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Sorria, você está sendo clicado!

E esse clique pode um dia valer muito...
Por Pity Búrigo 08/10/2021 - 20:08 Atualizado em 08/10/2021 - 20:28
Poses para a eternidade: momentos que não voltam nunca mais

Em tempos de selfies, redes sociais e bluetooth, tudo é registrado muito rápido. Porém, na mesma intensidade em que clicamos, descartamos também muito fácil. Lixeira, excluir imagens, apagar arquivos. Memória cheia precisa de espaço e lá se vão fotografias que talvez, um dia, teriam um significado gigantesco para serem dispensadas.

Quando a vida vai bem, família com saúde e todos ao redor da mesa, a gente nem dá bola pra isso. Muito pelo contrário. Se irrita com aquela tia que quer registrar tudo. Tudo de tudo. Tintim por tintim. Ou com o tio da câmera profissional, que nem profissional é, mas sempre chega com seu equipamento de última geração e sorriso de orelha a orelha, filmando a avó anfitriã, o sobrinho espoleta e a madrinha atarefada.

E de repente você pisca e a morte bate na sua porta. Assim, sem avisar. É quando começa a rodar na cabeça o famoso filme da vida. “Qual foi a última vez que eu a abracei? Que eu disse que a amava? Que dia era aquele em que fomos juntas ao shopping e nos divertimos tomando sorvete? E o nosso último almoço juntas? Quando foi sua última ligação pra mim? Tiramos fotos aquele dia?”. Fotos! Aquelas fotos que você reclamava tanto em tirar foram o que restaram, materialmente falando, para lembrar todos os momentos felizes que vocês viveram juntas.

Minha mãe adorava selfies. Adorava, não. Minha mãe amava selfies. Bastava passar um batom e se sentir bonitinha para começar a chuva de poses e cliques. Em datas especiais, como Natais e aniversários, eram horas e horas dedicadas aos registros. Obrigada, mãe! Hoje é o seu perfil no Instagram que me permite matar um bocado de saudade ao ficar passeando em seus posts, admirando seu sorriso e suas mensagens deixadas ali, na internet, em forma de fotografias inúmeras vezes julgadas por mim: “Tá, mãe, chega de foto!”.

Poucas coisas me fazem tão feliz do que receber uma fotografia dela (impressa, digital, não importa). Já se passaram seis anos de sua morte. Ou seja, já são seis anos sem nenhuma foto nova em meu álbum ou rolo de câmera. Esse distanciamento visual é meio perturbador. Você não consegue mais renovar seu estoque de imagens. O tempo vai correndo e todas as suas homenagens dedicadas a ela, por exemplo, serão feitas com as fotografias que ficaram.

Felicidade é sair em busca dos cliques feitos ao seu lado. No computador, em CDs antigos, em marcações nas redes sociais, naquela câmera fotográfica digital antiga perdida em algum canto. É ir pra casa do pai e passar um tempão revirando as caixas de fotos e abrindo álbuns nostálgicos, com ela grávida de mim, comigo pequeninha em seu colo, com a família toda juntinha, como nunca mais conseguiremos estar. É vê-la me espiando todos os dias, na porta da geladeira, naquela imagem de semblante sereno, sorrindo com os olhos. É assistir a vídeos de encontros familiares, ouvindo sua voz e admirando toda sua graça em frente à câmera. É abrir seu álbum de formatura e lembrar de como ela lutou para chegar naquele dia, vestir aquela beca e posar para aquelas fotos. É folhear os meus álbuns de juventude e nele encontrar momentos tão simples em sua companhia, como uma foto na cozinha ou no sofá, mas tão valiosos, que enchem meu coração de alegria e saudade.

Mas felicidade maior ainda é ter quem a gente ama por perto. Valorize a tia que vive soltando o flash na sua cara. Valorize o tio equipadão que mobiliza a família de um lado para o outro para captar os melhores ângulos e a melhor iluminação. Valorize as selfies bobas de sua mãe. Um dia, ela não estará mais aqui e você vai vibrar toda vez que encontrar retratos como esses que eu tenho aos montes da minha.

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