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Por Dr. Henrique Packter 18/02/2019 - 06:00Atualizado em 18/02/2019 - 23:20

PARTEIRAS

A parteira Mariana da Silveira residia e trabalhava no Passo do Gado em Tubarão. O marido falecera de tétano ao espetar o pé num prego enferrujado da canoa. Viúva, quatro filhos para cuidar, desdobrava-se atendendo aos afazeres de dona de casa, mãe e parteira, além de costurar à noite até altas horas, com iluminação precária de lamparina, para equilibrar periclitante orçamento doméstico.
A coqueluche (tosse comprida) levou-lhe, quase simultaneamente, dois dos quatro filhos.
Sabe Deus como, matriculou os dois filhos que lhe restaram no Colégio São José, colégio particular, mensalidades honradas com grande sacrifício, às vezes completadas com produtos de seu sítio. 
Dona Mariana valia-se de OTTO quando o parto se anunciava difícil, tumultuado ou mesmo demorado. 
Pois foi num desses partos, realizado em casa modestíssima que Dona Mariana socorreu-se do experiente médico. Chovia copiosamente terminados os trabalhos. Demonstravam eles, mais uma vez, a perícia profissional de OTTO. Ele e a parteira lavavam as mãos e o instrumental quando o médico, cansado e sedento, pede água de beber. Na casinha não havia copos.
- Vai de caneca mesmo, e, se não for esmaltada, qualquer uma serve que a sede é grande!
Vem a informação de que a água utilizada pela família não era de boa qualidade.
- Então, pega da chuva que é a melhor água que existe!
Aliás, em se tratando de parteiras e parteiros, o jornal O LÁPIS, de 21.12.1919, noticiava:” DONA ANTONINA BÚRIGO CORBETTA, foi durante muitos anos a parteira da cidade. Inúmeros foram os tubaronenses que vieram a este mundo através de seu auxílio. Na época, as mulheres não se dirigiam ao hospital para o parto, mas davam à luz em casa e seus filhos nasciam sob olhares e orientação de parteiras que nada mais eram do que curiosas que haviam aprendido o ofício através de observação dos partos que assistiam, sem possuírem conhecimento técnico para tal finalidade além de, em sua maioria, serem analfabetas."
Dona Antonina é hoje nome de rua na Vila Moema, onde se localizam as principais clínicas e hospitais de Tubarão.
O jornal O FISCAL, também de Tubarão, registrava a excepcional conquista, Germano Bez Fontana em seu livro HISTÓRIAS DE MINHA VIDA, pág. 309, refere-se a Dona Antonina como a mestra das parteiras de Tubarão, devidamente orientada e treinada pelo Dr. OTTO.

JOÃO MANOEL FERNANDES, FERROVIÁRIO, BAGAGEIRO, POETA, DEFICIENTE FÍSICO
Trabalhou na ferrovia EFDTC de 1º.7.1911 a 15.6.1919, sendo readmitido em janeiro de 1923.
Na noite de 30.1.1924 sofreu grave acidente na estação de Esplanada. Removido para Tubarão foi operado por OTTO. Sofreu amputação do antebraço e mão direitos e de parte do membro superior esquerdo. Sobreviveu.
Mas, o poeta hoje está morto no seu túmulo e trinta anos depois, em 1954, descreveu em poema seu infortúnio:
“Colocaram-me e me levaram num vagão
Para virem me trazer 
Ao ponto de baldeação.
Quando no banhado cheguei
De trem fui transportado
Chegando o trem em Congonhas.”
...
Não cabendo no carro a cama,
No tênder fui colocado.
Ainda estava na Esplanada,
Ao Dr. OTTO foi telegrafado:
‘Venha urgente ao hospital
Que João Fernandes está machucado’.
...
E às 2 e meia da madrugada,
Estava na Estação o Dr. OTTO
Quando o trem chegou em Tubarão
...
Agradeço ao Tasso Reis
Que as providências tomou.
Chegando ao hospital 
Ao Dr. OTTO pedi:
Que me desse alguma coisa 
Pois não mais podia resistir.
A operação foi logo feita
E na cama me botaram.
Às seis horas da manhã
Meus parentes ali chegaram”.

Tudo muito bom. A descrição em versos livres é eficiente fornecendo boa ideia do ocorrido. O médico é tirado da cama na madrugada de janeiro de 1924 e, pressurosamente aguarda o acidentado na Estação da Estrada de Ferro, não no Hospital, como solicitado. A cirurgia é realizada sem mais delongas, porque, imagina-se, deveria ter havido grande perda de sangue se é que tal coisa ainda não estivesse ocorrendo.
O paciente sobreviveu ao terrível acidente e até continuou a versejar como demonstram os escritos mais acima. Tudo muito bom, tudo perfeito. O agradecimento a Tasso Reis que deve ter feito por merecer esses agradecimentos, está lá -, o registro da chegada dos parentes, também lá está. Faltaria alguma coisa?      
Sim, claro, faltou o principal. O agradecimento ao médico que o atendeu com presteza e competência, indo aguardá-lo às duas e meia da manhã na gare.  

AS VIDENTES        

Numa das entressafras de sua vida conjugal, amigo meu, namorava jovem versada em leitura de cartas que o levou a uma cigana húngara de terríveis olhos verdes. A cigana estendeu-lhe o baralho; que o misturasse à vontade. Arrumou-as depois sobre um sinistro pano preto. Depois de examiná-las veio a sentença:
- Trata-se de um caso perdido, ele não tem futuro, não vai dar pra nada.
A moça quis ouvir uma segunda opinião, de famosa cartomante baiana que atendia para os lados da Rocinha. Na entrada, abaixo da janela o cartaz:
Manicure e vidente
Meu amigo embaralhou vigorosamente as cartas. Não deu outra: não só viu confirmado o vaticínio da cigana húngara de terríveis olhos verdes, como a baiana acrescentou alguns relatos lúgubres, confidenciados em voz baixa à jovem acompanhante. Talvez por Isso o chá de sumiço que tomara, ao término da consulta.

AMPUTAÇÕES, ANTIGAMENTE

Hoje há menos. A cirurgia vascular, que talvez pudesse salvar alguns daqueles membros severamente traumatizados e atendidos por OTTO FEUERSCHUETTE e que já descrevemos, é especialidade relativamente nova entre as especialidades cirúrgicas. Tornou-se realidade mundial no final dos anos 40 e início da década de 50 do século 20. Marco maior da cirurgia vascular moderna ocorreu em 1902 com a publicação da técnica de sutura vascular por Alexis Carrel, vencedor do prêmio Nobel de Medicina por este feito (1912). Essa técnica, até hoje, é a base da maior parte das cirurgias vasculares abertas.
    
No século 20 a cirurgia vascular estabeleceu-se como especialidade médica com as técnicas cirúrgicas se aperfeiçoando. Em 1946 o professor português João Cid dos Santos descreveu a técnica da retirada das placas de gordura de dentro das artérias. Logo depois, Dubost realizou a primeira cirurgia de correção de aneurisma de aorta abdominal (1951).

Os primeiros estudos de artérias e veias, no início dos anos 20, usavam brometo de estrôncio e iodeto de sódio. Dois grandes avanços ocorreram nesses estudos no mesmo período. O primeiro: Egaz Moniz, em Lisboa, descreve a técnica de arteriografia cerebral por punção direta da artéria carótida (1928) e o segundo, quando Reynaldo dos Santos utilizou punção translombar para visualizar a aorta abdominal, 1929.

Marco de uma nova era na Cirurgia Vascular, Seldinger (1953) descreve uma nova técnica realizada por via percutânea que permite o cateterismo seletivo de todas as principais áreas vasculares do organismo.

Em 1974, Grünztzig desenvolveu cateter balão usado para angioplastia. Contudo, a consolidação de procedimentos minimamente invasivos para tratamento de doenças vasculares virá em 1988, com a utilização de stent metálico desenvolvido pelo professor argentino Julio Palmaz.
    
O início da década de 90 foi verdadeiro marco na evolução das técnicas minimamente invasivas. A chamada Cirurgia Endovascular teve início quando Dr. Juan Parodi, em Buenos Aires, demonstrou a possibilidade de tratar aneurismas da aorta, evitando cirurgia aberta, pela implantação de um stent revestido, introduzido através da artéria femoral. Esta prótese endovascular liberada na artéria aorta, expande-se para aderir à parede arterial, sem sutura.

O ENCANADOR E SUA APENDICITE

Eurides Flores Marcelo morava numa rua atrás do Hospital de Tubarão, prestando assistência na área hidráulica a quantos dela necessitassem, mais especialmente ao Hospital.
De família pobre, trabalhava desde os sete anos de idade auxiliando o pai no transporte de postes de madeira para as redes elétricas da região. Segundo de dez irmãos, Eurides fica órfão de pai aos 14 anos. O trabalho redobra, tendo de ajudar a mãe na criação de 8 irmãos menores. 
Em Areado, interior de Tubarão, transportava toras de árvores derrubadas, em carretão puxado por junta de boi. Carretão com eixo de madeira e duas rodas, as toras amarradas e arrastadas. Trabalho era muito, ganhando Eurides o suficiente para sobreviver modestamente e auxiliar no minguado orçamento doméstico.
Em 1951, o tubaronense Zeferino Menegaz era dono de pedreira em Londrina, norte do Paraná. Fez a Eurides tentadora proposta de trabalho, logo aceita.
Lá, após algum tempo, Eurides adoece: febre alta, náuseas, dores abdominais. Isso mesmo: apendicite aguda com necessidade de ser operado com urgência! Descobre que terá de despender nove mil cruzeiros pela cirurgia em terras paranaenses. Era muito dinheiro, do qual nem dispunha. Era 1952 e decide-se por voltar a Tubarão para ser operado. Desde 1950 Tubarão possuía o aeroporto Anita Garibaldi numa área em frente ao atual Farol Shopping. Na época, eram três voos por semana.  O aeroporto particular, de saibro, com pista de 1.100 metros de comprimento e 40 metros de largura, pertenceu ao extinto Aeroclube Cidade Azul. Atualmente a área total do aeroporto pertence à Força Aérea Brasileira, e como se encontra cercado por prédios e casas, encontra-se desativado. Serve, às vezes, de campo de treinamento para o Exército Brasileiro e para certos eventos de grande porte.
A viagem por avião: Londrina, Curitiba, Tubarão ficava em torno de 900 cruzeiros. Internado no HNSC foi operado pelo Dr. OTTO. A internação de vários dias, honorários médicos e todas as despesas hospitalares, curativos, medicamentos, alcançaram a cifra de 450 cruzeiros! Eurides permaneceu por dois meses em Tubarão. Depois retornou a Londrina onde trabalhou por mais dois anos. Em 1955 retorna a Tubarão para dedicar-se ao trabalho de encanador.  

O GRANDE ACIDENTE FERROVIÁRIO DE DEZEMBRO DE 1949

Fazia cerca de 3 meses que OTTO perdera a esposa Irma, quando sobreveio o acidente, próximo à localidade de Estiva, Capivari de Baixo. Foi rotulado como a maior catástrofe de todos os tempos envolvendo a Estrada de Ferro Dona Teres Cristina. O trem de passageiros saíra de Imbituba, devendo chegar a Tubarão cerca de 15,30 horas. A composição estaria desenvolvendo velocidade superior à usual e na curva do cem, a 2 km da Estação da Estiva, a locomotiva saltou dos trilhos. Esta curva já não mais existe, retificada pela ferrovia. Duas vítimas fatais, residentes em Capivari de Baixo: garoto de 15 anos e senhor de idade. Parece que o garoto viajava clandestinamente, equilibrando-se entre dois vagões da composição. Durante os procedimentos de socorro e resgate alguém teria colocado uma passagem no bolso do menino falecido o que permitiria aos seus responsáveis receberem indenização da seguradora. Foguista e maquinista, além dos outros acidentados, foram atendidos por OTTO com a colaboração de outros médicos da região. O maquinista Saul Estevão teve inúmeros ferimentos de pequena gravidade. Levado ao hospital pelo pessoal da CSN ficou internado sob os cuidados de OTTO. Ernesto Marcolino Antunes, o foguista, perdeu a perna esquerda, presa por 4 horas na manivela de manobras. A liberação da perna esquerda do foguista só foi possível por determinação do Dr. Mário Benjamin Baptista, engenheiro da CSN, utilizando maçarico o que permitiu a secção da ferragem. Após deixar a CSN, Baptista foi diretor da ELETROSUL em Tubarão. Quando das enchentes de março de 1974 era Secretário Geral do Ministério de Minas e Energia, governo do General-Presidente Ernesto Geisel, tendo prestado grande auxílio à gente tubaronense. 
Otto contava mais de 68 anos na ocasião, mas, dotado de grande vigor físico trabalhou por mais de 6 horas contínuas no atendimento às vítimas. 
A locomotiva, de número 101, ficou posicionada como se estivesse se dirigindo em direção contrária, para Imbituba. O foguista, Ernesto usou muletas para sempre por não dispor de recursos para adquirir perna mecânica. 

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE 

Por Dr. Henrique Packter 09/02/2019 - 06:00

Registro, extremamente honrado, felicitações recebidas do oftalmologista tubaronense OTTO FEUERSCHUETTE NETO e do Professor IRMOTO FEUERSCHUETTE, pela abordagem que realizo para a TRIBUNA sobre a vida do médico OTTO FEUERSCHUETTE.

Já falei de Dom ANSELMO PIETRULA, bispo em Tubarão e que foi meu cliente por 21 anos, de 17.8.1968, 61 anos, até 22.11.1989. Retornou após seis anos, em 1º.3.1974, aos 67 anos. Tinha catarata incipiente em ambos os olhos. Em 16.11.1982 contou-me que sofrera episódio de isquemia cerebral resultando em discreta redução da mobilidade do lado esquerdo do corpo. Em 26.10.1984, 78 anos, queixava-se de artrose e de problemas cardíacos. Tinha catarata madura no olho esquerdo, que operei em 9.7.1985 no HSJ. Algum tempo após a cirurgia, sofreu acidente de trânsito em Tubarão. No acidente, além de traumatismos craniano, de pés e costelas, sofreu luxação do cristalino no olho direito e hemorragia vítrea. Hospitalizado, foi operado no Hospital Moinhos de Vento (POA, 15.8.1885) pelo Dr. NORBERTO ALBRECHT, com remoção do cristalino luxado para a cavidade vítrea e vitrectomia radical anterior.

Em 6.5.1986, prescrevi lentes de óculos acima de dez graus positivos em cada olho. Em 30.1.1988 estava diabético, tinha cálculo renal. Prescrevi novas lentes corretoras.
Atendi-o pela última vez em 22.11.1989 prescrevendo novas lentes. Faleceu a 25.5.1992 aos 85 anos. 

Já o Padre SANTOS SPRÍCIGO consultou em 26.11.1985 comigo, por hemorragia no olho esquerdo. Receitei lentes de grau em 18.12.1985. Em 21.12.1989, criou para a população orleanense a Rádio FM Luz e Vida, como Monsenhor Agenor Neves Marques criara a Rádio Marconi em Urussanga. Faleceu em 9.8.1992, vítima de câncer. Padre Santos criou na Rádio Luz e Vida o jargão que anunciava as notas de falecimento: "Partiu para a Casa do Pai...". Sprícigo foi um apaixonado pela comunicação.

OTTO FEUERSCHUETTE REALIZA PRIMEIRA CIRURGIA EM TUBARÃO

Em abril de 1910, Ernesto Benatti internou-se no Hospital NSC de Tubarão vindo da região de Urussanga-Azambuja. Fora atingido por uma tora, grande tronco de madeira, quando se encontrava no meio da mata, isolado de todos. A tora impossibilitava-o de erguer-se, prendendo seu braço esquerdo ao solo. Por três dias e quatro noites sofreu dores inimagináveis agravadas pelas tapiocas, formigas gigantes e negras que devoravam seu braço. Difícil imaginar suplício pior. Submetido a desarticulação ao nível do ombro esquerdo, permaneceu internado de abril a julho de 1910, quando obteve alta, curado.

ANDANÇAS HIPOCRÁTICAS

Naquela época e mesmo bem depois, viajava-se muito no exercício da profissão médica. Estradas precárias ou inexistentes e Médicos poucos. Dino Gorini, cirurgião de grande prestígio, trabalhando inicialmente em Nova Veneza e depois em Criciúma, subiu repetidas vezes a serra a cavalo, para atendimento de clientes. A FOLHA DO SUL, de Tubarão 11.4.1915 e depois, em 5.12.1915, noticiou o regresso de Otto de São Joaquim, onde fora a trabalho.        
Roberto João Tenfen em Rio Fortuna Nossa Terra, Nossa Gente, a Colonização Alemã em Rio Fortuna, destaca viagens de OTTO pelo Vale do Braço do Norte e pela serra, por trole ou a cavalo. Citava São Ludgero e Gravatal, as cidades mais visitadas. 
Mário Belolli em A História do Carvão de SC, tratando da assistência social aos trabalhadores das minas de carvão do sul catarinense, registra pioneira manifestação de atendimento médico à massa operária e familiares com a participação de OTTO e financiamento de Henrique Lage (1920). A Imprensa, jornal de Orleans em 1º.8.1920, “mineiros e trabalhadores, como toda essa grande população, receberam a grata notícia da nomeação do humanitário clínico com demonstrações de geral agrado”. 
Todas as sextas-feiras OTTO passou a prestar atendimento aos mineiros e seus familiares. Era substituído nos seus impedimentos pelo médico Aurélio Rótulo da Laguna. Recém em 1915 no distrito de Brusque do Sul as famílias haviam se reunido para iniciar a construção de nova igreja, de madeira (1915). 
A madeira foi toda falquejada (desbastada, aplanada) por Godofredo Ostre. Primeiro capelão: Gregório Cordiolli. Novos moradores: Antunes, Brugnara, Marchioro, Fortunato, Zanini, Alberton, Mazon, Herculano, Dalsasso, Coan, Baggio, Menegasso, Baschirotto e outros. Na década de 20, os moradores sentem necessidade de capela maior e mais confortável.

Em 1927, foi lançada a pedra fundamental da primeira capela de alvenaria da comunidade, modelo inspirado na 1ª Igreja Matriz de Orleans, ainda existente na época. A primeira serraria, instalada pelos irmãos Mazon (Luiz, Estevam e Ângelo, em 1929), era movida por enormes rodas de água. João Zanini também instalou serraria e moinho, tempos depois. Cerca de 1930, os Mazon já tinham serraria, marcenaria, engenho e atafona. Clubes, de futebol e recreativo, ambos denominados 7 de Setembro, eram dos Mazon.
Jairo Arno Matos em História de Morretes - SC, publicado em 1910, registra que OTTO também lá exerceu sua honrada Medicina. Morretes (pequenos morros) é hoje Maracajá (gato do mato ou jaguatirica). 

O MAIOR QUISTO DO MUNDO

O jornal Correio do Sul da Laguna (7.5.19360) noticiou que Maria Cristina, vinda do Morro do Bugio, distrito de Gravatá, fora hospitalizada em razão de apresentar ventre de dimensões avantajadas. Diagnosticado quisto de ovário, Otto, auxiliado pelo Dr. Bernardo Griesedick, mais o farmacêutico Tácito Pinho, além de quatro irmãs da Divina Providência (Bertila, Graciana, Fernanda e Gabi), removeram sem qualquer complicação o tumor que pesou 45 quilos (carne e 4 baldes de líquido), em 4.11.1924. Bernardo Griesedick iniciara atividades médicas em Tubarão (1922), após a eleição de OTTO para prefeito de Tubarão. Fanor Freitas, jornalista tubaronense, em A Voz do Povo (9.11.1957), na coluna Efemérides Tubaronenses, com o título de O Maior Quisto do Mundo, registrou esta façanha de OTTO. 

O TIVILICA

Morador em Tubarão, proximidades da casa de Custódio Henrique, bairro da Madre, Avelino Porto (O Trivilica), em 24.9.1926, foi chamado por Custódio porque a esposa demonstrava sinais de exaustão física após prolongado tempo em trabalho de parto. Tivilica parte a cavalo, em carreira desenfreada, atrás de OTTO. No potreiro defronte ao hospital pastava cavalo do médico que foi encilhado e montado. Agora, galopam ambos, Tivilica e Otto. Nas proximidades da curva do Andrino, já a caminho do bairro da Madre, recebem aviso de que a parturiente falecera. Apesar da notícia, prosseguiram viagem e assim nasceu Eliziário Custódio Henrique. Embrulhado em toalha foi levado pela senhora Maria Tomaza Elias, que o criou como se filho fosse.  Eliziário trabalhou com Andrino Sales Borges e casou-se com Luiza, filha de seu patrão. O casal teve um só filho, Wanderlei, pai do médico tubaronense Peters Silva Henrique. 

VALENÇO

Final dos anos 20, OTTO e sua família veraneavam no Farol de Santa Marta, na Laguna. Mar aberto de ondas fortes representava perigo para banhistas e navegadores. Valenço, exímio nadador e salva-vidas, era pescador afamado não só pelas suas proezas náuticas como pelos excessos da imaginação ao narrar seus feitos. 
Elsa, a filha mais velha de OTTO, foi colhida por onda enorme. Não sabendo nadar, foi arrastada para o mar. Empurrada para cada vez mais longe, desenhava-se uma tragédia a se abater sobre a família Feuerschuette. Valenço, que andava por ali, acorre diante do alarido da multidão que se formava, OTTO à frente. Avistando Valenço, pede-lhe que resgate sua filha. 

- Mas tem uma coisa doutor, eu só vou se for pelado!
Com roupa, corria o risco de ser agarrado pelas roupas pela moça desesperada e acabarem os dois no fundo do mar. É fato sabido que as vítimas de afogamento agarram-se com força e desespero ao que estiver ao seu alcance. Ocorre muitas vezes o afogado sobreviver, mas não o salva-vidas. 
Valenço quer saber por onde ela entrou no mar.
- Por ali, por ali – apontam vários banhistas.
Conhecedor das correntes locais, Valenço nada com firmeza e decisão. Resgatada a moça, ao chegarem ao ponto da arrebentação das ondas, grita por socorro, que venham apanhar a moça. Trazida pelo pessoal da praia, é assistida por OTTO que insiste em gratificar Valenço:
- Isto faz parte de meu dia a dia, doutor. E sei que salvar vidas faz parte do seu também.

Valenço, o mais famoso pescador daquelas épocas, enfrentava o mar bravio em sua canoa, lutando pelo seu sustento diário, madrugada após madrugada. Navio encalhado nas vizinhanças do Farol, Cabo de Santa Marta, era o primeiro a chegar à embarcação e do convés atirava ao mar parte da carga para que as ondas a levassem à praia. Um navio catalão encalhara, carga de gado bovino. Valenço orientou a tripulação a liberar os animais para que, nadando, eles pudessem alcançar a praia.
Mas é do próprio Valenço o relato de sua proeza maior. Estava ele sozinho a pescar quando viu emergir à sua frente peixe enorme, tamanho descomunal. Mesmo para Valenço era algo nunca visto. Lançando-se contra a embarcação, o peixe abocanha a proa do barco. Ao morder a canoa, o monstro marinho perdera três de seus dentes que ficaram cravados na madeira do barco, retornando o animal marinho para as profundezas em que vivia.
Considerando-se a fama de Valenço também é bem possível que se deva levar a narrativa à conta de histórias de pescador.  

DE PARTEIRAS E DE PARTEIROS
Dona Eugênia residia em São José, localidade situada a 18 quilômetros de Braço do Norte em direção a Rio Fortuna. Vivia sua 14ª gestação com o marido ausente, viajando a negócios para os lados de Florianópolis. Da prole de 13 filhos, a caçula Melânia casaria com Carlos Zumblick, filho do grande artista plástico Willy Zumblick. O marido de Dona Eugênia, Turíbio Schmidt, gozava de grande prestígio na região em que morava.
Em trabalho de parto há dois dias, após esforço maior, aparece no canal do parto a mãozinha da criança. A parteira determina:
- Para Tubarão, o mais rápido possível, antes que seja tarde, para que se salvem mãe e filho!
Foi transportada a Braço do Norte numa caleça, carruagem de 4 rodas, coberta com lona, com 3 bancos. Um dos bancos era para o condutor. Os outros dois, maiores, eram para os passageiros, dispostos vis a vis.
De Braço do Norte a Tubarão o trajeto era percorrido por taxi. O menino nasceu, mas logo veio a óbito. Quanto à mãe, que sofria há vários dias em trabalho de parto, com fortes dores e hemorragias prolongadas, entrou em estado de choque. OTTO e sua equipe lograram restabelecê-la após o que seria sua última gestação.   

PADRE BERTILO SCHMIDT
Turíbio e Eugênia foram pais de Padre Bertilo Schmidt, nascido a 12.8.1929 e falecido aos 85 anos em 1º.8.2015, ordenação sacerdotal em 1º.12.1957. Reitor e formador no Seminário Nossa Senhora de Fátima, era cego desde acidente de carro em 1964. Capelão durante muitos anos no HNSC e Vigário Paroquial na Paróquia da Catedral, era primo do Vigário geral Padre Wilson Buss, pároco da Paróquia Santa Bárbara e do Padre José Lino Buss, pároco da Paróquia Santo Agostinho. 

OTTO FARIAS
RAPHAEL ELIAS FARIAS é graduado em Medicina pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (2006) com especialização em Infectologia (Residência Médica Hospital Nereu Ramos - Florianópolis/SC). Título de pós-graduação em Gestão em Saúde e Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH, INESP) e Medicina do Trabalho (FURB/FFM). Atuação profissional como médico CCIH, Infectologia e Emergências Médicas. Graduação em Farmácia pela Universidade do Sul de SC (1998) com atuação profissional em Farmácia Hospitalar por mais de 7 anos no HSJ de Criciúma/SC. Atividade profissional no HSJ de Criciúma/SC, atuando, atualmente, como Diretor Técnico e Médico Infectologista/CCIH.
Pois foi RAPHAEL quem me informou que seu falecido pai, OTTO FARIAS, conhecido e estimado gerente do BESC em Criciúma, chama-se OTTO por ter nascido pelas mãos do médico tubaronense e numa justa homenagem ao grande profissional médico e invulgar homem público que foi. OTTO FARIAS nasceu no HNSC em 14.5.1944. 

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 02/02/2019 - 06:00

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FEUERSCHUETTE, SEGUNDO MÉDICO EM TUBARÃO
Henrique Packter, Oftalmologista hpackter1@gmail.com 
Cremesc 383 RQE 505 Titular Honorário do CBO

Nas edições anteriores escrevi sobre aspectos da vida de OTTO em Tubarão, Alemanha, Pelotas, POA, RJ. Sua formação escolar deu-se sobretudo na Alemanha e o curso médico em POA e RJ. Escrevi também sobre a precariedade e mesmo inexistência de serviços médicos na sua área de atuação profissional. Havia hospitais em Tubarão (Nossa Senhora da Conceição) e Laguna (Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos). Somente depois dos anos 30 outras localidades, incluindo Criciúma, terão hospitais e médicos.
Já contei a história do Hospital Santa Otília de Orleans, construído pelo empresário Henrique Lage em 1939. O Hospital de Urussanga começa a ser idealizado em 08.12.1927 e o lançamento de sua Pedra Fundamental é de 09.06.1940, no local em que está hoje e, em 29.12.1942, a Comissão Pró-Construção entrega o hospital à Comissão Administrativa, quase concluído. A denominação HOSPITAL NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO homenageia a Padroeira da Paróquia de Urussanga. Declarado de Utilidade Pública Municipal (09.09.1949), Estadual (17.07.1967) e Federal (21.05.1984).
Em Urussanga, entre 1903-1934, sucederam-se diversos médicos: César Sartori, Salvador Caruso, César Búrcio, Felice Bongiovanni, Aurélio Rótolo, Henrique Meloni, Vitório Giacone, Domingos Borelli, Luiz Campelli e Aldo Caruso.

AINDA SOBRE A GRIPE ESPANHOLA. MAIS DO MESMO
A gripe espanhola vitimou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, um dos desastres naturais mais letais da história humana. 
No último ano da Primeira Guerra Mundial, guerra como dantes nunca se vira, surgiu a gripe influenza, de morbidade e mortalidade elevadas, sobretudo entre jovens e pela frequência das complicações associadas. 
A Gripe Espanhola percorreu todos os continentes e durante os dois anos da pandemia afetou 50% da população mundial. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) matou coisa de 8 milhões de pessoas. Falta de estatísticas confiáveis, principalmente no Oriente (China e Índia), pode ocultar número maior de vítimas.
A gripe manifesta-se no aparelho respiratório por tosse e dor de garganta. Também febre, calafrios, fraqueza, prostração, dores musculares e articulares. O contágio faz-se por perdigotos expelidos pela pessoa contaminada. O vírus tem três subtipos (A B e C), com diferentes graus de morbidade, ampla capacidade de mutação e de gerar outras recombinações, formando novas variantes virais. 
Gripe espanhola no imaginário social
No clima de horror e desespero gerado pela pandemia, havia diversas explicações para o acontecimento. Versões rondavam o imaginário social ocidental, quase todas relacionadas ao final dos tempos.
Gripe espanhola no Brasil 
No Brasil, referências sobre a Influenza, veiculadas na imprensa em princípios de agosto, ganham força quando membros de esquadra brasileira foram contaminados pela doença no norte da África, segunda metade de setembro. 
Recife teria sido o primeiro porto brasileiro infectado, ainda em setembro, pelo navio Demerara, vindo da Europa. Ele seguiu depois para Salvador e RJ e, em novembro de 1918, à Amazônia. O Povo (Ceará, setembro de 1918) noticia a chegada da epidemia a Fortaleza. Portos eram os principais focos de disseminação da doença. 
Para o Instituto Butantã foram 35 mil as vítimas da pandemia num Brasil de 29 milhões de habitantes: "(...) 12.700 no RJ, 6.000 em SP, 1.316 em POA, 1.250 em Recife e 386 em Salvador". A doença vitimou inclusive Rodrigues Alves (1919), presidente da república.
Atividades exigindo maior contato interpessoal e aglomeração de pessoas aumentavam chances de contaminação, impondo adoção de medidas sanitárias: escolas e estabelecimentos comerciais fechados, cinemas, casas de espetáculos, bares, festas populares e partidas esportivas proibidas. 
Fevereiro de 1920, o Carnaval exibiu euforia generalizada e liberação inusitada dos usos, costumes e pudores. Carmem Miranda gravou E o mundo não se acabou (1938), de Assis Valente, expressando a atmosfera apocalíptica do contexto pandêmico. O autor, mais tarde, cometeria suicídio.
"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar... acreditei nessa conversa mole/Pensei que o mundo ia se acabar/E fui tratando de me despedir/E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei samba em traje de maiô/E o tal mundo não se acabou... Ih! Vai ter barulho e vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou".
Gripe Espanhola em POA
Notícias eram divulgadas pelo Correio do Povo, A Federação, Revista Máscara, O Independente.
Imprensa gaúcha, sobre a organização sanitária da capital (1918): “ruas não eram limpas numa cidade sem esgotos cloacais e com deficiente recolhimento de lixo. Como coroamento do descaso das autoridades, epidemias encontravam ambiente propício para se desenvolver”.
Outubro de 1918 e a gripe está em Rio Grande (RS), atingindo toda a cidade. Colégios e faculdades tiveram aulas suspensas, as lojas fechavam: não havia funcionários para atender os clientes, nem clientes para serem atendidos. Espetáculos eram cancelados. Bancários, carteiros, funcionários da Companhia Telefônica, todos adoeciam. Repartições públicas e privadas, ruas, praças e cafés eram desertos. 
91 anos depois, nova ameaça
Em 2009, voltou o vírus H1N1 (do tipo A), felizmente com força incomparavelmente menor do que no século anterior. Governos se mobilizaram em ampla campanha de vacinação. Não houve epidemia ou pandemia, ocorrendo em massa justamente a vacinação, que, desde então, se repete anualmente.
NOTABILIDADES INFECTADAS PELA GRIPE ESPANHOLA
Franklin Delano Roosevelt, Franz Kafka, Greta Garbo, Walt Disney, Woodrow Wilson. Rodrigues Alves (5º Presidente da República, morto antes assumir segundo mandato), Belfort Duarte, futebolista.
No RJ faleceram vítimas da gripe os dois irmãos mais velhos de Henrique Lage (Antonio e Jorge), administradores do grupo Lage. Henrique Lage acumula o comando de todas as empresas da família.
Discurso de 9.4.1923, aniversário de Otto Feuerschuette:
“(...) não podemos jamais esquecê-lo porque é o dia do aniversário natalício de um filho querido e muito dileto deste torrão de Anita Garibaldi (...) do honrado Governador da cidade (...) do benfeitor dos humildes, do verdadeiro e sincero pai dos pobres de Tubarão, como foi quando da terrível epidemia da  espanhola, a qual não vos impediu de acudir carinhosamente a todos vossos amigos, ricos e pobres, principalmente a estes, em que, finalmente soubeste fazer de vossa Medicina, verdadeiro sacerdócio”. Nasce o epíteto Sacerdote da Medicina. 
PADRES CARLOS VECHI e SANTOS SPRÍCIGO
VECHI, órfão de mãe aos treze anos, nasceu em 20.11.1933, família de dezesseis irmãos. Hoje, somente 5 estão vivos. VECHI é do Ribeirão Pequeno, distrito da Laguna, que tem como padroeiro São Brás. Iniciou estudos na sua comunidade, indo para o seminário de São Ludgero; continuou em Azambuja (Brusque), finalizando em Viamão.
 Sob o lema Eis que vos anuncio uma grande notícia, D. Anselmo Pietrulla conferiu-lhe o sacerdócio em 14.7.1963, na matriz Santo Antonio da Laguna.
Aliás, sobre D. Anselmo Pietrulla, apraz-me noticiar que tive o privilégio de conhecê-lo de perto. Fui seu Oftalmologista e operei-o de catarata no Hospital São José. Quando de seu acidente automobilístico, visitei-o na UTI do Hospital Moinhos de Vento em POA. Dom Frei Anselmo Pietrulla, da Ordem dos Frades Menores  (Knurów, 12.9.1906 — Tubarão, 25.5.1992), nasceu na Silésia (Polônia), quando esta província era alemã. 
Padre em 21.5.1932. Eleito bispo a 13.12.1947, recebeu a ordenação episcopal em 8.2.1948 das mãos do Cardeal Dom Carlo Chiarlo, assumindo como Bispo Prelado de Santarém (1947-1949). Depois, Bispo de Campina Grande (1949-1955) e Bispo-emérito de Tubarão (1955-1981). Faleceu aos 85 anos; foi sepultado na catedral de Tubarão.
VOLTANDO AO PADRE VECHI  
Em Janeiro de 1964, começou atividades na Paróquia São Paulo Apóstolo, Criciúma (Centro), por curto período. Depois na Vila Operária, paróquia de Santa Bárbara, onde ficou 9 anos. Da Santa Bárbara, foi para Cocal do Sul e dali para S. José por 2 anos. De São José para Cidade Mineira. E dela para Urussanga, trazendo o programa de rádio Alvorada do Cristão. Ficou um mês e pouco, sendo removido para Jacinto Machado, por 2 anos.
Santos Sprícigo de Orleans estava pedindo um padre para auxiliá-lo, mas o bispo nomeava padres que não eram de seu agrado. O bispo, meio que incomodado, disse:
- Padre Santos, você indica qual é o padre que você quer para Orleans, mesmo que a gente tenha que tirar de uma paróquia. 
Padre Carlos ignorava que o bispo se manifestara desta forma. Numa reunião em Tubarão, padre Santos chama padre Carlos lá para trás, na capela do seminário:  
- Calinho, o bispo me disse para eu escolher um padre para Orleans e olha, eu tô há 15 dias rezando diante do Santíssimo Sacramento ao Espírito Santo e o Espírito Santo indicou que é você!
- Padre Santos, eu tô meio que duvidando do Espírito Santo, ele sabe quem sou eu, mas, se ele indicou…  Eu tô cobrindo férias do padre Herval, ele quis que eu assumisse a paróquia porque tem o direito de descansar um pouco, aí vocês vão se entender. 
- Não, isso nós resolvemos.
Entenderam-se e Carlos Vechi foi para Orleans, onde ficou 2 anos. De Orleans para Cabeçuda, onde trabalhou 6 anos. Da Cabeçuda para Imaruí, por 2 anos. De Imaruí para Imbituba. De Imbituba para Treviso. Do Treviso foi para o Caravaggio. Do Caravaggio para Santa Rosa do Sul. De Santa Rosa do Sul para Araranguá, Cidade Alta, paróquia Sagrada Família. De Araranguá para Urussanga, completando, assim, trajetória de 50 anos de sacerdócio.
Um Padre Flamenguista
(Do jornal A VANGUARDA de 24.6.2005) 
O flamenguista padre DANIEL SPRÍCIGO nasceu em Orleans (5.9.1949) numa família de oito padres. Tem 69 anos. Padre Daniel chegou em Urussanga a 22.2.1987.  Descobriu sua vocação religiosa em 1960. Foi para o seminário de São Ludgero a convite do Padre Santos, seu tio, onde ingressou em 13.2.1961.
 
A escolha por Bento 16 decepcionou-o, mas diz ter esperança que ele mude alguns de seus pensamentos. Papa Bento 16 chegou numa onda de conservadorismo; por isso teria ficado decepcionado? 

Decepcionou-se desde o momento que viu na TV o resultado do pleito: preocupação, decepção, tristeza. Naquela tarde não atendeu pessoa. Não estava bem. O cardeal Ratzinger, quando Padre Daniel era estudante e lia seus livros, tornara-se um perito do Concílio Vaticano II. Seus livros eram coisa admirável. Mas, depois que foi convidado por João Paulo II, acabou cassando alguns padres. Padre Daniel – um democrata – desgostou-se. Para a Igreja ficou ruim, pois a imprensa mundial divulgou que o Papa teria inimigos em todo canto.

Mesmo com Ratzinger como Papa, pensava haver esperança de mudanças. Acreditava que ele poderia mudar, tantos haviam mudado. Povo e imprensa esperavam por isso. Mas a igreja nunca será a favor da eutanásia e do aborto, a igreja nunca será contrária à vida.

Acha que a motivação para a vida sacerdotal veio da casa dos pais sempre com padres da região lotando a casa. Padres de Orleans, Lauro Müller, Pedras Grandes e São Ludgero. Durante a infância pôde escutar muito dos padres, suas alegrias, tristezas, enfim… Depois, tinha dois tios padres, Padre Santos e Arcângelo. Na família Sprícigo são oito ou nove padres.

De 1963 a 1969 permanece em Tubarão e desta data até 1975 está em Viamão (RS), onde termina os estudos. Em Viamão fez Filosofia e na PUC de POA, Teologia.

Foi difícil no início, principalmente porque era um ano sem voltar para casa, sem falar com os pais. Depois de dois anos tudo ficou melhor. Dúvidas teve algumas, porque ser padre significa ter dúvidas ao trilhar o caminho. Mas isso é normal. Nunca pensou em desistir dos estudos.

É bem verdade que foi mandado embora várias vezes porque era meio moleque. Mas sempre voltava! Não há idade para a carreira religiosa. Ele mesmo foi com dez anos e tem um primo que se ordenou agora, com 36 anos.
Se não fosse padre, não sabe dizer o que seria. Está num patamar da carreira religiosa que pensar noutra atividade é difícil. Quando estudava em POA, julgou ter pendor para Psicologia, mas bispo Anselmo falou:
- Não, não. Vais ser padre, estás estudando para ser padre. 
Talvez hoje fosse diferente, quando se tem mais opções. A Igreja era mais fechada naquela época.

Considera que ser padre não é ser solitário. Ao contrário: os padres têm convivência muito forte com o povo e também com Deus. Desta maneira nunca estão sozinhos. João Paulo II pouco antes de morrer dizia: 
- Mesmo diante da minha fragilidade sei que não estou sozinho. É difícil um padre se sentir sozinho.

Pensa que política e religião dificilmente podem andar juntas. A Igreja tem o papel de orientar, conscientizar, alertar, convidar o povo a construir uma nação. Não pode assumir política partidária, mesmo sendo todo ser humano ente político. Muitas vezes a Igreja foi acusada de apoiar o PT, mas a Igreja jamais disse: Vamos votar no PT!

Com relação aos políticos revolucionários de 1970, até bem pouco no poder, teriam eles perdido o sonho? Teria a política deteriorado aquele sonho? 

Padre Daniel sonha com um Brasil completamente diferente. O revolucionário, o político verdadeiro, tem sonhos. Alguns ainda sonham, mas outros se deixaram levar pelo poder e perderam a dignidade, têm marcado desvio de conduta. Perdida a capacidade de sonhar, pensa que se deve pedir para morrer. E quanto ao lamaçal em que vivíamos, ainda não tem opinião formada. 

É flamenguista de raiz. Em casa são todos Flamengo. Nos momentos bons, que são raros ultimamente, e nos momentos atuais. Gosta de música. Do Dante Ramon Ledesma tem todos. Música gauchesca selecionada, pois claro. Gosta de MPB e de música erudita. 

É padre 24 horas por dia. Mesmo nos momentos de distração, gosta de pescar, sendo padre. Diariamente renova a missão de padre.

Sofreu com a morte de João Paulo II. Todos temos que partir e a hora de João Paulo II chegou; ele foi chamado, cumprira sua missão. Padre Daniel encara de outra forma a morte. As últimas palavras de João Paulo II têm relação com os esforços realizados pela equipe médica no sentido de prolongar-lhe a vida:
- Deixem-me partir...
Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 26/01/2019 - 06:00

UMA HISTÓRIA DE PEDRAS GRANDES

Irmoto recebeu recado de Ângelo Felippe, de quase 93 anos, morador de Pedras Grandes, sobre história relativa a atendimento do Dr. Otto. Irmoto vai até a cidadezinha e ouve do velho, mas lúcido cidadão e com memória invejável, que 81 anos antes, seu pai André Felippe, casado com Jacomina Tessa, pai de 11 filhos, sentira-se mal pedindo para chamarem o Dr. Otto em Tubarão a fim de atendê-lo.
Na época a família vivia em Riachinho, localidade situada a 8 km de Pedras Grandes, em direção a Azambuja.
Estradas ruins, apenas carroças e carros de boi transitavam por ali. Carro de praça, um dos primeiros de Tubarão, um Ford Modelo A de João Oscar Bento, conseguiu chegar a 3 km da casa onde um cavalo encilhado aguardava o Doutor para o restante do percurso, impossível de alcançar doutra forma. Montado, seguiu morro acima até alcançar a moradia.
O diagnóstico não oferecia dificuldades, tratava-se de um AVC, problema que, ontem como hoje, se reveste de tratamento difícil e prognóstico incerto. Otto explicou a gravidade do problema para os familiares e tratou de amenizar o problema para o paciente escolhendo com cuidado as palavras. Ângelo conta para Irmoto:
- Lembro das palavras do seu pai: “não se aflija, senhor Felippe”.
A presença do automóvel estacionado nas redondezas mais a presença do médico atraíram a atenção da população local.
Otto despediu-se de todos após prescrever os medicamentos e fez o caminho de retorno.
O paciente faleceu 7 meses depois, aos 56 anos.
Irmoto, ao final da visita, foi surpreendido por Ângelo que executou à gaita algumas músicas. Irmoto, que se identificou como oriundo e neto de Martinho Ghizzo, pediu que executasse Ciamo tutti arrivatto. Ângelo informa que seu avô materno, residente no Morro Santa Cruz em Treze de Maio, todas as segundas-feiras, montando sua mula, seguia em direção ao Morro Pelado na Serra do Doze. Isto porque ele era feitor da estrada e estava abrindo uma picada ligando Lauro Müller a Bom Jardim da Serra. Ele fora contratado pelo governador Vidal Ramos em 1910 para esta importante obra, ligação do planalto ao litoral.
O jornal o Albor da Laguna (15.9.1913), em notícia de primeira página, anunciou que a rodovia do Rio do Rastro apresentava bom estado de conservação e movimento inusitado. Em 11 de agosto teriam subido numa só ocasião 16 carros de boi, cada um carregando 300 quilos de carga, realizando-se a travessia da serra em 5 horas. Estava aberta a estrada, obra do feitor Martinho Ghizzo. A estrada, asfaltada, teve descerrada a fita de inauguração em outubro de 1986, 73 anos depois, por Irmoto Feuerschutte, neto do feitor Martinho Ghizzo, inauguração a quatro mãos, juntamente com o ex-governador Colombo Machado Salles, evento ocorrido em Lauro Müller.

BREVE NOTÍCIA SOBRE ORLEANS

Curato (1903), paróquia (21.7.1909). Terras de Orleans foram um dos dotes que princesa Isabel recebeu de D. Pedro II no casamento com Conde D’Eu. O nome da cidade constitui-se numa homenagem à família de Luiz Felipe Maria Fernando Gastão de Orleans, o Conde D’Eu, que visitou a vila em 1884, município em 30.8.1913. O primeiro templo católico (1886), construído pelo comendador Joaquim Caetano Pinto Jr., que residia em Paris, e dirigia a Cia. Colonizadora Grão Pará, de 1882, com sede em Grão Pará. Em 1884 foi transferida pelo Conde D’Eu para local à beira da ferrovia, recém-inaugurada, lugar que recebeu o nome de Orleans, homenagem à família imperial.
Nova igreja vem em 1892, cuja construção se deve à ajuda de Otília, filha do comendador e também residente em Paris. Santa Otília, padroeira de Orleans, tem esta escolha em homenagem a essa senhora. Até 1903, Orleans pertencia à paróquia de Tubarão. Em 21.7.1909 é erigida a Paróquia Santa Otília de Orleans, inicialmente como Curato e capelão-cura Padre Jacinto Bertero com a provisão de pároco. Em 1911 assume a paróquia o padre italiano Afonso Vergnano. Em 1923 vem o padre português Guilherme Farinha da Silva, em 1925 o padre alemão Ernesto Schultz e em 1931 o padre Pascoal Somadosy. 

PADRE SANTOS SPRÍCIGO E SUA MÃE

Ordenação do Padre Santos Sprícigo em Orleans, 21.12.1947. Em 9.8.1992, faleceu vítima de Câncer. Ele inaugurou em 21.12.1989 a Rádio FM Luz e Vida. A rádio Marconi, de Urussanga, é também obra do gênio de Monsenhor Agenor Neves Marques. Santos Sprícigo, além de ter construído a igreja matriz de Orleans, ao saber de sua morte próxima, construiu a própria sepultura, no interior da Igreja, local onde está sepultado. Em 1992, após falecimento do padre Santos Sprícigo, assume a paróquia o padre Valmor Della Giustina. Padre Lino Brunel foi pároco por 18 anos (1993-2011), sucedido por padre Elias Della Giustina (2012-2014). 
Domingo, dia 15.4.1923, dona Regina Cechetto Sprícigo nascida em 9.12.1890 aprestava-se para ir à missa na Igreja matriz de Orleans, valendo-se da ponte da estrada de ferro para a travessia de uma margem do rio Tubarão para a outra. Ainda não existiam pontes para facilitar esse procedimento. Algumas tábuas de madeira haviam sido colocadas entre os trilhos com esse objetivo. Ao retornar para casa, caminhando sobre o tabuado da ferrovia, uma das tábuas rompeu-se produzindo graves ferimentos em dona Regina, grávida pela oitava vez. Em 1923 ainda não havia hospital ou médico em Orleans. Pelo telégrafo da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina (EFDTC), Otto foi chamado e se deslocou de trole para Orleans, distante quase 60 km de Tubarão. Otto Feuerschutte atuava como médico das empresas EFDTC e das minas de carvão de Henrique Lage em Lauro Müller. Recomendou repouso no leito, mas, infelizmente, 4 dias depois, mãe e feto faleceram em 19.4.1923.
Dona Regina era mãe dos futuros Padres Santos e Arcângelo Sprícigo. Santos, último dos sete filhos, auxiliava o pai na distribuição do leite produzido no sítio familiar.
Dona Yvete Maria Santiago Silva, grande colaboradora na Paróquia e minha cliente, assim como o Padre Santos, confirmou esses fatos, relatados por Irmoto.
Segundo a obra biográfica, Dona Regina, em seu leito de morte, referindo-se ao filho Santos, teria dito:
- Este Santos eu entrego a Deus.
Declaração interpretada como desejo materno de que o filho seguisse uma (suspeitada) vocação religiosa. O menino, quando interrogado sobre seu futuro, expressava desejo de exercer o sacerdócio.    

PRIMEIRO HOSPITAL, PRIMEIROS MÉDICOS EM ORLEANS

Quinze anos depois, em 4.10.1938, foi entregue à população orleanense o prédio do Hospital Municipal Henrique Lage, construído pelo político e empresário do mesmo nome, residente no RJ, proprietário e explorador de empresas mineradoras de carvão em Lauro Müller. A obra foi tocada pelos engenheiros da empresa mineradora, Reinaldo Schmithausen, Walter Weterli, Márcio Machado Portela, Wilson Gonçalves e Nestor Gigueira. Os médicos José Lerner Rodrigues e Antonio Dib Mussi foram os primeiros no hospital. 
Inauguração efetiva foi em 15.1.1939. Neste dia, segundo relatos, ao visitar as obras da ponte sobre o Rio Tubarão, na chegada de Urussanga, o interventor Nereu Ramos soube do nome escolhido para o hospital. Não teria gostado e buscou conhecer o nome da santa padroeira do município. Discursou então: “Estamos aqui em Orleans para visitar as obras desta ponte e também inauguraremos o Hospital Municipal Santa Otília, cujo nome é dado em homenagem à Santa Padroeira desta paróquia”. O prefeito José Antunes Matos, mais que depressa determina aos fiscais da prefeitura Hugo Claumann e Gastão Cordini que, rapidamente, se dirigissem ao hospital retirando a placa com o nome Henrique Lage (Orleans 2.000 - História e Desenvolvimento. Jucely Lottin, pág. 167.1998).

A GRIPE ESPANHOLA

Final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) sofreu a Europa os efeitos de uma pandemia causada por vírus Influenza A, do subgrupo H1N1, de virulência incomum e altamente letal. O número de vítimas fatais alçava à casa de milhões. 
A doença teria iniciado em março de 1918 nos EUA. 80% das forças armadas americanas teriam sido atingidas pela moléstia.  Foram 120 mil os mortos em Portugal. 1/3 da população europeia atingida não sobreviveu.
Todavia, a gripe não começou na Espanha. A pandemia tomou essa denominação porque durante a guerra a terra de Cervantes se mantivera neutra, não censurando notícias. A imprensa espanhola divulgava “o terror causado pelos 8 milhões de infectados pela fiebre de los tres dias que atingiu até o rei Afonso 13”. Os exércitos das demais nações bloqueavam informações que fossem estrategicamente desfavoráveis e pudessem atingir o ânimo das tropas: “Daí a dedução equivocada de que a doença matava mais naquele país, consagrando o nome Gripe Espanhola”.
Mil soldados brasileiros a caminho das regiões do conflito, estacionados em Dakar, Senegal, foram atingidos pela doença. 
Em Tubarão, a doença chega em 1918, entre dez/1918 e mai/ 1919, lotando o hospital: 385 internações, 11 óbitos. Duas religiosas do Hospital, a 2 e 4.12.1918 perderam a vida.      

DA INTERNET

A doença foi observada pela primeira vez em Fort Riley, Kansas, EUA (4.3.1918), e em Queens, Nova Iorque, no mesmo ano. Kansas foi o primeiro Estado americano a proibir a venda da bebida alcoólica no país, 1880. Esta lei seria revogada somente em 1986, mais de cem anos depois. Os primeiros casos conhecidos da gripe na Europa ocorreram em abril/1918 com tropas francesas, britânicas e americanas, estacionadas nos portos de embarque na França durante a Primeira Guerra Mundial. Em maio, a doença atingiu a Grécia, Portugal e Espanha. Em junho, a Dinamarca e a Noruega. Em agosto, os Países Baixos e a Suécia. Todos os exércitos estacionados na Europa foram severamente afetados pela doença, calculando-se que 80% das mortes da armada dos EUA se deveram à gripe.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 19/01/2019 - 06:00

OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão
Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do CBO

“Ainsi, il me paraît, em ce moment, que la mémoire est une faculté merveilleuse et que le don de faire apparaître le passé est aussi étonnant est bien meilleur que le don de voir l’avenir”. Anatole France. 
(Assim, parece-me, neste momento, que a memória é uma faculdade maravilhosa e que o dom de revelar o passado é também surpreendente e muito melhor que o dom de ver o futuro).
Encontrar quem fale o brasileiro já é bem difícil. Encontrar quem fale o inglês é outra complicação. Já no que se refere ao idioma francês é praticamente impossível. Em minha época de aluno de ginásio e mesmo mais tarde, matriculado na universidade, a linguagem culta era a francesa. Nossos livros didáticos eram em espanhol ou francês. Toda a Fisiologia era do argentino Houssay e Anatomia Descritiva do francês Testut. 
E quem eram esses ilustres personagens?
Bernardo Alberto Houssay (Buenos Aires, 10.4.1887 e 21.9.1971), foi fisiologista argentino, agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina (1947), por pesquisas sobre hormônios da glândula hipófise. 
Jean Leo Testut (Saint-Avit-Sénieur, 1849 - Bordéus, 1925), é um dos mais reputados anatomistas do mundo. 
Estudou Medicina em Bordéus, estudo interrompido (Julho de 1870) pela Guerra Franco-Prussiana. Condecorado com a Legião de Honra por mérito militar, recusou-a, embora a tenha recebido depois, por mérito acadêmico. Terminada a guerra (1871), apenas em 1878 Jean Leo Testut regressa à Escola de Medicina de Bordéus, na qual conclui a tese de doutoramento, sobre a pele humana, tese que lhe granjeia grande reconhecimento no meio científico. Recebe medalha de prata da Faculdade de Medicina de Paris, medalha de ouro da Academia das Ciências Médicas de Bordéus e o prêmio Godard da Academia de Medicina Francesa.
Chefe dos Trabalhos Anatômicos da Faculdade de Medicina de Bordéus  (1878-1884), em 1881 é nomeado professor agregado da mesma faculdade. Em 1884 vai para a Universidade de Lille, que troca pela Universidade de Lyon (1886). Retira-se do ensino (1919, 60 anos), já reconhecido como notável investigador e professor. Mas, seu trabalho e investigação nas áreas da anatomia, antropologia e história não finda; continuou sempre ativo até a morte (1925). Existe museu de anatomia em sua homenagem (Lyon) e um colégio Léo Testut (Beumont).
O Traité d'anatomie humaine (4 volumes), ainda hoje considerado um dos mais completos e bem ilustrados tratados de anatomia é sua obra mestra. Continua a ser adotado em Faculdades de Medicina sendo um dos livros mais consultados por estudantes de medicina.

OTTO FEUERSCHUETTE ESTUDOU NO TESTUT, MAS NÃO NO HOUSSAY

“A banda musical Minerva tocando belo dobrado precedendo a comissão de recepção (...) doutor Cândido Leão, juiz de direito, major Accacio Moreira, capitão Alexandrino Barreto, João Nunes Teixeira, capitão Henrique Hulse e Hermínio Menezes, redator desse jornal” “gentis senhoritas de branco, cada uma conduzindo uma salva cheia de pétalas de flores naturais, em redor da senhorita Armely Menezes, portadora de lindo ramalhete preso por longa fita cor de rosa onde se lia: A MULHER TUBARONENSE AO DISTINTO DOUTOR FEUERSCHUETTE” “o entusiasmo era indescritível” “o doutor desceu do carro sob profusa chuva de pétalas de rosas que lhe eram jogadas por centenas de gracis senhoritas” “préstito desfilou pelas ruas Deodoro, Lauro Muller e São Manoel, vivando incessantemente o ilustre recém-chegado” “de todas as casas pendiam (...) belas bandeirinhas” “em frente ao Clube 7 de julho, Trajano Cardoso, conceituado farmacêutico, levantou arco de bambu em cujo centro se lia: SAUDAÇÃO DO POVO” “dois lindos arcos (...) trabalhados pelos Srs. Augusto Hulse, Sylvio Búrigo, Paulo Medeiros, Antônio Castro, Pedro Souza e Francisco Orige” “passando o doutor OTTO, a cesta abriu-se espargindo profusamente pétalas de rosa, soltando lindos pombinhos brancos”  “usou da palavra o Sr. Dr. FERREIRA LIMA (...) saudando seu ilustre colega” “à noite (...) queimando lindos fogos de bengala e precedida da simpática banda musical Lira Tubaronense dirigiu-se à residência do Dr. OTTO afim de lhe fazer entrega de dois lindos exemplares de polianteia (antologia), em fino cetim verde e outro em cetim cor de rosa”.
Na ocasião discursaram o advogado Alexandre Barreto e Miguel Faraco, este encarregado da agência telegráfica da cidade. Os exemplares foram conduzidos em (lindas) salvas de prata pelas gentis senhoritas Thamar Faraco e Adelaide Santiago. OTTO chegado em 1910 a Tubarão, então visita o hospital de caridade, fundado a 3.5.1906. Mantido e criado pela Sociedade Divina Providência o Hospital Nossa Senhora da Conceição, hospital geral  com 394 leitos, é o maior de SC em número de leitos.
Ainda em regozijo à chegada de OTTO, em frente ao Café Estrela do Sul foram realizados concorridos divertimentos. 

O INÍCIO

Mulher em trabalho de parto numa espécie de paiol atrás de residência, achava-se pendurada pela barriga, suspensa por uma cincha, faixa de couro usada para fixar as selas na barriga de animais de montaria. A pressão exercida pela cincha tinha como objetivo comprimir o feto para que a délivrance ocorresse. Infelizmente o feto não sobreviveu ao tratamento absurdo e OTTO pode salvar a mãe, o que não era pouca coisa, considerando-se as circunstâncias.
Em abril de 1910 a primeira cirurgia, uma amputação do braço esquerdo de Ernesto Benatti que ficou 3 dias e 4 noites com o braço esmagado por uma tora no meio de mato cerrado, vendo formigas gigantes, as tapiocas, devorarem seu braço gangrenado. OTTO salvou o homem após 3 meses de tratamento hospitalar.
Atendimentos em lugares distantes eram frequentes. O jornal A Folha do Sul (Tubarão, 11.4.1915 e 5.12.1915) relata dois atendimentos em São Joaquim. Não era pouca coisa levando-se em conta que logo ali, em Lages, César Sartori exercia com grande competência sua honrada Medicina. 
Também no Vale do Braço do Norte, viajando de trole ou a cavalo. Mario Belolli, historiador criciumense, escreve em A História do Carvão de Santa Catarina que em 1920 a CBCA de Henrique Laje, com a participação de OTTO criou a primeira providência assistencial.  A IMPRENSA, de Orleans (1º.8.1920) registra que mineiros e trabalhadores são informados da nomeação do médico. Todas as sextas-feiras OTTO atendia mineiros e suas famílias. Nas ausências era substituído por AURÉLIO RÓTULO, médico da Laguna. OTTO teria também atendido em Morretes (Maracajá), anotação no livro de Jairo Arno Matos de março de 1910.

CÉSAR AVILA

Ao lado do Professor Mário Braga de Abreu, os dois maiores cirurgiões que já vi operar. O primeiro em Curitiba (meu professor de Clínica Cirúrgica) e o segundo, cirurgião em Lages. César Ávila nasceu pelas mãos de César Sartori, de quem ganhou o nome. O lageano descreveu seu xará e parteiro como “magro, já um pouco curvado, alto, nariz adunco, surgindo em Lages com a roupa que trouxera da Itália, os mesmos sapatos pesados europeus, vindo de Urussanga a cavalo, onde foi o primeiro médico”. Cesar Sartori nasceu em Vicenza na Itália e veio a falecer em Lages (1945). Toda sua bagagem coubera em dois cargueiros com bruacas. Poucas roupas, muitos livros e ferros de cirurgia. Tratados de cirurgia e anatomia livros de filosofia, política, literatura e poesia. Ali estavam entre outros, Malatesta (o anarquista), Schopenhauer (o pessimista), ao lado de Voltaire e de Dante. Era 1905. Já entrara nos 40 anos.  
César Ávila conta de seu nascimento, partejado por Sartori: 
Otto Feuerschuette nasceu a 09.04.1881, teria 24 anos na chegada de Sartori em Lages e Cesar Ávila, um ano de idade, “nasci um prematuro de menos de dois quilos.
- Vai morrer. Batizem! Procurem uma caixa de sapatos para o enterrar -, sentenciou Cesar Sartori. 
Foi um corre-corre. Veio o padre. Batizou-me e o médico foi o padrinho. Anticlerical ferrenho, botou todo o veneno de sua descrença nesta cerimônia.
- Ponham meu nome porque vai morrer. Chamem-no de César. Meu nome e do imperador romano:
- E como é muito pequeno incrivelmente pequeno, batizem-no de César Augusto, César, o grande!
Havia o problema da alimentação.
- O que vamos dar pro menino?
E Dr. César, pensando um pouco:
- Agora, uma colher de vinho do Porto. Como vai morrer, aproveitará pelo menos uma das coisas boas da vida. Depois ... não precisará de mais nada...
Foi minha primeira experiência de como é falho o prognóstico. Não morri. Meus pais adotivos tiveram um trabalho enorme para conseguir ama de leite. Mamei numa Índia depois de ter mamado numa cabra. Herdei de ambas a tendência nômade que me fez nunca parar num mesmo lugar.” 
O anarquista Cesar Sartori nasceu a 15.2.1867 em Vicenza (Vêneto, Itália). Em 1891, estudante universitário, militava no Partido Revolucionário Anarquista-Socialista, organização que pretendia unir todas as forças libertárias num único movimento insurrecional. Em 1893 gradua-se em Medicina pela Universidade de Pádua. A militância no movimento libertário vai implicar em perseguições e prisões. Seguidor de Enrico Malatesta e de Andrea Costa, era apaixonado pela filosofia (Schopenhauer), literatura (Voltaire) e poesia (Dante). Em 1902, buscando trabalho, saúde e liberdade, emigra para o Brasil, instalando-se primeiramente em Urussanga S/C.  Parece que a doença que tinha era tuberculose e o clima de Urussanga não lhe era favorável, estabelecendo-se definitivamente (1903) na altitude de Lages, onde monta clínica (Casa de Saúde). A 1º.5.1908, 100 anos atrás, graças à sua intervenção, Lages celebra pela vez primeira o 1º de maio. 

Todos os domingos, enquanto muitos se ocupavam da missa, reunia-se com intelectuais. Colaborava com a imprensa italiana de esquerda, socialista e sindicalista revolucionária que editava no Brasil (Avanti!, Tribuna Italiana e La Scure). Criticava duramente a imprensa servil ao poder e à Igreja Católica, tanto italiana como brasileira. Redigia artigos antimilitaristas. A propósito, Scure significa Machado. Em 1930 filia-se ao Partido Socialista Unitário dos Trabalhadores Italianos (PSULI) e em 1933 ao Partido Socialista Italiano (PSI), sempre no setor anarquista daquelas agrupações políticas. Íntimo amigo do anarquista Nulo Beccari, entre os anos trinta e quarenta realiza diversos estudos antropológicos sobre os costumes morais dos índios do Mato Grosso (boróros, terenos e caigangues) e do RS (coroados). Publica-os em diversas revistas (A Voz de Chapecó e O Clarim), chegando à conclusão que a moralidade dos indígenas, era superior à dos brancos e que a criminalidade entre eles era inferior à dos civilizados. Reivindica para eles assistência médica permanente, com a finalidade de combater doenças endêmicas e epidemias. 
Muito daquela documentação antropológica e sanitária dos pobres indígenas, ficou inédita. Sartori exerceu a Medicina totalmente de forma altruística (negros, indígenas e pobres) de Lages/SC. Já idoso atendeu uma cliente miserável em noite fria e vai morrer da pneumonia que contraiu, em 12.7.1945. Seu enterro foi manifestação de todas as classes sociais, especialmente das mais modestas; seu caixão, por expressa designação sua, vai ser carregado por membros da comunidade negra e dos pobres da cidade. Em Lages há uma rua que leva seu nome e ganhou busto na praça João Ribeiro.
A chegada de César Sartori a Lages (1903) e a chegada de Otto Feuerschuette a Tubarão (1910), têm datas próximas. Paulo Carneiro vai chegar na Laguna em 1930. CÉSAR Augusto da Costa ÁVILA, nascido a 26.7.1906, em Lages/SC, contava 4 anos. Faleceria em 19.2.1974 em POA/RS. Formado em Medicina no RJ em 1930, foi colega de Paulo Carneiro, trabalhou em Lages, Florianópolis, Nova Veneza, Antonio Prado, POA. Nesta última cidade radicou-se, foi professor concursado da Cadeira de Ortopedia na UFRGS. Fundou a Casa de Saúde Independência. Cirurgião de renome nacional e internacional, dedicou-se também à pintura e â literatura escreveu contos e uma autobiografia (REVELAÇÕES DE UM MÉDICO).

RISCO CIRÚRGICO 

Todos eles eram cirurgiões: Sartori, Feuerschuette, Paulo Carneiro, César Ávila. Naquela época, do Caburaí ao Chuí, não havia como estabelecer - nem remotamente - os riscos do ato cirúrgico, algo tão presente em nossas preocupações quando decidem operar-nos.
Como? Não sabia que o Oiapoque não é mais o extremo norte brasileiro? Pois não é mais mesmo. O monte Caburaí, 1 465 metros de altitude, na serra do Caburaí, na borda de imenso planalto, delimita nossa fronteira norte com a Guiana, no município roraimense de Uiramutã.
Já se considerou como nosso extremo norte, o cabo Orange, rio Oiapoque, estado do Amapá.  O cabo Orange, situa-se 84,5km mais ao sul que o monte Caburaí. Em 1931, a serra do Caburaí apareceria como ponto extremo do norte brasileiro nas anotações do capitão de mar e guerra Brás de Aguiar, chefe da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites. Aguiar concluiu que o ponto extremo norte do Brasil era a serra do Caburaí em detrimento do monte Roraima, no mesmo estado. 

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 12/01/2019 - 06:00

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão
Henrique Packter, Oftalmologista
CREMESC 383 RQE 505  Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia

A FORMAÇÃO DE OTTO

Concluídos os estudos iniciais em Tubarão (1892), OTTO e o pai viajam para a Alemanha. Tinha 11 anos, lá ficando por 5 anos na casa dos avós paternos. O pai retorna ao Brasil em 24.3.1892, e à Alemanha em 1897 para trazer o filho. Deixam Hamburgo em 30.9.1897, contando OTTO 16 anos. Vai estudar em Pelotas, RS (1898 e 1899). Na época tinha interesse em cursar Farmácia e, pela sua má adaptação ao clima de Pelotas, transfere-se para POA. Recomendado por José Montaury, prefeito da capital gaúcha (1897-1924), procura o farmacêutico Dupasquié, sócio de Cristiano Fisher, um dos fundadores da Faculdade de Medicina de POA, em funcionamento desde 15.3.1899 (120 anos), a terceira mais antiga Faculdade de Medicina do país, atrás de Salvador na Bahia e RJ. 
Fisher envia o jovem OTTO ao Colégio Nossa Sra. da Conceição, São Leopoldo, para cursar os 3 anos de ginásio a partir de 1900. Conclui o curso (1903) e em 1904 ingressa na Faculdade de Medicina de POA. 
José Montaury de Aguiar Leitão (RJ, 1858/POA, 1939), engº e político, primeiro intendente (prefeito) de POA eleito pelo voto direto (na época, voto não era secreto e mulheres não votavam). Eleição (28.9.1896), do total de 6.073 eleitores, 2.400 compareceram às 31 seções de votação. Do total, apenas sete votos foram computados contra Montaury, candidato do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR).
Homem de confiança de Júlio de Castilhos, chefe supremo do partido, Montaury concorreu como candidato único e reelegeu-se ainda outras seis vezes; apenas em duas eleições enfrentou opositores. Governou POA por 27 anos. Ao assumir o cargo (1897), POA tinha 64 mil habitantes; deixando suas funções, em 1924, a cidade contava 160 mil habitantes. 
José Montaury implantou serviço de primeiros-socorros no primeiro mandato. POA foi a primeira cidade do Brasil a implantar o serviço. Primeira rede de esgotos de POA também foi construída em seu governo (como resultado, a mortalidade infantil caiu de 32,2% para 17,9%).  
Encomendou em 1910 projeto para a cidade ao arquiteto João Moreira Maciel. Plano Maciel (1914) buscava abrir avenidas largas, principalmente no centro da cidade, atendendo exigências da higiene e estética.
Em 1923, por alteração na Lei Orgânica de POA, reeleição é proibida. Em 1924, José Montaury deixa a prefeitura, substituído por Otávio Rocha, também do PRR. José Montaury nunca se casou e morreu pobre em 1939.

A FACULDADE DE PORTO ALEGRE NA ÉPOCA. OS CASAMENTOS DE OTTO

Em 1901, 1902 e 1903, OTTO foi sempre o melhor aluno da turma, conquistando o prêmio de Excellencia e respectiva Condecoração. A Faculdade de Medicina de POA é de 15.3.1899. Concluído o ginásio em 1903, em 1904 ingressa na Medicina de POA, curso criado fazia 6 anos. Aconselhado por familiares, transfere-se para o RJ, onde cursa o segundo ano médico (1905). Em 1909 ainda estudante casa-se com Carlota Rosa. Forma-se na Faculdade Nacional de Medicina em 1910.
O primeiro filho, RUY CEZAR, nasce em 22.2.1912 ainda no RJ. CARLOTA faleceu em 28.1.1929, deixando duas filhas, Alsa e Olsa com menos de 5 anos. Ainda em 1929, OTTO casa-se com IDA WENDHAUSEN ÁVILA, mãe de três filhas. Dez anos depois, 1939, IDA vem a falecer.
Já em 15.2.1940, OTTO casa-se com IRMA GHIZZO, convertendo-se ao catolicismo na mesma ocasião. IRMA (que lhe deu os filhos IRMOTO e OTIRMA) era filha de MARTINHO GHIZZO, amigo e aliado político.
Em 11.8.1949 (ano da formatura em Medicina do filho LEO), OTTO enviúva pela terceira vez. IRMOTO tinha 8 anos e OTIRMA, seis. OTTO casa-se pela quarta e última vez (no religioso), aos 68 anos com VERÔNICA KUHNEN. São onze os filhos: RUY CEZAR, ELSA, ELSI, ILSA, HENRIQUE OTTO (QUICO), TÚLIO (96 anos em 2014, bancário, casado com a irmã de ADHEMAR PALADINI GHISI, pai de OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, brilhante oftalmologista em Tubarão e autor do primeiro transplante de córnea naquela cidade), LEO MAX (consagrado cirurgião tubaronense, pai e avô de médicos e odontólogo), IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE (médico formado na Faculdade de Medicina da UFPR em 1966, conhecido político em Tubarão e professor universitário no Curso de Medicina na UNISUL). 
PAULO CARNEIRO DA LAGUNA, TAMBÉM DA FACULDADE NACIONAL DE MEDICINA 
PAULO CARNEIRO, nascido em 1907, Ubá, MG, veio a Laguna exercer sua profissão, onde foi prefeito três vezes. De família pobre (15 irmãos), uma tia abastada, impressionada pela capacidade intelectual do menino, investiu em sua educação. PAULO treinava a memória frequentando o Jardim Botânico no RJ semanalmente, memorizando os nomes científicos das plantas. Retornava uma semana depois para conferir os acertos do que sua memória gravara. 
Graduou-se em 1930 sendo trazido a Laguna em 1931 pelo futuro sogro e provedor do Hospital São Camilo, Luiz Martins da Fonseca. O Hospital era e ainda é da Ordem da Divina Providência. Casa-se com Ludmira, esposa e companheira por toda a vida. Tiveram três filhos, SÉRGIO neurocirurgião no RJ, RUTE casada com Rudi Bauer e LUÍS PAULO cartorário na Laguna. Fundou o Clube Blondin. Trabalhou até os 75 anos quando a artrose determinou o encerramento de sua carreira médica. 

CHEGADA TRIUNFAL DE OTTO FEUERSCHUETTE NA LAGUNA

Chega a Laguna, vindo do Rio no vapor MAX a 28.1.1910. Tem recepção apoteótica noticiada pelo Jornal O ALBOR, dois dias depois. Registra que Otto é o segundo filho de Tubarão a formar-se em Medicina, mas o primeiro a regressar. Às 13h30min séquito de autoridades da Laguna e Tubarão levam o jovem médico de trem à sua cidade onde chega às 15h do dia 28.1.1910. Multidão de pessoas, foguetes e foguetões, dobrados da banda Minerva, mais Lira Tubaronense, comissão de recepção (juiz de Direito, militares), préstito evoluindo pelas ruas centrais, chuvas de pétalas de rosas, vários discursos depois, chega à casa paterna onde é saudado pelo colega, Dr. Ferreira Lima.
VINTE E UM ANO DEPOIS CHEGA PAULO CARNEIRO  
Jayme Mason, autor de Vivências e Recordações, lembra que PAULO CARNEIRO radicou-se na Laguna lá por 1931 quando contava 24 anos de idade. Vivo fosse, contaria 112 anos (2019). Tendo OTTO FEUERSCHUETTE chegado em 1910 há uma diferença de 21 anos entre o início do trabalho de ambos. Na época, Laguna estaria sem médico. É até possível, mas sabe-se que em 1930 Aurélio Rótolo pedira demissão do hospital, sendo substituído por Osvaldo Espíndola. 
PAULO CARNEIRO era perfeccionista, poliglota, tinha notável biblioteca de livros técnicos e de clássicos da literatura. 

A CHEGADA DE OTTO

Do jornal O ALBOR, 30.1.1910 “anteontem a bordo do Max chegou do RJ, o Dr. OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE que acaba de concluir o curso acadêmico”, “um fato memorável (...) pois até bem pouco tempo os catarinenses, em número limitado, se dedicavam às carreiras médicas e jurídicas, preferindo a marinha e o exército”, “OTTO é o segundo filho de Tubarão que alcança o diploma de doutor em Medicina, mas é o primeiro que regressa à terra natal”, “justas e merecidas são as homenagens, as inúmeras provas de simpatia que nesta cidade lhe foram deferidas e as imponentes festas que em sua honra (...)”, “não podia ter sido mais gentil e carinhosa a maneira porque a Laguna acolheu em seu regaço o distinto tubaronense: a recepção que teve foi uma modesta, mas sincera demonstração de (...)”, “de bordo do Max (...) seguiu para o Hotel Monte Claro na Rua Santo Antônio, próximo da Igreja Matriz”, “reunidos todos no salão principal em nome da Laguna apresentou-lhe as boas vindas (...) Antônio de Guimarães Cabral (...) respondeu o Dr. OTTO à saudação (...) manifestando sua imperecível gratidão à Laguna (...) terminou sua singela mas emocionante oração brindando a heroica cidade de Laguna (...) A 1h30 da tarde num carro especial seguiu (...) para sua terra natal (...)”.  Segue-se uma lista das 41 pessoas que receberam o novo médico. Da lista fazem parte 2 coronéis, 1 tenente coronel, 3 majores, 1 padre, 1 doutor. Nenhuma mulher na relação de nomes!
À época, mulheres viviam para o lar, não comandavam negócios nem tinham o peso social que só vão começar a adquirir em meados do século 20. O voto feminino no Brasil vai ser assegurado em 24.2.1932, quando as mulheres adquirem o direito de votar e serem votadas. E mesmo assim parcialmente. Somente mulheres casadas, aquelas com autorização dos maridos, as viúvas, e as solteiras que tivessem renda própria. Isso também valia para outras contingências, como obter carteira de motorista. Na Laguna, pioneira a aventurar-se sobre quatro rodas foi Cora Magalhães Rocha, nascida lagunense em 1907.
Casada em 1925 com Pedro Rocha (carteira n° 8), comerciante na Laguna, Cora fez os exames de direção, foi aprovada pelo perito examinador José Bergler. Recebeu a Carteira de Habilitação de nº 103, em 16.09.1937, aos 30 anos de idade, documento assinado pelo prefeito Giocondo Tasso. Até 1956, último ano dos Registros, Cora Magalhães Rocha foi a única mulher autorizada a dirigir automóvel na Laguna. Era uma mulher decidida, de opinião, além de bonita, e que pelo seu pioneirismo, certamente enfrentou mitos e preconceitos. 

As estradas praticamente não existiam, poucos eram os motoristas. Cabia à prefeitura organizar e realizar os exames de direção, contratando os examinadores e expedindo a Carteira de Habilitação. Na Laguna, o primeiro a se registrar, em 25.5.1933, foi Oscar Bergler, 28 anos, Carteira nº 1, sendo seu exame de habilitação prestado em Tubarão alguns anos antes, em 1923. Foram testemunhas do registro (em 1933) Paulo Carneiro e Mário Bianchini. Assinam também o documento o secretário da prefeitura José (Zeca) Freitas e o então prefeito-provisório Giocondo Tasso.
O primeiro motorista de automóvel/caminhão na Laguna foi Willy Strak, mas sua carteira foi registrada em Brusque. Em 13.1.1915, conforme registro do Jornal O Albor, chegava a Laguna, no convés do vapor Anna, o primeiro automóvel da Laguna, para Júlio Bergler. Portanto, quando OTTO chegou, não havia automóvel nas ruas da Laguna. Como o proprietário do primeiro automóvel não dirigia, quem tomou a boleia do veículo foi Willy Strak, também motorista do primeiro caminhão pertencente a Jacinto Tasso. Outros motoristas: Dr. Paulo Carneiro, Carteira nº 3; Mário Bianchini, nº 4; Pedro Rocha, nº 8; Dr. Aurélio Rótulo, nº 13; Humberto Zanela, nº 17; Francisco Fernandes Pinho, nº 19; Mário Remor, nº 30.
OUTRA VISÃO

Já o jornal O ESTOQUE (Tubarão, 12.2.1910), em extensa matéria diz resumidamente, no jargão jornalístico próprio da época, “saberá guiar-se no caminho de seu apostolado sem outra preocupação senão disseminando o bem sem visar recompensas, espalhando o benefício sem outro intuito  senão cumprir os ditames de sua consciência pura e os impulsos de seu magnânimo coração” (...) “extraordinária festa promovida em regozijo à formatura do digno doutor” (...) “jamais este povo assistiu a recepção tão concorrida e entusiástica” (...) “mais de 2 mil pessoas acotovelavam-se nos estreitos âmbitos da gare” (...) “uma comissão composta dos senhores coronel Frederico Noronha, major Venâncio Silva e tenente José Esmeraldino foi esperar o Dr. OTTO em Laguna onde foi carinhosamente recebido pela elite lagunense. Em carro especial (...) foi conduzido a esta cidade, aqui chegando às 3h da tarde do dia 28”.

Considerando-se notícia do ALBOR de que partiu da Laguna às 13h30min e que chegou a Tubarão às 15h, a viagem levou uma hora e meia por ferrovia.
Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE
 

Por Dr. Henrique Packter 05/01/2019 - 06:00Atualizado em 09/01/2019 - 21:32

PIONEIROS MÉDICOS
OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão

Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia

Foi na virada do século, pelo enriquecimento natural da população, que Laguna testemunhou o desenvolvimento urbano e intelectual mais significativo de sua história. São dessa época o teatro Sete de Setembro (1858), a tipografia do primeiro jornal (1878), o hospital (1879), o primeiro hotel na Rua da Praia, o Cine Central, a iluminação pública a petróleo (1891) e o antigo Mercado Público (1893). Este último, incendiado na primeira metade do século 20. Em 1903 Laguna teria 19 mil almas.
6.1.1880 Criciúma é colonizada, sendo distrito de Araranguá em 1892 e município em 1925.

Na Laguna, entre 1914 e 1915, vem o Jardim Calheiros da Graça com chafariz, palmeiras e iluminação, inaugurado em 25.4.1915. A Biblioteca Pública e o prédio do Banco Nacional do Comércio são de 1925. Entre os anos de 1930 a 1950 surgem o primeiro automóvel, o ônibus urbano e ruas calçadas.

Entre 1930 e 1940 surgem as sedes do Clube Blondin (hoje Casa do Patrimônio do Iphan, criado por PAULO CARNEIRO) e a nova sede do Clube do Congresso Lagunense. Mais tarde, a Rua da Praia (atual Gustavo Richard) perde o movimento de embarque e desembarque com a transferência do porto para o bairro Mar Grosso.  A estação de trem foi para o final do Campo de Fora.

Após a 2ª Guerra Mundial com a organização do porto de Imbituba, melhor localizado para receber navios maiores e de maior cabotagem, Laguna perde competitividade. A crise não alcançou proporções maiores porque Imbituba ainda não possuía concentração de serviços comerciais, financeiros e públicos.

No final da década de 50, Laguna decaiu economicamente pela diminuição da atividade portuária, pelo enfraquecimento do polo comercial, e fracasso na tentativa de industrialização. Na década de 60, a construção civil praticamente parou; a abertura da BR-101 e o tráfego pela ponte rodoviária da Cabeçuda deslocam o polo econômico da região sul de Laguna para Tubarão.

Na Laguna permanecem apenas produtos pesqueiros e pequenas indústrias (confecções e processamento da fécula de mandioca e arroz).

Na década de 70, a abertura da BR-101 trouxe a possibilidade de uma nova atividade econômica, a exploração turística do Balneário do Mar Grosso, bairro oposto ao Centro Histórico. Porém, recursos eram minguados e ainda menor o interesse político e capacitação dos profissionais em turismo.

Por isso tudo, desde meus tempos na FUNDAÇÃO CULTURAL DE CRICIÚMA, causa-me arrepios a simples menção de construir uma interpraias vindo do RS, continuação da Estrada do Mar deles lá, unindo Torres a Balneário Gaivota, Arroio Silva, Morro dos Conventos, Rincão, Jaguaruna etc.

O turista já distante de Criciúma pelo traçado da BR-101 ficará mais longe ainda e o comércio e indústria da orla, é claro, agradecem. Iniciativas como a Via Expressa encurtando distâncias entre BR-101 e Criciúma merecem nosso aplauso porque facilitam a construção de pacotes turísticos incrementando o acesso de viajores que poderão com mais facilidade conhecer nossa culinária, indústria, empresas, vinhedos e vinhos, cervejarias artesanais. Já pensou? Acho que nosso atual prefeito é sensível a temas que conduzam nossa terra a investir seriamente no turismo como saída maior para os problemas econômicos que enfrentamos. A ideia da construção do Mirante é um bom começo.  

O LIVRO DE IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE

Ele vem na esteira de dois anos de pesquisas e coletas de informações em livros, cartas e recortes de jornais. Lançado pela Editora UNISUL, traz a história da família desde a Prússia e fatos sobre a vinda para o Brasil, em 1870. Claro, além das informações sobre a trajetória de Otto como estudante, médico, político (prefeito por três mandatos em Tubarão e deputado constituinte), fazendeiro e cidadão. Graduou-se médico em 1910 no RJ.

Atuando em Tubarão, Otto viajava pela região a cavalo, canoa e trem para tratar enfermos que guardavam leito. No livro estão reunidos depoimentos de pessoas cujos familiares foram tratados pelo médico.

João Ghizzo Filho, coordenador do curso de Medicina da Unisul, autor da apresentação do livro, considera Otto e o filho Irmoto referências para a medicina catarinense.

AS ORIGENS

Com a abertura do caminho entre Lages e Tubarão (1773), iniciou-se o povoamento da cidade. Rio Tubarão era parte da rota Lages/Laguna, tendo como ponto de parada os portos do Poço Fundo e Poço Grande, ambos na região da atual Tubarão. Em agosto de 1774, duas sesmarias, com área de uma légua quadrada cada uma, situadas no atual perímetro urbano, foram doadas ao capitão João da Costa Moreira e ao sargento-mor Jacinto Jaques Nicós, marcando o início efetivo do povoamento.

Em 1833 já existia o distrito de Poço Grande do Rio Tubarão e em 7.5.1836 foi criada a paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Tubarão. Desmembrou-se de Laguna em 27.5.1870. A imigração europeia, a implantação da Estrada de Ferro Dona Thereza Christina (EFDTC) e a criação da comarca de Tubarão 19.4.1875 foram responsáveis diretos pelo desenvolvimento econômico do município. A família FEUERSCHUETTE, que chegou a Tubarão em doses homeopáticas, vê FREDERICO HENRIQUE, pai de OTTO, chegar ao Brasil em 1878. Foi o último a chegar. 

Guerra Franco-Prussiana (ou Franco-Germânica, 19.7.1870/10.5.1871) é conflito ocorrido entre Império Francês e o Reino da Prússia, final do séc. 19, após a Guerra dos Ducados do Elba (1864) contra a Dinamarca e a Guerra Austro-Prussiana (1866). A Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte (Grão-Ducado de Baden, do Reino de Württemberg e do Reino da Baviera). A vitória germânica marcou o último capítulo da unificação alemã, comandada pela Alemanha. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico francês, o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa.

Como resultado da guerra, ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia até o fim da Primeira Guerra Mundial. A Prússia saia de uma guerra para entrar em outra. Este belicismo afastava os pacifistas alemães que partem em busca de novos ares.

A 3 ou 4.12.1869, aportou em Colônia Francisca (São Francisco do Sul e Joinville de hoje) HENRIQUE CHRISTIANO FEUERSCHUETTE, 24 anos, vindo de Hamburgo, Alemanha, primeiro da família a chegar ao Brasil. Era um profissional do fabrico de calçados, sendo conhecido como doutor ou alemão das botas. Viveu bom tempo em Pelotas, RS.
22 anos antes (1847), por Decreto Imperial, LAGUNA fora elevada à categoria de cidade.

Com tropeiros parte rumo ao norte pelo litoral até alcançar Garopaba. Chega a Tubarão em 12.12.1870, dia do aniversário de D. Pedro II. Tubarão contava 22 casas, se tanto. Uma só Pousada, de DONA FLOR MADEIRA, situada na Rua Coronel Collaço onde está a Agência do Banco do Brasil.

O transporte de produtos e de passageiros fazia-se pelas lagoas e rios e mais tarde pela estrada de ferro Dona Tereza Cristina (construção iniciada em 1880 e aberta ao tráfego em 1884). Com o desenvolvimento das colônias Azambuja, Urussanga, Grão-Pará, Princesa Isabel e Braço do Norte, a produção dos colonos vinha pelo trem, escoada através do porto de Laguna.

Este fato, juntamente com a exploração do carvão, fez com que, na segunda metade do século 19, Laguna assumisse a 4ª posição no estado quanto à movimentação portuária. Este período constituiu a época áurea de Laguna.

A VENDA DE CALÇADOS FEZ A FORTUNA DE MUITO CATARINENSE

O chefe político local, coronel Luiz Martins Collaço, compadre de dona Flor, teve as botas consertadas pelo Alemão. O couro veio da Laguna. Sua fama como sapateiro e fabricante de calçados se espalha e ele não dá mais conta da demanda: da Alemanha chegam o irmão (Frederico Christiano, 18 anos feitos a bordo, aportando na Laguna a 28.10.1871), irmã (Johanne, 23 anos, solteira), pai (Andreas, viúvo, 54 anos) e um primo. Chegam a São Francisco do Sul em 31.12.1872. Andreas retornou depois à Alemanha, lá falecendo em 1888.
Em 27.3.1881, os primos Frederico Henrique e Johanne casam-se e a 9.4.1881 (13 dias depois), nasce OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE em Tubarão, onde hoje está o Hotel Acomodare. ELSA, irmã de OTTO nascida em 1887, faleceu tragicamente em 1927.

Os dois tios, HENRIQUE e CHRISTIANO, e a irmã ELSA não deixaram descendentes. Nesta condição, OTTO herdou todo o patrimônio familiar no qual avultava a fazenda CAMPESTRE.

A FAMÍLIA
Dos 11 filhos de OTTO vários dedicaram-se às Ciências da Saúde.
ILSA ROSA casou-se com Benoni Laurindo Ribas (1936, FMUFPR), que clinicou em Braço do Norte (1937 a 1940); foi Secretário Estadual da Saúde (1944 e 1951).
HENRIQUE OTTO FEUERSCHUETTE (Quico) administrou a Fazenda Campestre. Seu filho Henrique José formou-se em Medicina pela FMUFPR (1968). Ortopedista, clinicou em Cascavel e Paranaguá. Faleceu em acidente automobilístico em Laranjeiras do Sul quando exercia o cargo de Secretário da Saúde do oeste do Paraná.
TÚLIO FREDERICO FEUERSCHUETTE, bancário, é pai de OTTO FREDERICO, formado em Medicina pela UFSC (4.7.1986), especializando-se em Oftalmologia no Hospital de Clínicas da URGS. Autor do primeiro transplante de córnea em Tubarão.
LEO MAX FEUERSCHUETTE, médico formado pela FMUFPR (1949). Foi colega de Pretextato Aryon Taborda Ribas, Alfredo Jorge Tramujas (ambos, depois professores na Medicina), Carlos Eloy Reichmann (meu chefe no SAMDU em Curitiba), Eros Clovis Merlin (anestesista em Floripa). LEO especializou-se em Cirurgia no RJ (1950) e Ginecologia e Obstetrícia e Urologia no Hospital Alvear (Buenos Aires, 1953 e 1954). LEO é pai de Frederico May (odontólogo) e Otto Henrique May, formado na UFSC (1992), especializado em Obstetrícia e Ginecologia (1993 e 1994, Carmela Dutra, Flloripa). A esposa Geraldine Garcia Miranda, especializada também em Obstetrícia e Ginecologia, é médica formada na UFSC (1995). O filho de ambos (não poderia ser diferente) formou-se em Medicina na UNISUL, Tubarão (2014).
OLSA ROSA FEUERSCHUETTE, formada em 1951 pela Escola de Enfermagem Ana Nery, RJ. A filha Flavia Feuerschuette Costa Britto é formada em Enfermagem na Universidade Gama Filho, RJ, 1986. 
E, last but not least, IRMOTO JOSÉ FEUERSCHUETTE é formado em 1966 na FMUFPR.
RESUMIDAMENTE, OTTO teve 11 filhos, dos quais ILSA casou com médico; Henrique José, filho de Henrique Otto, é médico; Túlio (o mais longevo dos filhos) é pai do Oftalmologista tubaronense o Ottinho; LEO teve um filho médico, casado com médica, ambos têm um filho médico. Irmoto é médico e OLSA ROSA e a filha FLÁVIA fizeram enfermagem.
O menino OTTO não tem onde estudar em Tubarão, por isso estuda com o botânico Frederico Uhle numa pequena serraria que produzia caixinhas para os charutos Danemann em São Félix, Bahia. Em 1892, 11 anos de idade, viaja para a Alemanha com o pai onde permanece por cinco anos residindo com os avós paternos. O pai volta ao Brasil ainda em 1892. Otto retorna ao Brasil em 1897 em companhia do pai. Tinha 16 anos e vai a Pelotas, RS, em 1898, lá permanecendo até 1899.

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 29/12/2018 - 06:00Atualizado em 30/12/2018 - 22:26

OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE, segundo médico em Tubarão
Henrique Packter, Oftalmologista
Cremesc 383  RQE 505 Titular Honorário do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
BOM 2019, GENTE BRASILEIRA! 
Em 2014, Irmoto José Feuerschuette, médico, político, empresário, escritor, professor universitário em Tubarão, décimo filho de OTTO FEUERSCHUETTE (o segundo médico em Tubarão), lançou um livro sobre a vida de seu pai: DR. OTTO, O SACERDOTE DA MEDICINA. Irmoto foi o primeiro professor de Anatomia da Fundação Educacional Unisul de SC do curso de Enfermagem (1975). Secretário Estadual da Saúde de SC 1985/86, governo de Espiridião Amin, foi prefeito de Tubarão em 1972 e 1992, vice-prefeito em 1988. Presidente da Indústria Carboquímica, Imbituba, 1983/85. De 1999 a 2002 Presidente da Zona de Processamento de Exportação, Imbituba. É professor de Ginecologia e Obstetrícia no Curso de Medicina da Unisul, Tubarão. 
Graduado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná em 1966, mesma faculdade em que me formei em 1959, Irmoto conta no livro que escreveu sobre o pai “...na minha formatura sentou-se nas escadarias do cinema em Curitiba, local da solenidade, para ver seu último desejo concretizado. Cinco anos separavam, então, aquele momento, de sua partida”.  OTTO FEUERSCHUETTE faleceu em 1971.

UMA REUNIÃO DE PAIS

Foi também em 1971 que estive o ano inteiro no RJ, trabalhando no HOSPITAL DOS SERVIDORES DO ESTADO (IPASE). Minha família me acompanhava. Tive o privilégio de trabalhar então com alguns dos maiores nomes da nossa Oftalmologia, como João Rabelo, Ruy Costa Fernandes, Aderbal de Albuquerque Alves, Edith Finkel, Carlos Botelho, Fernando Moreira. Também pude auxiliar cirurgias de Joviano de Rezende Fª, Evaldo Machado dos Santos e Sylvio Provenzano, todos dos Oculistas Associados, referências na Oftalmologia brasileira. 
Em 1971, estando nós no RJ e tendo minha mulher de viajar inesperadamente a POA para atender compromisso de saúde na família, vi-me obrigado a ir ao colégio dos meninos para reunião de pais. Nela, só haviam mães. Dois ou três homens escondiam-se como podiam naquele mar de mulheres. Sentei-me lá atrás para não causar constrangimento às irrequietas mães e para ter rota de fuga garantida. Uma das mães tricotava e outras conversavam, já confraternizadas de outras reuniões. 
Comandava a reunião o jovem diretor, jovem demais para o cargo, se querem minha opinião. Fazia ele considerações a respeito do uniforme a ser adotado pela escola. As agora alvoroçadas mães perguntavam sem espaço para respostas:
- A gravatinha, que cor é? O emblema é na lapela? A meia é três-quartos? Quase ao meu lado outra perguntou:
- Tem pesponto?
Voltei-me disposto a perguntar o que era pesponto, mas desisti a meio caminho. Já o jovem Diretor reassumia o comando fazendo gesto com as mãos para acalmar o agitado auditório. Tive a impressão que olhava para o meu lado enquanto falava:
- Chegamos ao ponto mais importante da reunião. Trata-se do 4º ano, que recebeu muita gente transferida de outros colégios. Não tivemos outra opção senão dividir a turma em três. A turma 10, dos mais adiantados, a 9 dos regulares e a 8 dos (digamos assim) menos interessados. 
Era evidente sua dificuldade e desconforto na procura de palavras adequadas para definir esta última turma. Assustei-me: em qual destas turmas estaria o Lúcio? 
As mães puseram-se a falar ao mesmo tempo: não era culpa deles, coitados, levavam muito dever para casa; o ensino dirigido (ao ver da mãe que tricotava) não estava funcionando. Outra, mãe de dois filhos que faziam provas no mesmo dia, confessava a impossibilidade de prepará-los ao mesmo tempo.
O jovem Diretor sacudiu a cabeça com simpatia. Voltou a falar na Turma 8, um caso muito sério, sentenciou. Comecei a pensar que o negócio fosse comigo. Não vá esse cara dizer que meu filho está entre os piores!
Curioso que o Lúcio não me parecia lá tão desligado assim. Jogava seu futebolzinho quando íamos à praia; via Tv; na hora de estudar, estudava, então eu não via? As coisas que ele estudava estavam fora de meu alcance ensinar, eram muito diferentes de meu tempo. Outro dia me deixara bestificado perguntando como se chama quem nasce em Salvador, na Bahia. Ninguém sabe isso, meu filho, defendi-me. Mas, o danadinho sabia, é soteropolitano, falou. Furtivamente fui ao dicionário conferir se era. Era.
Achei que ele devia estar na Turma 10, bem que ele sabia uma coisa ou outra. O Diretor continuava, agora reclamando dos meninos quanto à alimentação. Sistematicamente recusavam-se a comer as verduras servidas no almoço.  Quando menino eu também não gostava. Havia mesmo, continuava o Diretor, já nem tão cordato, mães que mandavam bilhetes pedindo para não servir verdura aos filhos. Alguns bilhetes mostravam semelhança perturbadora entre letras de mães e filhos.
Saímos e perguntei ansioso:
- Filho, em que turma você está?
- Na 10, respondeu distraído. Respirei, profundamente aliviado. Comentei de minha satisfação. Ele não perdeu tempo:
- Pai, então eu queria te pedir um favor: mande ao Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura.    

TUBARÃO NASCE DA LAGUNA

Os intermináveis conflitos que envolviam a Prússia e países vizinhos, no final do século 19, podem tê-los levado a procurarem ares mais saudáveis e tranquilos para viver, trabalhar e construir suas famílias. A Prússia, nascida no séc. 13, desaparece em 1947.
A colonização do sul de SC é processo iniciado em 29.7.1676, quando o bandeirante vicentista Domingos de Brito Peixoto, devoto de Santo Antônio, funda a vila de Santo Antônio dos Anjos da Laguna e constrói sua primeira capela, a pau a pique. Laguna foi fundada pela necessidade do domínio português ter, no sul do Brasil Colônia, um posto avançado, apoio para colonizar o RS e para as guerras luso-hispânicas na bacia do rio da Prata. A vila elevou-se à categoria de município em 20.1.1720.  Criciúma é município em 4.11.1925, 206 anos depois, desmembrado de Araranguá e instalado em 1º.1.1926. 
Lagunenses deixam sua terra para tomar novas posses no Continente de São Pedro do RS, o que enfraqueceu a urbe. A República Rio-grandense do Piratini, fundada pelos farroupilhas, precisava acesso ao mar. O Império controlava portos e rios do estado vizinho. Apoiados pelo italiano Giuseppe Garibaldi, os rebeldes surpreendem os imperialistas através da lagoa Santo Antônio, entrando pela lagoa Garopaba do Sul e barra do Camacho e seguindo pelo rio Tubarão.  
 Laguna foi colonizada em duas etapas: a primeira entre 1748/1756, desbravando a região costeira da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, do Bananal até a Madre, passando por Ribeirão Pequeno. Esses primeiros colonizadores (portugueses dos açores), habitaram o local pela pesca e generosidade do solo.
Os açorianos adaptam-se à nova vida, facilmente. Modificam alguns de seus hábitos, alimentares sobretudo, substituindo a farinha de trigo, base da sua alimentação, pela farinha de mandioca e a carne pelo peixe, que era salgada para consumo ou exportação. Até o início do século 19 a economia era de subsistência. Chegavam imigrantes pelo porto de Laguna ou de São Francisco, e seguiam para o interior. No começo pelas lagoas e rios e mais tarde pela ferrovia Dona Tereza Cristina (início da construção em 1880, aberta ao tráfego em 1884).
Os produtos vindos das colônias (Azambuja, Urussanga, Grão-Pará, Braço do Norte), trazidos por trem eram escoados pelo porto de Laguna. Isto, mais a exploração do carvão, fez com que, na segunda metade do século 19, a cidade assumisse grande importância em SC quanto à movimentação portuária, constituindo-se na época áurea de Laguna. 
Na segunda etapa, primeira metade do séc. 19, portugueses do continente, com o crescimento do porto, trazem desenvolvimento econômico para a cidade. Formam-se famílias tradicionais e a cultura lagunense.
Em 1839, Laguna é Capital da República JULIANA com 12.628 almas. 

PRIMEIRO HOSPITAL NO SUL DO BRASIL

Em março de 1856: primeiro hospital do Sul Catarinense, São Francisco de Assis, na Laguna. Imóvel alugado na Ponta do Bairro Magalhães (junto ao Colégio Stella Maris). No velho prédio, o hospital funciona por 15 anos (até 1871), com capacidade para vinte/trinta doentes. ANTONIO FERNANDO DA COSTA, é o primeiro médico. Em 1858, inaugurado o Teatro Sete de Setembro, epidemia de varíola superlota o improvisado hospital. PASTEUR (1860), bendito seja seu nome, muda a história da MEDICINA e do mundo demonstrando que a desinfecção das roupas para cirurgias, salva vidas. 1867: a primeira cirurgia asséptica.  
Os primeiros hospitais de que se tem notícia datam de 431 a.C., no Ceilão (atual Sri Lanka), sul da Ásia. Na Europa, coube aos romanos, cerca de 100 a.C., construírem os valetudinários, para tratamento dos soldados feridos em combate. A partir do século 4, com a propagação do Cristianismo, os hospitais se expandem. Sacerdotes e religiosos à frente, os monastérios passam a servir de refúgio para viajantes e doentes pobres. Tais lugares possuíam um infirmitorium, para tratamento de pacientes, farmácia e jardim com plantas medicinais.  Na Idade Média, ordens religiosas continuaram a liderar a criação de hospitais – só os beneditinos abriram mais de 2 000. No Brasil, o primeiro foi a Santa Casa de Misericórdia de Santos, SP, em 1543. Em 1959, 416 depois, estagiei por quase um ano no seu serviço de ORL. No século 16 não havia médicos dispostos a vir para o Brasil, os jesuítas assumiam todo o atendimento, trabalhando como médicos, farmacêuticos e enfermeiros.

CHEGAM OS IMIGRANTES ITALIANOS E ALEMAES FINAL DO SÉC. 18

A Guerra dos Farrapos projetou historicamente a cidade de Laguna. Em julho de 1839, republicanos gaúchos invadiram Laguna por terra e mar. David Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes eram os comandantes das tropas terrestres (cerca de 1 000 homens). Na mesma ocasião Giuseppe Garibaldi ocupou Laguna por água, capitaneando o navio Seival com tripulação composta de muitos italianos, amigos do grande carbonário. Garibaldi derrotou as tropas imperiais estacionadas na Laguna. Em 29.7.1839, a Câmara Municipal de Laguna, presidida por Vicente Francisco de Oliveira, proclamava a independência da então Província de SC  com a denominação de Republica Juliana, coligada à de Piratini. Surge a adolescente Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Heroína dos Dois Mundos. Ela abandonaria o lar para unir-se a Giuseppe Garibaldi, com quem se casou mais tarde, tornando-se conhecida como Anita Garibaldi. Porém, em 15.11.1839, depois de sangrenta guerra naval, com a derrota dos farroupilhas, chega ao fim a República Juliana (menos de 4 meses de duração), cujo presidente, o coronel Joaquim Xavier Neves e o vice-presidente, padre Vicente Ferreira dos Santos Cordeiro, nunca compareceram para serem empossados.

CHEGA O PRIMEIRO FEUERSCHUETTE .

Trinta anos depois, 1869, chega ao Brasil o primeiro membro da linhagem FEUERSCHUETTE, Henrique Christiano Feuerschuette, 24 anos, sapateiro. Chega a Tubarão em 12.12.1870, cidade de 22 casas e uma pousada, a pensão de dona Flor Madeira. O chefe político era coronel Luiz Martins Collaço, compadre de dona Flor.  Henrique pagava 400 milréis por mês por cama, comida e roupa lavada na pensão. Consertando as botas do coronel, Henrique torna-se conhecido em toda a região sul, incluindo o planalto de São Joaquim. Era o Alemão das Botas. 
Com as economias de seu trabalho, traz da Alemanha irmão, irmã, o pai viúvo e um primo. Logo vem Frederico Christiano, irmão de Henrique e tio do Dr. Otto. Era também sapateiro e contava 18 anos de idade ao chegar. O último da família a emigrar para o Brasil foi Frederico Henrique, pai do Dr. Otto, nascido em Magdeburg. Emigrou em 1878. Andreas Feuerschuette, lavrador, vem ao Brasil com a filha Johanne.
Os primos Frederico Henrique e Johanne casam-se em 27.3.1881 e em 9.4.1881 (13 dias depois), nasce OTTO FREDERICO FEUERSCHUETTE. Não tendo deixado descendentes (os tios Henrique e Cristiano e a irmã Elsa), Otto herdou o patrimônio que a família acumulara, em especial a fazenda Campestre,  adquirida pelo tio Henrique do coronel Luiz Martins Collaço. 

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE

Por Dr. Henrique Packter 22/12/2018 - 06:00Atualizado em 24/12/2018 - 10:13

LAERSON NICOLEIT, pioneiro em MORRO DA FUMAÇA
Henrique Packter, Oftalmologista

Em 1972, ano da chegada de NICOLEIT na Fumaça houve muita coisa a lamentar e também para regozijar-se. Em Janeiro, João Ricardo inicia os ensaios da segunda formação dos Secos & Molhados, com Ney Matogrosso, Marcelo Frias e Gerson Conrad. A banda Led Zeppelin é impedida de desembarcar em Singapura. Cabelos compridos foi o motivo alegado. Em 16 de Outubro, é anunciado o fim do grupo Creedence Clearwater Revival.

Também em 1972 morre Harry Truman, o presidente norte-americano que ordenou o lançamento das bombas atômicas sobre Nagasaki e Hiroshima, dando fim à Segunda Guerra Mundial e determinando a morte de milhares de pessoas, aí incluídos velhos, doentes e crianças. Perguntado sobre a causa do aumento do número de divórcios nos EUA, Truman teria respondido (a sério) que a causa, sem dúvida, era o elevado número de casamentos.

John Edgar Hoover morre após dirigir com mão de ferro o FBI por 48 anos. Diz-se que as prisões que mandava efetuar em geral não primavam por gestos gentis. Parece que vem daí o aviso que o comediante americano Grouxo Marx afixou à porta de seu escritório: Entre Sem Bater. 

LAERSON NICOLEIT PROFESSOR UNIVERSITÁRIO DE DIREITO NA UNISUL

As aulas tinham sempre um sentido prático. Sua pergunta célebre: — alguém tem alguma dúvida sobre o assunto? Não havendo manifestação, completava: ou sobre qualquer assunto. Isto, fez escola.  Tanto que outros professores menos votados também passaram a usá-la. Mas o que era mero impressionismo nuns, era desafio verdadeiro em Nicoleit. Ele próprio se desafiava, corria riscos; sempre em expansão, nunca parava; não conhecendo limites, não conhecendo seu alcance, sabia que podia mais. Ambicionava sempre mais. Sá de Miranda, poeta português do séc. 16, conceitua tal estado de espírito:

Comigo me desavim... /não posso viver comigo, /nem posso fugir de mim.

APRESENTAÇÕES
LAERSO fazia o tipo sisudo. Quase não ria, ria pouco. Quando dialogava chegava muito próximo do outro, olhos muito abertos, aumentados pelos óculos de lentes para correção de hipermetropia alta. Escandia as sílabas. Falava e queria saber tudo, em detalhes. 
Certa ocasião encerrou penosa e interminável reunião da Regional Médica da Zona Carbonífera em Criciúma na década de 70, dizendo: "Se o problema tem solução, não se preocupe com o problema. Se o problema não tem solução, porquê se preocupar com o problema?"
Não tínhamos muitos contatos mesmo porque andávamos em círculos de especialidades diferentes. Mas, uma ocasião convidou-me para visitar o Hospital São Roque, coisa que fiz, acompanhado de minha mulher. Morava numa residência dos fundos do hospital acompanhado pela mãe. Lembro de uma portentosa coleção de long-plays de muito boa qualidade que nos fez ouvir alguns, enquanto conversávamos. O aparelho de som, quase raridade para a época, tinha sonoridade inacreditável.
A conversa girava sobre tudo e sobre todos. Quase ninguém escapou. Principalmente falou ele. Sua intenção era levar-me a operar pacientes da região em seu hospital, o que na época era difícil. Meu irmão e eu já atendíamos além de Criciúma em Araranguá e Orleans. Já operávamos nestas três cidades. Meu irmão Boris atendia em Orleans, no Hospital Santa Otília onde fizera amizade com Emir Bortoluzzi de Souza, o médico da cidade. Uma vez por semana lá ia Boris prestar atendimento à população da região. Ao meio-dia interrompia as consultas para almoçar. Muitas vezes era convidado de Emir, ocasiões em que se banqueteava pois dona Wanda era cozinheira afamada.
Mas, nem tudo eram flores. Às vezes almoçava próximo ao Hospital numa lanchonete por ele batizada de Morte Lenta.
Boris entrava e já ia perguntando protocolarmente:
- Que tem hoje?   
A resposta padrão da funcionária era:
-Isso daí, ó.
Apontava com o queixo ligeiramente elevado, para o prato de algum outro incauto frequentador. Também rapidamente virava o rosto com ar de desagrado. Por via das dúvidas Boris pedia Bauru com ovos, parecia mais seguro. Muitas vezes, dizia, era impossível identificar o que eram certas coisas, dadas como comestíveis e jogadas sobre a mesa.
Nossa conversa cheia de amenidades baseava-se na Medicina que praticávamos nos bons idos de 70, lembrando-se que Nicoleit chegara à Fumaça em 1972 e eu à época já contava com doze anos de atividades médicas em Criciúma.

CLIENTELA
O linguajar pitoresco de certos pacientes era nosso encanto. Pessoas do povo, boas, trabalhadoras, honestas, sem malícia. Nicoleit contava de uma certa Dona Ingrácia. Operada de perineoplastia Nicoleit iniciava a visita aos internados perguntando-lhe:
- Dona Ingrácia como está urinando?
- Doutor, estou mijando que nem uma égua!
Nicoleit perguntara a esta mesma senhora quando viera consultar:
- Dona Ingrácia, que a trouxe para consulta?
- Doutor, quem me trouxe foi meu marido. Viemos na Rural dele. Ele vai aproveitar e comprar umas vacinas para as vacas e coalho. Minha filha também veio e vai comprar umas coisinhas na Cooperativa. 

NICOLEIT não era pessoa profundamente religiosa. Mas, como todos nós, tinha seus causos em que a religião despontava como instância decisiva.
Conhecia os pacientes pelo nome. Sabia de onde vinham e como iam as coisas por lá. Os presentes eram muitos: galinha caipira, batata-doce, laranjas, vergamotas, compotas caseiras, aipim. 

EL QUE NO LLORA NO MAMA
Um gaúcho se instalara nos domínios fumacenses e logo se faz amigo. 
-Licença doutor, Buenas! Desta vez tenho uma queixa e como sei que o doutor é de faca na bota, resolvi assuntá direto prá não deixa mal-entendido.
Na semana anterior Nicoleit atendera a netinha de cinco anos da gauchesca figura. A menina tinha febre elevada por um quadro infeccioso pulmonar e Nicoleit prescrevera um antibiótico além de um antitérmico e medidas gerais.
O avô indignava-se, elevando a voz:
- Fizemos tudo que nos mandaram fazer. Demo banho quebrando a friúra da água, suco de laranja à vontade, mas o tal remédio que o doutor receitô era coisa mais impossível de dar. Pois isso é remédio que se dê para uma inocentezinha? A primeira dose foi boca abaixo com muita choradeira. Na segunda a coitadinha engasgou-se toda com aquele pozinho branco, ficou roxinha e lá nela apareceu mancha vermelha nos olhos.  A coisa só aliviô quando botamo goela abaixo o líquido que vinha junto com a caixinha.
Evidentemente, faltara a explicação que o pozinho deveria ter sido misturado ao líquido antes de ser administrado. O vivente antes de retirar-se ainda resmungou:
- Bah! Vivendo e aprendendo! Buenas!

COMO UMA MÉDIUM ENTRA NA HISTÓRIA 
Nicoleit tinha um certo envolvimento com a Medicina tubaronense. Afinal, estudara Direito em Tubarão e até lecionara neste Curso da Unisul. Contou-me de clientezinha sua, nascida no Hospital São Roque, com anemia muito grave. Sobreviveu à custa de transfusões de sangue realizadas a cada 20 dias. O único sangue compatível de grupo e subgrupo sanguíneo, era muito raro. Por seis anos a menina buscava em Tubarão o sangue de que precisava para viver, cidade onde residia o único doador encontrado. Que, um belo dia sumiu sem deixar rastros. Por rádios e jornais procurou-se outro doador compatível. Quem tivesse o sangue daquele tipo que procurasse em Tubarão e na Fumaça os doutores que cuidavam da pequena paciente. Debalde.
Até que um dia, madrugada alta, um homem pobremente vestido, chinelas nos pés, bateu à porta do Hospital São Roque.
- Tenho o tal sangue para salvar a criança.
- Alguém já examinou o seu sangue? 
-Não.
Um desconfiado e sonolento Nicoleit perguntou:
-E como sabe que tem o tal sangue?
-Minha mulher me acordou inda agorinha e pediu que viesse falar com o doutor.
-Como ela sabia?
-Doutor, ela é médium. O espírito de um médico baixou nela e deu a ordem. Por isso estou aqui. 
Era exatamente o sangue procurado.  

FELIZ NATAL, FELIZ 2019 GENTE!
Aproxima-se o Natal e com ele o fim deste ano de 2018 e o início de 2019. Jornalistas preparam suas retrospectivas, encerramos as contas velhas passando a pensar nas novas contas.
2018 podia ter sido pior - aliás, tudo nesta vida e na outra podia ser pior. Sempre impliquei com o lugar-comum que obriga a humanidade a maldizer o ano que passou e a bajular o ano que chega, desejando-o próspero. A verdade é que todos os anos que já maldizemos, íntima ou publicamente, todos os anos que ficamos aflitos em vê-los para trás, todos esses anos - repito - foram prósperos no início e acabaram malditos, como os demais. Quem inventou essa prosperidade? Certo que, de uma forma ou outra, há anos piores do que os outros, também piores. E é possível até que existam anos bons, desses que deixam saudade na gente. Ainda não tenho certeza, mas acho que esse ano de 2018 não foi tão ruim assim, apesar das desgraças acontecidas e das maravilhas que inutilmente esperávamos. O importante é a vida em si, a capacidade de sentir o sol sobre a pele, viver a esperança de cada manhã e a resignação de cada tarde. Não costumo fazer planos para o ano que chega nem para a vida em geral. O que acontecer será lucro, desde que aconteça.
Tivemos muito assunto na mídia, numa velocidade que não deixou tempo à monotonia: a peteca sempre em jogo, para lá e para cá. E é nisso que reside a faina humana: não deixar a dita cuja cair. No plano pessoal, por mais desventuras que tenhamos tido, por mais perdas e danos que entraram no rol das nossas desditas, sempre sobrou o saldo final e positivo da própria vida, a vida que um dia nos será tirada e que, enquanto vida, é o valor maior e, na verdade, único.
Mas, a vida não é uma coisa arrumada como as antigas farmácias homeopáticas, uma porção de vidrinhos rotulados para cada caso específico, alium sativum para os resfriados, extrato de beladona para os males hepáticos, alumen para prisão de ventre, apis melifica para inchaço, - tudo tem remédio e tudo vale a pena, mesmo que, ao contrário do poeta, a alma seja pequena. O mundo não tem mesmo remédio, é o que sabemos, choramos e lamentamos. Vivemos dentro dele e, por isso, o melhor que se faz é suportá-lo, criticá-lo e circunstancialmente gozá-lo. Não devemos maldizer o ano que passou nem esperar maravilhas do ano que vai chegar. O primeiro nos manteve vivos, embora tenha tornado o mundo pior. E o novo será a mesma coisa. Como as crianças que antigamente escreviam cartas ao Papai Noel pedindo isso ou aquilo, cada um terá, encabuladamente, sua própria lista de esperanças ou devaneios.
Uma lista gradualmente mais modesta e mais possível. Tive um amigo que sofria de espantoso furor donjuanesco, a cada ano abria um caderninho com o nome e as características das mulheres que desejava e esperava conquistar, lista que foi minguando com o tempo até se resumir numa enfermeira gorda e velhusca que o atendia na Casa de Repouso onde se abrigara.
Um autor escandinavo, não lembro o nome, é algo complicado, com seis consoantes, um trema, dois acentos circunflexos e uma única vogal-, conta a história do sujeito que ia ser enforcado. Ao sentir que o carrasco botava a corda em seu pescoço, teve um pensamento consolador: "Amanhã, não precisarei escovar os dentes".
Espero que todos nós, ao longo de 2019, tenhamos de escovar os dentes todos os dias com nossas próprias mãos, dirigidas por mente funcional. BOAS FESTAS, FELIZ ANO NOVO DE 2019!

Na próxima semana conclui LAERSON NICOLEIT

Por Dr. Henrique Packter 15/12/2018 - 06:00

Essa sexta-feira, 14 de dezembro de 2018, é dia destinado a ser cultuado na história citadina porque é nesta data que a municipalidade entrega à população, restaurado e em estado de novo, o Centro Cultural Jorge Zanatta. Nos últimos tempos, muito se escreveu a respeito deste prédio, parte indissolúvel de nossa história. O jornalista DENIS LUCIANO realiza na TRIBUNA obra de fôlego, destinada a ser incorporada aos nossos documentos mais preciosos e que vem narrando em detalhes a saga do Centro Cultural Jorge Zanatta desde os seus primórdios. De parabéns estão a edilidade criciumense, a iniciativa privada representada pela família Jorge Zanatta e o executivo municipal na pessoa do Prefeito Clésio Salvaro. O Prefeito, em duas oportunidades, na restauração do imóvel e na firmeza com que tem defendido a destinação do casarão para a Cultura Criciumense, posicionou-se ao lado dos superiores interesses de nossa população.

A Casa retorna às nossas mãos, como endereço maior da Cultura de nossa gente.   

A FCC E O CASARÃO

Em 1993, como hoje, a sociedade Criciumense, mobilizada desde a primeira hora, entendeu a importância de trazer o Casarão da Pedro Benedet de volta à sua utilização para atividades culturais do município. Dentro da própria Fundação, já em 1993, esse movimento assumiu característica de prioridade. É de justiça destacar o trabalho de Liliane Motta da Silveira, empresária na área de comunicações e minha substituta eventual, além de Sayonara Meller, Diretora de Ação Cultural, Gilberto João de Oliveira, diretor Administrativo e Financeiro; Brigite Gorini, Diretora do Teatro; Adilamar Rocha, Carlos Lacombe, Osmar Piovesan, assessoria contábil; Paulo Vieira Aveline, assessor jurídico; maestro Tyrone Mandelli, Maria de Lourdes Benedet e Yara Gaidzinski. Também Júlio Lopes, Márcio Arcângelo Zaccaron, Acélio Casagrande e Nei Manique Barreto.

Também José Augusto Hülse representante da SULCATUR, Mário Belolli, na comemoração de datas históricas, Branca Tonon, Gundo Steiner, Gilberto Oenning, Amarildo dos Passos, Clóvis Marcelino, Olide Tibulo, Irma Tasso, Eliana Mandelli (Coral da FCC), Isis G. Borges, Grupo Maximiliano Gaidzinski (Espaço Cultural da Praça Nereu Ramos), 16 exposições em 1995. A FCC substituiu o busto em cimento de Marcus Rovaris por outro em bronze (4.11.1995) com colocação de nova placa alusiva à substituição. Comemoramos o 30º aniversário de fundação da Associação Coral de Criciúma com entrega de placa da FCC. Comemoramos os Setenta Anos de Emancipação Política e Administrativa do Município em 4.11.1995 com a presença de seu primeiro magistrado e que discursou, o Dr. Euclides Cerqueira Cintra.

Tínhamos 300 alunos matriculados em nossas Oficinas com cursos de música, dança, artes plásticas, teatro e canto coral.

O TEATRO DA CIDADE

O Teatro Elias Angeloni tem 739 lugares e é de 30.1.1983, criado pelo Prefeito Altair Guidi. Foi totalmente recuperado pela jornalista Brigite Gorini, sua diretora em nossa administração. Espetáculo de estreia do teatro foi com o ator Paulo Gracindo em atuação consagradora. São 35 anos de relevantes trabalhos à cultura de nossa região.

A BIBLIOTECA PÚBLICA

A Biblioteca Municipal Donatila Teixeira Borba, sua primeira diretora, é de 2.12.1944, criada com acervo do Clube Recreativo Mampituba. A FCC comemorou o cinquentenário de fundação de nossa biblioteca que contava cerca de 16 mil títulos à época. Criamos um trabalho de extensão comunitária, as Bibliotecas Itinerantes, que percorriam nossos bairros de quintas a sábados. Eram dois reboques equipados com sistema de TV, vídeo e acervo de cerca de mil volumes cada um. Desenvolviam atividades recreativas, teatro de fantoches, desenho e pintura. Uma vez por mês o atendimento estendia-se às pediatrias dos hospitais da cidade com espetáculos especialmente dedicados às crianças hospitalizadas. A imprensa tem noticiado a intenção do Prefeito Clésio Salvaro de transferir a Biblioteca Municipal para o Centro Cultural Jorge Zanatta. Se for possível eliminar os ruídos que a localização e a utilização do Casarão propiciam, a ideia é excelente para um órgão municipal que tanto peregrinou por nossa cidade.

UM PROJETO PARA O MUNDO

A 3.11.1994, a FCC desenvolveu o Projeto Eclipse, a cargo de Adilamar Rocha. O notável trabalho desta nossa funcionária obteve reconhecimento internacional. Quatro minutos e três segundos foi a duração do fenômeno em nosso município, a maior duração do mundo habitado por humanos. O professor Luiz Carlos da Silveira, da UNESC, Departamento de Engenharia Agrimensura, elaborou um manual Fundamentos de Astronomia, eclipse de 3.11.1994, além de protagonizar a criação de elementos para proteção dos olhos na observação do espetáculo estelar.  Durante os meses que antecederam o eclipse solar total, panfletos foram distribuídos para esclarecer a população a respeito dos cuidados a serem tomados para observação do fenômeno, entrevistas em rádio, jornal e TV. Astrônomos do mundo inteiro correram para Criciúma a fim de documentar o eclipse. Como resultado, nenhum caso de lesão ocular foi registrado, fato virgem na história dos eclipses totais de sol. A divulgação e distribuição do material começou seis meses antes, nos eventos Ação Global e Ação Municipal. Guiomar Back, esposa do pediatra Solon Back, foi grande colaboradora para o êxito desse projeto. O próximo eclipse total do sol visível no Brasil será no nordeste em 2.8.2046. 

A QUERMESSE DE TRADIÇÃO E CULTURA

A partir de uma ideia de Ademar Costa, saudoso amigo e esposo da legendária colunista Beverly Godoi Costa, foi criada a Festa da Primavera. Ela foi origem da nossa Quermesse que se desenvolvia na Praça Nereu Ramos, tornada pequena, porque a festa assumiu proporções inesperadas. Já na nossa época tivemos de transferi-la para o espaço do nosso Parque Centenário.

O evento exibia a música, a dança e a cultura dos grupos étnicos que construíram nossa cidade, além da sua culinária.

Ainda penso que o grande mérito da Quermesse foi mostrar que, mesmo com a barreira da língua e da diversidade cultural, conseguiram os primitivos habitantes da região integrar-se sem serem assimilados culturalmente. Absorveram e se beneficiaram do conhecimento trazido por outras culturas e potencializaram essa experiência, favorecendo sua própria cultura. Cada um dos primitivos habitantes da região teve de superar obstáculos inenarráveis para dividir sua solidariedade e buscar caminhos comuns com outras culturas que redundaram no atual modelo brasileiro praticado em nossa região.

O CASARÃO

No momento em que se restaura e resgata esse precioso imóvel, é de inteira justeza e justiça revelar, mais uma vez, os nomes das pessoas que construíram a Fundação Cultural de Criciúma, FCC, em boa hora criada pelo Prefeito Eduardo Pinho Moreira.

A FCC foi criada pela Lei 2.829 de 15.3.1993 e teve seu estatuto aprovado pela edilidade em 19.11.1993. O Conselho Deliberativo, representando todos os segmentos de nossa sociedade, compunha-se de 28 membros, representando o mesmo número de entidades. Como cinco delas não manifestaram interesse em participar, decidiu-se que 23 representantes já estava de bom tamanho.

Nos anos 30 vem a doação do imóvel da família do coronel para a municipalidade construir uma escola. Em 1944 é a doação para o governo do Estado. Doada em 1976 para a União. Em 1942 era sede do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). A 7 de maio de 1993, após contatos com Luiz Felipe Seara, diretor do DNPM para SC, a FCC passou a ocupar metade do Casarão. Oficialmente, isto ocorre desde 26.4.1994, após reunião na Procuradoria-Geral da República em Brasília, presentes Luiz Henrique da Silveira, então deputado federal e presidente do PMDB nacional, Eduardo Pinho Moreira, Liliane Motta da Silveira, Henrique Packter e a decisiva participação do Presidente do Tribunal de Contas da União, o Ministro Adhemar Paladini Ghisi. Ficou definido que o Casarão seria ocupado em todas as suas dependências pela FCC. Toda a questão foi sacramentada em 24.11.1995, quando a FCC e o senador Jorge Konder Bornhausen estiveram reunidos na Assembleia Legislativa em Florianópolis, obtendo seu apoio para a ocupação definitiva do imóvel.

Nunca será demais ressaltar que a restauração do Casarão deve-se a Jorge Zanatta, empresário e cidadão íntegro, exemplo em nossa comunidade. Ele compreendeu o alcance de atitudes de cidadania como a doação de haveres em benefício da população.

PROJETO MEMÓRIA CULTURAL MUSEU AUGUSTO CASAGRANDE

Doado pela família Joacy Casagrande Paulo em 19.5.1978 à Prefeitura de Criciúma, cuja restauração começou naquele ano mesmo. O Museu foi inaugurado em 9.1.1980, durante a comemoração e festejos do Centenário de Criciúma, na administração de Altair Guidi - Mário Sônego. Durante nossa administração, o Museu, que estava sob direção de Iara Gaidzinski, foi totalmente restaurado e recuperado.

Em 1976, professores do Departamento de Estudos Sociais da FUCRI incentivaram alunos a recolher ferramentas, instrumentos agrícolas, objetos antigos, fotos, cartas, roupas e móveis, além de utensílios domésticos. 264 peças foram coletadas em gincana realizada pelo Colégio Madre Teresa Michel. O acervo foi catalogado e entregue à FUCRI. Outros 252 objetos foram obtidos mais tarde e incorporados aos primeiros.

Em 1994, a FCC colocou o Museu à disposição dos alunos dos Cursos de Geografia e História da UNISUL, mediante convênio formalizado com aquela instituição.

PROJETO MEMORIAL DA CIDADE DR. DINO GORINI

Projetado pelo arquiteto Manoel Coelho e inaugurado a 6.1.1981 no Parque Centenário. É marco das cinco etnias formadoras do município. Italianos do Treviso, Beluno e de Bérgamo chegados em 6.1.1880. Poloneses em 19.10.1890, Alemães final de 1890, Negros em 1905 para trabalhar na Estrada de Ferro e na extração de carvão mineral e Portugueses representados pela minoria açoriana. No Memorial, as colunas que representam as etnias medem 33,70 m, 25 m, 17 m e 14 m. No subsolo há uma sala de 502 metros que recuperamos, invadida pelas águas que se achava. Painéis em cerâmica homenageiam os grupos étnicos que consolidaram nossa cidade com motivos típicos tendo ao lado o nome das primeiras famílias de imigrantes. A obra é dos falecidos artistas plásticos Jussara Guimarães e Gilberto Pegoraro. Por ocasião da entrega do Memorial estava presente à cerimônia a família do Dr. Dino Gorini, falecido em 21.7.1988, tendo à frente Dona Augusta Trento Gorini, viúva do saudoso e benquisto médico.

Próxima semana conclui LAERSON NICOLEIT

Por Dr. Henrique Packter 08/12/2018 - 06:00

O Hospital Santa Catarina, Eduardo Pinho Moreira & Acélio Casagrande

Contam-me da cerimônia que marcou a entrega à população da nova ala do HMISC. Apesar de inaugurada, ela só entrará em funcionamento em 17 de dezembro. Com mais de 4 mil metros quadrados, o local vai passar por um período de higienização e teste, além de capacitação dos profissionais. 

São novos leitos e a obra também contemplará seis leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal no antigo prédio, instalação de torre de vídeo para cirurgias ginecológicas e pediátricas.   Também o Banco de Olhos funcionará no local. O Governador Eduardo Pinho Moreira discursou, exaltando merecidamente o trabalho do Secretário Estadual da Saúde, Acélio Casagrande. Grande responsável pela obra é a pessoa que, lá atrás, deu início a tudo, mandando adquirir o prédio que pertencia a Santos Guglielmi. No auge de sua fala, Moreira teria reivindicado a descoberta dos talentos de Acélio para o mundo político. Mutatis mutandi a mesma coisa que Waldemar de Brito com relação a Pelé.

Na fala governamental, Eduardo Pinho Moreira teria referido como escolhera Acélio Casagrande para a Secretaria Municipal de Saúde, quando Prefeito de Criciúma em 1994.

POLÍTICA NO ATACADO

Bom, nesse assunto tenho alguma coisa a dizer se, para tanto, me derem licença. Isso, correndo o risco de suceder-me o que sucedeu com Brizola, candidato a governador do RS lá por 1958.

Teria havido um namorico comunista com o PTB no pleito de 1958 no RS, não bem correspondido por Brizola? Na verdade, o PCB emitiu manifestação de apoio ao partido trabalhista. Entrevistado logo depois, Brizola disse que não aceitava o apoio. A resposta veio noutra entrevista de Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do PCB, celebrizado como Cavaleiro da Esperança. “A opinião do senhor Brizola sobre nosso apoio é irrelevante. Vamos apoiar o melhor candidato, e o melhor candidato é ele”, vociferou Prestes.

POLÍTICA NO VAREJO EM CRICIÚMA

Quando a chapa do PMDB para Prefeito e Vice da cidade foi proclamada em 1992, havia um certo enfrentamento entre os dois grandes hospitais da cidade. Isto é coisa natural em se tratando de grupos que buscam a hegemonia no atendimento médico. A engenharia política do PMDB posta a serviço de governar a cidade, contemplava dois médicos do Hospital São João Batista: Eduardo Moreira (PMDB, para prefeito) e Anderlei Antonelli (PSDB, para vice). Aos médicos do Hospital São José parecia algo inaceitável.

Eduardo conversa separadamente com os médicos de ambos os hospitais. Ao término das conversações promete a Secretaria da Saúde para Luiz Augusto Borba, o Guto Borba, médico do Corpo Clínico do Hospital São José. E assim, foi. Ocorre que as coisas passam a não andar como deveriam andar e Guto Borba pede as contas. Criava-se grande impasse, porque nenhum outro médico do São José queria aceitar o cargo, em substituição a Guto.

Reúnem-se na Prefeitura todos os Secretários do governo municipal, prefeito e vice, os presidentes das duas Fundações (Cultura e de Esportes). Na condição de Diretor-Presidente da Fundação Cultural, também compareci à reunião.

Que fazer?  A quem entregar a gerência dos negócios da Saúde Municipal?

Todas as alternativas foram consideradas, enquanto célere o tempo corria naquela manhã de sexta-feira. Meus pacientes-impacientes aguardavam no consultório do Centro Médico São José da rua João Cechinel. 

À reunião também compareceu Acélio Casagrande, fiel escudeiro de Eduardo Moreira. Ansioso para retornar ao meu consultório disse a Eduardo que o Secretário não precisava ser Médico, Odontólogo, Farmacêutico ou Bioquímiico. Nem sequer precisava ser pessoa da área da saúde. Lembrei que o melhor Secretário da Saúde que o Rio Grande jamais tivera em sua história foi um radialista de Passo Fundo, pinçado por Brizola. Este obscuro personagem erradicou a tuberculose no Estado e construiu Postos de Saúde por todo o Rio Grande. Seu nome? José Lamaison Porto.

Acélio Casagrande era muito jovem, contava 33 anos, idade plena de rica simbologia e talvez nem integrasse o perfil ambicionado para o cargo. Mas, estava ali e preenchia outros importantes requisitos: era trabalhador, homem do partido e de fidelidade inconteste a Eduardo Moreira. Falei qualquer coisa, ressaltando que se tratava de buscar uma solução de emergência, algo como aquela velha história de acomodar melancias no caminhão que se desloca. 

Disse a Eduardo que, para mim, o jovem Acélio Casagrande era sua melhor opção e escafedi-me.  Acélio, por muito tempo, chamou-me de padrinho. 

LAERSON NICOLEIT

Fico com a impressão de que já escrevi sobre este assunto, mas, ele é de tal forma apaixonante que volto a ele, esperando que ninguém perceba. 

NICOLEIT nasceu a 29.11.1940 (Tubarão) e faleceu aos 57 anos em 7.6.1997 (Fumaça) e Claudino Biff faleceu aos 66 anos na Fumaça (19.08.1932, 28.10.1998). Mais contemporâneos impossível. O médico foi professor do Colégio Pio XII, para todas as séries, Florianópolis 1969. Médico pioneiro Morro da Fumaça, Diretor do Posto de Saúde, Secretário da Saúde do município fumacense. Pioneiro também em Treze de Maio, SC, 1971. Médico pioneiro Posto de Saúde e Secretaria da Saúde, Treze de Maio, SC, 1971. Médico efetivo e Diretor-Clínico Hospital Frei Rogério, Anita Garibaldi/SC, 1971. Membro Comissão de Desenvolvimento Municipal de Anita Garibaldi, 1971. Professor Curso Técnico do Colégio de Anita Garibaldi, 1971. Médico Credenciado do INAMPS, 1971, Anita Garibaldi, SC. Militar da Ativa (Exército), 20.06.69 a 04.06.71, prestação de serviços em Florianópolis (duas vezes); Porto Alegre; Blumenau; Curitiba e RJ. Em LAERSON NICOLEIT chega a Morro da Fumaça (1972) para iniciar prestação de trabalhos médicos na localidade, até sua morte em 1977.

Presidente Comissão Municipal do MOBRAL, Morro Da Fumaça, SC, 1972. Médico Pioneiro, fundador, construtor, organizador, Diretor-Presidente Hospital de Caridade São Roque, Morro da Fumaça. Médico Pioneiro e organizador do Hospital de Luiz Alves, SC. 

Convidado Especial do Governador de SC, Jorge Konder Bornhausen, participa da Comissão de Estudos da Situação dos Hospitais em SC.  Vice-presidente Associação Catarinense de Medicina, Regional Zona Carbonífera. Secretário Municipal de Saúde, Morro da Fumaça, SC, 1996 a 1997, convite do prefeito e particular amigo Claudionor de Vasconcelos. Era o ano de seu falecimento.

Em 1973 existiam apenas cinco, talvez seis olarias na região. Desde essa data, a atividade cerâmica torna o município conhecido. O RS compra tijolos na Fumaça (Pe. Claudino Biff). Em 1985 NICOLEIT retorna aos bancos da faculdade. Durante 5 anos frequenta a UNISUL, formando-se em Direito, na primeira turma deste curso. Torna-se professor na mesma Universidade, onde também foi nome de turma.

Escritor e poeta, publicou artigos em jornais e revistas. Escreveu livros de poesia: DIÁFANOS e POEMAS DE UM SONHADOR.

O primeiro médico a se instalar e residir no município foi Laerson Nicoleit. O primeiro prefeito, nomeado pelo governador Celso Ramos, foi Auzílio Frasson (1962/1963). O primeiro prefeito eleito nas urnas foi o cartorário Jorge Silva (PSD, 1963/1969, bisando em 1977/1983). O primeiro pároco foi o Padre austríaco Francisco Koerner. A comunidade religiosa era até então atendida pelo Cônego João Dominoni, que, já doente, pediu seu afastamento. O primeiro presidente da Câmara de Vereadores foi Fernando Zanatta, que hoje tem na cidade busto e praça em sua homenagem. Uma curiosidade: Miguel Medeiros Esmeraldino foi um dos vereadores eleitos na primeira legislatura. Depois residiria em Criciúma, trabalhando no Grupo Freitas e se elegendo/reelegendo vereador desta vez por Criciúma.

(Fontes: Morro da Fumaça, Passado e Presente", Ide Maria Salvan Maccari e Imigração Italiana, Mons. Agenor Neves Marques, Morro da Fumaça e sua Divina e Humana Comédia, Padre Claudino Biff. Crônicas da Diocese de Tubarão, Padre Claudino Biff).

PADRE CLAUDINO BIFF

Padre, escritor, poeta e historiador, faleceu relativamente cedo, vítima de parada cardíaca. Velado na Igreja Matriz São Roque, foi sepultado no Cemitério Municipal da cidade. O padre submetera-se a duas cirurgias de ponte de safena, possuía um marca-passo e nos últimos meses realizara angioplastia e cateterismo em Florianópolis. 

Claudino é filho do Intendente Leandro Simon Bif e Idalina Macari, neto de Bortolo Bif e Hermenegilda Simon Bif, de Agostino Maccari e de Teresa Citadin Maccari. Ordenado em 08.12.1958 aos 26 anos, rezou sua primeira missa na então nova igreja de Morro da Fumaça (14.12.1958). Era irmão do ex-prefeito e ex-presidente da Cooperativa de Eletrificação Rural, Paulino Bif. Deixou duas irmãs: Olga Bif Pelegrin e Selma Bif (religiosa, Irmã Anselma), da Paróquia de Tavares, RS, além da mãe, Idalina Bif, 89 anos. 

Claudino residia em Tubarão. Bacharel em Filosofia, Teologia e Sociologia, escritor e historiador, escreveu vários livros, sendo que a primeira obra (publicada em 93), contava com bom humor a história de Morro da Fumaça, sob o título, Morro da Fumaça e Sua Divina E Humana Comédia. Este livro é indispensável para entender a cidade e seus primeiros habitantes. Outros livros: Voos (poesias) Salmos da 25ª Hora, Ópera de Deus, Crônicas da Diocese de Tubarão, Credo de Maria Liberdade; Cântico do Irmão Lobo de São Francisco; Crônica da Diocese de Tubarão; Memórias de Nossa Senhora do Desterro e Seu jumento Macabeus (1994, Prêmio Pool Americana e Diário Catarinense); Raissa; Paixão de Jesus Cristo Segundo Seu Jumento Macabeus (Premio: 2º lugar Concurso da Fundação Cultural de Criciúma) e Jesus, o Galileu Passionário. Publicou várias poesias pela Unisinos (RS) e algumas delas, foram incluídas na Coletânea 3ª Idade, da Fundação Viva Vida do Governo de SC.
   
Conforme Anna Vitória que prefaciou Ópera de Deus, Claudino acreditava na literatura como um novo nascimento do homem, da mulher e de um novo milênio. Escrevendo desde 1990, apontava O Pequeno Príncipe como sua fonte de inspiração. Membro das Academias de Letras de São José e de Urussanga.

Por Dr. Henrique Packter 01/12/2018 - 06:00

Santo Zaccaron: a primeira professora de brasileiro que chegou na Fumaça foi embora porque não havia alunos. O marido chamava Fermínio.  A segunda, por mais de 40 anos ensinou a meninada a ler e escrever. Catequista de mil crianças, Idalina era casada com Abel Freitas, feitor da ferrovia. Primeiro professor não tinha a mão direita, chamava-se Martin Riccieri. Ensinava escola e canto só em italiano. Era pago pelo rei da Itália, dizia. Depois vem a professora Almira Olga da Silva Tonelli cujo marido era apicultor. Ela ensinava 2 horas de italiano e 2 horas de brasileiro. Quando a Itália ganhou a guerra de 14 contra a Alemanha, o rei Vitor Emanuel II mandava aos alunos italianos pobres do Brasil caderno, tabuada, caneta, lápis, lousa, pena, tinta e pagava os professores.  Santo Zaccaron dizia: sei ler por graça do Rei da Itália.

Claudino Biff: Vanteiro Margotti foi dos primeiros moradores da Fumaça. Era dono de armazém e não gostava do nome da cidadezinha. Em 1940, Claudino tinha 8 anos e viu o mapa de SC na escola trazendo em lugar da denominação Morro da Fumaça o nome Vanteiro Margotti... Linha Torrens tinha 2 igrejas, uma católica e outra dos adventistas russos e dois cemitérios também. O cemitério católico viria a ser a atual igreja, construída sobre a primeira. O cemitério adventista era a 300 metros aquém da igreja da linha Torrens que tinha Cooperativa e escola italiana. Fernando Fávero chefe da Cooperativa vendia tudo que se usasse na colônia de machado a pente, de enxadas a roupas, além de remédios e pregos. (Santo Zaccaron: os colonos eram sócios da Cooperativa, Fávero era só caixeiro). Linha Torrens era o centro social e Morro da Fumaça não existia. Fávero ao ver passar pela Cooperativa José Guglielmi, pai de Santo Guglielmi, perguntou onde ele ia; teve como resposta que ia comprar terras na Fumaça.
- Compadre Beppi, Linha Torrens é la vacca e Fumaça é la coda (rabo)...  

SAÚDE EM TEMPOS DA FUMAÇA    

Santos Zaccaron: Para dor de cabeça se usava Cafiaspirina. Certa vez ficou doente e tomou remédio receitado por farmacêutico polaco apelidado Dottorin. Zaccaron sofria de amarelão e ele deu Necatarina, remédio alemão. Foi tomar o remédio e lá se foi o amarelão...  Tinha o Dr. Lass de quem já se falou, médico alemão  

ÍNDIOS DA REGIÃO

Quem são? De onde vieram? Já se passaram 5 séculos do primeiro encontro e ainda nada sabemos de suas origens. Certo, temos aquela teoria de que venceram o Estreito de Behring, mas quando chegaram? 10 mil, 30 mil, 50 mil anos atrás? Quem seriam eles? Nem negros, nem hindus; descenderiam de qual tribo de Israel ou de qual dos 3 filhos de Noé?

Alguns deles, como os Aimorés, eram assassinos brutais, antropófagos, devorando carne humana em meio a orgias regadas a muito álcool de cauim ou vinho de mandioca. O ritual antropofágico era uma vingança contra índio inimigo, capturado em batalha.  Outros indígenas, os nossos índios da Fumaça, nosso pacífico Carijó, o melhor índio da costa, eram dóceis, prestativos, solidários. Morreram sem incomodar ninguém, no dizer de Claudino Biff. Havia entre nossos índios os Guarani—Kayowá que se suicidavam; empresários como os Kayapó; há tribos que não chegam a uma dúzia de indivíduos como os Xetá, outros a mais de 20 mil como os Tikuna. Não temos um único herói indígena apesar da ajuda prestada aos brancos portugueses, como o tupiniquim Tibiriçá que salvou São Paulo em 1562, além de Teniminó Arariboia que ajudou a derrotar os franceses em 1567 ou o Potiguar Felipe Camarão na vitória dos holandeses em 1649. Há também Tamoios, Ianomâmi. Praticamente todo nosso litoral estava habitado pelos Tupi-Guaranis na chegada dos portugueses. Tupinambá eram os Tupi, pai de todos, os Tupiniquins eram aliados dos portugueses contra os Tupinambá-Tamoio, aliados dos franceses. 

Doze eram as tribos de Israel e doze eram os profetas, mas, apenas onze as tribos indígenas espalhadas pelas costas brasileiras. Quinze séculos depois de sua grande migração dariam os índios de cara com os pálidos barbudos vindos do leste, autores de um dos maiores genocídios de que se tem notícia. Tupinambás e Tupiniquins ocupavam o litoral tendo expulsado para o interior as tribos bárbaras.   

Cada povo indígena tinha seus próprios costumes e modos de vida quando os portugueses chegaram ao Brasil. A língua predominante era o tupi-guarani, que ao contrário do que se possa pensar, é uma língua, e não um povo. Guerrear era para eles uma atividade defensiva, e não uma maneira de conquistar territórios, como hoje.

AS OCAS

A aldeia era rodeada por paliçada, espécie de cerca de lanças e crânios. Serviam como enfeites, para honrar aqueles que viraram jantar. Aldeias tinham de quatro a oito malocas, que abrigavam pelo menos três núcleos familiares. Os pertences dos indivíduos eram mantidos na oca dentro da área ocupada por sua família

CAÇA E GUERRA. APÊNDICE PARA NATAL CORAL.

Armas de guerra dos índios incluíam a borduna, tacape que funcionava como um martelo. Os arcos e flechas eram personalizados, trocando-se o desenho das pontas, a posição e o estilo das penas da flecha, além do tamanho e do formato dos arcos. Para caçar animais de pequeno porte (como aves terrestres), usava-se arco de longa envergadura e flecha de material leve com penas longas na parte traseira (auxiliava a sustentar mais tempo de voo)

A Companhia Metropolitana financiava a implantação de novas colônias. Acuados, os bugres passaram a atacar os ranchos dos colonos para intimidar os devastadores de floresta e também saquear os preciosos alimentos e utensílios do branco. Por vingança, assassinavam frequentemente mulheres e crianças.

Clima ficando cada vez mais pesado, colonos apoiados e incentivados pela Companhia Metropolitana, organizam expedições para afugentar os selvagens. Natal Coral era caçador audacioso. Sua casa sempre cheia de couros de onças e dentes de feras, atestavam seu conhecimento da mata. Ele atendia, com prazer até compreensível, a empreitada de caçar bugres.

Na Veneza, alto do morro onde hoje está o Hospital São Marcos, erguia-se majestática e altiva a sede da Companhia Metropolitana e residência de seu Diretor, Miguel Napoli. A encastelada-mansão tinha escadaria de acesso toda de mármore Carrara e o jardim descia da colina à planície. Foi por ali que Natal Coral, localizou grande acampamento de bugres em direção à serra. Acordou com Napoli pagamento de dois mil réis por orelha de bugre. Natal mais duzentos homens foram à caça. Na madrugada, após grande festa, índios caíram em sono profundo. Sono do qual jamais acordaram...

Due malle, duzentas orelhas de homens, mulheres e crianças Natal Coral cobrou a Miguel Napoli que recusou conferir o produto da chacina. Também fez com que todos se calassem. Só não se acalmaram, os índios (Baseado em artigo de Eder Giovani Savio - Tradição de Vanguarda, n. 05, ano 2, Junho/91).  

HISTÓRIA DE ÍNDIOS PINGUÇOS 

Em 1947, na mata virgem de Lauro Müller, foram encontrados três únicos índios Xoclengue sobreviventes. À maneira de Manoel Menezes, jornalista e político das antigas, devo dizer, não sem certo desconforto, que os três indígenas eram dados a libações alcoólicas, especialmente cervejas, trazidas pelos empresários do carvão. Tinham eles lá suas preferências etílicas. Ao indígena mais velho agradava a Cascatinha-Brahma, cervejinha elaborada com a água celestial das serras petropolitanas. O segundo em idade derretia-se ao ouvir falar em Continental-Cassol, cerveja produzida no RS. Já ao terceiro desde que fora trabalhar em Caxias, só tomava cerveja Leonardelli-Escariola.  Reunidos os três paus d’água na estação da Estrada de Ferro, aguardando o trem pede o primeiro, dinheiro na mão:

- Traz uma Cascatinha-Brahma no capricho!
O segundo:
- E prá mim uma Continental-Cassol!
O terceiro fanático:
- E prá mim um suco de laranja!
Entreolham-se os dois primeiros, sem entender. Volta a falar o do suco:
- Como vocês não vão beber cerveja, também não vou!     

Vem também desta data a história do cacique que viajava pela ferrovia desde Lauro Müller a Imbituba com seu ajudante de ordens. Era a primeira viagem da dupla. Vai senão quando o chefe ordena:
- Estou com sede, traz água chefe.

Passam-se os minutos. Afinal, ele volta com um balde água, tomado de um gole só. Poucos minutos depois, nova ordem: chefe quer mais água. Interminável tempo se passa até a volta do prestimoso auxiliar, balde vazio nas mãos.
- Que aconteceu?
- Homem branco sentado em cima do poço! 

NEGROS

Negros não eram muitos na Fumaça, mas todos sabiam falar italiano e rezar em latim (Biff, 2001, p. 15 em Morro da Fumaça e sua Divina e Humana Comédia). Eram: Manoel Italiano, Chico Doce, Marco Abrão (leitor de Bíblia), Nego Anjo, João Gandia, Nego Rosalindo, Inácio e a parteira Perpétua.

LAVANDO A ALMA

Índios da costa banhavam-se praticamente com a mesma frequência com que encaramos o chuveiro nosso de cada dia. Aliás, nossa higiene corporal é herança indígena, não europeia. O contato com a água acontecia desde cedo – rios eram locais de diversão para as crianças. Até os prisioneiros prestes a virar grelhado passavam por banho cerimonial antes da execução

PET SHOP

Índios tinham animais domésticos, os xerimbabos (minha coisa querida, em tupi). Animais serviam para embelezar, como as araras, os tucanos e periquitos, ou para mostrar respeito à natureza. Filhotes de macacos eram adotados pela aldeia caso sua família tivesse sido morta por caçadores.

DONA EULÁLIA

Ela é do sertão do sul do estado, não nasceu no RS por detalhe. Nos seus quase 85 anos acompanha rádio-jornal-e-Tv, nada lhe escapa. Vem fazer sua consulta anual e comenta as últimas.

- O doutor viu como a juíza deu um nó no Lula, lá em Curitiba? Acho que ele vai ter saudade do Moro! E ele está bem mais magro, não viu? Parece que ele emagreceu uns 5 litros... Igual ao nosso Inter, só que deu em ganhar, sem mais nem menos. Andam dizendo que o Guerreiro vem aí, em abril, parece. Acho que ele vai ficar bem louco lá no Rio Grande...

Continua próxima semana Laerson Nicoleit pioneiro medico na Fumaça

Por Dr. Henrique Packter 24/11/2018 - 06:00

Entrevistar não é uma arte, é uma técnica, não tem nada de arte, disse o falecido jornalista Carlos Heitor Cony em entrevista de 1999 antes de assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas depois de escrever Muita Intolerância na Casa de Tolerância. Cony é cético até a alma, um agnóstico, mas devoto de santos! Adoro santos, dizia. Em maio de 1999 anunciou processo doloroso de retorno à fé em Deus. Na verdade, Cony era um pessimista bem-humorado, um anarquista inofensivo. 

Saiu-se com esta, após entrevista presidencial:
- Lula está bem mais magro, gente. Acho que ele perdeu uns 20 litros.

De acordo com Cony, jornalismo tem de ser objetivo, ao contrário da literatura que tem de ser subjetiva. O jornalismo parte do universal (bebeu, porque inchou) para o particular (inchado, porque bebeu) e a literatura, a arte em geral, faz o contrário, parte do individual para o universal. Cony reclama: o entrevistado atrapalha a entrevista. Na MANCHETE, devia levantar a bola dos entrevistados, via de regra pessoas essencialmente medíocres. Pobres pessoas, dizendo banalidades. 

Na investigação policial e no debate forense, o objetivo é buscar a verdade, para condenar ou para absolver. No jornalismo é diferente. Jornalistas precisam apenas mostrar a verdade. Um dos erros maiores da entrevista ocorre quando o entrevistador funciona como promotor ou como advogado de defesa. Tecnicamente, isto é para o tribunal ou para a polícia, não para o jornalismo das oito do período eleitoral.

As pessoas mentem muito nas entrevistas, Cony? 
- Sim, muito. Totalmente. A narrativa da notícia trabalha com uma organização própria da realidade; é conveniente pensar na entrevista seguindo a mesma trilha: O quê, quando, quem, como, onde e por quê, nesta ordem. É salutar imitar coisas boas. Nosso país é um país imitador; a própria língua que falamos é um inglês mal traduzido.

Todos esses pensamentos vieram-me à cabeça após leitura de matérias, entrevistas sobre o Centro Cultural Zanatta, publicadas em nossa imprensa, na semana que passou. 

A FCC, CONTINUAÇÃO

Teatro Municipal Elias Angeloni, única sala de espetáculos no sul catarinense, necessitava reforma emergencial de suas 739 poltronas danificadas, recuperação das lâmpadas guias e da iluminação geral da casa, revestimento dos bancos do hall, renovação da forração da escadaria, colocar portas entre a sala de espetáculos e o hall. Brigite Gorini, em 1993, conduziu as atividades de reparação e restauro desta casa. Obteve, entre outras coisas, mão de obra e material gratuitos para o trabalho. Na fachada do prédio uma viga ruíra, estilhaçando vários daqueles enormes vidros, exigindo reparos.

MINHAS TELAS 

Não ouso chamar de pinacoteca a meia dúzia de telas pendurada nas minhas paredes. Telas que meio fui ganhando, meio adquiri, as mais antigas são de 1961. Quem delas cuida é minha mulher e ainda não perdi sequer uma moldura, não há fungos, nada. Perdi, é bem verdade e tive de trocar, alguns pregos enferrujados, coitados.  As telas resistem impávidas e fagueiras, sem traço de deterioração, plenas de pudicícia.

Também não adotei em minha casa política de aquisição de obras, cronogramas, nem identidade que auxiliasse a caracterizar o acervo. As obras que tenho foram adquiridas porque eram decorativas ou porque tocaram nossa sensibilidade. E porque seus preços eram bem acessíveis e podiam ser exibidas livres, leves e soltas.  

Cuidados tomados de 1993/1996 com peças da Galeria e assumidos pela FCC foram poucos, lamento ter de confessar. Por valiosa, lembro-me de tela, presente do grande mestre e amigo Willy Zumblick, na verdade o meu retrato. Além de prestigiar a FCC com mostras de grande sucesso, doou-nos telas. Nosso pessoal frequentava cursos e seminários. A título de ilustração: Oficina Regional de Museologia (18,19 e 20 de abril 1994, Museu Augusto Casagrande). Seminários foram organizados para o aprendizado de cuidados com nosso patrimônio (1º Seminário Sul Catarinense para Preservação do Patrimônio Histórico, 15.04.1994, Salão Ouro Negro, PMC, FCC, IAB). A Fundação Catarinense de Cultura era dirigida no mesmo período por SALIM MIGUEL, o maior escritor barriga-verde de todos os tempos e meu amigo, facilitou proveitoso intercâmbio cultural. 

2004

Já falamos que Realdo Santos Guglielmi muito auxiliou a FCC justamente quando mais precisávamos. Não havia recursos que possibilitassem o início das ações culturais. Organizamos uma mostra coletiva de artistas plásticos com a esperança de que venderíamos algumas obras, recebendo a Fundação pequena percentagem pela venda para fazer frente às despesas com o coquetel de abertura, convites, impressos, segurança...

Para grande surpresa nossa, Realdo adquiriu todas as 80 telas e esculturas que ainda iriam ser expostas!

2004 foi um ano aziago, para Criciúma, para SC e para o mundo. Nesse ano perdemos duas figuras da maior importância no cenário industrial da cidade, do estado e do país. Com diferença de 5 meses faleceram Manoel Dilor de Freitas (25.8.2004, 71 anos) e Realdo Santos Guglielmi (25.3.2004, 63 anos). Também faleceram os atores Christopher Superman Reeves e Marlon Brando, os políticos Leonel de Moura Brizola, Ronald Reagan, Yasser Arafat, Enéas E.P. Faria, intelectuais como Fernando Sabino e Borjalo, o economista Celso Furtado. O furacão CATARINA é desse ano, assim como o lançamento do Facebook. 

NEREU GUIDI

O ex-deputado federal Nereu Guidi, falecido em 2011, procurou-nos na FCC em 1996 para informar que a doação da Casa que pertencera à Prefeitura em 1944 ocorrera sem autorização do poder Legislativo, o que tornava o ato ilegal e, portanto, anulável. Segundo Nereu, uma ação declaratória de nulidade de doação, seguida de pedido de reintegração de propriedade, permitiria ao município reaver o terreno e respectivas instalações. Infelizmente, para atender a compromissos familiares, tive de demitir-me da direção da FCC em

1996. 

COMO SURGIRAM OS PROJETOS DA FCC. PRIMEIRA DIRETORIA

Um mês antes de assumir o cargo de Diretor-Presidente da FCC, reuni em minha residência e durante uma semana, todas as noites, grupos interessados em discutir a cultura criciumense. Anotávamos sugestões para diferentes ações. Destas reuniões recolhemos ideias para 26 projetos, elaborados pelos participantes das reuniões e que tentamos implantar e implementar. Destes todos, pode-se dizer que apenas cinco projetos não decolaram. A FCC tinha como colaboradores: Liliane Motta da Silveira (Diretora Superintendente Executiva), Gilberto João de Oliveira (Diretor Administrativo e Financeiro), Sayonara E. Lentz Meller (Diretora de Ação Cultural), Brigitte Gorini (Diretora do Teatro Elias Angeloni), Iara Maria Gaidzinski (Diretora do Museu Augusto Casagrande), Adilamar Rocha (Diretora de Eventos). Nosso Conselho Deliberativo era composto por 22 representantes de todos os segmentos da sociedade criciumense (Moema Godoy Costa, Maria I. Conti Victor, Gundo Steiner, Jorge H. Coral, Albino J. de Souza Fº, Adelor Lessa – entre outros). Assessoria Jurídica era de Paulo Vieira Aveline.

O Conselho Fiscal contava com Catarina Tomazzi, Osmar R. Piovesan e Moacir Sônego. Havia um Conselho Contábil e de Orçamentos, a Sociedade dos Amigos da FCC, uma Comissão Técnica de Relatórios e Sugestões para o Tombamento de Bens Municipais (SULCATUR - José Augusto Hülse, FCC – Mário Belolli, Secretaria do Meio Ambiente – César Paulo de Luca, Instituto de Arquitetos do Brasil – Isis de Oliveira, FUCRI - Edson Paegle Balod). 

UMA QUESTÃO DE ACUIDADE VISUAL

Quando assumi a direção da FCC já contava com mais de 30 anos de exercício profissional médico. Voltando de reunião no Centro Cultural Jorge Zanatta chego ao consultório para saber que uma senhora, já nonagenária, era a primeira cliente do dia. Acompanhada de uma filha, quando as cumprimentei recebi uma chuva de elogios vindos da idosa senhora:

- Como o senhor está jovem! Que aparência maravilhosa!
Sentei-me extremamente satisfeito, banhado por estranha felicidade. A filha chegou-se para sussurrar ao meu ouvido:
- Doutor, os outros oftalmologistas dizem que a visão dela está reduzida a 5%...

HONESTIDADE POLÍTICA
Hoje em dia, a pátria está assombrada pelo espectro da propina, da desonestidade, do roubo institucionalizado.
Não se ouve falar de que algum político tivesse recusado propina, que denunciasse o autor da oferta ilícita. Não estou me referindo, e não vale, a tal de delação premiada, pois claro. Quererá isso dizer que não há políticos honestos? 
Na FCC, certa manhã fui abordado por proprietário de uma das gráficas da cidade. Elogiou o imóvel, falou do tempo, da falta de trabalho e propôs, olhos no chão de tábuas corridas da Fundação:
- O senhor poderia mandar fazer todos os impressos da Fundação comigo e eu lhe daria de graça todos os impressos que viesse a necessitar para seu consultório...
Já outro, paciente atendido gratuitamente por não reunir condições para pagar por seu tratamento, veio consultar:
- Doutor, o senhor me dá um atestado bem bom para me aposentar e no Natal eu lhe dou um peru bem gordo...
Por essas e outras, estou sem saber se sou honesto ou não. Talvez eu não tenha sido suficientemente tentado. O ganho esperado pouco expressivo talvez tenha facilitado a recusa. 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O CENTRO CULTURAL JORGE ZANATTA  

A esmagadora maioria das peças da nossa modesta coleção abrigada na Galeria de Artes Octávia Búrigo Gaidzinski resultou de doações e de obras deixadas pelos autores com a promessa de retornar para buscá-las um dia.

Promovíamos as obras de nossos artistas plásticos, criando mostras individuais e coletivas. A FCC cuidava dos eventos, fazia a divulgação, contratava serviços, criava folders e cartazes, disponibilizava espaço, adquiria os costumeiros produtos destinados ao consumo dos visitantes durante as mostras.  Agradecidos, muitos destes artistas doavam obras à FCC, escolhidas entre aquelas que não haviam sido adquiridas. Este foi o início de nossa coleção. Willy Zumblick foi presença sempre presente e obsequiou a FCC com seus trabalhos tão buscados.  Para homenageá-lo criamos a Sala que levava seu nome dentro do Casarão da Pedro Benedet. Inaugurado em 2000, o Museu Willy Zumblick, do Centro Municipal de Cultura de Tubarão, mandado construir pela Prefeitura, é justa homenagem a um dos maiores artistas plásticos que nosso país já teve.

Próxima semana continua verdadeiramente LAERSON NICOLEIT

Por Dr. Henrique Packter 17/11/2018 - 06:00

E ESSA AGORA?
Deu na TRIBUNA e a notícia, até agora, aparentemente não provocou maiores reações. Essa apatia, este nada-fazer, nada-dizer e não manifestar-se, significa que a sociedade criciumense concorda com a inacreditável perda do prédio-sede da Cultura Municipal, pleiteado pelo coronel-comandante da Polícia Militar da 6ª Região? 
Informação surgiu providencialmente logo após o encerramento da obra que restaurou o Centro Cultural Jorge Zanatta, promovida pela Prefeitura de Criciúma. 
O coronel Cosme Manique Barreto, Comandante da 6ª Região da Polícia Militar, abrangendo os 27 municípios da Amrec e Amesc, utilizou espaço da Tribuna Livre, na Câmara de Vereadores de Criciúma, revelando querer ocupar a parte frontal do prédio do Centro Cultural Jorge Zanatta. 
O coronel-comandante quer transferir para o local a sede da 6ª Região, que hoje funciona junto ao 9º Batalhão de Polícia Militar de Criciúma. “Essa circulação de policiais vai diminuir muito as ocorrências ali existentes”, disse. Na proposta, a Cultura utilizaria o pavilhão na parte de trás da estrutura. 
O Centro Cultural Jorge Zanatta sofreu reparos e restauração porque o poder público, desde 1993, data da sua única reforma e restauração, patrocinada por Jorge Zanatta, não dedicou qualquer cuidado à manutenção do Casarão. A ida do coronel à Câmara veio com requerimento do vereador Júlio Kaminski (PSDB). 
Outras sugestões
Vereadores sugeriram outros locais para instalação da PM, mas o coronel-comandante está irredutível, justificando sua atitude pela logística, arte que trata do planejamento e realização de vários projetos, muito utilizada durante as guerras. Afirmou ser seu sonho (e agora nosso pesadelo municipal-cultural), a instalação da 6ª Região no Centro Cultural Jorge Zanatta.
Memória cultural
A Cultura Criciumense utiliza o prédio histórico desde 1993, há mais de 20 anos, até 2015, quando teve interditado a totalidade de suas instalações. Propriedade da União, não haveria possibilidade de intervenção do Governo Municipal no seu restauro (vereadora Geovana Zanette, PSDB).
Mas, estimada vereadora, estariam também interditados reparos emergenciais, realizados com o objetivo único de impedir que o Casarão ruísse, como de fato ruiu?
Prefeito Clésio Salvaro obteve a cessão de uso (2017) e início da restauração, em fase final, inauguração prevista para 14.12.2018. Volta a FCC para seu legítimo local, trazendo ao espaço a biblioteca municipal, oficinas e outras manifestações culturais. Clésio Salvaro (PSDB) relatou não saber das intenções de Manique Barreto e que não se manifestaria antes de ser comunicado. Disse, que a princípio, o local é um espaço cultural.
A CULTURA, RESPEITÁVEL PÚBLICO
Conflitos culturais serão sempre cruéis e dificilmente se resolverão por diálogo. Como provar quem tem a razão? Contudo, o estudo da história pode fazer com que se alcance melhor compreensão dos fatos. 
A solução dos conflitos não reside na litigância, mas em demonstrar certa tolerância. Litigar consome muita energia que pode ser canalizada para algo útil.  Se é sua intenção fazer um mundo melhor, desconfie das alegações fantasiosas, aprimore seu senso de observação, reavalie de tempos em tempos suas premissas e objetivos, estude as lições do passado e seja tolerante, em sendo possível.
O INÍCIO
Assumindo a direção da FCC, procurei Jorge Zanatta, acompanhado do arquiteto Fernando Jorge da Cunha Carneiro, encontrando-o no Balneário Rincão. Zanatta concordou em bancar a restauração do imóvel do DNPM para a FCC, impondo como condição que Gilberto João de Oliveira, Diretor Administrativo e Financeiro da FCC, recebesse as contribuições semanais. Falecido em 2013, Gilberto Oliveira foi cidadão exemplar dentro e fora da FCC.
CENTRO CULTURAL JORGE ZANATTA
Difícil fazer ideia do que foi lidar com o problema fazer retornar ao município, o uso deste Casarão. Construído na década de 1940 para o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), foi o local da instalação do primeiro serviço de água tratada da região. 
A família do coronel Pedro Benedet doou o terreno que abriga o Centro Cultural da FCC, para a municipalidade. Em 1942 a Casa já era a sede do DNPM. O DNPM é autarquia federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME) criada a 08.03.1934.  Em 1944 o município doou o prédio para o Estado que em 1953 passou a ser a sede do Plano Nacional do Carvão, órgão ligado diretamente à Presidência da República. Em 1960 foi criado o Ministério de Minas e Energia e o DNPM a ele incorporado. Já em 1962 era administrado pela Comissão Executiva do Plano do Carvão Nacional. Utilizado como cárcere no primeiro ano do regime militar, o médico Manif Zacarias foi uma das pessoas aprisionadas no local. Em 1970 com a extinção do Plano Nacional do Carvão a Casa passou ao CNP (Conselho Nacional do Petróleo, criado em 1938). Em 1976 o Estado doou o prédio para a União. Em 1990 é extinto o MME criando-se o Ministério de Infraestrutura (MIE) ao qual DNPM e a Casa foram vinculados. 
Em 1991, desativado o escritório do CNP, teria sido solicitada (sem êxito), a doação do prédio do MIE, para a cidade.  Em 1992 por sua vez é extinto o MIE, voltando à cena o MME; o DNPM é autarquia vinculada ao Ministério.
Em 07.05.1993, após contatos com o engenheiro Luiz Felipe Seara, diretor do DNPM/SC, a FCC ocupou metade do espaço físico do Casarão, criando ali o Centro Cultural Jorge Zanatta. Nesta ala passavam a operar a administração e a Oficina de Artes Plásticas e Cênicas da FCC. Também a Galeria de Arte e Pinacoteca.  
Periódicos criciumenses divulgaram a notícia de que a Procuradoria Geral da República (PGR) estaria se instalando em Criciúma, e que desalojaria a FCC do Casarão histórico. O Prefeito Eduardo Pinho Moreira, Liliane Motta da Silveira (substituta legal do Diretor-Presidente da FCC), o deputado Luiz Henrique da Silveira (presidente do PMDB), Adhemar Paladini Ghisi (Ministro do Tribunal de Contas da União) e eu, participamos em Brasília de reunião com funcionários da PGR.
MINISTRO ADHEMAR PALADINI GHISI 
Nasceu em 24.12.1930 na Vila de Braço do Norte, que pertencia a Tubarão. Curso primário realizou no Grupo Escolar Jerônimo Coelho de Laguna, Escola Estadual de Guarda e Grupo Escolar Hercílio Luz, ambos de Tubarão. Secundários (1º Grau): no Ginásio Lagunense, Laguna (1946), e 2º Grau, nos Colégios Catarinense, Florianópolis (1948), e Diocesano, Lages (1947 e 1949).
Em 1951 e 1952, foi Secretário do Centro Acadêmico Maurício Cardoso, PUC/RS, onde estudava. Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da PUC/RS (1954). Lecionou na Escola Técnica do Comércio de Tubarão.
Na política foi parlamentar atuante, exercendo dois mandatos de Deputado Estadual e cinco de Deputado Federal. Iniciou na antiga UDN, filiando-se depois à ARENA e ao PDS. Era casado com Sônia Balsini Ghisi, filha de José Tarquínio Balsini, com quem teve três filhos.
Adhemar Paladini Ghisi, grande liderança política de SC, destacou-se na defesa dos interesses dos mineiros de Criciúma, dos pescadores de Laguna e Jaguaruna.
Empossado Ministro no Tribunal de Contas da União (TCU), em 06.3.1985, foi Vice-Presidente de 1988 a 1989 e Presidente de 1990 a 1991, aposentando-se em 2000. 
Adhemar Ghisi morreu a 2.7.2008, aos 78 anos, em Lisboa, Portugal, por complicações de pneumonia, contraída em viagem de férias pela Europa. Velado no Salão Nobre do TCU foi sepultado no Cemitério Campo da Esperança, setor dos pioneiros, Brasília, onde residia desde 1985.
ADHEMAR GHISI, REUNIÃO 
NA PGR, BRASÍLIA, 26.04.1994.
Figura política e humana maior, sua atuação foi decisiva, dominando sobranceiro a reunião na Procuradoria Geral da República em Brasília. O Procurador escalado para dirigir os trabalhos mal avistou o Ministro, levantou-se, braços estendidos: 
- Chefe, que posso fazer pelo senhor?
A FCC continuaria utilizando o imóvel e batalharia para ocupar a outra metade da casa. A PGR iria operar em outro local, cedido pela prefeitura. 
JORGE ZANATTA
Jorge Zanatta, nascido em Linha Torrens, 28.10.1924, pertencente na época a Urussanga, tornou possível a recuperação e restauração do Centro Cultural da FCC que leva seu nome com inteira justiça. Casado com Adelinda Bergmann, pai de quatro filhos, teve oito netos e um bisneto.
Filho de Vergínio e Angelina Búrigo Zanatta, trabalhou até os 15 anos na lavoura, engenho de farinha e na serraria da família. Mudou-se para Morro da Fumaça (1939), onde trabalhou por quase sete anos na loja de tecidos, secos e molhados de Nico e Santos Guglielmi. Em 1945 trabalha em Criciúma, como comprador e vendedor da loja de ferragens do irmão, Alcino Zanatta. Inaugurou em Criciúma (1956), estabelecimento no ramo de ferragens em geral, Zanatta & Cia Ltda.
Fundou Canguru Embalagens (1970), com outros sócios; a Promove (1973), indústria de edição e impressão de produtos gráficos. Criou mais três empresas em Criciúma, a Descartáveis Zanatta, a Imbralit e a Canguru Agropecuária (1974).
Desde 2007 dedica-se à presidência do Conselho de administração do grupo Jorge Zanatta. Foi conselheiro vitalício e colaborador do Criciúma EC. Cidadão honorário de Criciúma em 1996.
Jorge Zanatta faleceu aos 83 anos, em 4.10.2008, há dez anos, por complicações da insuficiência renal. Dos grandes industriais catarinenses, construiu um dos nossos maiores conglomerados econômicos, o grupo Jorge Zanatta, abrangendo empresas do setor plástico, químico e cerâmico. 
OUTROS GRANDES COLABORADORES DA FCC
Com o decisivo apoio do senador Jorge Konder Bornhausen, o restante do prédio, subutilizado pelo Ministério de Minas e Energia, foi ocupado pela FCC logo após entrevista que tivemos com o senador, na Assembleia Legislativa em Florianópolis, a 24.11.1995.
Não é demais ressaltar e repetir que a FCC e Criciúma muito devem a JORGE ZANATTA, LUIZ FELIPE SEARA, EDUARDO PINHO MOREIRA, LILIANE MOTTA SILVEIRA, REALDO GUGLIELMI, LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA, JORGE KONDER BORNHAUSEN e ADHEMAR PALADINI GHISI. 
MATÉRIA JORNALÍSTICA (2013)
O extinto Jornal da Manhã estampou matéria em 9 e 10.11.2013 intitulada Acervo público de obras está acomodado. Refere-se à FCC da qual fui o primeiro Diretor-Presidente em 1993.
SITUAÇÃO NA FCC DAS OBRAS DE 
ARTISTAS PLÁSTICOS REGIONAIS 
OBRAS EMPILHADAS, editorial do Jornal da Manhã, faz a “triste constatação (de que) numa das salas anexas do Teatro Elias Angeloni obras de artistas (...), estão empilhadas”, e, “Sem os cuidados necessários entram em deterioração” (...) “O Centro Cultural Jorge Zanatta, prédio histórico, está a ponto de desmoronar e enquanto recursos do Governo Federal não são liberados esse lado da cultura pede socorro”.
Na página 7, matéria de DJONATHA GEREMIAS esmiúça o assunto: 99 obras de 52 artistas doadas à FCC “são guardadas ali, sobrepostas umas às outras”.
Relatório de meados de 1995 da FCC: “o total do acervo da Galeria conta com 23 títulos além de inúmeros catálogos informativos, a maioria doados pelo MASP (...). São 26 obras de arte entre pinturas, gravuras, esculturas e colagens”. Obras conquistadas pela FCC em 30 meses de vida (quase uma aquisição por mês). Na Galeria de Arte OCTÁVIA BURIGO GAIDZINSKI, da FCC, nos seis meses (27/4 a 26.10.1995), ocorreram oito diferentes exposições para 1.500 interessados”. A primeira mostra da FCC de nossos artistas plásticos, teve todos seus 80 trabalhos adquiridos pelo empresário REALDO GUGLIELMI.
Na mesma matéria é entrevistada Daniele Zacarão, coordenadora de Arte da FCC: “Alguns trabalhos estão danificados há muito tempo. Obras em papel têm fungos e outras em madeira têm cupins”. Mais adiante: “a situação atual é resultado acumulado de muitas administrações. Há muitos anos o acervo foi criado sem condições de mantê-lo. Artistas que faziam exposições na galeria deixavam algumas obras em forma de doação. Outras pessoas da cidade que queriam desfazer-se de obras (...) as deixavam sob responsabilidade da Fundação. Nunca houve uma política de aquisição, nem uma identidade que caracterizasse o acervo”.
No período que respondi pela direção da FCC (1993/1996), a Galeria Octávia Búrigo Gaidzinski nunca recebeu doações de obras de pessoas que delas desejassem desfazer-se, por se tratarem de trastes. Também não assumi responsabilidade pela guarda destes bens além do período de minha gestão. E, as obras eram doadas, não deixadas sob nossa responsabilidade. Declarações de Daniele fazem pensar que não deveríamos ter criado o acervo artístico-cultural da entidade pela impossibilidade de acesso a exigências técnicas de conservação dos bens. 
Criada em 15.03.1993, presidi a 10.04.1996 a última reunião da primeira gestão da FCC, entregando o cargo a Júlio Cezar Lopes, escolhido pelo prefeito Eduardo Pinho Moreira para substituir-me. 
Pergunto se nosso diminuto acervo, menor que 100 telas, justificaria a “... criação de ambiente tecnicamente adequado para comportar o acervo, manter política de... restauração, recuperação e preservação das obras e criasse e executasse cronogramas de ações sociais para acesso público e circulação do acesso”. 
Outras eram as prioridades. Quando assumi, necessitávamos de local para trabalhar: espaçoso, bem localizado, novo ou restaurado e sem ônus para os combalidos cofres municipais. Imóvel encontrado, nós o ocupamos e o mecenato de JORGE ZANATTA restaurou-o. Totalmente recuperada foi entregue à cidade em 1996. 
A escassez de recursos quando da criação da FCC, aliava-se à atenção imediata que estavam a exigir o degradado Museu da Imigração Augusto Casagrande, o arruinado Teatro Elias Angeloni, o submerso Memorial Dino Gorini (ambos no Parque Centenário), mais a Mina Modelo, insolúvel problema jurídico. Somente a Biblioteca Pública Municipal Donatila Borba mais a Casa da Cultura Neusa Nunes Vieira não representavam problemas a exigir atenção. Os parcos recursos foram canalizados para prioridades, elencadas e cumpridas.

Próxima semana conclui Fundação Cultural de Criciúma.

Por Dr. Henrique Packter 10/11/2018 - 06:00Atualizado em 10/11/2018 - 14:23

Os leitores, e o próprio Dr. Laerson Nicoleit, falecido faz muitos anos, vão ter a santa paciência, mas estou interrompendo o relato sobre PIONEIROS MÉDICOS para comentar e tentar restabelecer a verdade sobre alguns fatos acerca da história do casarão da Fundação Cultural de Criciúma. Desde que li na TRIBUNA dessa semana que o prédio da FUNDAÇÃO CULTURAL JORGE ZANATTA está recuperado, restaurado e prestes a ser entregue ao respeitável público, tenho pensado no assunto. (Sábado, 8.12.2007. Baseado em matéria de Ana Paula Cardoso).
COMO SE DESENROLOU ESTA NOVELA? 
Eduardo Pinho Moreira, quando prefeito de Criciúma, criou a Fundação Cultural de Criciúma (FCC) e Henrique Packter foi seu primeiro diretor-presidente (Lei 2829 de 15.3.1993, estatutos aprovados em 19.11.1993).
Estatutos que logo mereceram duas reformas parciais, uma pela constituição do Conselho Deliberativo – CD (diminuição) e outra pelo Turismo (acréscimo), em 2.7 e 12.9.1994. CD tinha 28 membros; 6 entidades não existiam ou não manifestaram interesse em participar (Associações Culturais e Sindicato dos Trabalhadores, entre eles), resultando em amputação do CD, reduzido a 22 membros, entre os quais Adelor Lessa representava a ACI.

1º.3.1994: esgota-se último prazo e 2/3 dos membros do CD não haviam sido indicados pelas respectivas entidades. 16.5.1994: que fazer com relação às 6 associações que se recusavam a indicar representantes apesar de insistentemente cobradas? As 6 entidades foram excluídas, pois claro.

À data da criação da FCC, nosso levantamento revelou que a cidade dispunha de 35 artistas plásticos, 10 grupos corais, 13 entidades étnico-culturais, 7 academias de dança, 1 escola de música, 10 grupos folclóricos, 106 associados da Amucri.

E O CASARÃO?
Um dos imóveis nossos, historicamente mais valioso, com forte apelo econômico e político, teve na sua trajetória preservação quase garantida pelo tombamento. A condição de patrimônio histórico, artístico e cultural foi decretada pela Prefeitura de Criciúma em 1991 e referia-se à sede da FCC, que instalamos no Centro Cultural Jorge Zanatta. O casarão em estilo arquitetônico colonial espanhol, construído em 1944/1945 e localizado na Coronel Pedro Benedet, Centro, foi construído para abrigar o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), quando Criciúma despontava na extração do carvão mineral (1945). Era centro do levantamento geológico e topográfico da região.  Na época, a cidade recebeu o título de Capital Brasileira do Carvão. De acordo com o ex-vereador e autor do requerimento de tombamento, Márcio Arcângelo Zaccaron, era intenção inicial tornar a casa um centro de cultura ou museu do carvão, pelo forte laço histórico do prédio com a cidade. Também anexar auditório para espetáculos, instalar estúdios de rádio e tevê educativas, videoclube e centralizar como sede das entidades culturais. “Fico feliz que o tombamento tenha ocorrido. Pena ter levado tantos anos para o poder público perceber que o casarão poderia ser demolido ou engolido pela modernidade”, diz Zaccaron. 
Parecer do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) acelerou o processo. Durante muito tempo ele esbarrou nos labirintos burocráticos. Em novembro de 2007, a equipe da FCC recebeu o aval do IPHAN, indispensável para a assinatura do decreto de tombamento. O relatório remetido pela chefe do escritório técnico do órgão, Ana Paula Cittadin, ressalta a localização, valor e referências históricas do imóvel, classificando-o como marco simbólico do desenvolvimento da região. Deivid da Silva Pinto, historiador e coordenador do Patrimônio Histórico da FCC, responsável pela documentação que justifica o tombamento, não tem dúvidas sobre a necessidade de preservação deste patrimônio. Seria grande descaso não tombar lugar que foi importante para o carvão, cenário no regime militar e hoje respira cultura, diz o historiador. 
BREVE HISTÓRICO DO CASARÃO DA RUA PEDRO BENEDET
O terreno foi doado à Prefeitura de Criciúma pela família do Cel. Pedro Benedet (prefeitos Cincinato Naspolini e Elias Angeloni). Em 1942 (prefeito Elias Angeloni), o casarão era sede do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), doado em 1944 à municipalidade (Hercílio Amante), em 1953 passa a sediar o Plano Nacional do Carvão, ligado diretamente à Presidência da República (prefeito Paulo Preis). 

Em 1953, sedia o Plano Nacional do Carvão, depois, é do CNP. A doação em Criciúma, para o Estado, ocorreu sem aprovação da edilidade sendo juridicamente nula. 

Em 1976, foi doado à União. Em 1991, é desativado o escritório do CNP. Ministério de Infraestrutura é solicitado a doar o prédio à cidade. Debalde.

Segundo outras fontes, o terreno foi doado pelo coronel Pedro Benedet ao governo de SC para que fosse construída uma escola. (A menos de 300 metros do Lapagesse, 1933, que funcionava onde hoje é a Casa da Cultura?) Tudo aquilo que envolvia a produção carbonífera foi concentrado no prédio, no local havia laboratório para análises minerais e galpões para acondicionamento do material de pesquisa. Também ali foi instalado o primeiro aparelho de Raios-X de SC para exame dos mineiros e o primeiro serviço de água potável encanada da cidade. Sede do DNPM até 1960, quando foi desativado, a Comissão Executiva do Plano de Carvão Nacional assumiu o local, subordinada ao Ministério de Minas e Energia (1962). 
Na década de 70 até o início da década de 90, a casa passou a sediar o Conselho Nacional de Petróleo (CNP), com função de controle e fiscalização de combustíveis e lubrificantes. Em 1991, a edificação foi tombada como Patrimônio Histórico de Criciúma (Prefeito Altair Guidi).

Desativado o CNP, o casarão foi ocupado parcialmente em 1993 pela FCC. Em 1993, na gestão do Prefeito Eduardo Pinho Moreira, pelos esforços do grupo da FCC, na época presidido por Henrique Packter, a casa foi transformada no Centro Cultural Jorge Zanatta e desde então abriga (ou abrigava) a Fundação Cultural de Criciúma (FCC). As instalações comportavam a galeria de arte contemporânea, oficinas de arte e de música, auditório, galpão de arte, além de cozinha, banheiros, garagens e depósitos. Em 7.5.1993, Henrique Packter, diretor-presidente da FCC, conhece o engenheiro LUIZ FELIPE SEARA, diretor do DNPM para SC e filho do ex-prefeito de Criciúma, Carlos Otaviano Seara (1947).

Naquele momento, SC vivia momento único de sua história, tendo os três maiores partidos políticos chefiados por catarinenses: Luiz Henrique da Silveira (PMDB), Jorge Konder Bornhausen (PFL) e Espiridião Amin Helou Fº (o atual PP).
 
A FCC passa a ocupar metade do prédio ocupado pelo órgão do Ministério de Minas e Energia. Divulgada a notícia de que a Procuradoria-Geral da República (PGR) iria ocupar a totalidade do prédio histórico, o prefeito EDUARDO PINHO MOREIRA, Henrique Packter  (Diretor-Presidente da FCC), Liliane Motta da Silveira (Diretora Superintendente Executiva da FCC), com o inestimável auxílio em Brasília do senador JORGE KONDER BORNHAUSEN (presidente do PFL), do então Deputado Federal LUIZ HENRIQUE DA SILVEIRA (presidente do PMDB nacional), do deputado Espiridião Amin Helou Fº (presidente do PP) e do Ministro do Tribunal de Contas da União, ADHEMAR PALADINI GHISI (da antiga e boa UDN), logrou-se reaver o prédio histórico para Criciúma, em reunião na PGR, 26.4.1994. Ficou acordado que a Prefeitura alojaria a PGR em outro local; local escolhido por representantes credenciados.

Em 5.6.1994, o PGR Chefe em SC, Durval Tadeu Guimarães, comunicou a vinda a Criciúma de Loraines Dal Pont Lodetti (Coodenadora da Administração) e de Tarcísio Agostinho Búrigo da Silva (Coordenador da Área Jurídica). 

Em 28.7.1994, o imóvel para a PGR foi escolhido sendo o aluguel pago pela Prefeitura com aprovação da Câmara Municipal. Em 1996, o Casarão foi cedido pela União ao Município para abrigar a FCC e passou a denominar-se Centro Cultural Jorge Zanatta.
O empresário JORGE ZANATTA, atendendo a apelos de Henrique Packter e do Arquiteto JORGE DA CUNHA CARNEIRO, em sua residência de verão no então balneário Rincão, concordou em restaurar e recuperar inteiramente o velho casarão. Exigiu apenas que seu interlocutor com a FCC fosse Gilberto J de Oliveira, diretor Administrativo-Financeiro da entidade. Este acordo foi sacramentado em setembro de 1994, quando a FCC começa a batalha pela ocupação do resto do prédio. Isto foi obtido após reunião da direção da FCC com o senador JORGE KONDER BORNHAUSEN em Florianópolis a 24.11.1995.  

Justo ressaltar o trabalho nessa FCC de Sayonara Meller, Brigitte Gorini, Adilamar Rocha, Iara M. G. da Silva, Osmar R. Piovesan, Paulo Vieira Aveline, Márcio Arcângelo Zaccaron, Acélio Casagrande, Gundo Steiner, Olide Tibulo, Irma Tasso, Gilberto Oenning, Guilherme Tonon, Roberval Bett, Francisco Pescador, Amarildo dos Passos, Clovis Marcelino, Tyrone e Eliana Mandelli, Itamar Benedet, Iris G. Borges. Em 11.4.1996, a FCC ocupou todo o prédio. 

Da década de 1970 até o início da década de 1990, com a extinção do Plano Nacional do Carvão passou ao CNP (Conselho Nacional do Petróleo, Prefeito Nelson Alexandrino), desativado em 1991. Tinha função de controle e fiscalização de combustíveis e lubrificantes. 
Cedido ao Município de Criciúma em 1996 para instalação do Centro Cultural Jorge Zanatta, esteve em estado de abandono desde 2015, após incêndio. Está sendo aberto e entregue restaurado ao público a partir de 08.11.2018, pelo prefeito Salvaro. Aleluia!

Próxima semana conclui esta notícia sobre o casarão da FCC na Pedro Benedet 
 

Por Dr. Henrique Packter 03/11/2018 - 06:00Atualizado em 06/11/2018 - 11:56

No livro JESUS, O GALILEU PASSIONÁRIO de Padre Claudino Biff, na apresentação, Mons. Agenor Neves Marques faz o elogio do autor: Sociólogo laureado pela Pontifícia Universidade de Roma, especializou-se na psicoterapia de viciados, dedicando sua vida pastoral a adolescentes e jovens vítimas das drogas. Livro concluído em 14.10.1998, autor veio a falecer em 28.10.1998. Lançamento da obra foi no Natal de 1998.

Em 1996, Laerson Nicoleit em DIÁFANO, 2ª edição, pág. 95 escreveu Missa do Galo. (...) conta-se que houve um galo que vivia muito preocupado em cantar para que o sol se levantasse – se ele não cantasse seria um desastre, o sol não surgiria; até que um certo dia ficou rouco, não pôde cantar e descobriu que ainda não cantando o sol se levantava do mesmo jeito. (...) Ora, o galo canta a luz, o nascimento de um novo dia, de uma nova era, assim a missa que celebra esse início dos dias, sucessivamente mais longos foi chancelada como missa do galo.

Em 2010, Morro da Fumaça comemorou seu centenário de colonização. O hino do município, emancipado em 1962, tem letra de Monsenhor AGENOR NEVES MARQUES e música do Padre ELIAS DELLA GIUSTINA. O atual território fumacense era a divisa dos territórios dos Carijós (Tupy, índio do litoral) e dos Xoklengs (Jê, botocudo, índio do interior e do planalto).

Por Dr. Henrique Packter 27/10/2018 - 06:00Atualizado em 08/11/2018 - 22:12

É corriqueira a observação de que construímos um país sem memória, que esquecemos com facilidade nossos vultos históricos. É também pobre a mitificação como instrumento de elaboração da nacionalidade. Brasileiros, ignoramos ou conferimos papel secundário aos construtores da pátria.
Para escrever sobre PIONEIROS MÉDICOS socorro-me de várias fontes. Jornais, revistas, livros, depoimentos, escritos, reportagens, documentos guardados em acervos pessoais ou instituições. Mas, fontes secam, testemunhas desaparecem, documentos apodrecem.  
A Biblioteca Pública Municipal de Morro da Fumaça ganhou merecidamente o nome de Padre Claudino Biff, o maior autor fumacense. Está incrustrada no EJA, Centro de Educação de Jovens e Adultos, rua José Cechinel, 140, tel.: 3434 4103. No momento, a Professora Margarida Maria Piva, funcionária extremamente simpática, capaz e prestativa, cuida do setor. Claudino nasceu em Morro da Fumaça, aldeia de Deus, em 19.8.1932, filho de Leandro Simon Biff e Idalina Maccari.  Ordenado a 8.12.1958, aos 26 anos, rezou sua primeira missa na nova e atual igreja de Morro da Fumaça, em 14.12.1958. Faleceu em 28.10.1998 aos 66 anos.
 
MAS NÃO ERA PARA FALAR DE LAERSON NICOLEIT?
Era e ainda é. Porém, há figuras de permeio que auxiliam a melhor compreender nosso personagem.  Médico, advogado, escritor, ex-militar, professor universitário, político, comendador e fundador do Hospital de Caridade São Roque de Morro da Fumaça, LAERSON NICOLEIT nasceu a 29.11.1940 em Tubarão e faleceu a 7.6.1997, Morro da Fumaça.
Viveu apenas 57 anos. Nome de rua em Morro da Fumaça, parece que Laerson merecia mais do que isso, benfeitor da cidade que foi. Dez anos após seu óbito, a Câmara de Vereadores da cidade criou a Rua Doutor LAERSON NICOLEIT. Penso que seu nome seria mais adequado para denominar uma escola pública.  Gratidão não prescreve.
Quando Claudino Bff escreveu SALMOS DA 25ª HORA, a primeira edição vendeu 7.660 exemplares numa semana. Raïssa vendeu 10.200 exemplares mesmo espaço de tempo. Na apresentação do livro, Claudino fala do escritor romeno Virgil Gheorghiu, judeu, prisioneiro em campos de extermínio nazistas. Depois de seis meses, passados na prisão, perdera toda noção de tempo. Seu livro intitulou-se A 25ª HORA. À notícia de que mais um judeu fora cremado, dizia-se: Chegou para ele a 25ª hora ...
Para Claudino, a designação da coletânea configurava apenasmente um furto cristão do título do autor romeno. Na capa um Cristo bizantino, ícone russo de 1450, trabalho em madeira, gesso e têmpera.
Biff escreveu 250 salmos deles restando 111, simples salmos paupertários, desafiando não só a autoridade da Igreja como particularmente sua capacidade de renovação evangélica. Os salmos são dedicados por Claudionor Biff a dois profetas: Leonardo Boff e Herbert de Souza, que era Betinho, seu irmão.

AS ARDIDAS ORELHAS DE CLAUDINO
Hanna M. da Silva escreve nas orelhas ardidas do livro, que Claudino Biff vagou sempre nos sonhos de ser aviador, camponês, monge, menestrel. Nos seus tempos de claustro, na cela 303, tentou achar Deus em Tomaz de Aquino, Tereza D’Ávila, Raïssa, Jacques Maritain, Francisco, Clara, e na Catedral de Chartres. Viveu sempre o temor de não ser cristão e o amor de ser cristão. Na contradição de ser e de não ser cristão, passa pelo Vale dos Caídos, dos drogados, onde, desde 1968 tenta caminhar com seus meninos e meninas. Foi olhando nos olhos de RaÏssa Panfigli, noviça rebelde que dançava o Lago dos Cisnes na praça Navona de Roma, sob êxtase da heroína e da cocaína, que viu Deus. Deus bailava na embriagues dessa criança. Esses Salmos são por causa Deus, de Raïssa e de você.

OS MÉDICOS DA FUMAÇA
Pode parecer que não, mas Padre Claudino Biff e Laerson Nicoleit, grandes personagens de Morro da Fumaça, foram médicos, cada um à sua maneira. Um mais médico da alma, o outro mais médico do corpo.

AINDA AS ORELHAS DE CLAUDINO
Na orelha de VOOS, informa que estudando em Brusque teria sido iniciado por seu Mestre Maior, Dom Afonso Niehues, em Castro Alves, Dante, Camões, Antonio Vieira, Rui Barboza.  Na década de 50 buscava Deus em Duns Scotus, Tomás de Aquino e Jacques Maritain, lá em São Leopoldo e Viamão. Irá â Parusia sem ter sido aviador, por isso se dizia inacabado e lê de tudo sobre aeroplanos em Antoine de Saint-Exupéry e Richard Bach. Depois, em suas buscas de Deus na conversão, seguia pelas mãos de Péguy, Léon Bloy, François Mouriac, os grandes convertidos do século 20.  Laureia-se em Filosofia e Teologia à luz de Aristóteles, Platão, Sto. Agostinho, Sto. Tomás de Aquino. Em Leonardo Boff e Gustavo Gutierrez, Claudino encontra-se e encontra a dimensão de Jesus libertador.
Em Roma, 1976, na Universidade Sto. Tomás de Aquino, é bacharel em Sociologia apresentando a tese Sociedade, família e droga. Com sua amiga-irmã Maria Natália Alessi conheceu o mundo doloroso das drogas, centenas desses seus filhos já tombados no Vale dos Caídos. Mas, soube fazer desse mundo, o sentido de sua vida. Com a leitura de Terra dos Homens de Saint Exupéry, Claudino revela fascínio pelos desertos e pelo Deserto. Busca em Assis, Portiúncula, Bose e nos desertos da Judeia, a sua província de Tebaida. Por volta do século V d.C., a desértica Tebaida, onde nasceu Pacômio, tornou-se lugar de refúgio de cristãos eremitas.
Mas, o sonho do pequeno Claudino gira-mundo deu novamente em Tubarão.

JESUS, O GALILEU PASSONÁRIO
Jesus, o Galileu Passionário, surgiu postumamente. Claudino pretendia lançá-lo no Natal de 1998, mas faleceu a 28 de outubro. Escrito para jovens, a eles o autor dedicou o melhor de sua vida. Por que aquele que libertará o homem de toda servidão deverá ser humilhado pela morte?
Claudino escrevera 202 capítulos do livro quando foi atingido por nova crise cardíaca. Deixando o hospital escreve celeremente os últimos 39 capítulos. Entrega o trabalho à revisão dizendo: Aí está o Prometido das Nações. Não sei se as gentes vão recebê-lo. Catorze dias antes de morrer anotou a hora em que ultima a obra que o fez viver pouco mais: Jesus, 14.10.1998, 17h32.
Em vagas e lentas noturnas horas escrevera Morro da Fumaça e sua Divina e Humana Comédia, história de sua aldeia e Voos ... Volta de Roma por infarto, a penosa sobrevivência com duas cirurgias no coração.  Afinal, faz as pazes com Deus, consigo e com o coração. Para sobreviver, escreve. 
Escreve desde 1968 coisas sobre Deus, o homem, paz, amor, sobre a droga. Torna-se terapeuta de mais de 2 mil jovens toxicodependentes. Em 350 palestras teve 15 mil jovens ouvintes, sendo o tema sempre a droga.  Segundo Antonio C. Biff de Pellegrin, Claudino legará à sociedade em que vive e onde vive, o romance Raïssa, que estenderá a mão a tantas Raïssas caídas e sós no Vale dos Caídos. Sobrinho de Biff diz que o tio escreverá mais 3 livros: Diário de Isadora (ensaio ecológico), Diário Secreto do Padre Mateus e Vida de Jesus Cristo segundo seu Jumento Macabeus. O sobrinho confidencia ser sonho do velho poeta livrar-se da terceira cirurgia do coração e pescar um Merlin de dois metros.
Poemas finitos e paupertários de poeta das praças vazias, como ele as chama. Publica ensaios em 1993: Crônicas da diocese de Tubarão, Credo anônimo, Salmos da 25ª Hora, Cântico de Irmão Lobo de São Francisco. Estaria gestando: Diário de Raïssa, menina drogada, Auto do Jumento de Nossa Senhora do Desterro. Seu último sonho: Diário Secreto do Padre Matheus. Claudino dizia:” Fundarei amigos e amigas, pescarei ‘aquele’ peixe, fugirei da terceira cirurgia do coração e viverei de graças”,

CÉU, INFERNO E OUTROS RECANTOS
Uma vez que estamos a falar sobre um ministro da Igreja Católica, vem-me à memória episódio criciumense dos anos 60 envolvendo uma das mais notáveis figuras já produzidas pelo clero catarinense. Esse homem, Monsenhor Agenor Neves Marques, era um dos críticos mais ásperos de político carvoeiro em grande ascensão, a quem Monsenhor acusava de não crer em Deus: “Ele acaba com o céu”, diz, “e, pior: com o inferno”. O problema, não era a existência do céu; era preciso haver um inferno, para manter a turba na linha. Quando o pervertido conde Rochester agonizava, o pastor o convence a dizer-se arrependido. O conde não crê em Deus, mas é persuadido, pelo argumento de que, se um grande do reino morrer sem os sacramentos, o populacho não será mais contido pelo medo do inferno.

O TOMISMO
Principal obra de Tomás de Aquino é a Suma Teológica (1265-1273), em 3 partes e 512 questões. Cada questão tem perguntas individuais. Estas representam os 2669 capítulos onde estão contidas 1,5 milhões de palavras, 1,5 vezes mais que todas as palavras de Aristóteles (1 milhão), o dobro de todas as palavras conhecidas de Platão. (Em 1265 nascia Dante Alighieri).
Na Suma Teológica, Tomás declara para quem quiser saber, que, se aos príncipes e reis era lícito executar falsários porque não poderia a Santa Madre executar os hereges na fogueira da Inquisição?
Rubens Alves, falecido e laureado escritor, pastor evangélico, psicanalista -, escreveu: Santo Tomás de Aquino, na Súmula Teológica disse que” Deus e os salvos dos Céus contemplarão o sofrimento dos condenados no inferno, o horror do seu sofrimento, para que sua alegria seja completa”.
Teologicamente, está certo. As pessoas estão no inferno porque Deus quer. Se elas estivessem no inferno sem Deus querer, quer dizer que ele não é onipotente, porque está acontecendo uma coisa no universo que não é a vontade dele. Sendo assim, ele tem que estar feliz com o sofrimento dos condenados, porque foi ele quem decretou e criou este sofrimento.
Tem que haver inferno, porque o dia em que não tiver inferno, acaba a civilização judaico-cristã, construída para resolver o problema do inferno, para que os homens não acabem no inferno.
Santo Tomás advoga o batismo compulsório. Disse: “Os filhos dos escravos são servos e estão sob o poder do senhor. Ora, os judeus são escravos dos reis e dos príncipes, bem como quaisquer outros infiéis. Logo, sem nenhuma injustiça podem os príncipes fazer batizar os filhos dos judeus ou de outros escravos infiéis. Qualquer homem pertence mais a Deus, de quem recebeu a alma, do que do pai carnal, de quem recebeu o corpo. Logo, não é injusto tirar as crianças, filhos de infiéis, aos pais carnais, para consagrá-las a Deus pelo batismo”.
Tomás prega submissão à ordem política vigente: “Ninguém deve ser subtraído à condenação à morte, contra as exigências da lei civil; assim, o condenado à morte pelo juiz competente, nin¬guém o deve livrar dela com violência”. O tomismo é uma catedral de ideias, em que a teologia do século 13 encontrou sua formulação mais sólida.
Convocado pelo papa Gregório X (1274), Tomás viaja para participar do Concílio de Lyon. Adoece durante a viagem, vindo a falecer no mosteiro de Fossanova, 49 anos de idade. Doutor Angélico e Príncipe da Escolástica, foi canonizado (1323) e proclamado doutor da Igreja Católica (1567).
Continua próxima semana LAERSON NICOLEIT

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