de Orleans, ainda existente na época. Irmãos Mazon (Luiz, Estevam e Ângelo),1929, e mais tarde João Zanini, instalam moinho e serraria movida por enormes rodas de água. Em 1975 passou a utilizar motores movidos a energia elétrica. Por volta de 1930 os Mazon já tinham em Brusque, serraria, marcenaria, engenho e atafona. Fundaram também clube de futebol e clube recreativo 7 de Setembro. Em 1935 a comunidade adquiriu sino de bronze, fundido em Blumenau, nele gravando o nome da padroeira da comunidade (Nossa Senhora das Dores), a data (1935) e nome da empresa. O sino foi instalado ao lado esquerdo da capela, numa espécie de torre de madeira, sustentando o sino no alto. 
Ângelo Brugnara, picado por cobra em 1944, relatou que o meio de transporte mais rápido existente para chegar à cidade era uma charrete puxada por cavalos, propriedade de Luiz Mazon. 

O primeiro caminhão, também dos Mazon, é do final da década de 40. Tinha cabina de madeira. A comunidade de Brusque do Sul tornava-se importante centro comercial, principalmente por estar situada à beira do caminho das tropas da serra do Imaruí, única ligação entre o litoral sul e o planalto serrano. Esse caminho, identificado quando da demarcação das terras da Colônia (1875), fora aberto por serranos para trazer gado para o litoral.

O cemitério ficava próximo à capela; ali eram sepultados não só mortos da comunidade, mas também de comunidades vizinhas, pois estas não possuíam cemitério próprio. Bazar, primeiro salão de festas da comunidade, ficava do lado do cemitério numa baixada, à beira do rio. Construção pequena e simples, feita de madeira, mais tarde substituída por outra maior, desconfortável, também de madeira, do lado esquerdo da capela. No final da década de 50 foi substituída por construção de alvenaria. Logo não comportaria as festas da comunidade, planejando-se construir outra, bem maior. 

Na década de 60, melhorando a situação financeira das famílias, resolveu-se construir igreja maior e moderna. Reuniram-se comunidade e comissão administrativa, composta por Otavio Alberton, Teófilo Mazon, Leonildo Baggio e Jacinto Brugnara, debatendo o assunto. Ficou estabelecido que a igreja seria demolida para a construção da nova. Levada a ideia ao conhecimento do pároco, Padre Santos Sprícigo, foi seu pensamento que não se deveria demolir a igreja, apenas ampliá-la. Acabou aceitando a decisão da comunidade e sugeriu que a igreja fosse construída em forma de cruz. O capelão, Januário Mazon foi o idealizador do projeto da nova capela.
Em 18.9.1966 numa grande festa em honra à padroeira Nossa Senhora das Dores fez-se o leilão da pedra fundamental da nova capela. Leiloada pelo Padre Santos, o Sr. Valentim Crozetta foi o padrinho, oferecendo 20 contos de réis. A partir daí iniciou-se a construção da capela pelo pedreiro Manuel da Silva, e a comunidade não mediu esforços para auxiliar nas obras onde hoje se reúne semanalmente para orar. 

LIDERANÇAS
Muitas lideranças se destacaram na comunidade, especialmente na função de capelão, uma espécie de administrador das funções eclesiais na comunidade já que os Padres não podiam atender às muitas comunidades paroquiais. No início, os padres atendiam a comunidade apenas duas vezes durante o ano, geralmente na época da Páscoa e na festa da padroeira. Nessas ocasiões eram administrados todos os sacramentos de que houvesse necessidade. Por isso, as comunidades tinham lideranças que representavam a pessoa do padre e realizavam trabalhos como conduzir os cultos aos domingos, rezar as últimas orações no caso de um falecimento, entre outros. 
Retirando-se Gregório Cordiolli da comunidade, assumiu o encargo por muitos anos Januário Mazon. Por volta dos anos 50, Herculano Nascimento assume; sucedeu-o Jacinto Bascherotto, e depois José Alberton. Também foram capelães na comunidade Natalino Ferrareis e Matilde Borba. Atualmente, Eulália Mason Machado, catequista e dirigente de culto na comunidade, exerce liderança inconteste. 

A ECONOMIA PRIMEIRA
No princípio, o trabalho dos moradores era cortar e lascar arvores para ter onde morar. Depois de instalados e terem aberto áreas para plantio, cultivavam o milho, feijão, arroz, batata-doce, cana de açúcar, mandioca. Engordavam porcos trazidos da serra pelos tropeiros que desciam a serra do Imaruí. Os serranos possuíam raças de porcos que atingiam grande porte, mas não tinham condições de engordá-los. Os porcos trazidos eram negociados com os colonos que os engordavam e vendiam em Orleans, o transporte dos animais feito a carro de boi, meio de transporte mais utilizado na época. 
 
Tropeiros desciam a Serra com charque, maçã e pinhão. Chegando em Brusque, comercializavam esses produtos com os colonos através de troca (escambo); dinheiro, usava-se pouco. Retornando levavam arroz, feijão, açúcar grosso, algumas especiarias e tecidos. Tropeiros também desciam a serra com gado grosso e gado miúdo. Quando traziam gado, faziam escala técnica em Brusque para descansar: ali havia curral para o gado e pousada onde os tropeiros se deixavam ficar; descansados prosseguiam para Orleans ou Gravatal.

Brusque tinha comércio forte. O primeiro armazém pertencia a João Ramiro Machado. Amadeu Fabre tinha loja de tecidos. Dario Galvane (o Plinio), era sapateiro muito solicitado. Lúcio Galvane foi alfaiate por muitos anos na comunidade. Havia outros armazéns:  um grande, da família Mazon, outro de Augusto Redivo, ainda outro de Bernardino Antunes, e mais outro de Otavio Dalçasso. Este último ficava próximo à igreja e a uma botica, propriedade de Zé farmacêutico. Havia uma fábrica de banha e um alambique dos Mazon. Antonio Borba tinha olaria na qual foram feitos os tijolos para construção da capela de alvenaria da comunidade. Hermógenes Marchioro tinha padaria. Havia também verdureira e fruteira de propriedade de Juvenal C. Ávila e também um dentista, Antonio Silveira. Uma das barbearias pertencia a João Marcheoro. Existiam em Brusque, várias atafonas, engenhos, moinhos de cana, alambiques, descascadores de arroz, engenhos de farinha (féculas), serrarias e ferraria. 
Em 5.8.1986 foi iniciado o trabalho de terraplanagem, seguido da construção. Muitos moradores da comunidade colaboraram, revezando-se para construir o salão com dois pavimentos e de grande utilidade para a comunidade.

DANÇAS E FOLGUEDOS
Apesar das dificuldades da época, havia muita diversão. As danças aconteciam no clube e também nas casas das famílias. Os moradores dançavam, cantavam, faziam quadrilhas nas épocas juninas, casamento de jeca, carnavais, bailes a fantasia. No clube 7 de Setembro os bailes eram frequentes, os três proprietários ficavam à porta controlando a entrada dos frequentadores. As moças tinham entrada gratuita, mas só podiam sair do salão na hora em que fossem para casa e não podiam negar-se a dançar quando tiradas. Os homens pagavam ingresso e eram revistados para que ninguém entrasse armado no clube -; era obrigatório terno e gravata. Os proprietários contratavam gaiteiros, violeiros e cantores da comunidade e de fora para animarem soirées e bailes. Aos sábados e domingos eram os jogos de futebol.

OS CASAMENTOS
Casamentos aconteciam quase todos em Orleans e os noivos chegavam até a Igreja Matriz utilizando carros de boi, charretes ou cavalos. Os noivos eram acompanhados pelas testemunhas e padrinhos e quando retornavam faziam-se as festas, geralmente nas casas ou no bazar da igreja. Festas escolares eram bastante prestigiadas e comemoradas, principalmente os desfiles cívicos.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 18/02/2019 - 06:00Atualizado em 18/02/2019 - 23:20

PARTEIRAS

A parteira Mariana da Silveira residia e trabalhava no Passo do Gado em Tubarão. O marido falecera de tétano ao espetar o pé num prego enferrujado da canoa. Viúva, quatro filhos para cuidar, desdobrava-se atendendo aos afazeres de dona de casa, mãe e parteira, além de costurar à noite até altas horas, com iluminação precária de lamparina, para equilibrar periclitante orçamento doméstico.
A coqueluche (tosse comprida) levou-lhe, quase simultaneamente, dois dos quatro filhos.
Sabe Deus como, matriculou os dois filhos que lhe restaram no Colégio São José, colégio particular, mensalidades honradas com grande sacrifício, às vezes completadas com produtos de seu sítio. 
Dona Mariana valia-se de OTTO quando o parto se anunciava difícil, tumultuado ou mesmo demorado. 
Pois foi num desses partos, realizado em casa modestíssima que Dona Mariana socorreu-se do experiente médico. Chovia copiosamente terminados os trabalhos. Demonstravam eles, mais uma vez, a perícia profissional de OTTO. Ele e a parteira lavavam as mãos e o instrumental quando o médico, cansado e sedento, pede água de beber. Na casinha não havia copos.
- Vai de caneca mesmo, e, se não for esmaltada, qualquer uma serve que a sede é grande!
Vem a informação de que a água utilizada pela família não era de boa qualidade.
- Então, pega da chuva que é a melhor água que existe!
Aliás, em se tratando de parteiras e parteiros, o jornal O LÁPIS, de 21.12.1919, noticiava:” DONA ANTONINA BÚRIGO CORBETTA, foi durante muitos anos a parteira da cidade. Inúmeros foram os tubaronenses que vieram a este mundo através de seu auxílio. Na época, as mulheres não se dirigiam ao hospital para o parto, mas davam à luz em casa e seus filhos nasciam sob olhares e orientação de parteiras que nada mais eram do que curiosas que haviam aprendido o ofício através de observação dos partos que assistiam, sem possuírem conhecimento técnico para tal finalidade além de, em sua maioria, serem analfabetas."
Dona Antonina é hoje nome de rua na Vila Moema, onde se localizam as principais clínicas e hospitais de Tubarão.
O jornal O FISCAL, também de Tubarão, registrava a excepcional conquista, Germano Bez Fontana em seu livro HISTÓRIAS DE MINHA VIDA, pág. 309, refere-se a Dona Antonina como a mestra das parteiras de Tubarão, devidamente orientada e treinada pelo Dr. OTTO.

JOÃO MANOEL FERNANDES, FERROVIÁRIO, BAGAGEIRO, POETA, DEFICIENTE FÍSICO
Trabalhou na ferrovia EFDTC de 1º.7.1911 a 15.6.1919, sendo readmitido em janeiro de 1923.
Na noite de 30.1.1924 sofreu grave acidente na estação de Esplanada. Removido para Tubarão foi operado por OTTO. Sofreu amputação do antebraço e mão direitos e de parte do membro superior esquerdo. Sobreviveu.
Mas, o poeta hoje está morto no seu túmulo e trinta anos depois, em 1954, descreveu em poema seu infortúnio:
“Colocaram-me e me levaram num vagão
Para virem me trazer 
Ao ponto de baldeação.
Quando no banhado cheguei
De trem fui transportado
Chegando o trem em Congonhas.”
...
Não cabendo no carro a cama,
No tênder fui colocado.
Ainda estava na Esplanada,
Ao Dr. OTTO foi telegrafado:
‘Venha urgente ao hospital
Que João Fernandes está machucado’.
...
E às 2 e meia da madrugada,
Estava na Estação o Dr. OTTO
Quando o trem chegou em Tubarão
...
Agradeço ao Tasso Reis
Que as providências tomou.
Chegando ao hospital 
Ao Dr. OTTO pedi:
Que me desse alguma coisa 
Pois não mais podia resistir.
A operação foi logo feita
E na cama me botaram.
Às seis horas da manhã
Meus parentes ali chegaram”.

Tudo muito bom. A descrição em versos livres é eficiente fornecendo boa ideia do ocorrido. O médico é tirado da cama na madrugada de janeiro de 1924 e, pressurosamente aguarda o acidentado na Estação da Estrada de Ferro, não no Hospital, como solicitado. A cirurgia é realizada sem mais delongas, porque, imagina-se, deveria ter havido grande perda de sangue se é que tal coisa ainda não estivesse ocorrendo.
O paciente sobreviveu ao terrível acidente e até continuou a versejar como demonstram os escritos mais acima. Tudo muito bom, tudo perfeito. O agradecimento a Tasso Reis que deve ter feito por merecer esses agradecimentos, está lá -, o registro da chegada dos parentes, também lá está. Faltaria alguma coisa?      
Sim, claro, faltou o principal. O agradecimento ao médico que o atendeu com presteza e competência, indo aguardá-lo às duas e meia da manhã na gare.  

AS VIDENTES        

Numa das entressafras de sua vida conjugal, amigo meu, namorava jovem versada em leitura de cartas que o levou a uma cigana húngara de terríveis olhos verdes. A cigana estendeu-lhe o baralho; que o misturasse à vontade. Arrumou-as depois sobre um sinistro pano preto. Depois de examiná-las veio a sentença:
- Trata-se de um caso perdido, ele não tem futuro, não vai dar pra nada.
A moça quis ouvir uma segunda opinião, de famosa cartomante baiana que atendia para os lados da Rocinha. Na entrada, abaixo da janela o cartaz:
Manicure e vidente
Meu amigo embaralhou vigorosamente as cartas. Não deu outra: não só viu confirmado o vaticínio da cigana húngara de terríveis olhos verdes, como a baiana acrescentou alguns relatos lúgubres, confidenciados em voz baixa à jovem acompanhante. Talvez por Isso o chá de sumiço que tomara, ao término da consulta.

AMPUTAÇÕES, ANTIGAMENTE

Hoje há menos. A cirurgia vascular, que talvez pudesse salvar alguns daqueles membros severamente traumatizados e atendidos por OTTO FEUERSCHUETTE e que já descrevemos, é especialidade relativamente nova entre as especialidades cirúrgicas. Tornou-se realidade mundial no final dos anos 40 e início da década de 50 do século 20. Marco maior da cirurgia vascular moderna ocorreu em 1902 com a publicação da técnica de sutura vascular por Alexis Carrel, vencedor do prêmio Nobel de Medicina por este feito (1912). Essa técnica, até hoje, é a base da maior parte das cirurgias vasculares abertas.
    
No século 20 a cirurgia vascular estabeleceu-se como especialidade médica com as técnicas cirúrgicas se aperfeiçoando. Em 1946 o professor português João Cid dos Santos descreveu a técnica da retirada das placas de gordura de dentro das artérias. Logo depois, Dubost realizou a primeira cirurgia de correção de aneurisma de aorta abdominal (1951).

Os primeiros estudos de artérias e veias, no início dos anos 20, usavam brometo de estrôncio e iodeto de sódio. Dois grandes avanços ocorreram nesses estudos no mesmo período. O primeiro: Egaz Moniz, em Lisboa, descreve a técnica de arteriografia cerebral por punção direta da artéria carótida (1928) e o segundo, quando Reynaldo dos Santos utilizou punção translombar para visualizar a aorta abdominal, 1929.

Marco de uma nova era na Cirurgia Vascular, Seldinger (1953) descreve uma nova técnica realizada por via percutânea que permite o cateterismo seletivo de todas as principais áreas vasculares do organismo.

Em 1974, Grünztzig desenvolveu cateter balão usado para angioplastia. Contudo, a consolidação de procedimentos minimamente invasivos para tratamento de doenças vasculares virá em 1988, com a utilização de stent metálico desenvolvido pelo professor argentino Julio Palmaz.
    
O início da década de 90 foi verdadeiro marco na evolução das técnicas minimamente invasivas. A chamada Cirurgia Endovascular teve início quando Dr. Juan Parodi, em Buenos Aires, demonstrou a possibilidade de tratar aneurismas da aorta, evitando cirurgia aberta, pela implantação de um stent revestido, introduzido através da artéria femoral. Esta prótese endovascular liberada na artéria aorta, expande-se para aderir à parede arterial, sem sutura.

O ENCANADOR E SUA APENDICITE

Eurides Flores Marcelo morava numa rua atrás do Hospital de Tubarão, prestando assistência na área hidráulica a quantos dela necessitassem, mais especialmente ao Hospital.
De família pobre, trabalhava desde os sete anos de idade auxiliando o pai no transporte de postes de madeira para as redes elétricas da região. Segundo de dez irmãos, Eurides fica órfão de pai aos 14 anos. O trabalho redobra, tendo de ajudar a mãe na criação de 8 irmãos menores. 
Em Areado, interior de Tubarão, transportava toras de árvores derrubadas, em carretão puxado por junta de boi. Carretão com eixo de madeira e duas rodas, as toras amarradas e arrastadas. Trabalho era muito, ganhando Eurides o suficiente para sobreviver modestamente e auxiliar no minguado orçamento doméstico.
Em 1951, o tubaronense Zeferino Menegaz era dono de pedreira em Londrina, norte do Paraná. Fez a Eurides tentadora proposta de trabalho, logo aceita.
Lá, após algum tempo, Eurides adoece: febre alta, náuseas, dores abdominais. Isso mesmo: apendicite aguda com necessidade de ser operado com urgência! Descobre que terá de despender nove mil cruzeiros pela cirurgia em terras paranaenses. Era muito dinheiro, do qual nem dispunha. Era 1952 e decide-se por voltar a Tubarão para ser operado. Desde 1950 Tubarão possuía o aeroporto Anita Garibaldi numa área em frente ao atual Farol Shopping. Na época, eram três voos por semana.  O aeroporto particular, de saibro, com pista de 1.100 metros de comprimento e 40 metros de largura, pertenceu ao extinto Aeroclube Cidade Azul. Atualmente a área total do aeroporto pertence à Força Aérea Brasileira, e como se encontra cercado por prédios e casas, encontra-se desativado. Serve, às vezes, de campo de treinamento para o Exército Brasileiro e para certos eventos de grande porte.
A viagem por avião: Londrina, Curitiba, Tubarão ficava em torno de 900 cruzeiros. Internado no HNSC foi operado pelo Dr. OTTO. A internação de vários dias, honorários médicos e todas as despesas hospitalares, curativos, medicamentos, alcançaram a cifra de 450 cruzeiros! Eurides permaneceu por dois meses em Tubarão. Depois retornou a Londrina onde trabalhou por mais dois anos. Em 1955 retorna a Tubarão para dedicar-se ao trabalho de encanador.  

O GRANDE ACIDENTE FERROVIÁRIO DE DEZEMBRO DE 1949

Fazia cerca de 3 meses que OTTO perdera a esposa Irma, quando sobreveio o acidente, próximo à localidade de Estiva, Capivari de Baixo. Foi rotulado como a maior catástrofe de todos os tempos envolvendo a Estrada de Ferro Dona Teres Cristina. O trem de passageiros saíra de Imbituba, devendo chegar a Tubarão cerca de 15,30 horas. A composição estaria desenvolvendo velocidade superior à usual e na curva do cem, a 2 km da Estação da Estiva, a locomotiva saltou dos trilhos. Esta curva já não mais existe, retificada pela ferrovia. Duas vítimas fatais, residentes em Capivari de Baixo: garoto de 15 anos e senhor de idade. Parece que o garoto viajava clandestinamente, equilibrando-se entre dois vagões da composição. Durante os procedimentos de socorro e resgate alguém teria colocado uma passagem no bolso do menino falecido o que permitiria aos seus responsáveis receberem indenização da seguradora. Foguista e maquinista, além dos outros acidentados, foram atendidos por OTTO com a colaboração de outros médicos da região. O maquinista Saul Estevão teve inúmeros ferimentos de pequena gravidade. Levado ao hospital pelo pessoal da CSN ficou internado sob os cuidados de OTTO. Ernesto Marcolino Antunes, o foguista, perdeu a perna esquerda, presa por 4 horas na manivela de manobras. A liberação da perna esquerda do foguista só foi possível por determinação do Dr. Mário Benjamin Baptista, engenheiro da CSN, utilizando maçarico o que permitiu a secção da ferragem. Após deixar a CSN, Baptista foi diretor da ELETROSUL em Tubarão. Quando das enchentes de março de 1974 era Secretário Geral do Ministério de Minas e Energia, governo do General-Presidente Ernesto Geisel, tendo prestado grande auxílio à gente tubaronense. 
Otto contava mais de 68 anos na ocasião, mas, dotado de grande vigor físico trabalhou por mais de 6 horas contínuas no atendimento às vítimas. 
A locomotiva, de número 101, ficou posicionada como se estivesse se dirigindo em direção contrária, para Imbituba. O foguista, Ernesto usou muletas para sempre por não dispor de recursos para adquirir perna mecânica. 

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE 

Por Dr. Henrique Packter 09/02/2019 - 06:00

Registro, extremamente honrado, felicitações recebidas do oftalmologista tubaronense OTTO FEUERSCHUETTE NETO e do Professor IRMOTO FEUERSCHUETTE, pela abordagem que realizo para a TRIBUNA sobre a vida do médico OTTO FEUERSCHUETTE.

Já falei de Dom ANSELMO PIETRULA, bispo em Tubarão e que foi meu cliente por 21 anos, de 17.8.1968, 61 anos, até 22.11.1989. Retornou após seis anos, em 1º.3.1974, aos 67 anos. Tinha catarata incipiente em ambos os olhos. Em 16.11.1982 contou-me que sofrera episódio de isquemia cerebral resultando em discreta redução da mobilidade do lado esquerdo do corpo. Em 26.10.1984, 78 anos, queixava-se de artrose e de problemas cardíacos. Tinha catarata madura no olho esquerdo, que operei em 9.7.1985 no HSJ. Algum tempo após a cirurgia, sofreu acidente de trânsito em Tubarão. No acidente, além de traumatismos craniano, de pés e costelas, sofreu luxação do cristalino no olho direito e hemorragia vítrea. Hospitalizado, foi operado no Hospital Moinhos de Vento (POA, 15.8.1885) pelo Dr. NORBERTO ALBRECHT, com remoção do cristalino luxado para a cavidade vítrea e vitrectomia radical anterior.

Em 6.5.1986, prescrevi lentes de óculos acima de dez graus positivos em cada olho. Em 30.1.1988 estava diabético, tinha cálculo renal. Prescrevi novas lentes corretoras.
Atendi-o pela última vez em 22.11.1989 prescrevendo novas lentes. Faleceu a 25.5.1992 aos 85 anos. 

Já o Padre SANTOS SPRÍCIGO consultou em 26.11.1985 comigo, por hemorragia no olho esquerdo. Receitei lentes de grau em 18.12.1985. Em 21.12.1989, criou para a população orleanense a Rádio FM Luz e Vida, como Monsenhor Agenor Neves Marques criara a Rádio Marconi em Urussanga. Faleceu em 9.8.1992, vítima de câncer. Padre Santos criou na Rádio Luz e Vida o jargão que anunciava as notas de falecimento: "Partiu para a Casa do Pai...". Sprícigo foi um apaixonado pela comunicação.

OTTO FEUERSCHUETTE REALIZA PRIMEIRA CIRURGIA EM TUBARÃO

Em abril de 1910, Ernesto Benatti internou-se no Hospital NSC de Tubarão vindo da região de Urussanga-Azambuja. Fora atingido por uma tora, grande tronco de madeira, quando se encontrava no meio da mata, isolado de todos. A tora impossibilitava-o de erguer-se, prendendo seu braço esquerdo ao solo. Por três dias e quatro noites sofreu dores inimagináveis agravadas pelas tapiocas, formigas gigantes e negras que devoravam seu braço. Difícil imaginar suplício pior. Submetido a desarticulação ao nível do ombro esquerdo, permaneceu internado de abril a julho de 1910, quando obteve alta, curado.

ANDANÇAS HIPOCRÁTICAS

Naquela época e mesmo bem depois, viajava-se muito no exercício da profissão médica. Estradas precárias ou inexistentes e Médicos poucos. Dino Gorini, cirurgião de grande prestígio, trabalhando inicialmente em Nova Veneza e depois em Criciúma, subiu repetidas vezes a serra a cavalo, para atendimento de clientes. A FOLHA DO SUL, de Tubarão 11.4.1915 e depois, em 5.12.1915, noticiou o regresso de Otto de São Joaquim, onde fora a trabalho.        
Roberto João Tenfen em Rio Fortuna Nossa Terra, Nossa Gente, a Colonização Alemã em Rio Fortuna, destaca viagens de OTTO pelo Vale do Braço do Norte e pela serra, por trole ou a cavalo. Citava São Ludgero e Gravatal, as cidades mais visitadas. 
Mário Belolli em A História do Carvão de SC, tratando da assistência social aos trabalhadores das minas de carvão do sul catarinense, registra pioneira manifestação de atendimento médico à massa operária e familiares com a participação de OTTO e financiamento de Henrique Lage (1920). A Imprensa, jornal de Orleans em 1º.8.1920, “mineiros e trabalhadores, como toda essa grande população, receberam a grata notícia da nomeação do humanitário clínico com demonstrações de geral agrado”. 
Todas as sextas-feiras OTTO passou a prestar atendimento aos mineiros e seus familiares. Era substituído nos seus impedimentos pelo médico Aurélio Rótulo da Laguna. Recém em 1915 no distrito de Brusque do Sul as famílias haviam se reunido para iniciar a construção de nova igreja, de madeira (1915). 
A madeira foi toda falquejada (desbastada, aplanada) por Godofredo Ostre. Primeiro capelão: Gregório Cordiolli. Novos moradores: Antunes, Brugnara, Marchioro, Fortunato, Zanini, Alberton, Mazon, Herculano, Dalsasso, Coan, Baggio, Menegasso, Baschirotto e outros. Na década de 20, os moradores sentem necessidade de capela maior e mais confortável.

Em 1927, foi lançada a pedra fundamental da primeira capela de alvenaria da comunidade, modelo inspirado na 1ª Igreja Matriz de Orleans, ainda existente na época. A primeira serraria, instalada pelos irmãos Mazon (Luiz, Estevam e Ângelo, em 1929), era movida por enormes rodas de água. João Zanini também instalou serraria e moinho, tempos depois. Cerca de 1930, os Mazon já tinham serraria, marcenaria, engenho e atafona. Clubes, de futebol e recreativo, ambos denominados 7 de Setembro, eram dos Mazon.
Jairo Arno Matos em História de Morretes - SC, publicado em 1910, registra que OTTO também lá exerceu sua honrada Medicina. Morretes (pequenos morros) é hoje Maracajá (gato do mato ou jaguatirica). 

O MAIOR QUISTO DO MUNDO

O jornal Correio do Sul da Laguna (7.5.19360) noticiou que Maria Cristina, vinda do Morro do Bugio, distrito de Gravatá, fora hospitalizada em razão de apresentar ventre de dimensões avantajadas. Diagnosticado quisto de ovário, Otto, auxiliado pelo Dr. Bernardo Griesedick, mais o farmacêutico Tácito Pinho, além de quatro irmãs da Divina Providência (Bertila, Graciana, Fernanda e Gabi), removeram sem qualquer complicação o tumor que pesou 45 quilos (carne e 4 baldes de líquido), em 4.11.1924. Bernardo Griesedick iniciara atividades médicas em Tubarão (1922), após a eleição de OTTO para prefeito de Tubarão. Fanor Freitas, jornalista tubaronense, em A Voz do Povo (9.11.1957), na coluna Efemérides Tubaronenses, com o título de O Maior Quisto do Mundo, registrou esta façanha de OTTO. 

O TIVILICA

Morador em Tubarão, proximidades da casa de Custódio Henrique, bairro da Madre, Avelino Porto (O Trivilica), em 24.9.1926, foi chamado por Custódio porque a esposa demonstrava sinais de exaustão física após prolongado tempo em trabalho de parto. Tivilica parte a cavalo, em carreira desenfreada, atrás de OTTO. No potreiro defronte ao hospital pastava cavalo do médico que foi encilhado e montado. Agora, galopam ambos, Tivilica e Otto. Nas proximidades da curva do Andrino, já a caminho do bairro da Madre, recebem aviso de que a parturiente falecera. Apesar da notícia, prosseguiram viagem e assim nasceu Eliziário Custódio Henrique. Embrulhado em toalha foi levado pela senhora Maria Tomaza Elias, que o criou como se filho fosse.  Eliziário trabalhou com Andrino Sales Borges e casou-se com Luiza, filha de seu patrão. O casal teve um só filho, Wanderlei, pai do médico tubaronense Peters Silva Henrique. 

VALENÇO

Final dos anos 20, OTTO e sua família veraneavam no Farol de Santa Marta, na Laguna. Mar aberto de ondas fortes representava perigo para banhistas e navegadores. Valenço, exímio nadador e salva-vidas, era pescador afamado não só pelas suas proezas náuticas como pelos excessos da imaginação ao narrar seus feitos. 
Elsa, a filha mais velha de OTTO, foi colhida por onda enorme. Não sabendo nadar, foi arrastada para o mar. Empurrada para cada vez mais longe, desenhava-se uma tragédia a se abater sobre a família Feuerschuette. Valenço, que andava por ali, acorre diante do alarido da multidão que se formava, OTTO à frente. Avistando Valenço, pede-lhe que resgate sua filha. 

- Mas tem uma coisa doutor, eu só vou se for pelado!
Com roupa, corria o risco de ser agarrado pelas roupas pela moça desesperada e acabarem os dois no fundo do mar. É fato sabido que as vítimas de afogamento agarram-se com força e desespero ao que estiver ao seu alcance. Ocorre muitas vezes o afogado sobreviver, mas não o salva-vidas. 
Valenço quer saber por onde ela entrou no mar.
- Por ali, por ali – apontam vários banhistas.
Conhecedor das correntes locais, Valenço nada com firmeza e decisão. Resgatada a moça, ao chegarem ao ponto da arrebentação das ondas, grita por socorro, que venham apanhar a moça. Trazida pelo pessoal da praia, é assistida por OTTO que insiste em gratificar Valenço:
- Isto faz parte de meu dia a dia, doutor. E sei que salvar vidas faz parte do seu também.

Valenço, o mais famoso pescador daquelas épocas, enfrentava o mar bravio em sua canoa, lutando pelo seu sustento diário, madrugada após madrugada. Navio encalhado nas vizinhanças do Farol, Cabo de Santa Marta, era o primeiro a chegar à embarcação e do convés atirava ao mar parte da carga para que as ondas a levassem à praia. Um navio catalão encalhara, carga de gado bovino. Valenço orientou a tripulação a liberar os animais para que, nadando, eles pudessem alcançar a praia.
Mas é do próprio Valenço o relato de sua proeza maior. Estava ele sozinho a pescar quando viu emergir à sua frente peixe enorme, tamanho descomunal. Mesmo para Valenço era algo nunca visto. Lançando-se contra a embarcação, o peixe abocanha a proa do barco. Ao morder a canoa, o monstro marinho perdera três de seus dentes que ficaram cravados na madeira do barco, retornando o animal marinho para as profundezas em que vivia.
Considerando-se a fama de Valenço também é bem possível que se deva levar a narrativa à conta de histórias de pescador.  

DE PARTEIRAS E DE PARTEIROS
Dona Eugênia residia em São José, localidade situada a 18 quilômetros de Braço do Norte em direção a Rio Fortuna. Vivia sua 14ª gestação com o marido ausente, viajando a negócios para os lados de Florianópolis. Da prole de 13 filhos, a caçula Melânia casaria com Carlos Zumblick, filho do grande artista plástico Willy Zumblick. O marido de Dona Eugênia, Turíbio Schmidt, gozava de grande prestígio na região em que morava.
Em trabalho de parto há dois dias, após esforço maior, aparece no canal do parto a mãozinha da criança. A parteira determina:
- Para Tubarão, o mais rápido possível, antes que seja tarde, para que se salvem mãe e filho!
Foi transportada a Braço do Norte numa caleça, carruagem de 4 rodas, coberta com lona, com 3 bancos. Um dos bancos era para o condutor. Os outros dois, maiores, eram para os passageiros, dispostos vis a vis.
De Braço do Norte a Tubarão o trajeto era percorrido por taxi. O menino nasceu, mas logo veio a óbito. Quanto à mãe, que sofria há vários dias em trabalho de parto, com fortes dores e hemorragias prolongadas, entrou em estado de choque. OTTO e sua equipe lograram restabelecê-la após o que seria sua última gestação.   

PADRE BERTILO SCHMIDT
Turíbio e Eugênia foram pais de Padre Bertilo Schmidt, nascido a 12.8.1929 e falecido aos 85 anos em 1º.8.2015, ordenação sacerdotal em 1º.12.1957. Reitor e formador no Seminário Nossa Senhora de Fátima, era cego desde acidente de carro em 1964. Capelão durante muitos anos no HNSC e Vigário Paroquial na Paróquia da Catedral, era primo do Vigário geral Padre Wilson Buss, pároco da Paróquia Santa Bárbara e do Padre José Lino Buss, pároco da Paróquia Santo Agostinho. 

OTTO FARIAS
RAPHAEL ELIAS FARIAS é graduado em Medicina pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (2006) com especialização em Infectologia (Residência Médica Hospital Nereu Ramos - Florianópolis/SC). Título de pós-graduação em Gestão em Saúde e Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH, INESP) e Medicina do Trabalho (FURB/FFM). Atuação profissional como médico CCIH, Infectologia e Emergências Médicas. Graduação em Farmácia pela Universidade do Sul de SC (1998) com atuação profissional em Farmácia Hospitalar por mais de 7 anos no HSJ de Criciúma/SC. Atividade profissional no HSJ de Criciúma/SC, atuando, atualmente, como Diretor Técnico e Médico Infectologista/CCIH.
Pois foi RAPHAEL quem me informou que seu falecido pai, OTTO FARIAS, conhecido e estimado gerente do BESC em Criciúma, chama-se OTTO por ter nascido pelas mãos do médico tubaronense e numa justa homenagem ao grande profissional médico e invulgar homem público que foi. OTTO FARIAS nasceu no HNSC em 14.5.1944. 

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 02/02/2019 - 06:00

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FEUERSCHUETTE, SEGUNDO MÉDICO EM TUBARÃO
Henrique Packter, Oftalmologista hpackter1@gmail.com 
Cremesc 383 RQE 505 Titular Honorário do CBO

Nas edições anteriores escrevi sobre aspectos da vida de OTTO em Tubarão, Alemanha, Pelotas, POA, RJ. Sua formação escolar deu-se sobretudo na Alemanha e o curso médico em POA e RJ. Escrevi também sobre a precariedade e mesmo inexistência de serviços médicos na sua área de atuação profissional. Havia hospitais em Tubarão (Nossa Senhora da Conceição) e Laguna (Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos). Somente depois dos anos 30 outras localidades, incluindo Criciúma, terão hospitais e médicos.
Já contei a história do Hospital Santa Otília de Orleans, construído pelo empresário Henrique Lage em 1939. O Hospital de Urussanga começa a ser idealizado em 08.12.1927 e o lançamento de sua Pedra Fundamental é de 09.06.1940, no local em que está hoje e, em 29.12.1942, a Comissão Pró-Construção entrega o hospital à Comissão Administrativa, quase concluído. A denominação HOSPITAL NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO homenageia a Padroeira da Paróquia de Urussanga. Declarado de Utilidade Pública Municipal (09.09.1949), Estadual (17.07.1967) e Federal (21.05.1984).
Em Urussanga, entre 1903-1934, sucederam-se diversos médicos: César Sartori, Salvador Caruso, César Búrcio, Felice Bongiovanni, Aurélio Rótolo, Henrique Meloni, Vitório Giacone, Domingos Borelli, Luiz Campelli e Aldo Caruso.

AINDA SOBRE A GRIPE ESPANHOLA. MAIS DO MESMO
A gripe espanhola vitimou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, um dos desastres naturais mais letais da história humana. 
No último ano da Primeira Guerra Mundial, guerra como dantes nunca se vira, surgiu a gripe influenza, de morbidade e mortalidade elevadas, sobretudo entre jovens e pela frequência das complicações associadas. 
A Gripe Espanhola percorreu todos os continentes e durante os dois anos da pandemia afetou 50% da população mundial. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) matou coisa de 8 milhões de pessoas. Falta de estatísticas confiáveis, principalmente no Oriente (China e Índia), pode ocultar número maior de vítimas.
A gripe manifesta-se no aparelho respiratório por tosse e dor de garganta. Também febre, calafrios, fraqueza, prostração, dores musculares e articulares. O contágio faz-se por perdigotos expelidos pela pessoa contaminada. O vírus tem três subtipos (A B e C), com diferentes graus de morbidade, ampla capacidade de mutação e de gerar outras recombinações, formando novas variantes virais. 
Gripe espanhola no imaginário social
No clima de horror e desespero gerado pela pandemia, havia diversas explicações para o acontecimento. Versões rondavam o imaginário social ocidental, quase todas relacionadas ao final dos tempos.
Gripe espanhola no Brasil 
No Brasil, referências sobre a Influenza, veiculadas na imprensa em princípios de agosto, ganham força quando membros de esquadra brasileira foram contaminados pela doença no norte da África, segunda metade de setembro. 
Recife teria sido o primeiro porto brasileiro infectado, ainda em setembro, pelo navio Demerara, vindo da Europa. Ele seguiu depois para Salvador e RJ e, em novembro de 1918, à Amazônia. O Povo (Ceará, setembro de 1918) noticia a chegada da epidemia a Fortaleza. Portos eram os principais focos de disseminação da doença. 
Para o Instituto Butantã foram 35 mil as vítimas da pandemia num Brasil de 29 milhões de habitantes: "(...) 12.700 no RJ, 6.000 em SP, 1.316 em POA, 1.250 em Recife e 386 em Salvador". A doença vitimou inclusive Rodrigues Alves (1919), presidente da república.
Atividades exigindo maior contato interpessoal e aglomeração de pessoas aumentavam chances de contaminação, impondo adoção de medidas sanitárias: escolas e estabelecimentos comerciais fechados, cinemas, casas de espetáculos, bares, festas populares e partidas esportivas proibidas. 
Fevereiro de 1920, o Carnaval exibiu euforia generalizada e liberação inusitada dos usos, costumes e pudores. Carmem Miranda gravou E o mundo não se acabou (1938), de Assis Valente, expressando a atmosfera apocalíptica do contexto pandêmico. O autor, mais tarde, cometeria suicídio.
"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar... acreditei nessa conversa mole/Pensei que o mundo ia se acabar/E fui tratando de me despedir/E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei samba em traje de maiô/E o tal mundo não se acabou... Ih! Vai ter barulho e vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou".
Gripe Espanhola em POA
Notícias eram divulgadas pelo Correio do Povo, A Federação, Revista Máscara, O Independente.
Imprensa gaúcha, sobre a organização sanitária da capital (1918): “ruas não eram limpas numa cidade sem esgotos cloacais e com deficiente recolhimento de lixo. Como coroamento do descaso das autoridades, epidemias encontravam ambiente propício para se desenvolver”.
Outubro de 1918 e a gripe está em Rio Grande (RS), atingindo toda a cidade. Colégios e faculdades tiveram aulas suspensas, as lojas fechavam: não havia funcionários para atender os clientes, nem clientes para serem atendidos. Espetáculos eram cancelados. Bancários, carteiros, funcionários da Companhia Telefônica, todos adoeciam. Repartições públicas e privadas, ruas, praças e cafés eram desertos. 
91 anos depois, nova ameaça
Em 2009, voltou o vírus H1N1 (do tipo A), felizmente com força incomparavelmente menor do que no século anterior. Governos se mobilizaram em ampla campanha de vacinação. Não houve epidemia ou pandemia, ocorrendo em massa justamente a vacinação, que, desde então, se repete anualmente.
NOTABILIDADES INFECTADAS PELA GRIPE ESPANHOLA
Franklin Delano Roosevelt, Franz Kafka, Greta Garbo, Walt Disney, Woodrow Wilson. Rodrigues Alves (5º Presidente da República, morto antes assumir segundo mandato), Belfort Duarte, futebolista.
No RJ faleceram vítimas da gripe os dois irmãos mais velhos de Henrique Lage (Antonio e Jorge), administradores do grupo Lage. Henrique Lage acumula o comando de todas as empresas da família.
Discurso de 9.4.1923, aniversário de Otto Feuerschuette:
“(...) não podemos jamais esquecê-lo porque é o dia do aniversário natalício de um filho querido e muito dileto deste torrão de Anita Garibaldi (...) do honrado Governador da cidade (...) do benfeitor dos humildes, do verdadeiro e sincero pai dos pobres de Tubarão, como foi quando da terrível epidemia da  espanhola, a qual não vos impediu de acudir carinhosamente a todos vossos amigos, ricos e pobres, principalmente a estes, em que, finalmente soubeste fazer de vossa Medicina, verdadeiro sacerdócio”. Nasce o epíteto Sacerdote da Medicina. 
PADRES CARLOS VECHI e SANTOS SPRÍCIGO
VECHI, órfão de mãe aos treze anos, nasceu em 20.11.1933, família de dezesseis irmãos. Hoje, somente 5 estão vivos. VECHI é do Ribeirão Pequeno, distrito da Laguna, que tem como padroeiro São Brás. Iniciou estudos na sua comunidade, indo para o seminário de São Ludgero; continuou em Azambuja (Brusque), finalizando em Viamão.
 Sob o lema Eis que vos anuncio uma grande notícia, D. Anselmo Pietrulla conferiu-lhe o sacerdócio em 14.7.1963, na matriz Santo Antonio da Laguna.
Aliás, sobre D. Anselmo Pietrulla, apraz-me noticiar que tive o privilégio de conhecê-lo de perto. Fui seu Oftalmologista e operei-o de catarata no Hospital São José. Quando de seu acidente automobilístico, visitei-o na UTI do Hospital Moinhos de Vento em POA. Dom Frei Anselmo Pietrulla, da Ordem dos Frades Menores  (Knurów, 12.9.1906 — Tubarão, 25.5.1992), nasceu na Silésia (Polônia), quando esta província era alemã. 
Padre em 21.5.1932. Eleito bispo a 13.12.1947, recebeu a ordenação episcopal em 8.2.1948 das mãos do Cardeal Dom Carlo Chiarlo, assumindo como Bispo Prelado de Santarém (1947-1949). Depois, Bispo de Campina Grande (1949-1955) e Bispo-emérito de Tubarão (1955-1981). Faleceu aos 85 anos; foi sepultado na catedral de Tubarão.
VOLTANDO AO PADRE VECHI  
Em Janeiro de 1964, começou atividades na Paróquia São Paulo Apóstolo, Criciúma (Centro), por curto período. Depois na Vila Operária, paróquia de Santa Bárbara, onde ficou 9 anos. Da Santa Bárbara, foi para Cocal do Sul e dali para S. José por 2 anos. De São José para Cidade Mineira. E dela para Urussanga, trazendo o programa de rádio Alvorada do Cristão. Ficou um mês e pouco, sendo removido para Jacinto Machado, por 2 anos.
Santos Sprícigo de Orleans estava pedindo um padre para auxiliá-lo, mas o bispo nomeava padres que não eram de seu agrado. O bispo, meio que incomodado, disse:
- Padre Santos, você indica qual é o padre que você quer para Orleans, mesmo que a gente tenha que tirar de uma paróquia. 
Padre Carlos ignorava que o bispo se manifestara desta forma. Numa reunião em Tubarão, padre Santos chama padre Carlos lá para trás, na capela do seminário:  
- Calinho, o bispo me disse para eu escolher um padre para Orleans e olha, eu tô há 15 dias rezando diante do Santíssimo Sacramento ao Espírito Santo e o Espírito Santo indicou que é você!
- Padre Santos, eu tô meio que duvidando do Espírito Santo, ele sabe quem sou eu, mas, se ele indicou…  Eu tô cobrindo férias do padre Herval, ele quis que eu assumisse a paróquia porque tem o direito de descansar um pouco, aí vocês vão se entender. 
- Não, isso nós resolvemos.
Entenderam-se e Carlos Vechi foi para Orleans, onde ficou 2 anos. De Orleans para Cabeçuda, onde trabalhou 6 anos. Da Cabeçuda para Imaruí, por 2 anos. De Imaruí para Imbituba. De Imbituba para Treviso. Do Treviso foi para o Caravaggio. Do Caravaggio para Santa Rosa do Sul. De Santa Rosa do Sul para Araranguá, Cidade Alta, paróquia Sagrada Família. De Araranguá para Urussanga, completando, assim, trajetória de 50 anos de sacerdócio.
Um Padre Flamenguista
(Do jornal A VANGUARDA de 24.6.2005) 
O flamenguista padre DANIEL SPRÍCIGO nasceu em Orleans (5.9.1949) numa família de oito padres. Tem 69 anos. Padre Daniel chegou em Urussanga a 22.2.1987.  Descobriu sua vocação religiosa em 1960. Foi para o seminário de São Ludgero a convite do Padre Santos, seu tio, onde ingressou em 13.2.1961.
 
A escolha por Bento 16 decepcionou-o, mas diz ter esperança que ele mude alguns de seus pensamentos. Papa Bento 16 chegou numa onda de conservadorismo; por isso teria ficado decepcionado? 

Decepcionou-se desde o momento que viu na TV o resultado do pleito: preocupação, decepção, tristeza. Naquela tarde não atendeu pessoa. Não estava bem. O cardeal Ratzinger, quando Padre Daniel era estudante e lia seus livros, tornara-se um perito do Concílio Vaticano II. Seus livros eram coisa admirável. Mas, depois que foi convidado por João Paulo II, acabou cassando alguns padres. Padre Daniel – um democrata – desgostou-se. Para a Igreja ficou ruim, pois a imprensa mundial divulgou que o Papa teria inimigos em todo canto.

Mesmo com Ratzinger como Papa, pensava haver esperança de mudanças. Acreditava que ele poderia mudar, tantos haviam mudado. Povo e imprensa esperavam por isso. Mas a igreja nunca será a favor da eutanásia e do aborto, a igreja nunca será contrária à vida.

Acha que a motivação para a vida sacerdotal veio da casa dos pais sempre com padres da região lotando a casa. Padres de Orleans, Lauro Müller, Pedras Grandes e São Ludgero. Durante a infância pôde escutar muito dos padres, suas alegrias, tristezas, enfim… Depois, tinha dois tios padres, Padre Santos e Arcângelo. Na família Sprícigo são oito ou nove padres.

De 1963 a 1969 permanece em Tubarão e desta data até 1975 está em Viamão (RS), onde termina os estudos. Em Viamão fez Filosofia e na PUC de POA, Teologia.

Foi difícil no início, principalmente porque era um ano sem voltar para casa, sem falar com os pais. Depois de dois anos tudo ficou melhor. Dúvidas teve algumas, porque ser padre significa ter dúvidas ao trilhar o caminho. Mas isso é normal. Nunca pensou em desistir dos estudos.

É bem verdade que foi mandado embora várias vezes porque era meio moleque. Mas sempre voltava! Não há idade para a carreira religiosa. Ele mesmo foi com dez anos e tem um primo que se ordenou agora, com 36 anos.
Se não fosse padre, não sabe dizer o que seria. Está num patamar da carreira religiosa que pensar noutra atividade é difícil. Quando estudava em POA, julgou ter pendor para Psicologia, mas bispo Anselmo falou:
- Não, não. Vais ser padre, estás estudando para ser padre. 
Talvez hoje fosse diferente, quando se tem mais opções. A Igreja era mais fechada naquela época.

Considera que ser padre não é ser solitário. Ao contrário: os padres têm convivência muito forte com o povo e também com Deus. Desta maneira nunca estão sozinhos. João Paulo II pouco antes de morrer dizia: 
- Mesmo diante da minha fragilidade sei que não estou sozinho. É difícil um padre se sentir sozinho.

Pensa que política e religião dificilmente podem andar juntas. A Igreja tem o papel de orientar, conscientizar, alertar, convidar o povo a construir uma nação. Não pode assumir política partidária, mesmo sendo todo ser humano ente político. Muitas vezes a Igreja foi acusada de apoiar o PT, mas a Igreja jamais disse: Vamos votar no PT!

Com relação aos políticos revolucionários de 1970, até bem pouco no poder, teriam eles perdido o sonho? Teria a política deteriorado aquele sonho? 

Padre Daniel sonha com um Brasil completamente diferente. O revolucionário, o político verdadeiro, tem sonhos. Alguns ainda sonham, mas outros se deixaram levar pelo poder e perderam a dignidade, têm marcado desvio de conduta. Perdida a capacidade de sonhar, pensa que se deve pedir para morrer. E quanto ao lamaçal em que vivíamos, ainda não tem opinião formada. 

É flamenguista de raiz. Em casa são todos Flamengo. Nos momentos bons, que são raros ultimamente, e nos momentos atuais. Gosta de música. Do Dante Ramon Ledesma tem todos. Música gauchesca selecionada, pois claro. Gosta de MPB e de música erudita. 

É padre 24 horas por dia. Mesmo nos momentos de distração, gosta de pescar, sendo padre. Diariamente renova a missão de padre.

Sofreu com a morte de João Paulo II. Todos temos que partir e a hora de João Paulo II chegou; ele foi chamado, cumprira sua missão. Padre Daniel encara de outra forma a morte. As últimas palavras de João Paulo II têm relação com os esforços realizados pela equipe médica no sentido de prolongar-lhe a vida:
- Deixem-me partir...
Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 26/01/2019 - 06:00

UMA HISTÓRIA DE PEDRAS GRANDES

Irmoto recebeu recado de Ângelo Felippe, de quase 93 anos, morador de Pedras Grandes, sobre história relativa a atendimento do Dr. Otto. Irmoto vai até a cidadezinha e ouve do velho, mas lúcido cidadão e com memória invejável, que 81 anos antes, seu pai André Felippe, casado com Jacomina Tessa, pai de 11 filhos, sentira-se mal pedindo para chamarem o Dr. Otto em Tubarão a fim de atendê-lo.
Na época a família vivia em Riachinho, localidade situada a 8 km de Pedras Grandes, em direção a Azambuja.
Estradas ruins, apenas carroças e carros de boi transitavam por ali. Carro de praça, um dos primeiros de Tubarão, um Ford Modelo A de João Oscar Bento, conseguiu chegar a 3 km da casa onde um cavalo encilhado aguardava o Doutor para o restante do percurso, impossível de alcançar doutra forma. Montado, seguiu morro acima até alcançar a moradia.
O diagnóstico não oferecia dificuldades, tratava-se de um AVC, problema que, ontem como hoje, se reveste de tratamento difícil e prognóstico incerto. Otto explicou a gravidade do problema para os familiares e tratou de amenizar o problema para o paciente escolhendo com cuidado as palavras. Ângelo conta para Irmoto:
- Lembro das palavras do seu pai: “não se aflija, senhor Felippe”.
A presença do automóvel estacionado nas redondezas mais a presença do médico atraíram a atenção da população local.
Otto despediu-se de todos após prescrever os medicamentos e fez o caminho de retorno.
O paciente faleceu 7 meses depois, aos 56 anos.
Irmoto, ao final da visita, foi surpreendido por Ângelo que executou à gaita algumas músicas. Irmoto, que se identificou como oriundo e neto de Martinho Ghizzo, pediu que executasse Ciamo tutti arrivatto. Ângelo informa que seu avô materno, residente no Morro Santa Cruz em Treze de Maio, todas as segundas-feiras, montando sua mula, seguia em direção ao Morro Pelado na Serra do Doze. Isto porque ele era feitor da estrada e estava abrindo uma picada ligando Lauro Müller a Bom Jardim da Serra. Ele fora contratado pelo governador Vidal Ramos em 1910 para esta importante obra, ligação do planalto ao litoral.
O jornal o Albor da Laguna (15.9.1913), em notícia de primeira página, anunciou que a rodovia do Rio do Rastro apresentava bom estado de conservação e movimento inusitado. Em 11 de agosto teriam subido numa só ocasião 16 carros de boi, cada um carregando 300 quilos de carga, realizando-se a travessia da serra em 5 horas. Estava aberta a estrada, obra do feitor Martinho Ghizzo. A estrada, asfaltada, teve descerrada a fita de inauguração em outubro de 1986, 73 anos depois, por Irmoto Feuerschutte, neto do feitor Martinho Ghizzo, inauguração a quatro mãos, juntamente com o ex-governador Colombo Machado Salles, evento ocorrido em Lauro Müller.

BREVE NOTÍCIA SOBRE ORLEANS

Curato (1903), paróquia (21.7.1909). Terras de Orleans foram um dos dotes que princesa Isabel recebeu de D. Pedro II no casamento com Conde D’Eu. O nome da cidade constitui-se numa homenagem à família de Luiz Felipe Maria Fernando Gastão de Orleans, o Conde D’Eu, que visitou a vila em 1884, município em 30.8.1913. O primeiro templo católico (1886), construído pelo comendador Joaquim Caetano Pinto Jr., que residia em Paris, e dirigia a Cia. Colonizadora Grão Pará, de 1882, com sede em Grão Pará. Em 1884 foi transferida pelo Conde D’Eu para local à beira da ferrovia, recém-inaugurada, lugar que recebeu o nome de Orleans, homenagem à família imperial.
Nova igreja vem em 1892, cuja construção se deve à ajuda de Otília, filha do comendador e também residente em Paris. Santa Otília, padroeira de Orleans, tem esta escolha em homenagem a essa senhora. Até 1903, Orleans pertencia à paróquia de Tubarão. Em 21.7.1909 é erigida a Paróquia Santa Otília de Orleans, inicialmente como Curato e capelão-cura Padre Jacinto Bertero com a provisão de pároco. Em 1911 assume a paróquia o padre italiano Afonso Vergnano. Em 1923 vem o padre português Guilherme Farinha da Silva, em 1925 o padre alemão Ernesto Schultz e em 1931 o padre Pascoal Somadosy. 

PADRE SANTOS SPRÍCIGO E SUA MÃE

Ordenação do Padre Santos Sprícigo em Orleans, 21.12.1947. Em 9.8.1992, faleceu vítima de Câncer. Ele inaugurou em 21.12.1989 a Rádio FM Luz e Vida. A rádio Marconi, de Urussanga, é também obra do gênio de Monsenhor Agenor Neves Marques. Santos Sprícigo, além de ter construído a igreja matriz de Orleans, ao saber de sua morte próxima, construiu a própria sepultura, no interior da Igreja, local onde está sepultado. Em 1992, após falecimento do padre Santos Sprícigo, assume a paróquia o padre Valmor Della Giustina. Padre Lino Brunel foi pároco por 18 anos (1993-2011), sucedido por padre Elias Della Giustina (2012-2014). 
Domingo, dia 15.4.1923, dona Regina Cechetto Sprícigo nascida em 9.12.1890 aprestava-se para ir à missa na Igreja matriz de Orleans, valendo-se da ponte da estrada de ferro para a travessia de uma margem do rio Tubarão para a outra. Ainda não existiam pontes para facilitar esse procedimento. Algumas tábuas de madeira haviam sido colocadas entre os trilhos com esse objetivo. Ao retornar para casa, caminhando sobre o tabuado da ferrovia, uma das tábuas rompeu-se produzindo graves ferimentos em dona Regina, grávida pela oitava vez. Em 1923 ainda não havia hospital ou médico em Orleans. Pelo telégrafo da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina (EFDTC), Otto foi chamado e se deslocou de trole para Orleans, distante quase 60 km de Tubarão. Otto Feuerschutte atuava como médico das empresas EFDTC e das minas de carvão de Henrique Lage em Lauro Müller. Recomendou repouso no leito, mas, infelizmente, 4 dias depois, mãe e feto faleceram em 19.4.1923.
Dona Regina era mãe dos futuros Padres Santos e Arcângelo Sprícigo. Santos, último dos sete filhos, auxiliava o pai na distribuição do leite produzido no sítio familiar.
Dona Yvete Maria Santiago Silva, grande colaboradora na Paróquia e minha cliente, assim como o Padre Santos, confirmou esses fatos, relatados por Irmoto.
Segundo a obra biográfica, Dona Regina, em seu leito de morte, referindo-se ao filho Santos, teria dito:
- Este Santos eu entrego a Deus.
Declaração interpretada como desejo materno de que o filho seguisse uma (suspeitada) vocação religiosa. O menino, quando interrogado sobre seu futuro, expressava desejo de exercer o sacerdócio.    

PRIMEIRO HOSPITAL, PRIMEIROS MÉDICOS EM ORLEANS

Quinze anos depois, em 4.10.1938, foi entregue à população orleanense o prédio do Hospital Municipal Henrique Lage, construído pelo político e empresário do mesmo nome, residente no RJ, proprietário e explorador de empresas mineradoras de carvão em Lauro Müller. A obra foi tocada pelos engenheiros da empresa mineradora, Reinaldo Schmithausen, Walter Weterli, Márcio Machado Portela, Wilson Gonçalves e Nestor Gigueira. Os médicos José Lerner Rodrigues e Antonio Dib Mussi foram os primeiros no hospital. 
Inauguração efetiva foi em 15.1.1939. Neste dia, segundo relatos, ao visitar as obras da ponte sobre o Rio Tubarão, na chegada de Urussanga, o interventor Nereu Ramos soube do nome escolhido para o hospital. Não teria gostado e buscou conhecer o nome da santa padroeira do município. Discursou então: “Estamos aqui em Orleans para visitar as obras desta ponte e também inauguraremos o Hospital Municipal Santa Otília, cujo nome é dado em homenagem à Santa Padroeira desta paróquia”. O prefeito José Antunes Matos, mais que depressa determina aos fiscais da prefeitura Hugo Claumann e Gastão Cordini que, rapidamente, se dirigissem ao hospital retirando a placa com o nome Henrique Lage (Orleans 2.000 - História e Desenvolvimento. Jucely Lottin, pág. 167.1998).

A GRIPE ESPANHOLA

Final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) sofreu a Europa os efeitos de uma pandemia causada por vírus Influenza A, do subgrupo H1N1, de virulência incomum e altamente letal. O número de vítimas fatais alçava à casa de milhões. 
A doença teria iniciado em março de 1918 nos EUA. 80% das forças armadas americanas teriam sido atingidas pela moléstia.  Foram 120 mil os mortos em Portugal. 1/3 da população europeia atingida não sobreviveu.
Todavia, a gripe não começou na Espanha. A pandemia tomou essa denominação porque durante a guerra a terra de Cervantes se mantivera neutra, não censurando notícias. A imprensa espanhola divulgava “o terror causado pelos 8 milhões de infectados pela fiebre de los tres dias que atingiu até o rei Afonso 13”. Os exércitos das demais nações bloqueavam informações que fossem estrategicamente desfavoráveis e pudessem atingir o ânimo das tropas: “Daí a dedução equivocada de que a doença matava mais naquele país, consagrando o nome Gripe Espanhola”.
Mil soldados brasileiros a caminho das regiões do conflito, estacionados em Dakar, Senegal, foram atingidos pela doença. 
Em Tubarão, a doença chega em 1918, entre dez/1918 e mai/ 1919, lotando o hospital: 385 internações, 11 óbitos. Duas religiosas do Hospital, a 2 e 4.12.1918 perderam a vida.      

DA INTERNET

A doença foi observada pela primeira vez em Fort Riley, Kansas, EUA (4.3.1918), e em Queens, Nova Iorque, no mesmo ano. Kansas foi o primeiro Estado americano a proibir a venda da bebida alcoólica no país, 1880. Esta lei seria revogada somente em 1986, mais de cem anos depois. Os primeiros casos conhecidos da gripe na Europa ocorreram em abril/1918 com tropas francesas, britânicas e americanas, estacionadas nos portos de embarque na França durante a Primeira Guerra Mundial. Em maio, a doença atingiu a Grécia, Portugal e Espanha. Em junho, a Dinamarca e a Noruega. Em agosto, os Países Baixos e a Suécia. Todos os exércitos estacionados na Europa foram severamente afetados pela doença, calculando-se que 80% das mortes da armada dos EUA se deveram à gripe.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 19/01/2019 - 06:00

OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão
Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do CBO

“Ainsi, il me paraît, em ce moment, que la mémoire est une faculté merveilleuse et que le don de faire apparaître le passé est aussi étonnant est bien meilleur que le don de voir l’avenir”. Anatole France. 
(Assim, parece-me, neste momento, que a memória é uma faculdade maravilhosa e que o dom de revelar o passado é também surpreendente e muito melhor que o dom de ver o futuro).
Encontrar quem fale o brasileiro já é bem difícil. Encontrar quem fale o inglês é outra complicação. Já no que se refere ao idioma francês é praticamente impossível. Em minha época de aluno de ginásio e mesmo mais tarde, matriculado na universidade, a linguagem culta era a francesa. Nossos livros didáticos eram em espanhol ou francês. Toda a Fisiologia era do argentino Houssay e Anatomia Descritiva do francês Testut. 
E quem eram esses ilustres personagens?
Bernardo Alberto Houssay (Buenos Aires, 10.4.1887 e 21.9.1971), foi fisiologista argentino, agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina (1947), por pesquisas sobre hormônios da glândula hipófise. 
Jean Leo Testut (Saint-Avit-Sénieur, 1849 - Bordéus, 1925), é um dos mais reputados anatomistas do mundo. 
Estudou Medicina em Bordéus, estudo interrompido (Julho de 1870) pela Guerra Franco-Prussiana. Condecorado com a Legião de Honra por mérito militar, recusou-a, embora a tenha recebido depois, por mérito acadêmico. Terminada a guerra (1871), apenas em 1878 Jean Leo Testut regressa à Escola de Medicina de Bordéus, na qual conclui a tese de doutoramento, sobre a pele humana, tese que lhe granjeia grande reconhecimento no meio científico. Recebe medalha de prata da Faculdade de Medicina de Paris, medalha de ouro da Academia das Ciências Médicas de Bordéus e o prêmio Godard da Academia de Medicina Francesa.
Chefe dos Trabalhos Anatômicos da Faculdade de Medicina de Bordéus  (1878-1884), em 1881 é nomeado professor agregado da mesma faculdade. Em 1884 vai para a Universidade de Lille, que troca pela Universidade de Lyon (1886). Retira-se do ensino (1919, 60 anos), já reconhecido como notável investigador e professor. Mas, seu trabalho e investigação nas áreas da anatomia, antropologia e história não finda; continuou sempre ativo até a morte (1925). Existe museu de anatomia em sua homenagem (Lyon) e um colégio Léo Testut (Beumont).
O Traité d'anatomie humaine (4 volumes), ainda hoje considerado um dos mais completos e bem ilustrados tratados de anatomia é sua obra mestra. Continua a ser adotado em Faculdades de Medicina sendo um dos livros mais consultados por estudantes de medicina.

OTTO FEUERSCHUETTE ESTUDOU NO TESTUT, MAS NÃO NO HOUSSAY

“A banda musical Minerva tocando belo dobrado precedendo a comissão de recepção (...) doutor Cândido Leão, juiz de direito, major Accacio Moreira, capitão Alexandrino Barreto, João Nunes Teixeira, capitão Henrique Hulse e Hermínio Menezes, redator desse jornal” “gentis senhoritas de branco, cada uma conduzindo uma salva cheia de pétalas de flores naturais, em redor da senhorita Armely Menezes, portadora de lindo ramalhete preso por longa fita cor de rosa onde se lia: A MULHER TUBARONENSE AO DISTINTO DOUTOR FEUERSCHUETTE” “o entusiasmo era indescritível” “o doutor desceu do carro sob profusa chuva de pétalas de rosas que lhe eram jogadas por centenas de gracis senhoritas” “préstito desfilou pelas ruas Deodoro, Lauro Muller e São Manoel, vivando incessantemente o ilustre recém-chegado” “de todas as casas pendiam (...) belas bandeirinhas” “em frente ao Clube 7 de julho, Trajano Cardoso, conceituado farmacêutico, levantou arco de bambu em cujo centro se lia: SAUDAÇÃO DO POVO” “dois lindos arcos (...) trabalhados pelos Srs. Augusto Hulse, Sylvio Búrigo, Paulo Medeiros, Antônio Castro, Pedro Souza e Francisco Orige” “passando o doutor OTTO, a cesta abriu-se espargindo profusamente pétalas de rosa, soltando lindos pombinhos brancos”  “usou da palavra o Sr. Dr. FERREIRA LIMA (...) saudando seu ilustre colega” “à noite (...) queimando lindos fogos de bengala e precedida da simpática banda musical Lira Tubaronense dirigiu-se à residência do Dr. OTTO afim de lhe fazer entrega de dois lindos exemplares de polianteia (antologia), em fino cetim verde e outro em cetim cor de rosa”.
Na ocasião discursaram o advogado Alexandre Barreto e Miguel Faraco, este encarregado da agência telegráfica da cidade. Os exemplares foram conduzidos em (lindas) salvas de prata pelas gentis senhoritas Thamar Faraco e Adelaide Santiago. OTTO chegado em 1910 a Tubarão, então visita o hospital de caridade, fundado a 3.5.1906. Mantido e criado pela Sociedade Divina Providência o Hospital Nossa Senhora da Conceição, hospital geral  com 394 leitos, é o maior de SC em número de leitos.
Ainda em regozijo à chegada de OTTO, em frente ao Café Estrela do Sul foram realizados concorridos divertimentos. 

O INÍCIO

Mulher em trabalho de parto numa espécie de paiol atrás de residência, achava-se pendurada pela barriga, suspensa por uma cincha, faixa de couro usada para fixar as selas na barriga de animais de montaria. A pressão exercida pela cincha tinha como objetivo comprimir o feto para que a délivrance ocorresse. Infelizmente o feto não sobreviveu ao tratamento absurdo e OTTO pode salvar a mãe, o que não era pouca coisa, considerando-se as circunstâncias.
Em abril de 1910 a primeira cirurgia, uma amputação do braço esquerdo de Ernesto Benatti que ficou 3 dias e 4 noites com o braço esmagado por uma tora no meio de mato cerrado, vendo formigas gigantes, as tapiocas, devorarem seu braço gangrenado. OTTO salvou o homem após 3 meses de tratamento hospitalar.
Atendimentos em lugares distantes eram frequentes. O jornal A Folha do Sul (Tubarão, 11.4.1915 e 5.12.1915) relata dois atendimentos em São Joaquim. Não era pouca coisa levando-se em conta que logo ali, em Lages, César Sartori exercia com grande competência sua honrada Medicina. 
Também no Vale do Braço do Norte, viajando de trole ou a cavalo. Mario Belolli, historiador criciumense, escreve em A História do Carvão de Santa Catarina que em 1920 a CBCA de Henrique Laje, com a participação de OTTO criou a primeira providência assistencial.  A IMPRENSA, de Orleans (1º.8.1920) registra que mineiros e trabalhadores são informados da nomeação do médico. Todas as sextas-feiras OTTO atendia mineiros e suas famílias. Nas ausências era substituído por AURÉLIO RÓTULO, médico da Laguna. OTTO teria também atendido em Morretes (Maracajá), anotação no livro de Jairo Arno Matos de março de 1910.

CÉSAR AVILA

Ao lado do Professor Mário Braga de Abreu, os dois maiores cirurgiões que já vi operar. O primeiro em Curitiba (meu professor de Clínica Cirúrgica) e o segundo, cirurgião em Lages. César Ávila nasceu pelas mãos de César Sartori, de quem ganhou o nome. O lageano descreveu seu xará e parteiro como “magro, já um pouco curvado, alto, nariz adunco, surgindo em Lages com a roupa que trouxera da Itália, os mesmos sapatos pesados europeus, vindo de Urussanga a cavalo, onde foi o primeiro médico”. Cesar Sartori nasceu em Vicenza na Itália e veio a falecer em Lages (1945). Toda sua bagagem coubera em dois cargueiros com bruacas. Poucas roupas, muitos livros e ferros de cirurgia. Tratados de cirurgia e anatomia livros de filosofia, política, literatura e poesia. Ali estavam entre outros, Malatesta (o anarquista), Schopenhauer (o pessimista), ao lado de Voltaire e de Dante. Era 1905. Já entrara nos 40 anos.  
César Ávila conta de seu nascimento, partejado por Sartori: 
Otto Feuerschuette nasceu a 09.04.1881, teria 24 anos na chegada de Sartori em Lages e Cesar Ávila, um ano de idade, “nasci um prematuro de menos de dois quilos.
- Vai morrer. Batizem! Procurem uma caixa de sapatos para o enterrar -, sentenciou Cesar Sartori. 
Foi um corre-corre. Veio o padre. Batizou-me e o médico foi o padrinho. Anticlerical ferrenho, botou todo o veneno de sua descrença nesta cerimônia.
- Ponham meu nome porque vai morrer. Chamem-no de César. Meu nome e do imperador romano:
- E como é muito pequeno incrivelmente pequeno, batizem-no de César Augusto, César, o grande!
Havia o problema da alimentação.
- O que vamos dar pro menino?
E Dr. César, pensando um pouco:
- Agora, uma colher de vinho do Porto. Como vai morrer, aproveitará pelo menos uma das coisas boas da vida. Depois ... não precisará de mais nada...
Foi minha primeira experiência de como é falho o prognóstico. Não morri. Meus pais adotivos tiveram um trabalho enorme para conseguir ama de leite. Mamei numa Índia depois de ter mamado numa cabra. Herdei de ambas a tendência nômade que me fez nunca parar num mesmo lugar.” 
O anarquista Cesar Sartori nasceu a 15.2.1867 em Vicenza (Vêneto, Itália). Em 1891, estudante universitário, militava no Partido Revolucionário Anarquista-Socialista, organização que pretendia unir todas as forças libertárias num único movimento insurrecional. Em 1893 gradua-se em Medicina pela Universidade de Pádua. A militância no movimento libertário vai implicar em perseguições e prisões. Seguidor de Enrico Malatesta e de Andrea Costa, era apaixonado pela filosofia (Schopenhauer), literatura (Voltaire) e poesia (Dante). Em 1902, buscando trabalho, saúde e liberdade, emigra para o Brasil, instalando-se primeiramente em Urussanga S/C.  Parece que a doença que tinha era tuberculose e o clima de Urussanga não lhe era favorável, estabelecendo-se definitivamente (1903) na altitude de Lages, onde monta clínica (Casa de Saúde). A 1º.5.1908, 100 anos atrás, graças à sua intervenção, Lages celebra pela vez primeira o 1º de maio. 

Todos os domingos, enquanto muitos se ocupavam da missa, reunia-se com intelectuais. Colaborava com a imprensa italiana de esquerda, socialista e sindicalista revolucionária que editava no Brasil (Avanti!, Tribuna Italiana e La Scure). Criticava duramente a imprensa servil ao poder e à Igreja Católica, tanto italiana como brasileira. Redigia artigos antimilitaristas. A propósito, Scure significa Machado. Em 1930 filia-se ao Partido Socialista Unitário dos Trabalhadores Italianos (PSULI) e em 1933 ao Partido Socialista Italiano (PSI), sempre no setor anarquista daquelas agrupações políticas. Íntimo amigo do anarquista Nulo Beccari, entre os anos trinta e quarenta realiza diversos estudos antropológicos sobre os costumes morais dos índios do Mato Grosso (boróros, terenos e caigangues) e do RS (coroados). Publica-os em diversas revistas (A Voz de Chapecó e O Clarim), chegando à conclusão que a moralidade dos indígenas, era superior à dos brancos e que a criminalidade entre eles era inferior à dos civilizados. Reivindica para eles assistência médica permanente, com a finalidade de combater doenças endêmicas e epidemias. 
Muito daquela documentação antropológica e sanitária dos pobres indígenas, ficou inédita. Sartori exerceu a Medicina totalmente de forma altruística (negros, indígenas e pobres) de Lages/SC. Já idoso atendeu uma cliente miserável em noite fria e vai morrer da pneumonia que contraiu, em 12.7.1945. Seu enterro foi manifestação de todas as classes sociais, especialmente das mais modestas; seu caixão, por expressa designação sua, vai ser carregado por membros da comunidade negra e dos pobres da cidade. Em Lages há uma rua que leva seu nome e ganhou busto na praça João Ribeiro.
A chegada de César Sartori a Lages (1903) e a chegada de Otto Feuerschuette a Tubarão (1910), têm datas próximas. Paulo Carneiro vai chegar na Laguna em 1930. CÉSAR Augusto da Costa ÁVILA, nascido a 26.7.1906, em Lages/SC, contava 4 anos. Faleceria em 19.2.1974 em POA/RS. Formado em Medicina no RJ em 1930, foi colega de Paulo Carneiro, trabalhou em Lages, Florianópolis, Nova Veneza, Antonio Prado, POA. Nesta última cidade radicou-se, foi professor concursado da Cadeira de Ortopedia na UFRGS. Fundou a Casa de Saúde Independência. Cirurgião de renome nacional e internacional, dedicou-se também à pintura e â literatura escreveu contos e uma autobiografia (REVELAÇÕES DE UM MÉDICO).

RISCO CIRÚRGICO 

Todos eles eram cirurgiões: Sartori, Feuerschuette, Paulo Carneiro, César Ávila. Naquela época, do Caburaí ao Chuí, não havia como estabelecer - nem remotamente - os riscos do ato cirúrgico, algo tão presente em nossas preocupações quando decidem operar-nos.
Como? Não sabia que o Oiapoque não é mais o extremo norte brasileiro? Pois não é mais mesmo. O monte Caburaí, 1 465 metros de altitude, na serra do Caburaí, na borda de imenso planalto, delimita nossa fronteira norte com a Guiana, no município roraimense de Uiramutã.
Já se considerou como nosso extremo norte, o cabo Orange, rio Oiapoque, estado do Amapá.  O cabo Orange, situa-se 84,5km mais ao sul que o monte Caburaí. Em 1931, a serra do Caburaí apareceria como ponto extremo do norte brasileiro nas anotações do capitão de mar e guerra Brás de Aguiar, chefe da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites. Aguiar concluiu que o ponto extremo norte do Brasil era a serra do Caburaí em detrimento do monte Roraima, no mesmo estado. 

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 12/01/2019 - 06:00

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão
Henrique Packter, Oftalmologista
CREMESC 383 RQE 505  Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia

A FORMAÇÃO DE OTTO

Concluídos os estudos iniciais em Tubarão (1892), OTTO e o pai viajam para a Alemanha. Tinha 11 anos, lá ficando por 5 anos na casa dos avós paternos. O pai retorna ao Brasil em 24.3.1892, e à Alemanha em 1897 para trazer o filho. Deixam Hamburgo em 30.9.1897, contando OTTO 16 anos. Vai estudar em Pelotas, RS (1898 e 1899). Na época tinha interesse em cursar Farmácia e, pela sua má adaptação ao clima de Pelotas, transfere-se para POA. Recomendado por José Montaury, prefeito da capital gaúcha (1897-1924), procura o farmacêutico Dupasquié, sócio de Cristiano Fisher, um dos fundadores da Faculdade de Medicina de POA, em funcionamento desde 15.3.1899 (120 anos), a terceira mais antiga Faculdade de Medicina do país, atrás de Salvador na Bahia e RJ. 
Fisher envia o jovem OTTO ao Colégio Nossa Sra. da Conceição, São Leopoldo, para cursar os 3 anos de ginásio a partir de 1900. Conclui o curso (1903) e em 1904 ingressa na Faculdade de Medicina de POA. 
José Montaury de Aguiar Leitão (RJ, 1858/POA, 1939), engº e político, primeiro intendente (prefeito) de POA eleito pelo voto direto (na época, voto não era secreto e mulheres não votavam). Eleição (28.9.1896), do total de 6.073 eleitores, 2.400 compareceram às 31 seções de votação. Do total, apenas sete votos foram computados contra Montaury, candidato do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR).
Homem de confiança de Júlio de Castilhos, chefe supremo do partido, Montaury concorreu como candidato único e reelegeu-se ainda outras seis vezes; apenas em duas eleições enfrentou opositores. Governou POA por 27 anos. Ao assumir o cargo (1897), POA tinha 64 mil habitantes; deixando suas funções, em 1924, a cidade contava 160 mil habitantes. 
José Montaury implantou serviço de primeiros-socorros no primeiro mandato. POA foi a primeira cidade do Brasil a implantar o serviço. Primeira rede de esgotos de POA também foi construída em seu governo (como resultado, a mortalidade infantil caiu de 32,2% para 17,9%).  
Encomendou em 1910 projeto para a cidade ao arquiteto João Moreira Maciel. Plano Maciel (1914) buscava abrir avenidas largas, principalmente no centro da cidade, atendendo exigências da higiene e estética.
Em 1923, por alteração na Lei Orgânica de POA, reeleição é proibida. Em 1924, José Montaury deixa a prefeitura, substituído por Otávio Rocha, também do PRR. José Montaury nunca se casou e morreu pobre em 1939.

A FACULDADE DE PORTO ALEGRE NA ÉPOCA. OS CASAMENTOS DE OTTO

Em 1901, 1902 e 1903, OTTO foi sempre o melhor aluno da turma, conquistando o prêmio de Excellencia e respectiva Condecoração. A Faculdade de Medicina de POA é de 15.3.1899. Concluído o ginásio em 1903, em 1904 ingressa na Medicina de POA, curso criado fazia 6 anos. Aconselhado por familiares, transfere-se para o RJ, onde cursa o segundo ano médico (1905). Em 1909 ainda estudante casa-se com Carlota Rosa. Forma-se na Faculdade Nacional de Medicina em 1910.
O primeiro filho, RUY CEZAR, nasce em 22.2.1912 ainda no RJ. CARLOTA faleceu em 28.1.1929, deixando duas filhas, Alsa e Olsa com menos de 5 anos. Ainda em 1929, OTTO casa-se com IDA WENDHAUSEN ÁVILA, mãe de três filhas. Dez anos depois, 1939, IDA vem a falecer.
Já em 15.2.1940, OTTO casa-se com IRMA GHIZZO, convertendo-se ao catolicismo na mesma ocasião. IRMA (que lhe deu os filhos IRMOTO e OTIRMA) era filha de MARTINHO GHIZZO, amigo e aliado político.
Em 11.8.1949 (ano da formatura em Medicina do filho LEO), OTTO enviúva pela terceira vez. IRMOTO tinha 8 anos e OTIRMA, seis. OTTO casa-se pela quarta e última vez (no religioso), aos 68 anos com VERÔNICA KUHNEN. São onze os filhos: RUY CEZAR, ELSA, ELSI, ILSA, HENRIQUE OTTO (QUICO), TÚLIO (96 anos em 2014, bancário, casado com a irmã de ADHEMAR PALADINI GHISI, pai de OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, brilhante oftalmologista em Tubarão e autor do primeiro transplante de córnea naquela cidade), LEO MAX (consagrado cirurgião tubaronense, pai e avô de médicos e odontólogo), IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE (médico formado na Faculdade de Medicina da UFPR em 1966, conhecido político em Tubarão e professor universitário no Curso de Medicina na UNISUL). 
PAULO CARNEIRO DA LAGUNA, TAMBÉM DA FACULDADE NACIONAL DE MEDICINA 
PAULO CARNEIRO, nascido em 1907, Ubá, MG, veio a Laguna exercer sua profissão, onde foi prefeito três vezes. De família pobre (15 irmãos), uma tia abastada, impressionada pela capacidade intelectual do menino, investiu em sua educação. PAULO treinava a memória frequentando o Jardim Botânico no RJ semanalmente, memorizando os nomes científicos das plantas. Retornava uma semana depois para conferir os acertos do que sua memória gravara. 
Graduou-se em 1930 sendo trazido a Laguna em 1931 pelo futuro sogro e provedor do Hospital São Camilo, Luiz Martins da Fonseca. O Hospital era e ainda é da Ordem da Divina Providência. Casa-se com Ludmira, esposa e companheira por toda a vida. Tiveram três filhos, SÉRGIO neurocirurgião no RJ, RUTE casada com Rudi Bauer e LUÍS PAULO cartorário na Laguna. Fundou o Clube Blondin. Trabalhou até os 75 anos quando a artrose determinou o encerramento de sua carreira médica. 

CHEGADA TRIUNFAL DE OTTO FEUERSCHUETTE NA LAGUNA

Chega a Laguna, vindo do Rio no vapor MAX a 28.1.1910. Tem recepção apoteótica noticiada pelo Jornal O ALBOR, dois dias depois. Registra que Otto é o segundo filho de Tubarão a formar-se em Medicina, mas o primeiro a regressar. Às 13h30min séquito de autoridades da Laguna e Tubarão levam o jovem médico de trem à sua cidade onde chega às 15h do dia 28.1.1910. Multidão de pessoas, foguetes e foguetões, dobrados da banda Minerva, mais Lira Tubaronense, comissão de recepção (juiz de Direito, militares), préstito evoluindo pelas ruas centrais, chuvas de pétalas de rosas, vários discursos depois, chega à casa paterna onde é saudado pelo colega, Dr. Ferreira Lima.
VINTE E UM ANO DEPOIS CHEGA PAULO CARNEIRO  
Jayme Mason, autor de Vivências e Recordações, lembra que PAULO CARNEIRO radicou-se na Laguna lá por 1931 quando contava 24 anos de idade. Vivo fosse, contaria 112 anos (2019). Tendo OTTO FEUERSCHUETTE chegado em 1910 há uma diferença de 21 anos entre o início do trabalho de ambos. Na época, Laguna estaria sem médico. É até possível, mas sabe-se que em 1930 Aurélio Rótolo pedira demissão do hospital, sendo substituído por Osvaldo Espíndola. 
PAULO CARNEIRO era perfeccionista, poliglota, tinha notável biblioteca de livros técnicos e de clássicos da literatura. 

A CHEGADA DE OTTO

Do jornal O ALBOR, 30.1.1910 “anteontem a bordo do Max chegou do RJ, o Dr. OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE que acaba de concluir o curso acadêmico”, “um fato memorável (...) pois até bem pouco tempo os catarinenses, em número limitado, se dedicavam às carreiras médicas e jurídicas, preferindo a marinha e o exército”, “OTTO é o segundo filho de Tubarão que alcança o diploma de doutor em Medicina, mas é o primeiro que regressa à terra natal”, “justas e merecidas são as homenagens, as inúmeras provas de simpatia que nesta cidade lhe foram deferidas e as imponentes festas que em sua honra (...)”, “não podia ter sido mais gentil e carinhosa a maneira porque a Laguna acolheu em seu regaço o distinto tubaronense: a recepção que teve foi uma modesta, mas sincera demonstração de (...)”, “de bordo do Max (...) seguiu para o Hotel Monte Claro na Rua Santo Antônio, próximo da Igreja Matriz”, “reunidos todos no salão principal em nome da Laguna apresentou-lhe as boas vindas (...) Antônio de Guimarães Cabral (...) respondeu o Dr. OTTO à saudação (...) manifestando sua imperecível gratidão à Laguna (...) terminou sua singela mas emocionante oração brindando a heroica cidade de Laguna (...) A 1h30 da tarde num carro especial seguiu (...) para sua terra natal (...)”.  Segue-se uma lista das 41 pessoas que receberam o novo médico. Da lista fazem parte 2 coronéis, 1 tenente coronel, 3 majores, 1 padre, 1 doutor. Nenhuma mulher na relação de nomes!
À época, mulheres viviam para o lar, não comandavam negócios nem tinham o peso social que só vão começar a adquirir em meados do século 20. O voto feminino no Brasil vai ser assegurado em 24.2.1932, quando as mulheres adquirem o direito de votar e serem votadas. E mesmo assim parcialmente. Somente mulheres casadas, aquelas com autorização dos maridos, as viúvas, e as solteiras que tivessem renda própria. Isso também valia para outras contingências, como obter carteira de motorista. Na Laguna, pioneira a aventurar-se sobre quatro rodas foi Cora Magalhães Rocha, nascida lagunense em 1907.
Casada em 1925 com Pedro Rocha (carteira n° 8), comerciante na Laguna, Cora fez os exames de direção, foi aprovada pelo perito examinador José Bergler. Recebeu a Carteira de Habilitação de nº 103, em 16.09.1937, aos 30 anos de idade, documento assinado pelo prefeito Giocondo Tasso. Até 1956, último ano dos Registros, Cora Magalhães Rocha foi a única mulher autorizada a dirigir automóvel na Laguna. Era uma mulher decidida, de opinião, além de bonita, e que pelo seu pioneirismo, certamente enfrentou mitos e preconceitos. 

As estradas praticamente não existiam, poucos eram os motoristas. Cabia à prefeitura organizar e realizar os exames de direção, contratando os examinadores e expedindo a Carteira de Habilitação. Na Laguna, o primeiro a se registrar, em 25.5.1933, foi Oscar Bergler, 28 anos, Carteira nº 1, sendo seu exame de habilitação prestado em Tubarão alguns anos antes, em 1923. Foram testemunhas do registro (em 1933) Paulo Carneiro e Mário Bianchini. Assinam também o documento o secretário da prefeitura José (Zeca) Freitas e o então prefeito-provisório Giocondo Tasso.
O primeiro motorista de automóvel/caminhão na Laguna foi Willy Strak, mas sua carteira foi registrada em Brusque. Em 13.1.1915, conforme registro do Jornal O Albor, chegava a Laguna, no convés do vapor Anna, o primeiro automóvel da Laguna, para Júlio Bergler. Portanto, quando OTTO chegou, não havia automóvel nas ruas da Laguna. Como o proprietário do primeiro automóvel não dirigia, quem tomou a boleia do veículo foi Willy Strak, também motorista do primeiro caminhão pertencente a Jacinto Tasso. Outros motoristas: Dr. Paulo Carneiro, Carteira nº 3; Mário Bianchini, nº 4; Pedro Rocha, nº 8; Dr. Aurélio Rótulo, nº 13; Humberto Zanela, nº 17; Francisco Fernandes Pinho, nº 19; Mário Remor, nº 30.
OUTRA VISÃO

Já o jornal O ESTOQUE (Tubarão, 12.2.1910), em extensa matéria diz resumidamente, no jargão jornalístico próprio da época, “saberá guiar-se no caminho de seu apostolado sem outra preocupação senão disseminando o bem sem visar recompensas, espalhando o benefício sem outro intuito  senão cumprir os ditames de sua consciência pura e os impulsos de seu magnânimo coração” (...) “extraordinária festa promovida em regozijo à formatura do digno doutor” (...) “jamais este povo assistiu a recepção tão concorrida e entusiástica” (...) “mais de 2 mil pessoas acotovelavam-se nos estreitos âmbitos da gare” (...) “uma comissão composta dos senhores coronel Frederico Noronha, major Venâncio Silva e tenente José Esmeraldino foi esperar o Dr. OTTO em Laguna onde foi carinhosamente recebido pela elite lagunense. Em carro especial (...) foi conduzido a esta cidade, aqui chegando às 3h da tarde do dia 28”.

Considerando-se notícia do ALBOR de que partiu da Laguna às 13h30min e que chegou a Tubarão às 15h, a viagem levou uma hora e meia por ferrovia.
Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE
 

Por Dr. Henrique Packter 05/01/2019 - 06:00Atualizado em 09/01/2019 - 21:32

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia

Foi na virada do século, pelo enriquecimento natural da população, que Laguna testemunhou o desenvolvimento urbano e intelectual mais significativo de sua história. São dessa época o teatro Sete de Setembro (1858), a tipografia do primeiro jornal (1878), o hospital (1879), o primeiro hotel na Rua da Praia, o Cine Central, a iluminação pública a petróleo (1891) e o antigo Mercado Público (1893). Este último, incendiado na primeira metade do século 20. Em 1903 Laguna teria 19 mil almas.
6.1.1880 Criciúma é colonizada, sendo distrito de Araranguá em 1892 e município em 1925.

Na Laguna, entre 1914 e 1915, vem o Jardim Calheiros da Graça com chafariz, palmeiras e iluminação, inaugurado em 25.4.1915. A Biblioteca Pública e o prédio do Banco Nacional do Comércio são de 1925. Entre os anos de 1930 a 1950 surgem o primeiro automóvel, o ônibus urbano e ruas calçadas.

Entre 1930 e 1940 surgem as sedes do Clube Blondin (hoje Casa do Patrimônio do Iphan, criado por PAULO CARNEIRO) e a nova sede do Clube do Congresso Lagunense. Mais tarde, a Rua da Praia (atual Gustavo Richard) perde o movimento de embarque e desembarque com a transferência do porto para o bairro Mar Grosso.  A estação de trem foi para o final do Campo de Fora.

Após a 2ª Guerra Mundial com a organização do porto de Imbituba, melhor localizado para receber navios maiores e de maior cabotagem, Laguna perde competitividade. A crise não alcançou proporções maiores porque Imbituba ainda não possuía concentração de serviços comerciais, financeiros e públicos.

No final da década de 50, Laguna decaiu economicamente pela diminuição da atividade portuária, pelo enfraquecimento do polo comercial, e fracasso na tentativa de industrialização. Na década de 60, a construção civil praticamente parou; a abertura da BR-101 e o tráfego pela ponte rodoviária da Cabeçuda deslocam o polo econômico da região sul de Laguna para Tubarão.

Na Laguna permanecem apenas produtos pesqueiros e pequenas indústrias (confecções e processamento da fécula de mandioca e arroz).

Na década de 70, a abertura da BR-101 trouxe a possibilidade de uma nova atividade econômica, a exploração turística do Balneário do Mar Grosso, bairro oposto ao Centro Histórico. Porém, recursos eram minguados e ainda menor o interesse político e capacitação dos profissionais em turismo.

Por isso tudo, desde meus tempos na FUNDAÇÃO CULTURAL DE CRICIÚMA, causa-me arrepios a simples menção de construir uma interpraias vindo do RS, continuação da Estrada do Mar deles lá, unindo Torres a Balneário Gaivota, Arroio Silva, Morro dos Conventos, Rincão, Jaguaruna etc.

O turista já distante de Criciúma pelo traçado da BR-101 ficará mais longe ainda e o comércio e indústria da orla, é claro, agradecem. Iniciativas como a Via Expressa encurtando distâncias entre BR-101 e Criciúma merecem nosso aplauso porque facilitam a construção de pacotes turísticos incrementando o acesso de viajores que poderão com mais facilidade conhecer nossa culinária, indústria, empresas, vinhedos e vinhos, cervejarias artesanais. Já pensou? Acho que nosso atual prefeito é sensível a temas que conduzam nossa terra a investir seriamente no turismo como saída maior para os problemas econômicos que enfrentamos. A ideia da construção do Mirante é um bom começo.  

O LIVRO DE IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE

Ele vem na esteira de dois anos de pesquisas e coletas de informações em livros, cartas e recortes de jornais. Lançado pela Editora UNISUL, traz a história da família desde a Prússia e fatos sobre a vinda para o Brasil, em 1870. Claro, além das informações sobre a trajetória de Otto como estudante, médico, político (prefeito por três mandatos em Tubarão e deputado constituinte), fazendeiro e cidadão. Graduou-se médico em 1910 no RJ.

Atuando em Tubarão, Otto viajava pela região a cavalo, canoa e trem para tratar enfermos que guardavam leito. No livro estão reunidos depoimentos de pessoas cujos familiares foram tratados pelo médico.

João Ghizzo Filho, coordenador do curso de Medicina da Unisul, autor da apresentação do livro, considera Otto e o filho Irmoto referências para a medicina catarinense.

AS ORIGENS

Com a abertura do caminho entre Lages e Tubarão (1773), iniciou-se o povoamento da cidade. Rio Tubarão era parte da rota Lages/Laguna, tendo como ponto de parada os portos do Poço Fundo e Poço Grande, ambos na região da atual Tubarão. Em agosto de 1774, duas sesmarias, com área de uma légua quadrada cada uma, situadas no atual perímetro urbano, foram doadas ao capitão João da Costa Moreira e ao sargento-mor Jacinto Jaques Nicós, marcando o início efetivo do povoamento.

Em 1833 já existia o distrito de Poço Grande do Rio Tubarão e em 7.5.1836 foi criada a paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Tubarão. Desmembrou-se de Laguna em 27.5.1870. A imigração europeia, a implantação da Estrada de Ferro Dona Thereza Christina (EFDTC) e a criação da comarca de Tubarão 19.4.1875 foram responsáveis diretos pelo desenvolvimento econômico do município. A família FEUERSCHUETTE, que chegou a Tubarão em doses homeopáticas, vê FREDERICO HENRIQUE, pai de OTTO, chegar ao Brasil em 1878. Foi o último a chegar. 

Guerra Franco-Prussiana (ou Franco-Germânica, 19.7.1870/10.5.1871) é conflito ocorrido entre Império Francês e o Reino da Prússia, final do séc. 19, após a Guerra dos Ducados do Elba (1864) contra a Dinamarca e a Guerra Austro-Prussiana (1866). A Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte (Grão-Ducado de Baden, do Reino de Württemberg e do Reino da Baviera). A vitória germânica marcou o último capítulo da unificação alemã, comandada pela Alemanha. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico francês, o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa.

Como resultado da guerra, ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia até o fim da Primeira Guerra Mundial. A Prússia saia de uma guerra para entrar em outra. Este belicismo afastava os pacifistas alemães que partem em busca de novos ares.

A 3 ou 4.12.1869, aportou em Colônia Francisca (São Francisco do Sul e Joinville de hoje) HENRIQUE CHRISTIANO FEUERSCHUETTE, 24 anos, vindo de Hamburgo, Alemanha, primeiro da família a chegar ao Brasil. Era um profissional do fabrico de calçados, sendo conhecido como doutor ou alemão das botas. Viveu bom tempo em Pelotas, RS.
22 anos antes (1847), por Decreto Imperial, LAGUNA fora elevada à categoria de cidade.

Com tropeiros parte rumo ao norte pelo litoral até alcançar Garopaba. Chega a Tubarão em 12.12.1870, dia do aniversário de D. Pedro II. Tubarão contava 22 casas, se tanto. Uma só Pousada, de DONA FLOR MADEIRA, situada na Rua Coronel Collaço onde está a Agência do Banco do Brasil.

O transporte de produtos e de passageiros fazia-se pelas lagoas e rios e mais tarde pela estrada de ferro Dona Tereza Cristina (construção iniciada em 1880 e aberta ao tráfego em 1884). Com o desenvolvimento das colônias Azambuja, Urussanga, Grão-Pará, Princesa Isabel e Braço do Norte, a produção dos colonos vinha pelo trem, escoada através do porto de Laguna.

Este fato, juntamente com a exploração do carvão, fez com que, na segunda metade do século 19, Laguna assumisse a 4ª posição no estado quanto à movimentação portuária. Este período constituiu a época áurea de Laguna.

A VENDA DE CALÇADOS FEZ A FORTUNA DE MUITO CATARINENSE

O chefe político local, coronel Luiz Martins Collaço, compadre de dona Flor, teve as botas consertadas pelo Alemão. O couro veio da Laguna. Sua fama como sapateiro e fabricante de calçados se espalha e ele não dá mais conta da demanda: da Alemanha chegam o irmão (Frederico Christiano, 18 anos feitos a bordo, aportando na Laguna a 28.10.1871), irmã (Johanne, 23 anos, solteira), pai (Andreas, viúvo, 54 anos) e um primo. Chegam a São Francisco do Sul em 31.12.1872. Andreas retornou depois à Alemanha, lá falecendo em 1888.
Em 27.3.1881, os primos Frederico Henrique e Johanne casam-se e a 9.4.1881 (13 dias depois), nasce OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE em Tubarão, onde hoje está o Hotel Acomodare. ELSA, irmã de OTTO nascida em 1887, faleceu tragicamente em 1927.

Os dois tios, HENRIQUE e CHRISTIANO, e a irmã ELSA não deixaram descendentes. Nesta condição, OTTO herdou todo o patrimônio familiar no qual avultava a fazenda CAMPESTRE.

A FAMÍLIA
Dos 11 filhos de OTTO vários dedicaram-se às Ciências da Saúde.
ILSA ROSA casou-se com Benoni Laurindo Ribas (1936, FMUFPR), que clinicou em Braço do Norte (1937 a 1940); foi Secretário Estadual da Saúde (1944 e 1951).
HENRIQUE OTTO FEUERSCHUETTE (Quico) administrou a Fazenda Campestre. Seu filho Henrique José formou-se em Medicina pela FMUFPR (1968). Ortopedista, clinicou em Cascavel e Paranaguá. Faleceu em acidente automobilístico em Laranjeiras do Sul quando exercia o cargo de Secretário da Saúde do oeste do Paraná.
TÚLIO FREDERICO FEUERSCHUETTE, bancário, é pai de OTTO FREDERICO, formado em Medicina pela UFSC (4.7.1986), especializando-se em Oftalmologia no Hospital de Clínicas da URGS. Autor do primeiro transplante de córnea em Tubarão.
LEO MAX FEUERSCHUETTE, médico formado pela FMUFPR (1949). Foi colega de Pretextato Aryon Taborda Ribas, Alfredo Jorge Tramujas (ambos, depois professores na Medicina), Carlos Eloy Reichmann (meu chefe no SAMDU em Curitiba), Eros Clovis Merlin (anestesista em Floripa). LEO especializou-se em Cirurgia no RJ (1950) e Ginecologia e Obstetrícia e Urologia no Hospital Alvear (Buenos Aires, 1953 e 1954). LEO é pai de Frederico May (odontólogo) e Otto Henrique May, formado na UFSC (1992), especializado em Obstetrícia e Ginecologia (1993 e 1994, Carmela Dutra, Flloripa). A esposa Geraldine Garcia Miranda, especializada também em Obstetrícia e Ginecologia, é médica formada na UFSC (1995). O filho de ambos (não poderia ser diferente) formou-se em Medicina na UNISUL, Tubarão (2014).
OLSA ROSA FEUERSCHUETTE, formada em 1951 pela Escola de Enfermagem Ana Nery, RJ. A filha Flavia Feuerschuette Costa Britto é formada em Enfermagem na Universidade Gama Filho, RJ, 1986. 
E, last but not least, IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE é formado em 1966 na FMUFPR.
RESUMIDAMENTE, OTTO teve 11 filhos, dos quais ILSA casou com médico; Henrique José, filho de Henrique Otto, é médico; Túlio (o mais longevo dos filhos) é pai do Oftalmologista tubaronense o Ottinho; LEO teve um filho médico, casado com médica, ambos têm um filho médico. Irmoto é médico e OLSA ROSA e a filha FLÁVIA fizeram enfermagem.
O menino OTTO não tem onde estudar em Tubarão, por isso estuda com o botânico Frederico Uhle numa pequena serraria que produzia caixinhas para os charutos Danemann em São Félix, Bahia. Em 1892, 11 anos de idade, viaja para a Alemanha com o pai onde permanece por cinco anos residindo com os avós paternos. O pai volta ao Brasil ainda em 1892. Otto retorna ao Brasil em 1897 em companhia do pai. Tinha 16 anos e vai a Pelotas, RS, em 1898, lá permanecendo até 1899.

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 29/12/2018 - 06:00Atualizado em 30/12/2018 - 22:26

OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão
Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
BOM 2019, GENTE BRASILEIRA! 
Em 2014, Irmoto José Feuerschuette, médico, político, empresário, escritor, professor universitário em Tubarão, décimo filho de OTTO FEUERSCHUETTE (o segundo médico em Tubarão), lançou um livro sobre a vida de seu pai: DR. OTTO, O SACERDOTE DA MEDICINA. Irmoto foi o primeiro professor de Anatomia da Fundação Educacional Unisul de SC do curso de Enfermagem (1975). Secretário Estadual da Saúde de SC 1985/86, governo de Espiridião Amin, foi prefeito de Tubarão em 1972 e 1992, vice-prefeito em 1988. Presidente da Indústria Carboquímica, Imbituba, 1983/85. De 1999 a 2002 Presidente da Zona de Processamento de Exportação, Imbituba. É professor de Ginecologia e Obstetrícia no Curso de Medicina da Unisul, Tubarão. 
Graduado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná em 1966, mesma faculdade em que me formei em 1959, Irmoto conta no livro que escreveu sobre o pai “...na minha formatura sentou-se nas escadarias do cinema em Curitiba, local da solenidade, para ver seu último desejo concretizado. Cinco anos separavam, então, aquele momento, de sua partida”.  OTTO FEUERSCHUETTE faleceu em 1971.

UMA REUNIÃO DE PAIS

Foi também em 1971 que estive o ano inteiro no RJ, trabalhando no HOSPITAL DOS SERVIDORES DO ESTADO (IPASE). Minha família me acompanhava. Tive o privilégio de trabalhar então com alguns dos maiores nomes da nossa Oftalmologia, como João Rabelo, Ruy Costa Fernandes, Aderbal de Albuquerque Alves, Edith Finkel, Carlos Botelho, Fernando Moreira. Também pude auxiliar cirurgias de Joviano de Rezende Fª, Evaldo Machado dos Santos e Sylvio Provenzano, todos dos Oculistas Associados, referências na Oftalmologia brasileira. 
Em 1971, estando nós no RJ e tendo minha mulher de viajar inesperadamente a POA para atender compromisso de saúde na família, vi-me obrigado a ir ao colégio dos meninos para reunião de pais. Nela, só haviam mães. Dois ou três homens escondiam-se como podiam naquele mar de mulheres. Sentei-me lá atrás para não causar constrangimento às irrequietas mães e para ter rota de fuga garantida. Uma das mães tricotava e outras conversavam, já confraternizadas de outras reuniões. 
Comandava a reunião o jovem diretor, jovem demais para o cargo, se querem minha opinião. Fazia ele considerações a respeito do uniforme a ser adotado pela escola. As agora alvoroçadas mães perguntavam sem espaço para respostas:
- A gravatinha, que cor é? O emblema é na lapela? A meia é três-quartos? Quase ao meu lado outra perguntou:
- Tem pesponto?
Voltei-me disposto a perguntar o que era pesponto, mas desisti a meio caminho. Já o jovem Diretor reassumia o comando fazendo gesto com as mãos para acalmar o agitado auditório. Tive a impressão que olhava para o meu lado enquanto falava:
- Chegamos ao ponto mais importante da reunião. Trata-se do 4º ano, que recebeu muita gente transferida de outros colégios. Não tivemos outra opção senão dividir a turma em três. A turma 10, dos mais adiantados, a 9 dos regulares e a 8 dos (digamos assim) menos interessados. 
Era evidente sua dificuldade e desconforto na procura de palavras adequadas para definir esta última turma. Assustei-me: em qual destas turmas estaria o Lúcio? 
As mães puseram-se a falar ao mesmo tempo: não era culpa deles, coitados, levavam muito dever para casa; o ensino dirigido (ao ver da mãe que tricotava) não estava funcionando. Outra, mãe de dois filhos que faziam provas no mesmo dia, confessava a impossibilidade de prepará-los ao mesmo tempo.
O jovem Diretor sacudiu a cabeça com simpatia. Voltou a falar na Turma 8, um caso muito sério, sentenciou. Comecei a pensar que o negócio fosse comigo. Não vá esse cara dizer que meu filho está entre os piores!
Curioso que o Lúcio não me parecia lá tão desligado assim. Jogava seu futebolzinho quando íamos à praia; via Tv; na hora de estudar, estudava, então eu não via? As coisas que ele estudava estavam fora de meu alcance ensinar, eram muito diferentes de meu tempo. Outro dia me deixara bestificado perguntando como se chama quem nasce em Salvador, na Bahia. Ninguém sabe isso, meu filho, defendi-me. Mas, o danadinho sabia, é soteropolitano, falou. Furtivamente fui ao dicionário conferir se era. Era.
Achei que ele devia estar na Turma 10, bem que ele sabia uma coisa ou outra. O Diretor continuava, agora reclamando dos meninos quanto à alimentação. Sistematicamente recusavam-se a comer as verduras servidas no almoço.  Quando menino eu também não gostava. Havia mesmo, continuava o Diretor, já nem tão cordato, mães que mandavam bilhetes pedindo para não servir verdura aos filhos. Alguns bilhetes mostravam semelhança perturbadora entre letras de mães e filhos.
Saímos e perguntei ansioso:
- Filho, em que turma você está?
- Na 10, respondeu distraído. Respirei, profundamente aliviado. Comentei de minha satisfação. Ele não perdeu tempo:
- Pai, então eu queria te pedir um favor: mande ao Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura.    

TUBARÃO NASCE DA LAGUNA

Os intermináveis conflitos que envolviam a Prússia e países vizinhos, no final do século 19, podem tê-los levado a procurarem ares mais saudáveis e tranquilos para viver, trabalhar e construir suas famílias. A Prússia, nascida no séc. 13, desaparece em 1947.
A colonização do sul de SC é processo iniciado em 29.7.1676, quando o bandeirante vicentista Domingos de Brito Peixoto, devoto de Santo Antônio, funda a vila de Santo Antônio dos Anjos da Laguna e constrói sua primeira capela, a pau a pique. Laguna foi fundada pela necessidade do domínio português ter, no sul do Brasil Colônia, um posto avançado, apoio para colonizar o RS e para as guerras luso-hispânicas na bacia do rio da Prata. A vila elevou-se à categoria de município em 20.1.1720.  Criciúma é município em 4.11.1925, 206 anos depois, desmembrado de Araranguá e instalado em 1º.1.1926. 
Lagunenses deixam sua terra para tomar novas posses no Continente de São Pedro do RS, o que enfraqueceu a urbe. A República Rio-grandense do Piratini, fundada pelos farroupilhas, precisava acesso ao mar. O Império controlava portos e rios do estado vizinho. Apoiados pelo italiano Giuseppe Garibaldi, os rebeldes surpreendem os imperialistas através da lagoa Santo Antônio, entrando pela lagoa Garopaba do Sul e barra do Camacho e seguindo pelo rio Tubarão.  
 Laguna foi colonizada em duas etapas: a primeira entre 1748/1756, desbravando a região costeira da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, do Bananal até a Madre, passando por Ribeirão Pequeno. Esses primeiros colonizadores (portugueses dos açores), habitaram o local pela pesca e generosidade do solo.
Os açorianos adaptam-se à nova vida, facilmente. Modificam alguns de seus hábitos, alimentares sobretudo, substituindo a farinha de trigo, base da sua alimentação, pela farinha de mandioca e a carne pelo peixe, que era salgada para consumo ou exportação. Até o início do século 19 a economia era de subsistência. Chegavam imigrantes pelo porto de Laguna ou de São Francisco, e seguiam para o interior. No começo pelas lagoas e rios e mais tarde pela ferrovia Dona Tereza Cristina (início da construção em 1880, aberta ao tráfego em 1884).
Os produtos vindos das colônias (Azambuja, Urussanga, Grão-Pará, Braço do Norte), trazidos por trem eram escoados pelo porto de Laguna. Isto, mais a exploração do carvão, fez com que, na segunda metade do século 19, a cidade assumisse grande importância em SC quanto à movimentação portuária, constituindo-se na época áurea de Laguna. 
Na segunda etapa, primeira metade do séc. 19, portugueses do continente, com o crescimento do porto, trazem desenvolvimento econômico para a cidade. Formam-se famílias tradicionais e a cultura lagunense.
Em 1839, Laguna é Capital da República JULIANA com 12.628 almas. 

PRIMEIRO HOSPITAL NO SUL DO BRASIL

Em março de 1856: primeiro hospital do Sul Catarinense, São Francisco de Assis, na Laguna. Imóvel alugado na Ponta do Bairro Magalhães (junto ao Colégio Stella Maris). No velho prédio, o hospital funciona por 15 anos (até 1871), com capacidade para vinte/trinta doentes. ANTONIO FERNANDO DA COSTA, é o primeiro médico. Em 1858, inaugurado o Teatro Sete de Setembro, epidemia de varíola superlota o improvisado hospital. PASTEUR (1860), bendito seja seu nome, muda a história da MEDICINA e do mundo demonstrando que a desinfecção das roupas para cirurgias, salva vidas. 1867: a primeira cirurgia asséptica.  
Os primeiros hospitais de que se tem notícia datam de 431 a.C., no Ceilão (atual Sri Lanka), sul da Ásia. Na Europa, coube aos romanos, cerca de 100 a.C., construírem os valetudinários, para tratamento dos soldados feridos em combate. A partir do século 4, com a propagação do Cristianismo, os hospitais se expandem. Sacerdotes e religiosos à frente, os monastérios passam a servir de refúgio para viajantes e doentes pobres. Tais lugares possuíam um infirmitorium, para tratamento de pacientes, farmácia e jardim com plantas medicinais.  Na Idade Média, ordens religiosas continuaram a liderar a criação de hospitais – só os beneditinos abriram mais de 2 000. No Brasil, o primeiro foi a Santa Casa de Misericórdia de Santos, SP, em 1543. Em 1959, 416 depois, estagiei por quase um ano no seu serviço de ORL. No século 16 não havia médicos dispostos a vir para o Brasil, os jesuítas assumiam todo o atendimento, trabalhando como médicos, farmacêuticos e enfermeiros.

CHEGAM OS IMIGRANTES ITALIANOS E ALEMAES FINAL DO SÉC. 18

A Guerra dos Farrapos projetou historicamente a cidade de Laguna. Em julho de 1839, republicanos gaúchos invadiram Laguna por terra e mar. David Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes eram os comandantes das tropas terrestres (cerca de 1 000 homens). Na mesma ocasião Giuseppe Garibaldi ocupou Laguna por água, capitaneando o navio Seival com tripulação composta de muitos italianos, amigos do grande carbonário. Garibaldi derrotou as tropas imperiais estacionadas na Laguna. Em 29.7.1839, a Câmara Municipal de Laguna, presidida por Vicente Francisco de Oliveira, proclamava a independência da então Província de SC  com a denominação de Republica Juliana, coligada à de Piratini. Surge a adolescente Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Heroína dos Dois Mundos. Ela abandonaria o lar para unir-se a Giuseppe Garibaldi, com quem se casou mais tarde, tornando-se conhecida como Anita Garibaldi. Porém, em 15.11.1839, depois de sangrenta guerra naval, com a derrota dos farroupilhas, chega ao fim a República Juliana (menos de 4 meses de duração), cujo presidente, o coronel Joaquim Xavier Neves e o vice-presidente, padre Vicente Ferreira dos Santos Cordeiro, nunca compareceram para serem empossados.

CHEGA O PRIMEIRO FEUERSCHUETTE .

Trinta anos depois, 1869, chega ao Brasil o primeiro membro da linhagem FEUERSCHUETTE, Henrique Christiano Feuerschuette, 24 anos, sapateiro. Chega a Tubarão em 12.12.1870, cidade de 22 casas e uma pousada, a pensão de dona Flor Madeira. O chefe político era coronel Luiz Martins Collaço, compadre de dona Flor.  Henrique pagava 400 milréis por mês por cama, comida e roupa lavada na pensão. Consertando as botas do coronel, Henrique torna-se conhecido em toda a região sul, incluindo o planalto de São Joaquim. Era o Alemão das Botas. 
Com as economias de seu trabalho, traz da Alemanha irmão, irmã, o pai viúvo e um primo. Logo vem Frederico Christiano, irmão de Henrique e tio do Dr. Otto. Era também sapateiro e contava 18 anos de idade ao chegar. O último da família a emigrar para o Brasil foi Frederico Henrique, pai do Dr. Otto, nascido em Magdeburg. Emigrou em 1878. Andreas Feuerschuette, lavrador, vem ao Brasil com a filha Johanne.
Os primos Frederico Henrique e Johanne casam-se em 27.3.1881 e em 9.4.1881 (13 dias depois), nasce OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE. Não tendo deixado descendentes (os tios Henrique e Cristiano e a irmã Elsa), Otto herdou o patrimônio que a família acumulara, em especial a fazenda Campestre,  adquirida pelo tio Henrique do coronel Luiz Martins Collaço. 

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 22/12/2018 - 06:00Atualizado em 24/12/2018 - 10:13

LAERSON NICOLEIT, pioneiro em MORRO DA FUMAÇA
Henrique Packter, Oftalmologista

Em 1972, ano da chegada de NICOLEIT na Fumaça houve muita coisa a lamentar e também para regozijar-se. Em Janeiro, João Ricardo inicia os ensaios da segunda formação dos Secos & Molhados, com Ney Matogrosso, Marcelo Frias e Gerson Conrad. A banda Led Zeppelin é impedida de desembarcar em Singapura. Cabelos compridos foi o motivo alegado. Em 16 de Outubro, é anunciado o fim do grupo Creedence Clearwater Revival.

Também em 1972 morre Harry Truman, o presidente norte-americano que ordenou o lançamento das bombas atômicas sobre Nagasaki e Hiroshima, dando fim à Segunda Guerra Mundial e determinando a morte de milhares de pessoas, aí incluídos velhos, doentes e crianças. Perguntado sobre a causa do aumento do número de divórcios nos EUA, Truman teria respondido (a sério) que a causa, sem dúvida, era o elevado número de casamentos.

John Edgar Hoover morre após dirigir com mão de ferro o FBI por 48 anos. Diz-se que as prisões que mandava efetuar em geral não primavam por gestos gentis. Parece que vem daí o aviso que o comediante americano Grouxo Marx afixou à porta de seu escritório: Entre Sem Bater. 

LAERSON NICOLEIT PROFESSOR UNIVERSITÁRIO DE DIREITO NA UNISUL

As aulas tinham sempre um sentido prático. Sua pergunta célebre: — alguém tem alguma dúvida sobre o assunto? Não havendo manifestação, completava: ou sobre qualquer assunto. Isto, fez escola.  Tanto que outros professores menos votados também passaram a usá-la. Mas o que era mero impressionismo nuns, era desafio verdadeiro em Nicoleit. Ele próprio se desafiava, corria riscos; sempre em expansão, nunca parava; não conhecendo limites, não conhecendo seu alcance, sabia que podia mais. Ambicionava sempre mais. Sá de Miranda, poeta português do séc. 16, conceitua tal estado de espírito:

Comigo me desavim... /não posso viver comigo, /nem posso fugir de mim.

APRESENTAÇÕES
LAERSO fazia o tipo sisudo. Quase não ria, ria pouco. Quando dialogava chegava muito próximo do outro, olhos muito abertos, aumentados pelos óculos de lentes para correção de hipermetropia alta. Escandia as sílabas. Falava e queria saber tudo, em detalhes. 
Certa ocasião encerrou penosa e interminável reunião da Regional Médica da Zona Carbonífera em Criciúma na década de 70, dizendo: "Se o problema tem solução, não se preocupe com o problema. Se o problema não tem solução, porquê se preocupar com o problema?"
Não tínhamos muitos contatos mesmo porque andávamos em círculos de especialidades diferentes. Mas, uma ocasião convidou-me para visitar o Hospital São Roque, coisa que fiz, acompanhado de minha mulher. Morava numa residência dos fundos do hospital acompanhado pela mãe. Lembro de uma portentosa coleção de long-plays de muito boa qualidade que nos fez ouvir alguns, enquanto conversávamos. O aparelho de som, quase raridade para a época, tinha sonoridade inacreditável.
A conversa girava sobre tudo e sobre todos. Quase ninguém escapou. Principalmente falou ele. Sua intenção era levar-me a operar pacientes da região em seu hospital, o que na época era difícil. Meu irmão e eu já atendíamos além de Criciúma em Araranguá e Orleans. Já operávamos nestas três cidades. Meu irmão Boris atendia em Orleans, no Hospital Santa Otília onde fizera amizade com Emir Bortoluzzi de Souza, o médico da cidade. Uma vez por semana lá ia Boris prestar atendimento à população da região. Ao meio-dia interrompia as consultas para almoçar. Muitas vezes era convidado de Emir, ocasiões em que se banqueteava pois dona Wanda era cozinheira afamada.
Mas, nem tudo eram flores. Às vezes almoçava próximo ao Hospital numa lanchonete por ele batizada de Morte Lenta.
Boris entrava e já ia perguntando protocolarmente:
- Que tem hoje?   
A resposta padrão da funcionária era:
-Isso daí, ó.
Apontava com o queixo ligeiramente elevado, para o prato de algum outro incauto frequentador. Também rapidamente virava o rosto com ar de desagrado. Por via das dúvidas Boris pedia Bauru com ovos, parecia mais seguro. Muitas vezes, dizia, era impossível identificar o que eram certas coisas, dadas como comestíveis e jogadas sobre a mesa.
Nossa conversa cheia de amenidades baseava-se na Medicina que praticávamos nos bons idos de 70, lembrando-se que Nicoleit chegara à Fumaça em 1972 e eu à época já contava com doze anos de atividades médicas em Criciúma.

CLIENTELA
O linguajar pitoresco de certos pacientes era nosso encanto. Pessoas do povo, boas, trabalhadoras, honestas, sem malícia. Nicoleit contava de uma certa Dona Ingrácia. Operada de perineoplastia Nicoleit iniciava a visita aos internados perguntando-lhe:
- Dona Ingrácia como está urinando?
- Doutor, estou mijando que nem uma égua!
Nicoleit perguntara a esta mesma senhora quando viera consultar:
- Dona Ingrácia, que a trouxe para consulta?
- Doutor, quem me trouxe foi meu marido. Viemos na Rural dele. Ele vai aproveitar e comprar umas vacinas para as vacas e coalho. Minha filha também veio e vai comprar umas coisinhas na Cooperativa. 

NICOLEIT não era pessoa profundamente religiosa. Mas, como todos nós, tinha seus causos em que a religião despontava como instância decisiva.
Conhecia os pacientes pelo nome. Sabia de onde vinham e como iam as coisas por lá. Os presentes eram muitos: galinha caipira, batata-doce, laranjas, vergamotas, compotas caseiras, aipim. 

EL QUE NO LLORA NO MAMA
Um gaúcho se instalara nos domínios fumacenses e logo se faz amigo. 
-Licença doutor, Buenas! Desta vez tenho uma queixa e como sei que o doutor é de faca na bota, resolvi assuntá direto prá não deixa mal-entendido.
Na semana anterior Nicoleit atendera a netinha de cinco anos da gauchesca figura. A menina tinha febre elevada por um quadro infeccioso pulmonar e Nicoleit prescrevera um antibiótico além de um antitérmico e medidas gerais.
O avô indignava-se, elevando a voz:
- Fizemos tudo que nos mandaram fazer. Demo banho quebrando a friúra da água, suco de laranja à vontade, mas o tal remédio que o doutor receitô era coisa mais impossível de dar. Pois isso é remédio que se dê para uma inocentezinha? A primeira dose foi boca abaixo com muita choradeira. Na segunda a coitadinha engasgou-se toda com aquele pozinho branco, ficou roxinha e lá nela apareceu mancha vermelha nos olhos.  A coisa só aliviô quando botamo goela abaixo o líquido que vinha junto com a caixinha.
Evidentemente, faltara a explicação que o pozinho deveria ter sido misturado ao líquido antes de ser administrado. O vivente antes de retirar-se ainda resmungou:
- Bah! Vivendo e aprendendo! Buenas!

COMO UMA MÉDIUM ENTRA NA HISTÓRIA 
Nicoleit tinha um certo envolvimento com a Medicina tubaronense. Afinal, estudara Direito em Tubarão e até lecionara neste Curso da Unisul. Contou-me de clientezinha sua, nascida no Hospital São Roque, com anemia muito grave. Sobreviveu à custa de transfusões de sangue realizadas a cada 20 dias. O único sangue compatível de grupo e subgrupo sanguíneo, era muito raro. Por seis anos a menina buscava em Tubarão o sangue de que precisava para viver, cidade onde residia o único doador encontrado. Que, um belo dia sumiu sem deixar rastros. Por rádios e jornais procurou-se outro doador compatível. Quem tivesse o sangue daquele tipo que procurasse em Tubarão e na Fumaça os doutores que cuidavam da pequena paciente. Debalde.
Até que um dia, madrugada alta, um homem pobremente vestido, chinelas nos pés, bateu à porta do Hospital São Roque.
- Tenho o tal sangue para salvar a criança.
- Alguém já examinou o seu sangue? 
-Não.
Um desconfiado e sonolento Nicoleit perguntou:
-E como sabe que tem o tal sangue?
-Minha mulher me acordou inda agorinha e pediu que viesse falar com o doutor.
-Como ela sabia?
-Doutor, ela é médium. O espírito de um médico baixou nela e deu a ordem. Por isso estou aqui. 
Era exatamente o sangue procurado.  

FELIZ NATAL, FELIZ 2019 GENTE!
Aproxima-se o Natal e com ele o fim deste ano de 2018 e o início de 2019. Jornalistas preparam suas retrospectivas, encerramos as contas velhas passando a pensar nas novas contas.
2018 podia ter sido pior - aliás, tudo nesta vida e na outra podia ser pior. Sempre impliquei com o lugar-comum que obriga a humanidade a maldizer o ano que passou e a bajular o ano que chega, desejando-o próspero. A verdade é que todos os anos que já maldizemos, íntima ou publicamente, todos os anos que ficamos aflitos em vê-los para trás, todos esses anos - repito - foram prósperos no início e acabaram malditos, como os demais. Quem inventou essa prosperidade? Certo que, de uma forma ou outra, há anos piores do que os outros, também piores. E é possível até que existam anos bons, desses que deixam saudade na gente. Ainda não tenho certeza, mas acho que esse ano de 2018 não foi tão ruim assim, apesar das desgraças acontecidas e das maravilhas que inutilmente esperávamos. O importante é a vida em si, a capacidade de sentir o sol sobre a pele, viver a esperança de cada manhã e a resignação de cada tarde. Não costumo fazer planos para o ano que chega nem para a vida em geral. O que acontecer será lucro, desde que aconteça.
Tivemos muito assunto na mídia, numa velocidade que não deixou tempo à monotonia: a peteca sempre em jogo, para lá e para cá. E é nisso que reside a faina humana: não deixar a dita cuja cair. No plano pessoal, por mais desventuras que tenhamos tido, por mais perdas e danos que entraram no rol das nossas desditas, sempre sobrou o saldo final e positivo da própria vida, a vida que um dia nos será tirada e que, enquanto vida, é o valor maior e, na verdade, único.
Mas, a vida não é uma coisa arrumada como as antigas farmácias homeopáticas, uma porção de vidrinhos rotulados para cada caso específico, alium sativum para os resfriados, extrato de beladona para os males hepáticos, alumen para prisão de ventre, apis melifica para inchaço, - tudo tem remédio e tudo vale a pena, mesmo que, ao contrário do poeta, a alma seja pequena. O mundo não tem mesmo remédio, é o que sabemos, choramos e lamentamos. Vivemos dentro dele e, por isso, o melhor que se faz é suportá-lo, criticá-lo e circunstancialmente gozá-lo. Não devemos maldizer o ano que passou nem esperar maravilhas do ano que vai chegar. O primeiro nos manteve vivos, embora tenha tornado o mundo pior. E o novo será a mesma coisa. Como as crianças que antigamente escreviam cartas ao Papai Noel pedindo isso ou aquilo, cada um terá, encabuladamente, sua própria lista de esperanças ou devaneios.
Uma lista gradualmente mais modesta e mais possível. Tive um amigo que sofria de espantoso furor donjuanesco, a cada ano abria um caderninho com o nome e as características das mulheres que desejava e esperava conquistar, lista que foi minguando com o tempo até se resumir numa enfermeira gorda e velhusca que o atendia na Casa de Repouso onde se abrigara.
Um autor escandinavo, não lembro o nome, é algo complicado, com seis consoantes, um trema, dois acentos circunflexos e uma única vogal-, conta a história do sujeito que ia ser enforcado. Ao sentir que o carrasco botava a corda em seu pescoço, teve um pensamento consolador: "Amanhã, não precisarei escovar os dentes".
Espero que todos nós, ao longo de 2019, tenhamos de escovar os dentes todos os dias com nossas próprias mãos, dirigidas por mente funcional. BOAS FESTAS, FELIZ ANO NOVO DE 2019!

Na próxima semana conclui LAERSON NICOLEIT

Por Dr. Henrique Packter 15/12/2018 - 06:00

Essa sexta-feira, 14 de dezembro de 2018, é dia destinado a ser cultuado na história citadina porque é nesta data que a municipalidade entrega à população, restaurado e em estado de novo, o Centro Cultural Jorge Zanatta. Nos últimos tempos, muito se escreveu a respeito deste prédio, parte indissolúvel de nossa história. O jornalista DENIS LUCIANO realiza na TRIBUNA obra de fôlego, destinada a ser incorporada aos nossos documentos mais preciosos e que vem narrando em detalhes a saga do Centro Cultural Jorge Zanatta desde os seus primórdios. De parabéns estão a edilidade criciumense, a iniciativa privada representada pela família Jorge Zanatta e o executivo municipal na pessoa do Prefeito Clésio Salvaro. O Prefeito, em duas oportunidades, na restauração do imóvel e na firmeza com que tem defendido a destinação do casarão para a Cultura Criciumense, posicionou-se ao lado dos superiores interesses de nossa população.

A Casa retorna às nossas mãos, como endereço maior da Cultura de nossa gente.   

A FCC E O CASARÃO

Em 1993, como hoje, a sociedade Criciumense, mobilizada desde a primeira hora, entendeu a importância de trazer o Casarão da Pedro Benedet de volta à sua utilização para atividades culturais do município. Dentro da própria Fundação, já em 1993, esse movimento assumiu característica de prioridade. É de justiça destacar o trabalho de Liliane Motta da Silveira, empresária na área de comunicações e minha substituta eventual, além de Sayonara Meller, Diretora de Ação Cultural, Gilberto João de Oliveira, diretor Administrativo e Financeiro; Brigite Gorini, Diretora do Teatro; Adilamar Rocha, Carlos Lacombe, Osmar Piovesan, assessoria contábil; Paulo Vieira Aveline, assessor jurídico; maestro Tyrone Mandelli, Maria de Lourdes Benedet e Yara Gaidzinski. Também Júlio Lopes, Márcio Arcângelo Zaccaron, Acélio Casagrande e Nei Manique Barreto.

Também José Augusto Hülse representante da SULCATUR, Mário Belolli, na comemoração de datas históricas, Branca Tonon, Gundo Steiner, Gilberto Oenning, Amarildo dos Passos, Clóvis Marcelino, Olide Tibulo, Irma Tasso, Eliana Mandelli (Coral da FCC), Isis G. Borges, Grupo Maximiliano Gaidzinski (Espaço Cultural da Praça Nereu Ramos), 16 exposições em 1995. A FCC substituiu o busto em cimento de Marcus Rovaris por outro em bronze (4.11.1995) com colocação de nova placa alusiva à substituição. Comemoramos o 30º aniversário de fundação da Associação Coral de Criciúma com entrega de placa da FCC. Comemoramos os Setenta Anos de Emancipação Política e Administrativa do Município em 4.11.1995 com a presença de seu primeiro magistrado e que discursou, o Dr. Euclides Cerqueira Cintra.

Tínhamos 300 alunos matriculados em nossas Oficinas com cursos de música, dança, artes plásticas, teatro e canto coral.

O TEATRO DA CIDADE

O Teatro Elias Angeloni tem 739 lugares e é de 30.1.1983, criado pelo Prefeito Altair Guidi. Foi totalmente recuperado pela jornalista Brigite Gorini, sua diretora em nossa administração. Espetáculo de estreia do teatro foi com o ator Paulo Gracindo em atuação consagradora. São 35 anos de relevantes trabalhos à cultura de nossa região.

A BIBLIOTECA PÚBLICA

A Biblioteca Municipal Donatila Teixeira Borba, sua primeira diretora, é de 2.12.1944, criada com acervo do Clube Recreativo Mampituba. A FCC comemorou o cinquentenário de fundação de nossa biblioteca que contava cerca de 16 mil títulos à época. Criamos um trabalho de extensão comunitária, as Bibliotecas Itinerantes, que percorriam nossos bairros de quintas a sábados. Eram dois reboques equipados com sistema de TV, vídeo e acervo de cerca de mil volumes cada um. Desenvolviam atividades recreativas, teatro de fantoches, desenho e pintura. Uma vez por mês o atendimento estendia-se às pediatrias dos hospitais da cidade com espetáculos especialmente dedicados às crianças hospitalizadas. A imprensa tem noticiado a intenção do Prefeito Clésio Salvaro de transferir a Biblioteca Municipal para o Centro Cultural Jorge Zanatta. Se for possível eliminar os ruídos que a localização e a utilização do Casarão propiciam, a ideia é excelente para um órgão municipal que tanto peregrinou por nossa cidade.

UM PROJETO PARA O MUNDO

A 3.11.1994, a FCC desenvolveu o Projeto Eclipse, a cargo de Adilamar Rocha. O notável trabalho desta nossa funcionária obteve reconhecimento internacional. Quatro minutos e três segundos foi a duração do fenômeno em nosso município, a maior duração do mundo habitado por humanos. O professor Luiz Carlos da Silveira, da UNESC, Departamento de Engenharia Agrimensura, elaborou um manual Fundamentos de Astronomia, eclipse de 3.11.1994, além de protagonizar a criação de elementos para proteção dos olhos na observação do espetáculo estelar.  Durante os meses que antecederam o eclipse solar total, panfletos foram distribuídos para esclarecer a população a respeito dos cuidados a serem tomados para observação do fenômeno, entrevistas em rádio, jornal e TV. Astrônomos do mundo inteiro correram para Criciúma a fim de documentar o eclipse. Como resultado, nenhum caso de lesão ocular foi registrado, fato virgem na história dos eclipses totais de sol. A divulgação e distribuição do material começou seis meses antes, nos eventos Ação Global e Ação Municipal. Guiomar Back, esposa do pediatra Solon Back, foi grande colaboradora para o êxito desse projeto. O próximo eclipse total do sol visível no Brasil será no nordeste em 2.8.2046. 

A QUERMESSE DE TRADIÇÃO E CULTURA

A partir de uma ideia de Ademar Costa, saudoso amigo e esposo da legendária colunista Beverly Godoi Costa, foi criada a Festa da Primavera. Ela foi origem da nossa Quermesse que se desenvolvia na Praça Nereu Ramos, tornada pequena, porque a festa assumiu proporções inesperadas. Já na nossa época tivemos de transferi-la para o espaço do nosso Parque Centenário.

O evento exibia a música, a dança e a cultura dos grupos étnicos que construíram nossa cidade, além da sua culinária.

Ainda penso que o grande mérito da Quermesse foi mostrar que, mesmo com a barreira da língua e da diversidade cultural, conseguiram os primitivos habitantes da região integrar-se sem serem assimilados culturalmente. Absorveram e se beneficiaram do conhecimento trazido por outras culturas e potencializaram essa experiência, favorecendo sua própria cultura. Cada um dos primitivos habitantes da região teve de superar obstáculos inenarráveis para dividir sua solidariedade e buscar caminhos comuns com outras culturas que redundaram no atual modelo brasileiro praticado em nossa região.

O CASARÃO

No momento em que se restaura e resgata esse precioso imóvel, é de inteira justeza e justiça revelar, mais uma vez, os nomes das pessoas que construíram a Fundação Cultural de Criciúma, FCC, em boa hora criada pelo Prefeito Eduardo Pinho Moreira.

A FCC foi criada pela Lei 2.829 de 15.3.1993 e teve seu estatuto aprovado pela edilidade em 19.11.1993. O Conselho Deliberativo, representando todos os segmentos de nossa sociedade, compunha-se de 28 membros, representando o mesmo número de entidades. Como cinco delas não manifestaram interesse em participar, decidiu-se que 23 representantes já estava de bom tamanho.

Nos anos 30 vem a doação do imóvel da família do coronel para a municipalidade construir uma escola. Em 1944 é a doação para o governo do Estado. Doada em 1976 para a União. Em 1942 era sede do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). A 7 de maio de 1993, após contatos com Luiz Felipe Seara, diretor do DNPM para SC, a FCC passou a ocupar metade do Casarão. Oficialmente, isto ocorre desde 26.4.1994, após reunião na Procuradoria-Geral da República em Brasília, presentes Luiz Henrique da Silveira, então deputado federal e presidente do PMDB nacional, Eduardo Pinho Moreira, Liliane Motta da Silveira, Henrique Packter e a decisiva participação do Presidente do Tribunal de Contas da União, o Ministro Adhemar Paladini Ghisi. Ficou definido que o Casarão seria ocupado em todas as suas dependências pela FCC. Toda a questão foi sacramentada em 24.11.1995, quando a FCC e o senador Jorge Konder Bornhausen estiveram reunidos na Assembleia Legislativa em Florianópolis, obtendo seu apoio para a ocupação definitiva do imóvel.

Nunca será demais ressaltar que a restauração do Casarão deve-se a Jorge Zanatta, empresário e cidadão íntegro, exemplo em nossa comunidade. Ele compreendeu o alcance de atitudes de cidadania como a doação de haveres em benefício da população.

PROJETO MEMÓRIA CULTURAL MUSEU AUGUSTO CASAGRANDE

Doado pela família Joacy Casagrande Paulo em 19.5.1978 à Prefeitura de Criciúma, cuja restauração começou naquele ano mesmo. O Museu foi inaugurado em 9.1.1980, durante a comemoração e festejos do Centenário de Criciúma, na administração de Altair Guidi - Mário Sônego. Durante nossa administração, o Museu, que estava sob direção de Iara Gaidzinski, foi totalmente restaurado e recuperado.

Em 1976, professores do Departamento de Estudos Sociais da FUCRI incentivaram alunos a recolher ferramentas, instrumentos agrícolas, objetos antigos, fotos, cartas, roupas e móveis, além de utensílios domésticos. 264 peças foram coletadas em gincana realizada pelo Colégio Madre Teresa Michel. O acervo foi catalogado e entregue à FUCRI. Outros 252 objetos foram obtidos mais tarde e incorporados aos primeiros.

Em 1994, a FCC colocou o Museu à disposição dos alunos dos Cursos de Geografia e História da UNISUL, mediante convênio formalizado com aquela instituição.

PROJETO MEMORIAL DA CIDADE DR. DINO GORINI

Projetado pelo arquiteto Manoel Coelho e inaugurado a 6.1.1981 no Parque Centenário. É marco das cinco etnias formadoras do município. Italianos do Treviso, Beluno e de Bérgamo chegados em 6.1.1880. Poloneses em 19.10.1890, Alemães final de 1890, Negros em 1905 para trabalhar na Estrada de Ferro e na extração de carvão mineral e Portugueses representados pela minoria açoriana. No Memorial, as colunas que representam as etnias medem 33,70 m, 25 m, 17 m e 14 m. No subsolo há uma sala de 502 metros que recuperamos, invadida pelas águas que se achava. Painéis em cerâmica homenageiam os grupos étnicos que consolidaram nossa cidade com motivos típicos tendo ao lado o nome das primeiras famílias de imigrantes. A obra é dos falecidos artistas plásticos Jussara Guimarães e Gilberto Pegoraro. Por ocasião da entrega do Memorial estava presente à cerimônia a família do Dr. Dino Gorini, falecido em 21.7.1988, tendo à frente Dona Augusta Trento Gorini, viúva do saudoso e benquisto médico.

Próxima semana conclui LAERSON NICOLEIT

Por Dr. Henrique Packter 08/12/2018 - 06:00

O Hospital Santa Catarina, Eduardo Pinho Moreira & Acélio Casagrande

Contam-me da cerimônia que marcou a entrega à população da nova ala do HMISC. Apesar de inaugurada, ela só entrará em funcionamento em 17 de dezembro. Com mais de 4 mil metros quadrados, o local vai passar por um período de higienização e teste, além de capacitação dos profissionais. 

São novos leitos e a obra também contemplará seis leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal no antigo prédio, instalação de torre de vídeo para cirurgias ginecológicas e pediátricas.   Também o Banco de Olhos funcionará no local. O Governador Eduardo Pinho Moreira discursou, exaltando merecidamente o trabalho do Secretário Estadual da Saúde, Acélio Casagrande. Grande responsável pela obra é a pessoa que, lá atrás, deu início a tudo, mandando adquirir o prédio que pertencia a Santos Guglielmi. No auge de sua fala, Moreira teria reivindicado a descoberta dos talentos de Acélio para o mundo político. Mutatis mutandi a mesma coisa que Waldemar de Brito com relação a Pelé.

Na fala governamental, Eduardo Pinho Moreira teria referido como escolhera Acélio Casagrande para a Secretaria Municipal de Saúde, quando Prefeito de Criciúma em 1994.

POLÍTICA NO ATACADO

Bom, nesse assunto tenho alguma coisa a dizer se, para tanto, me derem licença. Isso, correndo o risco de suceder-me o que sucedeu com Brizola, candidato a governador do RS lá por 1958.

Teria havido um namorico comunista com o PTB no pleito de 1958 no RS, não bem correspondido por Brizola? Na verdade, o PCB emitiu manifestação de apoio ao partido trabalhista. Entrevistado logo depois, Brizola disse que não aceitava o apoio. A resposta veio noutra entrevista de Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do PCB, celebrizado como Cavaleiro da Esperança. “A opinião do senhor Brizola sobre nosso apoio é irrelevante. Vamos apoiar o melhor candidato, e o melhor candidato é ele”, vociferou Prestes.

POLÍTICA NO VAREJO EM CRICIÚMA

Quando a chapa do PMDB para Prefeito e Vice da cidade foi proclamada em 1992, havia um certo enfrentamento entre os dois grandes hospitais da cidade. Isto é coisa natural em se tratando de grupos que buscam a hegemonia no atendimento médico. A engenharia política do PMDB posta a serviço de governar a cidade, contemplava dois médicos do Hospital São João Batista: Eduardo Moreira (PMDB, para prefeito) e Anderlei Antonelli (PSDB, para vice). Aos médicos do Hospital São José parecia algo inaceitável.

Eduardo conversa separadamente com os médicos de ambos os hospitais. Ao término das conversações promete a Secretaria da Saúde para Luiz Augusto Borba, o Guto Borba, médico do Corpo Clínico do Hospital São José. E assim, foi. Ocorre que as coisas passam a não andar como deveriam andar e Guto Borba pede as contas. Criava-se grande impasse, porque nenhum outro médico do São José queria aceitar o cargo, em substituição a Guto.

Reúnem-se na Prefeitura todos os Secretários do governo municipal, prefeito e vice, os presidentes das duas Fundações (Cultura e de Esportes). Na condição de Diretor-Presidente da Fundação Cultural, também compareci à reunião.

Que fazer?  A quem entregar a gerência dos negócios da Saúde Municipal?

Todas as alternativas foram consideradas, enquanto célere o tempo corria naquela manhã de sexta-feira. Meus pacientes-impacientes aguardavam no consultório do Centro Médico São José da rua João Cechinel. 

À reunião também compareceu Acélio Casagrande, fiel escudeiro de Eduardo Moreira. Ansioso para retornar ao meu consultório disse a Eduardo que o Secretário não precisava ser Médico, Odontólogo, Farmacêutico ou Bioquímiico. Nem sequer precisava ser pessoa da área da saúde. Lembrei que o melhor Secretário da Saúde que o Rio Grande jamais tivera em sua história foi um radialista de Passo Fundo, pinçado por Brizola. Este obscuro personagem erradicou a tuberculose no Estado e construiu Postos de Saúde por todo o Rio Grande. Seu nome? José Lamaison Porto.

Acélio Casagrande era muito jovem, contava 33 anos, idade plena de rica simbologia e talvez nem integrasse o perfil ambicionado para o cargo. Mas, estava ali e preenchia outros importantes requisitos: era trabalhador, homem do partido e de fidelidade inconteste a Eduardo Moreira. Falei qualquer coisa, ressaltando que se tratava de buscar uma solução de emergência, algo como aquela velha história de acomodar melancias no caminhão que se desloca. 

Disse a Eduardo que, para mim, o jovem Acélio Casagrande era sua melhor opção e escafedi-me.  Acélio, por muito tempo, chamou-me de padrinho. 

LAERSON NICOLEIT

Fico com a impressão de que já escrevi sobre este assunto, mas, ele é de tal forma apaixonante que volto a ele, esperando que ninguém perceba. 

NICOLEIT nasceu a 29.11.1940 (Tubarão) e faleceu aos 57 anos em 7.6.1997 (Fumaça) e Claudino Biff faleceu aos 66 anos na Fumaça (19.08.1932, 28.10.1998). Mais contemporâneos impossível. O médico foi professor do Colégio Pio XII, para todas as séries, Florianópolis 1969. Médico pioneiro Morro da Fumaça, Diretor do Posto de Saúde, Secretário da Saúde do município fumacense. Pioneiro também em Treze de Maio, SC, 1971. Médico pioneiro Posto de Saúde e Secretaria da Saúde, Treze de Maio, SC, 1971. Médico efetivo e Diretor-Clínico Hospital Frei Rogério, Anita Garibaldi/SC, 1971. Membro Comissão de Desenvolvimento Municipal de Anita Garibaldi, 1971. Professor Curso Técnico do Colégio de Anita Garibaldi, 1971. Médico Credenciado do INAMPS, 1971, Anita Garibaldi, SC. Militar da Ativa (Exército), 20.06.69 a 04.06.71, prestação de serviços em Florianópolis (duas vezes); Porto Alegre; Blumenau; Curitiba e RJ. Em LAERSON NICOLEIT chega a Morro da Fumaça (1972) para iniciar prestação de trabalhos médicos na localidade, até sua morte em 1977.

Presidente Comissão Municipal do MOBRAL, Morro Da Fumaça, SC, 1972. Médico Pioneiro, fundador, construtor, organizador, Diretor-Presidente Hospital de Caridade São Roque, Morro da Fumaça. Médico Pioneiro e organizador do Hospital de Luiz Alves, SC. 

Convidado Especial do Governador de SC, Jorge Konder Bornhausen, participa da Comissão de Estudos da Situação dos Hospitais em SC.  Vice-presidente Associação Catarinense de Medicina, Regional Zona Carbonífera. Secretário Municipal de Saúde, Morro da Fumaça, SC, 1996 a 1997, convite do prefeito e particular amigo Claudionor de Vasconcelos. Era o ano de seu falecimento.

Em 1973 existiam apenas cinco, talvez seis olarias na região. Desde essa data, a atividade cerâmica torna o município conhecido. O RS compra tijolos na Fumaça (Pe. Claudino Biff). Em 1985 NICOLEIT retorna aos bancos da faculdade. Durante 5 anos frequenta a UNISUL, formando-se em Direito, na primeira turma deste curso. Torna-se professor na mesma Universidade, onde também foi nome de turma.

Escritor e poeta, publicou artigos em jornais e revistas. Escreveu livros de poesia: DIÁFANOS e POEMAS DE UM SONHADOR.

O primeiro médico a se instalar e residir no município foi Laerson Nicoleit. O primeiro prefeito, nomeado pelo governador Celso Ramos, foi Auzílio Frasson (1962/1963). O primeiro prefeito eleito nas urnas foi o cartorário Jorge Silva (PSD, 1963/1969, bisando em 1977/1983). O primeiro pároco foi o Padre austríaco Francisco Koerner. A comunidade religiosa era até então atendida pelo Cônego João Dominoni, que, já doente, pediu seu afastamento. O primeiro presidente da Câmara de Vereadores foi Fernando Zanatta, que hoje tem na cidade busto e praça em sua homenagem. Uma curiosidade: Miguel Medeiros Esmeraldino foi um dos vereadores eleitos na primeira legislatura. Depois residiria em Criciúma, trabalhando no Grupo Freitas e se elegendo/reelegendo vereador desta vez por Criciúma.

(Fontes: Morro da Fumaça, Passado e Presente", Ide Maria Salvan Maccari e Imigração Italiana, Mons. Agenor Neves Marques, Morro da Fumaça e sua Divina e Humana Comédia, Padre Claudino Biff. Crônicas da Diocese de Tubarão, Padre Claudino Biff).

PADRE CLAUDINO BIFF

Padre, escritor, poeta e historiador, faleceu relativamente cedo, vítima de parada cardíaca. Velado na Igreja Matriz São Roque, foi sepultado no Cemitério Municipal da cidade. O padre submetera-se a duas cirurgias de ponte de safena, possuía um marca-passo e nos últimos meses realizara angioplastia e cateterismo em Florianópolis. 

Claudino é filho do Intendente Leandro Simon Bif e Idalina Macari, neto de Bortolo Bif e Hermenegilda Simon Bif, de Agostino Maccari e de Teresa Citadin Maccari. Ordenado em 08.12.1958 aos 26 anos, rezou sua primeira missa na então nova igreja de Morro da Fumaça (14.12.1958). Era irmão do ex-prefeito e ex-presidente da Cooperativa de Eletrificação Rural, Paulino Bif. Deixou duas irmãs: Olga Bif Pelegrin e Selma Bif (religiosa, Irmã Anselma), da Paróquia de Tavares, RS, além da mãe, Idalina Bif, 89 anos. 

Claudino residia em Tubarão. Bacharel em Filosofia, Teologia e Sociologia, escritor e historiador, escreveu vários livros, sendo que a primeira obra (publicada em 93), contava com bom humor a história de Morro da Fumaça, sob o título, Morro da Fumaça e Sua Divina E Humana Comédia. Este livro é indispensável para entender a cidade e seus primeiros habitantes. Outros livros: Voos (poesias) Salmos da 25ª Hora, Ópera de Deus, Crônicas da Diocese de Tubarão, Credo de Maria Liberdade; Cântico do Irmão Lobo de São Francisco; Crônica da Diocese de Tubarão; Memórias de Nossa Senhora do Desterro e Seu jumento Macabeus (1994, Prêmio Pool Americana e Diário Catarinense); Raissa; Paixão de Jesus Cristo Segundo Seu Jumento Macabeus (Premio: 2º lugar Concurso da Fundação Cultural de Criciúma) e Jesus, o Galileu Passionário. Publicou várias poesias pela Unisinos (RS) e algumas delas, foram incluídas na Coletânea 3ª Idade, da Fundação Viva Vida do Governo de SC.
   
Conforme Anna Vitória que prefaciou Ópera de Deus, Claudino acreditava na literatura como um novo nascimento do homem, da mulher e de um novo milênio. Escrevendo desde 1990, apontava O Pequeno Príncipe como sua fonte de inspiração. Membro das Academias de Letras de São José e de Urussanga.

Por Dr. Henrique Packter 01/12/2018 - 06:00

Santo Zaccaron: a primeira professora de brasileiro que chegou na Fumaça foi embora porque não havia alunos. O marido chamava Fermínio.  A segunda, por mais de 40 anos ensinou a meninada a ler e escrever. Catequista de mil crianças, Idalina era casada com Abel Freitas, feitor da ferrovia. Primeiro professor não tinha a mão direita, chamava-se Martin Riccieri. Ensinava escola e canto só em italiano. Era pago pelo rei da Itália, dizia. Depois vem a professora Almira Olga da Silva Tonelli cujo marido era apicultor. Ela ensinava 2 horas de italiano e 2 horas de brasileiro. Quando a Itália ganhou a guerra de 14 contra a Alemanha, o rei Vitor Emanuel II mandava aos alunos italianos pobres do Brasil caderno, tabuada, caneta, lápis, lousa, pena, tinta e pagava os professores.  Santo Zaccaron dizia: sei ler por graça do Rei da Itália.

Claudino Biff: Vanteiro Margotti foi dos primeiros moradores da Fumaça. Era dono de armazém e não gostava do nome da cidadezinha. Em 1940, Claudino tinha 8 anos e viu o mapa de SC na escola trazendo em lugar da denominação Morro da Fumaça o nome Vanteiro Margotti... Linha Torrens tinha 2 igrejas, uma católica e outra dos adventistas russos e dois cemitérios também. O cemitério católico viria a ser a atual igreja, construída sobre a primeira. O cemitério adventista era a 300 metros aquém da igreja da linha Torrens que tinha Cooperativa e escola italiana. Fernando Fávero chefe da Cooperativa vendia tudo que se usasse na colônia de machado a pente, de enxadas a roupas, além de remédios e pregos. (Santo Zaccaron: os colonos eram sócios da Cooperativa, Fávero era só caixeiro). Linha Torrens era o centro social e Morro da Fumaça não existia. Fávero ao ver passar pela Cooperativa José Guglielmi, pai de Santo Guglielmi, perguntou onde ele ia; teve como resposta que ia comprar terras na Fumaça.
- Compadre Beppi, Linha Torrens é la vacca e Fumaça é la coda (rabo)...  

SAÚDE EM TEMPOS DA FUMAÇA    

Santos Zaccaron: Para dor de cabeça se usava Cafiaspirina. Certa vez ficou doente e tomou remédio receitado por farmacêutico polaco apelidado Dottorin. Zaccaron sofria de amarelão e ele deu Necatarina, remédio alemão. Foi tomar o remédio e lá se foi o amarelão...  Tinha o Dr. Lass de quem já se falou, médico alemão  

ÍNDIOS DA REGIÃO

Quem são? De onde vieram? Já se passaram 5 séculos do primeiro encontro e ainda nada sabemos de suas origens. Certo, temos aquela teoria de que venceram o Estreito de Behring, mas quando chegaram? 10 mil, 30 mil, 50 mil anos atrás? Quem seriam eles? Nem negros, nem hindus; descenderiam de qual tribo de Israel ou de qual dos 3 filhos de Noé?

Alguns deles, como os Aimorés, eram assassinos brutais, antropófagos, devorando carne humana em meio a orgias regadas a muito álcool de cauim ou vinho de mandioca. O ritual antropofágico era uma vingança contra índio inimigo, capturado em batalha.  Outros indígenas, os nossos índios da Fumaça, nosso pacífico Carijó, o melhor índio da costa, eram dóceis, prestativos, solidários. Morreram sem incomodar ninguém, no dizer de Claudino Biff. Havia entre nossos índios os Guarani—Kayowá que se suicidavam; empresários como os Kayapó; há tribos que não chegam a uma dúzia de indivíduos como os Xetá, outros a mais de 20 mil como os Tikuna. Não temos um único herói indígena apesar da ajuda prestada aos brancos portugueses, como o tupiniquim Tibiriçá que salvou São Paulo em 1562, além de Teniminó Arariboia que ajudou a derrotar os franceses em 1567 ou o Potiguar Felipe Camarão na vitória dos holandeses em 1649. Há também Tamoios, Ianomâmi. Praticamente todo nosso litoral estava habitado pelos Tupi-Guaranis na chegada dos portugueses. Tupinambá eram os Tupi, pai de todos, os Tupiniquins eram aliados dos portugueses contra os Tupinambá-Tamoio, aliados dos franceses. 

Doze eram as tribos de Israel e doze eram os profetas, mas, apenas onze as tribos indígenas espalhadas pelas costas brasileiras. Quinze séculos depois de sua grande migração dariam os índios de cara com os pálidos barbudos vindos do leste, autores de um dos maiores genocídios de que se tem notícia. Tupinambás e Tupiniquins ocupavam o litoral tendo expulsado para o interior as tribos bárbaras.   

Cada povo indígena tinha seus próprios costumes e modos de vida quando os portugueses chegaram ao Brasil. A língua predominante era o tupi-guarani, que ao contrário do que se possa pensar, é uma língua, e não um povo. Guerrear era para eles uma atividade defensiva, e não uma maneira de conquistar territórios, como hoje.

AS OCAS

A aldeia era rodeada por paliçada, espécie de cerca de lanças e crânios. Serviam como enfeites, para honrar aqueles que viraram jantar. Aldeias tinham de quatro a oito malocas, que abrigavam pelo menos três núcleos familiares. Os pertences dos indivíduos eram mantidos na oca dentro da área ocupada por sua família

CAÇA E GUERRA. APÊNDICE PARA NATAL CORAL.

Armas de guerra dos índios incluíam a borduna, tacape que funcionava como um martelo. Os arcos e flechas eram personalizados, trocando-se o desenho das pontas, a posição e o estilo das penas da flecha, além do tamanho e do formato dos arcos. Para caçar animais de pequeno porte (como aves terrestres), usava-se arco de longa envergadura e flecha de material leve com penas longas na parte traseira (auxiliava a sustentar mais tempo de voo)

A Companhia Metropolitana financiava a implantação de novas colônias. Acuados, os bugres passaram a atacar os ranchos dos colonos para intimidar os devastadores de floresta e também saquear os preciosos alimentos e utensílios do branco. Por vingança, assassinavam frequentemente mulheres e crianças.

Clima ficando cada vez mais pesado, colonos apoiados e incentivados pela Companhia Metropolitana, organizam expedições para afugentar os selvagens. Natal Coral era caçador audacioso. Sua casa sempre cheia de couros de onças e dentes de feras, atestavam seu conhecimento da mata. Ele atendia, com prazer até compreensível, a empreitada de caçar bugres.

Na Veneza, alto do morro onde hoje está o Hospital São Marcos, erguia-se majestática e altiva a sede da Companhia Metropolitana e residência de seu Diretor, Miguel Napoli. A encastelada-mansão tinha escadaria de acesso toda de mármore Carrara e o jardim descia da colina à planície. Foi por ali que Natal Coral, localizou grande acampamento de bugres em direção à serra. Acordou com Napoli pagamento de dois mil réis por orelha de bugre. Natal mais duzentos homens foram à caça. Na madrugada, após grande festa, índios caíram em sono profundo. Sono do qual jamais acordaram...

Due malle, duzentas orelhas de homens, mulheres e crianças Natal Coral cobrou a Miguel Napoli que recusou conferir o produto da chacina. Também fez com que todos se calassem. Só não se acalmaram, os índios (Baseado em artigo de Eder Giovani Savio - Tradição de Vanguarda, n. 05, ano 2, Junho/91).  

HISTÓRIA DE ÍNDIOS PINGUÇOS 

Em 1947, na mata virgem de Lauro Müller, foram encontrados três únicos índios Xoclengue sobreviventes. À maneira de Manoel Menezes, jornalista e político das antigas, devo dizer, não sem certo desconforto, que os três indígenas eram dados a libações alcoólicas, especialmente cervejas, trazidas pelos empresários do carvão. Tinham eles lá suas preferências etílicas. Ao indígena mais velho agradava a Cascatinha-Brahma, cervejinha elaborada com a água celestial das serras petropolitanas. O segundo em idade derretia-se ao ouvir falar em Continental-Cassol, cerveja produzida no RS. Já ao terceiro desde que fora trabalhar em Caxias, só tomava cerveja Leonardelli-Escariola.  Reunidos os três paus d’água na estação da Estrada de Ferro, aguardando o trem pede o primeiro, dinheiro na mão:

- Traz uma Cascatinha-Brahma no capricho!
O segundo:
- E prá mim uma Continental-Cassol!
O terceiro fanático:
- E prá mim um suco de laranja!
Entreolham-se os dois primeiros, sem entender. Volta a falar o do suco:
- Como vocês não vão beber cerveja, também não vou!     

Vem também desta data a história do cacique que viajava pela ferrovia desde Lauro Müller a Imbituba com seu ajudante de ordens. Era a primeira viagem da dupla. Vai senão quando o chefe ordena:
- Estou com sede, traz água chefe.

Passam-se os minutos. Afinal, ele volta com um balde água, tomado de um gole só. Poucos minutos depois, nova ordem: chefe quer mais água. Interminável tempo se passa até a volta do prestimoso auxiliar, balde vazio nas mãos.
- Que aconteceu?
- Homem branco sentado em cima do poço! 

NEGROS

Negros não eram muitos na Fumaça, mas todos sabiam falar italiano e rezar em latim (Biff, 2001, p. 15 em Morro da Fumaça e sua Divina e Humana Comédia). Eram: Manoel Italiano, Chico Doce, Marco Abrão (leitor de Bíblia), Nego Anjo, João Gandia, Nego Rosalindo, Inácio e a parteira Perpétua.

LAVANDO A ALMA

Índios da costa banhavam-se praticamente com a mesma frequência com que encaramos o chuveiro nosso de cada dia. Aliás, nossa higiene corporal é herança indígena, não europeia. O contato com a água acontecia desde cedo – rios eram locais de diversão para as crianças. Até os prisioneiros prestes a virar grelhado passavam por banho cerimonial antes da execução

PET SHOP

Índios tinham animais domésticos, os xerimbabos (minha coisa querida, em tupi). Animais serviam para embelezar, como as araras, os tucanos e periquitos, ou para mostrar respeito à natureza. Filhotes de macacos eram adotados pela aldeia caso sua família tivesse sido morta por caçadores.

DONA EULÁLIA

Ela é do sertão do sul do estado, não nasceu no RS por detalhe. Nos seus quase 85 anos acompanha rádio-jornal-e-Tv, nada lhe escapa. Vem fazer sua consulta anual e comenta as últimas.

- O doutor viu como a juíza deu um nó no Lula, lá em Curitiba? Acho que ele vai ter saudade do Moro! E ele está bem mais magro, não viu? Parece que ele emagreceu uns 5 litros... Igual ao nosso Inter, só que deu em ganhar, sem mais nem menos. Andam dizendo que o Guerreiro vem aí, em abril, parece. Acho que ele vai ficar bem louco lá no Rio Grande...

Continua próxima semana Laerson Nicoleit pioneiro medico na Fumaça

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