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Colo de pai

Por Pity Búrigo 13/08/2021 - 18:34 Atualizado em 13/08/2021 - 20:30
 Meu primeiro amor: filhinha de papai com muito orgulho                                                                  

 

A data mais festejada e aguardada pelo comércio é o Dia das Mães. É em maio também que as campanhas publicitárias mais tocantes debulham nossos corações. Pudera. Mãe é mãe. E eu sempre brinco que não é nada contra o pai, mas a mãe da gente é a mãe da gente. É dela o posto máximo, é ela quem enxuga as nossas piores lágrimas e divide conosco os melhores sorrisos.

Porém desde que eu me despedi da minha (e lá se vão quase seis anos), eu tenho convivido com o amor de pai. Privilegiada eu, que tenho o meu pertinho, se comparado a tantos outros filhos que não contam mais com a presença dos seus. Muitos nunca nem tiveram esse convívio e outros muitos já os perderam. A propósito, já notaram como, geralmente, quem morre antes é o pai? Ao menos ao meu ver e no meu círculo de amizades a fórmula é essa. Fica sempre a mãe.

E o amor paterno é diferente do materno. Homens são diferentes de mulheres. O lance do racional versus emocional existe de verdade. E foi aí que, em outubro de 2015, eu me vi sozinha, em meio a dois homens: meu pai e meu irmão. E agora? Quem vai me medicar quando eu sinalizar que não estou legal e vir correndo me dar carinho, com a sacolinha da farmácia debaixo do braço? Pais tendem a passar essa tarefa para as mães. Quem vai fofocar comigo de madrugada no WhatsApp? Pais são conhecidos virtualmente por mandarem o dedo do joinha, de ok, para tudo. Quem vai opinar no meu vestido de festa, antes de eu sair de casa? Pais costumam não ver diferenças entre um modelo e outro, mesmo que o primeiro seja curto, rosa e de paetê e o segundo longo, verde e de franjas. Pra quem eu vou contar que estou apaixonada ou conheci um gatinho? Pais vão dizer para não darmos mole, que homens não prestam e todo aquele enredo protetivo.

Imagine você que eu (e penso que muita gente que tem uma história semelhante à minha) tive que fazer tudo isso e mais um monte. Nasce, então, uma nova relação. Não que ela não existisse antes, mas foi a partir daí que ela ganhou força. E que gostoso é o colo de pai! Quer ver de um pai aposentado (risos), que fica feliz em realizar tarefas nunca antes cogitadas. “Não, pai, não é a mesma coisa. São produtos diferentes, compra esse que eu te falei. ” Alguém se identificou?

É ele que vai lá em casa ver de perto por que está vazando água no banheiro, me indica a oficina mais barata pra eu levar meu carro e pontua as diferenças entre os jogos do Nadal e do Federer. É ele também que briga que eu pago juros no cartão de crédito, que me escuta no rádio e que prepara a melhor comida do mundo.

Foi ele que me inspirou a escrever esse texto, depois de uma vivência recente, quando eu saí do centro cirúrgico do hospital, ainda banza da anestesia, e ele estava lá, sentadinho me esperando, pois eu não podia ir embora dirigindo. Entramos no carro, fomos pra sua casa e ele fez almoço para nós. Depois de comer falou para eu deitar na cama dele, escurecendo o quarto, e descansar. Talvez ele nem imagine a importância desses gestos, mas eles foram tão significativos para mim, que resultaram na crônica de hoje. Hoje, coincidentemente, seria o aniversário da minha mãe. E se eu tivesse a oportunidade de dizer algo a ela nesta sexta-feira, eu não titubearia: “Feliz aniversário, mãezinha! Fique tranquila e saiba que o pai também está de parabéns. ”.

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